RENÉ MENARD VOLUME II
Titulo do original francêsLA MYTHOLOGIE DANS LART ANCIEN ET MODERNE                EDITOR           PIETRO MACERA    DIREÇ...
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode serreproduzida ou utilizada de qualquer forma ou por qualquer ...
Dados Internacionais de Catalogação na                     Publicação (CIP)          (Câmara Brasileira do Livro, SP, Bras...
LIVRO III            APOLO E DIANA
CAPÍTULO I              LATONA      E SEUS     FILHOS                    Nascimento de Apolo e Diana. — Latona            ...
Durante nove dias e nove noites, foi Latona dilacerada pelascruéis dores do parto. Todas as deusas, as mais ilustres,reúne...
"Chegada à mansão dos deuses no topo do Olimpo, Írispersuadiu Ilitia, e ambas voam como tímidas pombas. Quando adeusa que ...
Latona e a serpente Pitão      Entretanto Juno, não conseguindo perdoar à rival ter sidoamada por Júpiter, instigou contra...
aqueles desalmados se viram transformados em rãs. Desdeentão, não cessam de coaxar com voz rouca e de chafurdar nalama. Al...
CAPÍTULO II                      FEBO-APOLO                    O    tipo    de Apolo    —    Jacinto                    me...
Quando nele se pendem as armas, é o deus vingador que premiae castiga; quando nele se pendura uma cítara,             Fig....
primeiras imagens do deus, sensivelmente afastadas do tipo quea arte adotou mais tarde. Em bronzes de data menos antiga, m...
Fig. 187 — Apolo Sauróctone (segundo uma estátua antiga).
exemplo o Apollino de Florença. No Apolo Sauróctone, o jovemdeus está acompanhado de um lagarto, que ele sem dúvidaacaba d...
Fig. 189 — Apolo e o grifo.
Jacinto metamorfoseado em flor     Teve Apolo vários amigos, entre outros Jacinto, jovemlacedemônio dotado de maravilhosa ...
para sempre o seu infortúnio; liga-lhe a expressão e os sinais dador, traçando nela as letras Ai!" (Ovídio).     O jacinto...
CAPÍTULO III                   O TRIPÉ DE APOLO                    Delfos, centro do mundo. — Apolo,                    ve...
Apolo, vencedor de Pitão     Delfos chama-se também às vezes Pito, do nome daserpente Pitão, que ali foi morta por Apolo. ...
Aquecido pelos raios do sol, o monstro começa a apodrecer.Foi assim que aquela região tomou o nome de Pito : oshabitantes ...
Fig. 192 — Apolo do Belvedere (segundo uma estátua antiga.                        em Roma).
Apolo, após matar a serpente Pitão, envolveu o tripé com apele do monstro que, antes dele, possuía o oráculo. Umamedalha d...
O tripé de Apolo foi freqüentemente representado na arteantiga, e restam-nos monumentos em que vemos até que pontose unia ...
do qual saíam exalações malignas, furam tornadas deconvulsões. Acorrendo à notícia daquele prodígio, os habitantesda vizin...
filho, e, lembrando-se do oráculo do deus, entregou-os aospastores, a fim de que o expusessem num prado consagrado aJuno, ...
Fig. 195 — O pastor Forbas dando de beber a Édipo (grupo de                Chaudet, museu do Louvre),
A esfinge     Uma terrível esfinge, nascida de Tifão e de Equidna, levou,pouco após a morte de Laio, a desolação às cercan...
nu e empunha a espada (fig. 198). Na arte dos últimos séculos,um célebre quadro de lugres representa Édipo interrogando ae...
disse ele, soberano do meu país, vês que multidão se amontoaem torno dos altares diante cio teu palácio, crianças que mal ...
que esta cidade chama seu salvador, em virtude dos serviçospassados." (Sófocles).      Para conhecer a causa dos males que...
brados, o que nos impediu de ver a morte de Jocasta; mas osnossos olhares se voltam para ele, que ia de um lado a outro.Pe...
como tipo do amor filial. Foi ela que, guiando os passos do paicego implorava dos viajantes caridade por quem fôra um reip...
concordaram em reinar ambos, sucedendo-se um ao outro, aocabo de um ano de governo. Mas Etéoclo, que foi rei em primeirolu...
CAPÍTULO IV                  O LOURO DE APOLO                   Apolo e o Amor. — A metamorfose de                   Dafne...
A metamorfose de Dafne      Mal Apolo percebeu a ninfa, sentiu o coração perturbado equis aproximar-se dela, para contar-l...
Apolo parou, temendo que ela, na fuga, tombasseperigosamente.     Mas notando que a ninfa redobrava a velocidade, em vez d...
je suis danseur, grammairien,      astrologue, physicien;      je suis..." Pour fléchir une belle,      au lieu de lui par...
Os mitologistas modernos vêem no mito de Dafne umapersonificação da aurora. Assim, quando dizemos: a auroradesaparece, mal...
amor, enquanto ele se mantinha indiferente. O desprezo atirou-aa um terrível desespero e a companhia das ninfas tornou-se-...
CAPÍTULO V                   A LIRA DE APOLO                   A lira e a flauta. — O sileno Mársias.                   — ...
imperador disputando no teatro o        prêmio de citara, Foidescoberta em Tivoli, em 1774, assim como sete estátuas deMus...
Fig. 204 — Apolo Musageta (estátua antiga, em Roma).
submeteria à mercê do vencedor. Apolo cantou enquanto tocavaa lira, e as Musas, escolhidas como juízes, lhe concederam avi...
pousados numa cabeça de bode (fig. 207). No Mársias da galeriaGiustiniani, Apolo segura a pele do sileno, que, em outrasoc...
Fig. 207 — Mársias (segundo urna estátua antiga. museu do Louvre).
Enfim, várias medalhas, notadamente as de Apameu, na Frigia,mostram Mársias tocando a flauta. Um quadro de Zêuxis,represen...
As orelhas do rei Midas     Análogo concurso, mas seguido de efeitos mais ridículosque desastrosos, ocorreu entre Apolo e ...
Midas para ocultar a deformidade, cobria-a sob magníficatiara. O cabeleireiro incumbido dos seus cabelos percebera tudo,ma...
CAPÍTULO VI                       AS MUSAS                   Júpiter e Mnemósina. — Atributos das                   Musas....
colinas de Eleutério, unida ao filho de Saturno, deu à luz essasvirgens que proporcionam o esquecimento dos males e o fim ...
Atributos das Musas      Para compreendermos as honras que os antigos prestavamàs Musas, devemos lembrar-nos de que nas ép...
Fig. 209 — A Musa Melpômene (segundo uma estátua antiga,                   museu do Louvre).
Urânia, Musa da astronomia, segura um globo numa dasmãos e na outra um rádio, varinha que servia para indicar ossinais vis...
presença de Marte, Vênus e Cupido colocados sobre umaelevação. No canto, Mercúrio empunhando um longo caduceuapóia-se sobr...
mas a destruição das Musas pelo fogo foi um presságio daignorância em que o povo iria tombar."     Baco, tão freqüentement...
em pegas ; conservando sempre a mesma vaidade e o mesmodesejo de falar, fazem ecoar nos bosques os seus gritosimportunos e...
procurar Prosérpina, quando esta deusa foi raptada porPlutão.     As sereias, que eram consideradas Musas da morte,eram cé...
regresso; as sereias deitadas num prado cativá-lo-ão com assuas vozes harmoniosas. Em torno delas estão as ossadas e ascar...
CAPÍTULO VII                          ORFEU                    A lira de Orfeu. — Orfeu e Eurídice. —                    O...
nos povos primitivos. A sua voz melodiosa e a sua lira feiticeiraoperam por toda parte prodígios. Quando os argonautas par...
Orfeu e Eurídice      Um encantador baixo-relevo antigo nos mostra Orfeuvoltando-se para ver Eurídice que Mercúrio lhe con...
queixosos atraíam. As bacantes, no entanto, descobriram-lheo refúgio e tentaram fazer com que ele contraísse novos laçosma...
Fig. 217 — Orfeu no inferno (pedra gravada).Fig. 218 — Orfeu perde Eurídice (segundo o quadro de Drolling).
Numerosas pedras gravadas antigas nos mostram Orfeurodeado de animais a que encanta com os seus acordes (figs. 215e 217). ...
CAPÍTULO VIII                  AS SETAS DE APOLO                      Júpiter e Antíope. — Os filhos de Níobe             ...
Fig. 219 — Antíope (segundo um quadro de Correggio, museu do                                  Louvre).mandando que a amarr...
suplício de Dircéia forma o tema de um grupo antigo célebre, nomuseu de Nápoles (fig. 220).     Dircéia, após a morte, tra...
toda a natureza se comovia e as pedras se ergueram por sipróprias para formar os muros d Tebas.      O baluarte teve sete ...
e a Água repelem igualmente, e que se jacta de ter posto nomundo dois filhos, quando eu sou mãe de catorze!" Ordena,então,...
Plínio, falando do famoso grupo das Niobidas, não sabe sedeve atribuí-lo a Scopas ou a Praxíteles (fig. 221). Seja quem fo...
formada em pedra, e o artista, conformando-se ao fato, evitouas desgraciosas contrações do rosto. As estátuas desse grupof...
CAPÍTULO IX                      APOLO PASTOR                    A ninfa Coronis. — O nascimento de                    Esc...
O nascimento de Esculápio     Quando Coronis morreu, estava para dar à luz um filho,que Apolo lhe tirou do seio e que foi ...
Apolo na corte de Admeto     Apolo, furioso por ver que Júpiter lhe fulminara o filhoEsculápio, pegou aljava e setas, e fo...
Fig 223 — Aristeu (segundo uma estátua antiga do Louvre).
centauro Quirão, o qual era adivinho. Este pareceu admiradocom a pergunta. Tu me perguntas, respondeu, qual a origem danin...
CAPÍTULO X                       ESCULÁPIO                   Esculápio e Higéia. — A serpente de                   Esculáp...
A serpente de Esculápio     A serpente é consagrada a Esculápio e consideradaemblema da medicina. Há várias razões para is...
F g . 225 — Esculápio (segundo urna estátua antiga).
erva, mal percebeu a maravilhosa propriedade, e dela se valeu apartir de então.      Parece, todavia, que a serpente de Es...
saberia dizer de que matéria é feita, com exceção do próprioAlexanor. Está coberta por uma túnica de lã branca e por cimau...
como nos cassinos, nas nossas estações de águas, durante oslazeres que lhes deixava o tratamento.        Fig. 228 — Oferta...
Fig. 229 — Higéia (estátua antiga).
se observa em Titano. A estátua du deus e de ouro e marfim,porém (luas vezes menor que a de Júpiter Olímpico em Atenas;a i...
uma tradição a tal respeito, pois dizem que Hipólito, tendomorrido em virtude das imprecações do pai, foi ressuscitado por...
que nos calássemos. Deitamo-nos, todos, tranqüilamente.Quanto a mim, não conseguia conciliar o sono; certo prato depapa, c...
tudo com vinagre esfetiano, depois aplicou-o no interior daspálpebras, para tornar menos pungente a dor. Neóclides gritouc...
que o único meio de devolver a salubridade a Roma era mandarvir Esculápio de Epidauro. Para tanto, foram ali enviadosembai...
Hércules. — Queres, pois, Júpiter que este envenenador sesente antes de mim?     Esculápio. — Certamente, pois que valho m...
CAPÍTULO XI                           O SOL                    O Sol e a ilha de Rodes. — Os sinais do                    ...
Uma antiga estátua nos mostra o Sol sob forma de jovemvestido, segurando numa das mãos uma bola, e na outra acornucópia : ...
Fig. 232 — O Sol (segundo uma estátua antiga).
René Menard - Mitologia greco-romana – vol. 2
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  1. 1. RENÉ MENARD VOLUME II
  2. 2. Titulo do original francêsLA MYTHOLOGIE DANS LART ANCIEN ET MODERNE EDITOR PIETRO MACERA DIREÇÃO EDITORIAL TRADUÇÃO REVISÃO FINAL SALVATORE MACERA NETOMONTAGEM E ARTE FINAL EQUIPE DE ARTE ALDO DELLA NINA EQUIPE DE REDAÇÃO Nossos agradecimentos pelo constante incentivo que recebemos de: MARGHERITA STEFANELLI MACERA IN MEMORIAM R. MARIO STEFANELLI SALVATORE CHRISTINA MACERA NICOLA STEFANELLI ANGELINO MACERA GIOVANNI GRILO EMILIA GIOVANNA A. MACERA JOSÉ LASTORINA MARIANA MACERA ANTONIETA MACERA
  3. 3. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode serreproduzida ou utilizada de qualquer forma ou por qualquer método, eletrônico oumecânico, sem autorização prévia por escrito dos Editores. 1ª Edição 1985 2 ª Edição 1991 Impresso no Brasil Printed in Brazil
  4. 4. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ménard, René, 1827-1887. Mitologia greco-romana / Rene Menard ; tradução Aldo Della Nina. — São Paulo : Opus, 1991. Obra em 3 v. 1. Mitologia grega 2. Mitologia romana I. Título.91-1334 CDD-292 Índices para catálogo sistemático: 1. Mitologia greco-romana 292
  5. 5. LIVRO III APOLO E DIANA
  6. 6. CAPÍTULO I LATONA E SEUS FILHOS Nascimento de Apolo e Diana. — Latona e a serpente Pitão. — Os camponeses carianos. Nascimento de Apolo e Diana Apolo e Diana são filhos de Júpiter e de Latona, personificação da Noite, divindade poderosa cuja união com Júpiter produziu o Universo. Segundo a tradição, Latona vê-se, em seguida, relegada ao segundo lugar e quase não aparece na mitologia a não ser como vítima de Juno. A Terra, por instigação de Juno, quis impedi-la de achar lugar onde pudesse dar à luz os filhos que trazia no seio. Entretanto, Netuno, vendo que a infeliz deusa não encontrava abrigo onde quer que fosse, comoveu-se e fez sair do mar a ilha de Delos. Sendo essa ilha, a princípio, flutuante, não pertencia à Terra, que assim não pôde nela exercer a sua funesta ação. "Delos, diz o hino homérico, rejubilou-se com o nascimento do deus que atira os seus dardos para longe.
  7. 7. Durante nove dias e nove noites, foi Latona dilacerada pelascruéis dores do parto. Todas as deusas, as mais ilustres,reúnem-se-lhe em torno. Dionéia, Réa, Têmis que persegue osculpados, a gemedora Anfitrite, todas, exceto Juno dos braçosde alabastro, que ficou no palácio do formidando Júpiter.Entretanto, somente Ilitia, deusa dos partos, é que ignorava anova; achava-se sentada no topo do Olimpo, numa nuvem deouro, retida pelos Fig. 181 — Apolo, Diana e Latona (segundo Flaxman).conselhos de Juno, que sofria um ciúme furioso, porqueLatona dos cabelos formosos iria certamente dar à luz umfilho poderoso e perfeito. "Então, a fim de levarem Ilitia, as demais deusasenviaram de Delos a ligeira Íris, prometendo-lhe um colar defios de ouro, com nove cúbitos de comprimento.Recomendam-lhe sobretudo que a advirta, à revelia de Juno,de medo que esta a detenha com as suas palavras. Iris,rápida como os ventos, mal recebe a ordem, parte e cruza oespaço num instante.
  8. 8. "Chegada à mansão dos deuses no topo do Olimpo, Írispersuadiu Ilitia, e ambas voam como tímidas pombas. Quando adeusa que preside aos partos chegou a Delos, Latonaexperimentava as mais vivas dores. Prestes a dar à luz,abraçava uma palmeira e os joelhos apertavam a relva mole. Embreve nasce o deus; todas as deusas dão um grito religioso.Imediatamente, divino Febo, elas te lavam castamente,purificam-te em límpida água e te envolvem num véu branco,tecido delicado, que elas cingem com um cinto de ouro. Latonanão aleitou Apolo de gládio resplendente. Têmis, com as suasimortais mãos, oferece-lhe o néctar e a divina ambrósia. Latonaalegrou-se enormemente por ter gerado o valoroso filho queempunha um temível arco." Apolo e Diana nasceram, pois, em Delos, e é por isso queApolo se chama, freqüentemente, o deus de Delos. Uma lindacomposição de Flaxman mostra Ilitia que acaba de assistir aLatona no penoso parto das duas jovens divindades. Fig. 182 — Latona perseguida pela serpente Pitão (segundo uma pintura de vaso).
  9. 9. Latona e a serpente Pitão Entretanto Juno, não conseguindo perdoar à rival ter sidoamada por Júpiter, instigou contra ela um monstruoso dragão,filho da Terra, chamado Delfíneo ou Pitão, que fora incumbidoda guarda dos oráculos da Terra, perto da fonte de Castalia.Obedecendo às sugestões de Juno, Pitão perseguia sem cessar ainfeliz deusa, que escapava da sua presença apertando entre osbraços os filhos. Num vaso antigo, vemo-lo sob a forma de umalonga serpente que ergue a cabeça, desenrolando o corpo, epersegue Latona. A deusa teme, enquanto os filhos, que nãopercebem o perigo, estendem os bracinhos para o monstro. Os camponeses carianos Quando Latona, perseguida pela implacável Juno, fugiacom os dois filhos ao colo, chegou à Caria. Num dia de intensocalor, deteve-se aniquilada pela sede e pelo cansaço às margensde um tanque do qual não ousava aproximar-se. Mas algunscamponeses ocupados em arrancar caniços impediram-na debeber, expulsando-a brutalmente. A infeliz Latona rogou-lhes,em nome dos filhinhos, que lhe permitissem sorver umas gotasde água, mas eles a ameaçaram se se não afastasse quantoantes, e turvaram as águas com os pés e as mãos, a fim de quea lama revolvida aparecesse à tona. A cólera de que Latona sesentiu possuída fez com que se esquecesse da sede, elembrando-se de que era deusa: "Pois bem, disse-lhes, erguendoas mãos ao céu, ficareis para sempre neste tanque." O efeitoseguiu de perto a ameaça, e
  10. 10. aqueles desalmados se viram transformados em rãs. Desdeentão, não cessam de coaxar com voz rouca e de chafurdar nalama. Alguns lobos, mais humanos que os camponeses,conduziram-na às margens do Xanto, e Latona pôde fazer assuas abluções nesse rio, que foi consagrado a Apolo. Rubens, nomuseu de Munich e Albane no Louvre possuem quadros em quevemos Latona e os filhos na presença dos camponeses de Caria,que a repelem e se transformam em rãs. Na fonte de Latona, emVersalhes, Balthazar Marsy representou a deusa, com os doismeninos, implorando a vingança do céu contra os insultos doscamponeses. Cá e lá, rãs, lagartos, tartarugas, camponeses ecamponesas cuja metamorfose se inicia, lançam contra Latonajatos de água que se cruzam em todos os sentidos. Fig. 183 — Latona e seus filhos (em Versalhes)
  11. 11. CAPÍTULO II FEBO-APOLO O tipo de Apolo — Jacinto metamorfoseado em flor. — Ciparissa e o seu cervo. O tipo de Apolo Esplendente é o epíteto que se dá a Apolo, consideradodeus solar. Apolo atira ao longe as suas setas, por-que o soldardeja ao longe os seus raios. É o deus profeta, porque o solilumina na sua frente e vê, por conseguinte, o que vai suceder;é o condutor das Musas e o deus da inspiração, porque o solpreside às harmonias da natureza; é o deus da medicina,porque o sol cura os doentes com o seu benéfico calor. Apolo, o Sol, o mais belo dos poderes celestes, o vencedordas trevas e das forças maléficas, tem sido representado pelaarte sob vários aspectos. Nos tempos primitivos, um pilarcônico, colocado nas grandes estradas, bastava para lembrar opoder tutelar do deus.
  12. 12. Quando nele se pendem as armas, é o deus vingador que premiae castiga; quando nele se pendura uma cítara, Fig. 184 — Apolo (segundo um busto antigo).torna-se o deus cujos harmoniosos acordes devolvem a calma àalma agitada. O Apolo de Amicleu, reproduzido em medalhas, pode daruma idéia do que eram, na época arcaica, as Fig. 185 — Apolo de Amicleu
  13. 13. primeiras imagens do deus, sensivelmente afastadas do tipo quea arte adotou mais tarde. Em bronzes de data menos antiga, masainda anteriores à grande época. Apolo está representado comformas mais vigorosas do que elegantes, e os anéis achatados dasua cabeleira o aproximam um pouco das figuras de Mercúrio. No tipo que tem dominado, Apolo usa cabelos longuíssimos,separados por uma risca no meio da cabeça e afastados de cadalado da testa. Às vezes, eles se prendem atrás, na nuca, mas,outras, flutuam. Vários bustos e moedas nos mostram taisdiferentes aspectos. "A figura oval-alongada, diz Ottfried Mueller, que o cróbilofreqüentemente colocado sobre a testa mais ainda alonga,servindo, por assim dizer, de topo à figura inteira que pareceaspirar à morada divina, revela uma doce plenitude, uma energiacompleta e uma força cheia de maturidade. Em todas as feiçõesrespira um senti-mento elevado, altivo e franco, sejam quaisforem as modificações a que o artista submete a ideal figura. Asformas dos membros são delgadas e moles ; os quadris altos Fig 186 — Apolo (segundo moedas antigas).as coxas longas; os músculos, sem serem salientes, e muito aocontrário bem fundidos na massa do corpo, são, no entanto,suficientemente ressaltados para porem em evidência amaleabilidade do corpo e o vigor dos seus movimentos." Apolo é sempre representado jovem e imberbe, por-que o solnão envelhece. Algumas das suas estátuas o mostram até com oscaracteres cia adolescência, por
  14. 14. Fig. 187 — Apolo Sauróctone (segundo uma estátua antiga).
  15. 15. exemplo o Apollino de Florença. No Apolo Sauróctone, o jovemdeus está acompanhado de um lagarto, que ele sem dúvidaacaba de excitar com a flecha para o arrancar ao torpor eobrigá-lo a caminhar. Apolo, nesse caráter, é considerado o solnascente, ou o sol da primavera, porque a presença do lagartocoincide com os seus primeiros raios (fig. 188). O grifo é um animal fantástico, que vemos freqüentementeperto da imagem do deus (fig. 189) ou atrelado ao seu carro.Tem a cabeça e as asas de águia, com Fig. 188 — Combate dos grifos contra os arimaspes.corpo, patas e cauda de leão. Os grifos têm por missão guardaros tesouros que as entranhas da terra ocultam, e é para obter oouro de que são detentores, que os Arimaspes lutamconstantemente contra eles. Os combates constituem o tema degrandíssimo número de representações, principalmente emterracotas ou em vasos. Os Arimaspes são guerreiros fabulosos,que usam vestes análogas às das amazonas. Uma pintura devaso no-los mostra combatendo grifos, providos de cristas epenachos,
  16. 16. Fig. 189 — Apolo e o grifo.
  17. 17. Jacinto metamorfoseado em flor Teve Apolo vários amigos, entre outros Jacinto, jovemlacedemônio dotado de maravilhosa beleza. "Um lia, dizOvídio, por volta do meio-dia, após tirarem as vestes efazerem escoar pelos membros o lúcido suco da oliva, ojovem e o deus desafiaram-se para um jogo de disco. Apolocomeça; o seu disco parte, fende a nuvem e só cai sobre aterra muito tempo depois; o deus pretendia demonstrar todaa sua habilidade e força. Arrebatado pelo ardor do jogo, ojovem corre a recolher o disco; mas, repelido pela terra, odisco salta e bate-lhe em pleno rosto ; ) adolescenteempalidece, e o próprio deus empalidece; Apolo acorre,aperta entre os braços o infeliz Jacinto e estanca-lhe osangue da ferida; emprega todos os recursos da sua artepara conservar-lhe a vida. Mas é em vão! O ferimento eramortal. Assim como vemos o lírio, a papoula e a violeta, cujahaste se partiu, curvar-se para ) chão, agonizantes, a cabeçado jovem Jacinto, já coberta peja palidez da morte, cai-lhesobre os ombros ... Enquanto Apolo se entrega à dor, osangue espalhado pela relva desaparece; uma flor novanasce, uma flor mais brilhante que a púrpura e de formatosemelhante ao do lírio. Não basta ao deus prestar tão tristehomenagem à memória do amigo; quer ainda que aquela florprove Fig. 190 — Jacinto (segundo uma estátua de Bosio, museu do Louvre).
  18. 18. para sempre o seu infortúnio; liga-lhe a expressão e os sinais dador, traçando nela as letras Ai!" (Ovídio). O jacinto de Peloponeso tem matiz escuro; os antigos oconsideravam emblema da morte. Uma estátua de Apolo foi erguida em Amicleu sobre otúmulo de Jacinto, e no pedestal, via-se num baixo-relevo ojovem levado ao céu. Uma linda pedra gravada mostra Jacintodurante a sua metamorfose em flor. Há no Louvre, no museu deescultura, uma estátua de Callamard que representa Jacintolevando a mão ao ferimento que acaba de receber na testa : odisco que o feriu está-lhe aos pés. Bosio, numa encantadoraestátua, esculpiu Jacinto semideitado e vendo Apolo atirar,enquanto aguarda a sua vez (fig. 190). Ciparissa e o seu cervo Outro amigo de Apolo, Ciparissa, foi vítima de singularmetamorfose. Havia um cervo, cujas pontas eram douradas, e asninfas, às quais ele era consagrado, o tinham enfeitado combrincos e um lindo colar de pérolas. O cervo era bem manso, eentrava de boa vontade nas casas para que o acariciassem; masninguém o amava tanto quanto Ciparissa, o mais belo rapaz dailha de Cos. Tinha o cuidado de levá-lo aos melhores pastos e defazê-lo beber nas fontes mais puras, e ornava-lhe as pontas comgrinaldas de flores. Um dia, enquanto o cervo repousava numbosque, Ciparissa, que o viu sem o reconhecer, o varou com umaseta, e sentiu tal pesar que preferiu matar-se. Apolo, vendo-oagonizar, transformou-o em cipreste.
  19. 19. CAPÍTULO III O TRIPÉ DE APOLO Delfos, centro do mundo. — Apolo, vencedor de Pitão. — A disputa do tripé. — O oráculo de Delfos. — Predições a Laio. — Édipo e Laio. — A esfinge. — As desventuras de Édipo. — Édipo e Antígona. Delfos, centro do mundo O sol vê antes dos homens porque produz a luz com osseus raios; é por isso que prevê o futuro e pode revelá-lo aoshomens. Esse caráter profético é um dos atributos essenciais deApolo; dá os seus oráculos no templo de Delfos, situado nocentro do mundo. Ninguém duvida de tal fato, porque tendoJúpiter soltado duas pombas nas duas extremidades da terra,elas voltaram a encontrar-se justamente no ponto em que está oaltar de Apolo. Assim, em vários vasos, vemos Apolo sentado noomphalos (o umbigo da terra), de onde dá os oráculos (fig. 191).
  20. 20. Apolo, vencedor de Pitão Delfos chama-se também às vezes Pito, do nome daserpente Pitão, que ali foi morta por Apolo. Apolo, provido de temíveis setas, quis experimentá-lasferindo o perseguidor da sua mãe. Mal o monstro se senteatingido, é presa das mais vivas dores e, respirando comesforço, rola sobre a areia, assobia espantosa-mente, torce-seem todas as direções, atira-se ao meio da floresta e morreexalando o hálito empestado. Fig. 191 — Apolo no omphalos. Apolo contentíssimo com o triunfo, exclama : "Que o teucorpo seco apodreça nesta terra fértil; não serás mais oflagelo dos mortais que se nutrem dos frutos da terrafecunda, e eles virão imolar-me aqui magníficas hecatombes;nem Tifeu, nem a odiosa Quimera poderão arrancar-te àmorte; a terra e o sol no seu curso celeste farão apodreceraqui o teu cadáver." (Hino homérico).
  21. 21. Aquecido pelos raios do sol, o monstro começa a apodrecer.Foi assim que aquela região tomou o nome de Pito : oshabitantes deram ao deus o nome de Pítio, porque em taislugares o sol, com os seus raios devoradores, decompôs o terrívelmonstro. Segundo as narrações dos poetas, o fato deve ter-severificado quando Apolo era ainda adolescente, mas ocrescimento dos deuses não está submetido às mesmas leis queo dos homens, e quando os escultores representam a vitória deApolo, mostram o deus com as feições de um jovem que jáatingiu a plenitude da força. É o que se nos depara numa dasmaiores obras-primas da escultura antiga, o Apolo do Belvedere.Essa estátua, de mármore de Luni, foi descoberta no fim doséculo quinze, perto de Capo dAnzo, outrora Antium, e,adquirida pelo papa Júlio II, então cardeal em vésperas de sereleito para o pontificado, mandou ele a colocassem nos jardinsdo Belvedere (fig. 192). Todas as fórmulas da admiração foram esgotadas diante doApolo do Belvedere, e a estátua, desde que se tornou conhecida,não deixou de provocar o entusiasmo dos artistas. Eis adescrição que dela faz Winckelmann, na sua História da arte: "Aestatura do deus é superior à do homem e a sua atitude revelamajestade. Uma eterna primavera, tal qual a que reina noscampos felizes do Elísio, reveste de simpática mocidade osencantos do seu corpo, e brilha com doçura na orgulhosaestrutura dos seus membros... Perseguiu Pitão, contra o qualtendeu pela primeira vez o temível arco; no seu rápido curso,atingiu-o e infligiu-lhe golpe mortal. Do alto do seu con-tentamento, o seu augusto olhar, penetrando no infinito, seestende para muito além da vitória. Nos lábios se lhe vê odesdém; mas uma inalterável tranqüilidade se lhe imprime natesta, e os olhos estão repletos de doçura, como se ele se achasseno meio das Musas. . ." O triunfo de Apolo está representado num baixo-relevoantigo, onde a Vitória personificada, Nicé, verte o licor sagradoao deus que empunha a lira e está seguido de Diana que segurao facho, e de Latona. O Deus apresta-se a cantar a vitória, diantedo seu altar que se vê no primeiro plano; no fundo, aparece otemplo de Apolo (fig. 193).
  22. 22. Fig. 192 — Apolo do Belvedere (segundo uma estátua antiga. em Roma).
  23. 23. Apolo, após matar a serpente Pitão, envolveu o tripé com apele do monstro que, antes dele, possuía o oráculo. Umamedalha de Crotona nos mostra o tripé entre Apolo e a serpente: o deus dispara a seta contra o inimigo. Foi por ocasião dessavitória que Apolo instituiu os jogos pítios. Fig. 193 — Apolo, Diana e Latona (segundo um baixo-relevo antigo). A disputa do tripé Uma vivíssima disputa, freqüentemente representada nosbaixos-relevos da época arcaica, verificou-se entre Apolo eHércules em torno do famoso tripé. Hércules consulta Pítia emcircunstância na qual esta se recusara a responder. O herói,enfurecido, apoderou-se do tripé, que Apolo resolveuimediatamente reconquistar. Foi tão viva a luta entre os doiscombatentes que Júpiter se viu obrigado a intervir mediante oraio (fig. 194).
  24. 24. O tripé de Apolo foi freqüentemente representado na arteantiga, e restam-nos monumentos em que vemos até que pontose unia o bom gosto à riqueza na escultura ornamental dosantigos. Fig. 194 — Apolo combatendo Hércules que rapta o tripé de Delfos (segundo um baixo-relevo antigo, museu do Louvre). O oráculo de Delfos O oráculo de Apolo, em Delfos, era o mais famoso daGrécia. Foi o acaso que levou ao descobrimento do lugar em quedeveria erguer-se o santuário. Umas cabras errantes nosrochedos do Parnaso, aproximando-se de um buraco
  25. 25. do qual saíam exalações malignas, furam tornadas deconvulsões. Acorrendo à notícia daquele prodígio, os habitantesda vizinhança quiseram respirar as mesmas exalações eexperimentar os mesmos efeitos, uma espécie de loucura mistode contorsões e brados, e seguida do dom da profecia. Tendo-sealguns frenéticos atirado ao abismo de onde proviam os vaporesproféticos, colocou-se sobre o buraco uma máquina chamadatripé, por ter três pés sobre os quais pousava, e escolheu-se umamulher para a ele subir e poder, sem risco, receber aembriagadora exalação. Na origem, a resposta do deus, tal qual a davam ossacerdotes, era sempre formulada em versos; mas tendo tido umfilósofo a idéia de perguntar porque o deus da poesia se exprimiaem maus versos, a ironia foi repetida por todos, e o deus passoua falar somente em prosa, o que lhe aumentou o prestígio. A crença de que o futuro pudesse ser predito de maneiracerta pelos oráculos, desenvolveu singularmente na antiguidadea idéia da fatalidade, que em nenhuma parte transparece tãonitidamente como na lenda de Édipo; os seus esforços nãoconseguem livrá-lo à sentença que lhe foi anunciada pelooráculo, e tudo quanto ele faz para evitar o destino só lhe aceleraos inclementes decretos. Predições a Laio Laio, filho de Lábdaco, rei de Tebas, subiu ao trono pelamorte de seu tio Lico que se havia apoderado do poder, emdetrimento do sobrinho. Não tendo filhos, foi consultar Apolo erogou-lhe lhe concedesse filhos. Respondeu-lhe o deus: "Rei deTebas, dos valorosos corcéis, teme tornar-te pai, apesar dosdeuses! Se deres nasci-mento a um filho, este há de fazer-temorrer, e toda a família nadará no sangue." Nada obstante, teveLaio um
  26. 26. filho, e, lembrando-se do oráculo do deus, entregou-os aospastores, a fim de que o expusessem num prado consagrado aJuno, no pico do Citerônio, após furar-lhe os calcanhares comum ferro pontudo; tinha o menino o nome de Édipo. Outrospastores, recolhendo-o, entregaram-no à ama que o confiou auma nutriz, dando ao mesmo tempo a crer ao marido que o deraà luz. Uma bela estátua de Chaudet, que se encontra no Louvre,nos mostra o pastor Forbas, segurando nos braços o peque-ninoÉdipo, a quem dá de beber. Forbas era um pastor de Políbio dequem Édipo se julgava filho (fig. 195). Édipo e Laio Entretanto, quando Édipo chegou à idade adulta, umaconversação ouvida num festim lhe suscitou dúvidas sobre o seunascimento, e desejando conhecer o autor dos seus das, foi aDelfos consultar o oráculo de Apolo. Mas o deus, sem lheesclarecer as dúvidas. declara-lhe que o seu destino é matar opai e desposar a mãe Horrorizado com tal oráculo resolveu Édiponão voltar para perto dos pais. que o haviam criado, eenveredando por uma estrada oposta, encaminhou-se para olado de Tebas. Pelo caminho, encontrou um carro, cujo cocheirolhe gritou com imperiosidade : "Estrangeiro, afasta-te, dápassagem ao rei." Ao mesmo tempo o carro passa brutalmente elhe faz sangrar os pés. Trava-se luta, e Édipo Inata o homem queviajava no carro. Esse homem era Laio, que, ansioso por saber seo menino que mandara expor estava realmente morto e se nãohavia mais razão de temer a antiga profecia, fora a Delfosconsultar o deus. Assim, Édipo, sem o saber, tornou-seassassino do próprio pai.
  27. 27. Fig. 195 — O pastor Forbas dando de beber a Édipo (grupo de Chaudet, museu do Louvre),
  28. 28. A esfinge Uma terrível esfinge, nascida de Tifão e de Equidna, levou,pouco após a morte de Laio, a desolação às cercanias de Tebas.Ocupando a estrada, propunha enigmas aos viajantes, e matavaos que não logravam adivinhar o sentido. Assim pereceu elevadonúmero de infelizes, e tendo o rei Laio morrido recentemente,propuseram os tebanos a coroa e a mão da rainha a quem oslivrasse daquele flagelo. Édipo apresentou-se : "Qual é,perguntou-lhe a esfinge, o animal que tem quatro pés de manhã,dois ao meio-dia, e três ao cair da noite? — É o homem, res-pondeu Édipo; na infância, anda de gatinhas; na velhice, apoia-se a um bordão." Então e em conformidade com a decisão dooráculo, foi a esfinge atirar-se às ondas. A esfinge, ou antes a esfinge de Tebas, é talvez,mitologicamente, uma recordação da esfinge egípcia, mas a artelhe dá forma assaz diferente. As moedas a mostram com acabeça e peito de mulher, unidos ao corpo de leoa (fig. 196).Assim aparece em várias pedras gravadas. Fig. 196 — A esfinge (segundo uma moeda antiga).Numa delas, a esfinge está sentada no alto de um rochedo,diante de Édipo que se encontra de pé, respondendo à pergunta.Ossadas humanas revelam a sorte reservada aos que nãosouberam decifrar o enigma (fig. 197). Em outra pedra gravada,a esfinge atira-se contra Édipo, que apresenta o escudo no qualela se fixa; o herói está
  29. 29. nu e empunha a espada (fig. 198). Na arte dos últimos séculos,um célebre quadro de lugres representa Édipo interrogando aesfinge, cujas últimas vítimas surgem à beira do precipício. Fig. 197 — Édipo diante da esfinge (segundo uma pedra gravada antiga). As desventuras de Édipo Édipo tornou-se rei de Tebas, e, de acordo com o que forapredito, desposou a viúva elo rei Laio, sem saber que era suaprópria mãe. Espantosas calamidades tombaram então sobre acidade de Tebas; o povo rumou para o palácio de Édipo, certo deque o que soubera livrá-lo da esfinge conseguiria também aliviar-lhe os males. Foi o grão-sacerdote que falou em nome de todos."Édipo,
  30. 30. disse ele, soberano do meu país, vês que multidão se amontoaem torno dos altares diante cio teu palácio, crianças que mal sesustêm de pé, sacerdotes arcados ao peso da velhice, eu,pontífice de Júpiter, e o escol da mocidade; o resto do povo, comramos de oliveira, se dissemina pelas praças públicas, diante dosdois templos de Palas, perto do profético altar de Apolo. Tebas, jádemasiadamente batida pela tormenta, não mais pode erguer acabeça do mar de sangue em que mergulhou; a morte atinge osgermes dos frutos nas entranhas da terra; a morte fere osrebanhos e faz perecer o filho no seio da mãe; uma divindadeinimiga, a peste devoradora, devasta a cidade Fig. 198 — Édipo atacado pela esfinge (segundo uma pedra gravada antiga).e despovoa a raça de Cadmo, o negro Plutão se locupleta com asnossas lágrimas e os nossos gemidos... Foste tu que, vindo àcidade de Cadmo, a livraste do tributo que ela pagava à esfingecruel, e com o auxílio dos deuses te tornaste nosso libertador.Hoje, outra vez, Édipo, suplicamos-te um remédio aos nossosmales, quer te ilumine um deus com os seus oráculos, quer umhomem com os seus conselhos. Vem, tu que és o melhor dosmortais, reergue a cidade abatida: vela por nós, pois é a ti, hoje,
  31. 31. que esta cidade chama seu salvador, em virtude dos serviçospassados." (Sófocles). Para conhecer a causa dos males que afligiam a cidade,Édipo enviou a Delfos um representante que consultasse ooráculo. "O flagelo, respondeu o deus, só cessará quando ostebanos tiverem expulsado do seu território o assassino de Laio."Imediatamente ordena Édipo que se façam por toda parte buscaspara descobrir o paradeiro do assassino, e indignado com a idéiade que um só homem tem a culpa das desgraças de um povointeiro, lança contra ele imprecações: "Seja quem for esseindivíduo, proíbo a todo habitante desta cidade em que reino queo receba, que lhe dirija a palavra, que o admita às preces e aossacrifícios divinos, que lhe apresente a água lustral; que todos orepilam das suas casas como flagelo da pátria; assim moordenou o oráculo do deus que adoramos em Delfos. Assimprocedendo, obedeço ao deus, e vingo o rei que já não existeAmaldiçoo o autor oculto do crime, quer o tenha cometidosozinho, quer tenha tido cúmplices; proscrito, deverá arrastaruma vida miserável. E se for admitido ao meu palácio, ao meular, e com o meu consentimento, submeto-me eu também àsimprecações que lanço contra os culpados." (Sófocles). Entretanto, como não havia índice nenhum para descobrir oculpado, e como o flagelo assumisse proporções fantásticas,Édipo mandou procurar o adivinhador Tirésias. O adivinhorecusa-se a princípio a responder, mas o rei o ameaça, e começaa supor a verdade. O infeliz Édipo, retirado no seu palácio,manda chamar o pastor que outrora o abandonara, e terminapor conhecer a sua situação. O povo aguardava, apinhado àporta do palácio, nada sabendo do que ali se passava. Ouve-se então a nova de que uma terrível desgraçasucedeu, e que a rainha acaba de morrer. Um mensageiro nãotarda em trazer a fatal notícia. "Jocasta morreu! exclama. Matou-se com as suas próprias mãos. Sacudida por sombrio furor,desde que atravessou o limiar do palácio, correu ao quartonupcial, arrancando os cabelos; uma vez ali, fechouviolentamente as portas pelo lado de dentro, evocou a sombra deLaio, lembrando-lhe a recordação do filho esquecido, por cujamão ele pereceria. Não vi como faleceu, porque Édipo correudando altos
  32. 32. brados, o que nos impediu de ver a morte de Jocasta; mas osnossos olhares se voltam para ele, que ia de um lado a outro.Pede-nos uma espada, atira-se contra as portas, faz saltar osbatentes dos gonzos, e entra no aposento. Ali vemos Jocasta,ainda pendente do laço fatal que lhe terminou os dias. Diantedaquele espetáculo, o desgraçado ruge como leão, e desfaz olaço; mas quando o corpo da desventurada tocou o chão,deparou-se-nos medonha cena: arrancando os colchetes de ouroda veste que cobria Jocasta, Édipo fere os próprios olhos,porque, dizia, não tinham visto nem as suas desgraças, nem osseus crimes, e agora, nas trevas, já não veriam os que ele nãodevia ver, já não reconheceriam os que lhe houveram sidoagradável reconhecer. Assim falando, bate e dilacerarepetidamente as pálpebras; ao mesmo tempo, os olhos,ensangüentados, lhe banhavam o rosto, e não eram apenasgotas que deles caiam, era uma chuva de sangue. Aí estão osmales comuns a ambos: felizes noutros tempos, desfrutavam deuma felicidade merecida, mas hoje os gemidos, o desespero, oopróbrio e a morte, nenhuma espécie de desgraça falta."(Sófocles). Os filhos de Édipo, Etéoclo e Polinice, em vez de acudiremao infeliz pai, só tiveram a preocupação de apoderar-se do trono,e o ancião, cego e sem recursos, foi obrigado a buscar asilo emterra estrangeira, na companhia das filhas que não quiseramabandoná-lo. Um baixo-relevo antigo nos mostra Etéoclo ePolinice conduzindo o pai para fora dos muros da cidade em queele nunca mais pode entrar (fig. 199). Édipo e Antígona Édipo deixou, pois, o país que a sua presença conspurcavae onde era apenas objeto de opróbrio. Sua filha Antígona tornou-se-lhe o único apoio, e o seu nome ficou
  33. 33. como tipo do amor filial. Foi ela que, guiando os passos do paicego implorava dos viajantes caridade por quem fôra um reipoderoso e honrado: "Estrangeiro piedoso, dizia ela, se nãoqueres ouvir de meu velho pai a narração dos seus crimesinvoluntários, suplico-te que te compadeças do meu infortúnio,eu que te imploro por meu pai, eu que te suplico, cravando nosteus os meus olhos, e peço compaixão por este desgraçado.Imploro-te pelo que te é mais caro, teu filho, tua promessa, oDeus que adoras." (Sófocles). Fig. 199 — Édipo expulso pelos filhos (segundo um baixo-relevo antigo). O infeliz Édipo encontrava na admiração que lhe inspiravamas virtudes da filha uma espécie de alívio aos males. "Minhafilha, dizia, desde que saiu da infância e desde que o seu corpose fortaleceu, sempre errante e infeliz comigo, acompanhou aminha velhice, suportou a fome, caminhou descalça através dasflorestas e, desafiando chuvas e raios do sol, desprezou todos osprazeres de Tebas, para prover à existência do pai." (Sófocles).Enquanto Édipo, refugiado na Ática, buscava um asilo comTeseu, seus dois filhos lutavam em Tebas pela posse do trono, aoqual ambos aspiravam, Finalmente,
  34. 34. concordaram em reinar ambos, sucedendo-se um ao outro, aocabo de um ano de governo. Mas Etéoclo, que foi rei em primeirolugar, recusou-se em seguida a permitir a entrada do irmão, quese refugiou em Argos, onde tratou de armar um exército paramarchar sobre Tebas. Ficou decidido, então, consultar o oráculo. Respondeu esteque o rei não teria segurança no trono senão depois de voltar àpátria o velho Édipo. Os dois irmãos, então, mandaram procurarÉdipo, que respondeu com imprecações contra eles: "Filhos queteriam podido socorrer o pai recusaram-se a dar-lhe assistência,e, na falta de uma palavra da parte deles, fui entregue ao exílio eà indigência. Minhas filhas, na medida que lhes permite afraqueza do sexo, me nutrem, me abrigam e me dispensam todosos cuidados da piedade filial ; eles, pelo contrário, à salvação dopai preferiram o trono e o poder soberano. Assim, jamais obterãoo meu auxílio, jamais terão o tranqüilo gozo do reino de Cadmo.Não, que os deuses jamais extingam as suas fatais discórdias!Que o que hoje possui o cetro fique privado dele, e que o exiladojamais torne a passar pelos muros de que foi expulso! Eles queviram o pai indignamente expulso da pátria, sem retê-lo nemdefendê-lo!" (Sófocles). Édipo morreu na Ática após proferir a maldição contra osfilhos. Diz Pausânias que o seu túmulo estava perto de Atenasno recinto consagrado aos Eumênidas.
  35. 35. CAPÍTULO IV O LOURO DE APOLO Apolo e o Amor. — A metamorfose de Dafne. — Desespero de Clítia. Apolo e o Amor O louro com o qual se coroam os poetas provém de umametamorfose operada por Apolo. Orgulhoso da vitória que lograracontra a serpente Pitão, encontrou o deus o filho de Vênus, queempunhava o arco, e riu-se do uso que ele fazia da arma.Cupido, irritado, resolveu vingar-se: possui esse deus duasespécies de setas, das quais umas inspiram o desejo, outras arepulsão. Havia no bosque vizinho uma encantadora ninfa,Dafne, filha do rio Penou. Sabendo que Apolo devia passar peloponto em que ela se achava, Cupido disparou contra o deus aflecha do desejo, e contra Dafne a flecha da repulsão.
  36. 36. A metamorfose de Dafne Mal Apolo percebeu a ninfa, sentiu o coração perturbado equis aproximar-se dela, para contar-lhe a recente vitória,esperando, dessarte, agradar-lhe. Visto que ela fugia,acrescentou que era o deus da luz, honrado em toda a Grécia,filho do poderoso Júpiter, inventor da mezinha e benfeitor doshomens. Mas em vez de ouvi-lo, a ninfa, que sentia por eleirresistível aversão, pôs-se a correr Fig. 200 — Apolo e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga).através dos bosques. Apolo, não compreendendo talprocedimento, seguiu-a dizendo: "Espera, formosa ninfa : o quete segue não é inimigo. A ovelha foge do lobo, a novilha foge doleão, a tímida pomba foge da águia; mas eles são inimigos, aopasso que o que me obriga a seguir-te é apenas o amor. Pára,tenho medo de que os espinhos te firam, e eu seja a causa dosteus ferimentos." (Ovídio).
  37. 37. Apolo parou, temendo que ela, na fuga, tombasseperigosamente. Mas notando que a ninfa redobrava a velocidade, em vez dediminuir os passos, julgou que ela o não tivesse ouvido, e quelhe seria dado convencê-la facilmente, se conseguisse aproximar-se-lhe. Atirou-se, então, à perseguição, como os cães no rastodas lebres, e terminou por alcançá-la no momento em que aninfa chegava à margem do rio Peneu, seu pai. Dafne suplica,então, ao rio que lhe arranque tão funesta beleza, e senteimediatamente os membros engordar e o corpo cobrir-se de finacasca; os cabelos se lhe mudam em folhas, os braços tornam-seramos, os pés, outrora tão leves, prendem-se à terra, a cabeçatransforma-se-lhe em copa. Estava metamorfoseada em loureiro:Apolo quer tocar a árvore, e sente sob a casca palpitar umcoração. Tece uma coroa para com ela ornar a sua lira de ouro, edesde então os vencedores recebem ramos de loureiro em lugardos ramos de carvalho de antes. Várias pinturas de Herculanum nos mostram a aventura deDafne cuja metamorfose está muito bem fixada numa estátua deVilla Borghese. Na escultura dos últimos séculos, Coustoucompôs um grupo de Apolo perseguindo Dafne, e que podemosver no jardim das Tulherias (fig. 201). Le Bernin compôs tambémum famoso grupo que se encontra em Roma. Entre os quadrosexecutados sobre o mesmo tema, os mais conhecidos são os dePoussin, Rúbens e Carle Maratte (fig. 202). Há, outrossim, noLouvre um quadrinho de Albane em que se nos depara a ninfafugindo velozmente de Apolo, enquanto o Amor voa, sorridente,nas nuvens. O século dezoito só viu nessa lenda uma aventura galante, ecomo é proverbial a beleza de Apolo, concluiu-se que. se o deusnão soube agradar à ninfa, foi exclusiva-mente por culpa sua: "Cruelle, arrêtez-vous de grâce! Je suis le régent du Parnasse, le fils naturel de Jupin; je suis poete, médecin, je suis chimiste, botaniste, je suis peintre, musicien, exécutant et syntphoniste;
  38. 38. je suis danseur, grammairien, astrologue, physicien; je suis..." Pour fléchir une belle, au lieu de lui parler de soi, il est plus adroit, selon moi, et plus doux de lui parler delle. (Demoustier) (1) Fig. 201 — Estátuas de Guillaume Coustou (no jardim das Tulherias).(1) Cruel, detém-te, por favor Sou o regente do Parnaso, filho natural de Júpiter; Sou poeta, médico, Sou químico, botânico, Sou pintor, sou músico, executante e sinfonista. Sou dançarino, gramático, astrólogo, físico; sou..." Para seduzir mulher bela, em. lugar de falarmos de nós, é mais certo, a meu ver. e mais suave, falarmos dela. (Demoustier)
  39. 39. Os mitologistas modernos vêem no mito de Dafne umapersonificação da aurora. Assim, quando dizemos: a auroradesaparece, mal o sol desponta, os gregos teriam dito na sualinguagem mitológica: Dafne foge quando Apolo pretendeaproximar-se dela. Desespero de Clítia De resto, se Apolo foi desdenhado por Dafne, vingou-se bemcontra a infeliz ninfa Clítia, que morria de Fig. 202 — Apolo perseguindo Dafne (segundo um quadro de C. Maratti).
  40. 40. amor, enquanto ele se mantinha indiferente. O desprezo atirou-aa um terrível desespero e a companhia das ninfas tornou-se-lheinsuportável. Deitada noite e dia sobre o chão, cabelos esparsos,ela desfazia-se em lágrimas, e não queria outro alimento senão oorvalho do céu. Voltava sem cessar os olhos para o sol eacompanhava-o durante todo o seu curso. O corpo terminou porse lhe enraizar na terra, e o rosto tornou-se-lhe uma flor quecontinua a voltar-se para o lado do sol, de modo que, apesar dametamorfose. ela revela sempre o amor que sempre teve porApolo.
  41. 41. CAPÍTULO V A LIRA DE APOLO A lira e a flauta. — O sileno Mársias. — As orelhas do rei Midas. A lira e a flauta O sol, pela regularidade com a qual difunde todos os dias a luz, era considerado pelos antigos o príncipe que preside às harmonias do universo. A astronomia era uma Musa, cujas leis não diferiam das que regem a música. Apolo foi, portanto, encarado desde logo como deus da harmonia, e a lira passou a ser-lhe o atributo. É então considerado príncipe da inspiração poética e torna-se condutor das Musas. A arte o apresenta coroado de louro e com uma longa túnica, e ele assume o nome de Apolo Musageta. Uma esplêndida estátua do Vaticano o representa sob tal aspecto. Essa estátua serviu de modelo às medalhas de Nero, que representam o
  42. 42. imperador disputando no teatro o prêmio de citara, Foidescoberta em Tivoli, em 1774, assim como sete estátuas deMusas (fig. 204). A lira aparece como atributo de Apolo, mesmo quando jánão é condutor das Musas, e de certo modo faz parte do seucostume, como a aljava e as setas. Em grande número demonumentos, Apolo empunha a lira, embora esteja nu. Para os gregos. era a lira um instrumento nacional, poroposição à flauta que representava a música frigia. Fig 203 - Medalha com os atributos de Apolo. O sileno Mársias O sileno Mársias é o fiel seguidor de Cíbele e desempenhaao pé dela papel análogo ao que o outro sileno desempenha ao péde Baco de quem foi benfeitor. Mársias. que os monumentos nosapresentam freqüentemente dando uma aula ao jovem Olimpo,seu discípulo (fig. 205), é uma personificação da música frigia, esobretudo da flauta, por oposição à lira usada na Europa. Numainvasão levada a efeito pelos gálatas na Frigia. Mársias feztransbordar as águas dos rios, ao som da flauta, e salvou o paísda conquista. Mársias, orgulhoso do seu talento na flauta, ousou desafiarApolo, e ficou estabelecido que o vencido se
  43. 43. Fig. 204 — Apolo Musageta (estátua antiga, em Roma).
  44. 44. submeteria à mercê do vencedor. Apolo cantou enquanto tocavaa lira, e as Musas, escolhidas como juízes, lhe concederam avitória. O pobre Mársias foi pendurado a um pinheiro eimpiedosamente esfolado. Os sátiros e as ninfas choraramtanto, que as suas lágrimas formaram um rio o qual lhe traz onome. As flautas do infeliz frígio caíram na correnteza, e foramlevadas. O movimento das ondas conduziu-as às praias deSícion. Um pastor pegou-as, e consagrou-as num templodedicado a Apolo. Quanto à pele do vencido, fez com ela umodre que foi colocado na cidade de Celene, pátria de Mársias, ependurado a uma Fig 205 — Mársias e Olimpo.coluna. Quando alguém tocava flauta à moda frigia, a peleagitava-se em sinal de satisfação, enquanto ao som da lira,permanecia em completa imobilidade. O jovem frígio que, nasrepresentações antigas do suplício de Mársias, aparece atrás deApolo e, às vezes, lhe segura a seta, parece ser Olimpo, que,quase sempre, intercede pelo amo. Mársias em geral pende de uma árvore: assim é a famosaestátua do Louvre, onde o sileno tem os pés
  45. 45. pousados numa cabeça de bode (fig. 207). No Mársias da galeriaGiustiniani, Apolo segura a pele do sileno, que, em outrasocasiões, está presa à lira do deus de Delfos. O suplício deMársias figura igualmente num baixo-relevo do museu Pio-Clementino e numa multidão de pedras gravadas. Às vezes é o próprio Apolo que esfola a sua vitima; maisfreqüentemente, porém, assiste ao suplício infligido ao infelizpor escravos citas. Uma belíssima estátua antiga do museu deFlorença, conhecida pelo nome de Amolador, representa um citaafiando a faca. Havia, com Fig, 206 — Apolo e Mársias (segundo uma pedra gravada antiga).efeito, em Atenas uma companhia de citas encarregados dasexecuções, e é o que explica essa tradição. A luta entre Mársias e Apolo figura nos monumentosantigos tanto quanto o suplício. Em vasos é-nos dado ver Apolotocando diante da assembléia dos deuses, enquanto Mársias e oseu discípulo Olimpo o ouvem com atenção; noutros, é, pelocontrário, Mársias que toca diante de Apolo coroado de louros, eBaco assiste à cena.
  46. 46. Fig. 207 — Mársias (segundo urna estátua antiga. museu do Louvre).
  47. 47. Enfim, várias medalhas, notadamente as de Apameu, na Frigia,mostram Mársias tocando a flauta. Um quadro de Zêuxis,representando o suplício de Mársias, gozou na antiguidade deenorme fama. Após a conquista romana, foi roubado aos gregos elevado a Roma, para decorar o templo da Concórdia. Rúbens, leGuerchin, le Guide e outros mestres pintaram o suplício deMársias. A rivalidade entre o Oriente e o Ocidente reaparece sob milformas na Fábula, mais particularmente, todavia, sob a relaçãomusical. A história de Mársias no-la mostra com o caráterselvagem que os povos primitivos sempre dão à luta. Não pareceque os escritores da antiguidade tenham ficado vivamenteimpressionados pela crueldade do deus da música, mas váriosemitiram dúvidas sobre a legitimidade da sua vitória. Eis como o historiador Diodoro de Sicília narra a aventura:"Apolo e Mársias, diz ele, apostaram em quem seria capaz deoriginar maior prazer e efeito, cada um no seu instrumento;tiveram por juízes os habitantes de Misa. O deus tocou uma áriana lira. Em seguida, Mársias pegou a dupla flauta, e os juízes,encantados com a doçura e a novidade dos sons que dela oartista soube tirar, lhe deram a preferencia. Apolo, apósconseguir que se realizasse outra prova, uniu a voz ao som dalira e arrebatou os votos. Mársias, então, reclamou, dizendo quese tratava de julgar do instrumento e não da voz, e que, aliás,era injusto opor uma única arte a duas reunidas. Diante daquilo,respondeu o deus que só empregava os meios de que se valia opróprio Mársias, ou seja, a boca e os dedos; a razão foi tida porsensata, e na terceira prova Apolo foi novamente declaradovencedor. Indignado da ousadia de Mársias, o deus esfolou-ovivo." Os poetas cômicos apoderaram-se de Mársias, para delefazer o tipo do ignorante presunçoso, e Mársias tornou-sepersonagem burlesca. O mito revestiu-se, sob o domínio romano,de importância totalmente diversa; foi então considerado umaalegoria da justiça equitativa, mas inexorável. É o que explicaporque a lenda está tão freqüentemente representada nosmonumentos artísticos. As estátuas de Mársias esfoladofiguravam nas praças públicas que se faziam os julgamentos, eem todas as colônias romanas era visto perto do tribunal.
  48. 48. As orelhas do rei Midas Análogo concurso, mas seguido de efeitos mais ridículosque desastrosos, ocorreu entre Apolo e o deus Pã. Este deus,orgulhosíssimo do seu talento musical, levou um dia a vaidadeao ponto de desafiar Apolo, cuja lira e cuja voz não tinham rivais.Todos os assistentes deram a vitória ao deus da luz, com exceçãode Midas, rei da Fig. 208 — Apolo e Mársias, numa medalha de Antonino, com atributos do deus.Frigia, o único que ousou contradizer o julgamento. Apolo, nãoquerendo que orelhas tão grosseiras conservassem por maistempo o formato das dos outros homens, alongou-lhas, cobriu-lhas de pelos e tornou-lhas móveis; numa palavra, deu-lheorelhas de burro. O resto do corpo manteve-se o mesmo.
  49. 49. Midas para ocultar a deformidade, cobria-a sob magníficatiara. O cabeleireiro incumbido dos seus cabelos percebera tudo,mas não tivera ânimo para transmitir a descoberta a ninguém.Importunado por tal segredo, vai a um lugar afastado, faz umburaco no chão, aproxima-se o mais possível, e diz em voz baixaque o seu amo tinha orelhas de burro; em seguida, tapa oburaco, julgando ter assim encerrado para sempre o segredo, eretira-se. Mas uns caniços traíram-lhe o segredo, pois toda vezque havia vento, repetiam: O rei Midas tem orelhas de burro. LeGuide compôs um Julgamento de Midas, em que Apolo tocarabeca. Rubens pintou o mesmo tema num quadro do museu deMadri.
  50. 50. CAPÍTULO VI AS MUSAS Júpiter e Mnemósina. — Atributos das Musas. — As filhas de Piero. — As Musas vitoriosas contra as sereias. Júpiter e Mnemósina As Musas pertencem originariamente à família das ninfas: são as fontes inspiradoras que comunicam aos homens a faculdade poética e lhes ensinam as divinas cadências. O seu número tem variado bastante segundo os tempos e as localidades; mas primitivamente eram apenas três, Melete (A Meditação), Mneme (A Memória) e Aoide (O Canto). Habitualmente são nove irmãs que Hesíodo diz terem nascido de Júpiter e Mnemósina, a Memória. "Na Pieria, Mnemósina, que reinava sobre as
  51. 51. colinas de Eleutério, unida ao filho de Saturno, deu à luz essasvirgens que proporcionam o esquecimento dos males e o fim dasdores. Durante nove noites, o prudente Júpiter, deitando-se noleito sagrado, dormiu ao lado de Mnemósina, longe de todos osimortais. Um ano depois, tendo as estações e os mesespercorrido o seu curso, bem como os dias, Mnemósina deu à luznove filhas animadas do mesmo espírito, sensíveis ao encanto damúsica e trazendo no peito um coração isento de inquietações;deu-as à luz perto do pico elevado do nevoso OIimpo no qual elasformam coros brilhantes e possuem pacíficas moradas. Ao seulado, postam-se as Graças e o Desejo nos festins, em que a suaboca, expandindo amável harmonia, canta as leis do universo eas respeitáveis funções dos deuses. Orgulhosas da belíssima voze dos seus divinos concertos, subiram ao Olimpo; a terra negraecoava-lhes os acordes, e sob os seus pés se erguia um ruídosedutor, enquanto elas rumavam para o autor dos seus dias, orei do céu, o senhor do trovão e do raio ardente, o qual, poderosovencedor de seu pai Saturno, distribuiu eqüitativamente entretodos os deuses as incumbências e honras. Eis o que cantavamas Musas moradoras do Olimpo, as nove filhas do grandeJúpiter, Clio, Euterpe, Talia, Melpômene, Terpsícore, Erato,Polímnia, Urânia e Calíope, a mais poderosa de todas, pois servede companheira aos veneráveis reis. Quando as filhas do grandeJúpiter querem honrar um desses reis, filhos dos céus, mal ovêem nascer derramam-lhe sobre a língua um delicado orvalho, eas palavras lhe fluem da boca como verdadeiro mel. Eis o divinoprivilégio que as Musas concedem aos mortais." (Hesíodo). As Musas eram respeitadíssimas e o talento dos artistastido como dom das nove irmãs. Nas suas estátuas, liam-seinscrições como a seguinte : "Ó deus, o músico Xenocles mandouerguer-vos esta estátua de mármore, monumento da gratidão.Todos dirão: Na glória que lhe proporcionou o seu talento,Xenocles não se esqueceu daquelas que o inspiraram."(Teócrito).
  52. 52. Atributos das Musas Para compreendermos as honras que os antigos prestavamàs Musas, devemos lembrar-nos de que nas épocas primitivas apoesia é um dos agentes mais poderosos da civilização. A arterepresenta as Musas sob a forma de jovens cobertas de longastúnicas; usam, às vezes, plumas na cabeça, como recordação davitória obtida contra as sereias, mulheres-pássaros. As Musasforam sendo, pouco a pouco, caracterizadas por atributosespeciais, e a arte reservou a cada uma delas um papelparticular. Clio, a musa da história, está caracterizada pelo rolo quesegura. Calíope preside aos poemas destinados a celebrar heróis. Aescultura a representou sentada num rochedo do Parnaso;parece meditar e prepara-se para escrever versos em tabuinhasque segura numa das mãos. A máscara trágica, a coroa báquica e o coturno de que estácalçada Melpômene a dão a reconhecer por musa da tragédia.Usa, às vezes, os atributos de Hércules para exprimir o terror ; asua coroa báquica lembra que a tragédia foi inventada paracelebrar as festas de Baco. Há no Louvre uma estátua colossalde Melpômene que pertence à mais bela época da arte grega (fig.209). Terpsícore, Musa da poesia lírica, da dança e dos coros,está habitualmente coroada de louros e toca lira para animar adança (fig. 210). A máscara cômica, a coroa de hera, o cajado de pastor, deque se serviam os atores na antiguidade, o tímpano ou tamborem uso nas festas báquicas são os atributos comuns de Talia,musa da comédia. Erato é a Musa da poesia amorosa, e em geral empunhauma lira. Tinha Erato grande importância nas festas que serealizavam por ocasião das núpcias (fig. 211). A Musa que preside à música, Euterpe, empunha umaflauta. Temos no Louvre várias estátuas de Euterpe notáveis. AMusa da música está, por vezes, acompanhada do corvo, ave deApolo.
  53. 53. Fig. 209 — A Musa Melpômene (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre).
  54. 54. Urânia, Musa da astronomia, segura um globo numa dasmãos e na outra um rádio, varinha que servia para indicar ossinais vistos no céu. Polímnia, Musa da eloqüência e da pantomima, está sempreenvolta num grande manto e em atitude de meditação. Muitasvezes tem uma coroa de rosas. Uma belíssima estátua do Louvrea mostra apoiada ao rochedo do Parnaso, com a cabeça sustidapelo braço direito. Está figurada na mesma posição num baixo-relevo representando a apoteose de Homero. Nos monumentos antigos, Apolo aparece freqüente-mentecomo condutor das Musas. Chama-se, então, Musagete, e usauma longa túnica. Esse tema agradava bastante aos artistas daRenascença, que o representaram com freqüência. O belo quadrode Mantegna, que o catálogo do Louvre designa sob o nome deParnaso, representa Apolo fazendo dançar as Musas ao som dalira, na Fig 210 — A Musa Terpsíore (segundo uma pedra gravada antiga).
  55. 55. presença de Marte, Vênus e Cupido colocados sobre umaelevação. No canto, Mercúrio empunhando um longo caduceuapóia-se sobre o cavalo Pégaso. Rafael, no célebre afresco doVaticano, também coloca as Musas sob a presidência de Apolo,conforme à tradição, que as faz seguir o deus da lira. O próprioApolo dança com as Musas, na famosa ronda das Musas,pintada por Jules Romain. O lugar das Musas era naturalmenteassinalado nos sarcófagos, assim como as máscaras de teatroque ali Fig. 211 — Erato e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga).vemos freqüentemente esculpidas. A vida era considerada umpapel que cada um desempenhava ao passar pela terra, equando era bem desempenhado, conduzia à ilha dosVenturosos. Todos esses velhos usos desapareceram pelo fim doimpério, e o papel civilizador que se atribuíra às Musas foiesquecido. Um dos últimos escritores pagãos, contemporâneodas invasões bárbaras, o historiador Zózimo, fala da destruiçãodas imagens das Musas do Helicão, que haviam sidoconservadas ainda na época de Constantino. "Então, diz ele, fez-se guerra às coisas santas,
  56. 56. mas a destruição das Musas pelo fogo foi um presságio daignorância em que o povo iria tombar." Baco, tão freqüentemente quanto Apolo, está representadoconduzindo o coro das Musas, e até parece que acabou por termais importância em tal papel do que o deus de Delfos. Ainspiração vem da ebriedade divina, e aliás Baco é o inventor doteatro. No coro das Musas, a declamação não podia deixar deocupar o seu posto ao lado da invenção. O magnífico túmulo conhecido pelo nome de Sarcófago dasmusas, no Louvre, foi descoberto no começo do século XVIII, auma légua de Roma, na estrada de Óstia. O baixo-relevoprincipal representa as nove Musas, caracterizadas pelos seusatributos distintivos. Calíope, empunhando o cetro está emcompanhia de Homero e Erato conversa com Sócrates: eis otema dos dois baixos-relevos que ornam as faces laterais. Nalousa, vê-se um festim báquico, em alusão às alegrias da vidafutura. As filhas de Piero As nove filhas de Piero, rei da Macedônia, eram tãovaidosas em virtude do seu talento de executantes de música,que resolveram desafiar as Musas. Cantaram o combate dosGigantes, ridicularizando bastante os deuses, que tinham sidoobrigados a transformar-se em animais para escapar aoespantoso Tifão. Ouvindo falar tão mal de Apolo, as Musas,suas companheiras, mal lograram refrear a indignação. Mascomo todas as ninfas da região tivessem sido convocadas comojuizes da contenda, foi preciso dar a réplica, e após preludiar noalaúde, cantou Calíope o misterioso rapto de Prosérpina. AMusa saiu vitoriosa da luta, mas não reconhecendo o veredictodas ninfas que elas haviam chamado como juízes, as filhas dePiero tentaram agredir as Musas sagradas do Helicão. O castigonão se fez esperar, pois foram metamorfoseadas
  57. 57. em pegas ; conservando sempre a mesma vaidade e o mesmodesejo de falar, fazem ecoar nos bosques os seus gritosimportunos e a voz enrouquecida. Reconhece-mos em taltradição a paixão que caracteriza as rivalidades de escola nasartes. Um lindo quadrinho do Louvre, outrora atribuído a Perinodel Vaga, e atualmente a Rosso, representa as Musas e as filhasde Piero, ao pé de um cabeço sombreado onde as divindades asouvem e julgam. As Musas vitoriosas contra as sereias As sereias participam simultaneamente da mulher e da ave;mas os monumentos primitivos lhes dão apenas a cabeça e osbraços de mulher com corpo de ave (fig. 213), ao passo que emépoca posterior lhes foi atribuído corpo de mulher com patas easas de ave (fig. 212). Os deuses concederam-lhes asas para queelas pudessem Fig. 212 — Sereia.
  58. 58. procurar Prosérpina, quando esta deusa foi raptada porPlutão. As sereias, que eram consideradas Musas da morte,eram célebres pela doçura do canto. Passavam a vida emrochedos, onde faziam morrer os navegantes atraídos pelo Fig. 213 — Sereia.seu canto. Homero chama às sereias sedutoras de todos oshomens que delas se acercam : "Aquele, diz ele, que impelidopela imprudência, escutar a voz das sereias, nunca mais veráa esposa, nem os filhos queridos os quais, no entanto,ficariam contentíssimos com o seu Fig. 214 — As sereias depenadas pelas Musas (baixo-relevo antigo). Dafne. Apolo.
  59. 59. regresso; as sereias deitadas num prado cativá-lo-ão com assuas vozes harmoniosas. Em torno delas estão as ossadas e ascarnes ressecadas das vítimas." (Odisséia). As sereias ousaram medir-se com as Musas, mas estassaíram vitoriosas do combate e depenaram as pobres sereias. Acena figura num baixo-relevo antigo. Como lembrança dessavitória é que as Musas usam, às vezes, penas na cabeça. Pareceque as sereias se atiraram, desesperadas, à água, e é talvez porisso que os artistas dos últimos séculos, confundindo-as com astritônidas, lhes dão sempre a forma de mulheres-peixes.
  60. 60. CAPÍTULO VII ORFEU A lira de Orfeu. — Orfeu e Eurídice. — Orfeu dilacerado pelas bacantes. A lira de Orfeu As Musas são divindades virgens, que só apreciam a poesiae os versos. Vênus perguntou um dia a seu filho Cupido por quemotivo jamais as ferira com as suas setas. "Respeito-as, minhamãe, respondeu Cupido, por serem respeitáveis, sempre imersasna meditação, e sempre ocupadas em cantos; mas acerco-medelas com freqüência, seduzido pelas suas melodias." (Luciano). A castidade das Musas era proverbial na antiguidade; masna linguagem alegórica, dizia-se de um grandíssimo poeta oumúsico que era filho das Musas. É a esse título que Orfeu erachamado filho de Calíope e Apolo. Orfeu exprimemitologicamente o arroubo que a música causava
  61. 61. nos povos primitivos. A sua voz melodiosa e a sua lira feiticeiraoperam por toda parte prodígios. Quando os argonautas partemem busca do velocino de ouro, o navio Argos, que devia conduzi-los, mantinha-se imóvel na praia; ao som da lira de Orfeu,desliza sozinho para as águas. As árvores inclinam-se para ouviro divino músico, os rochedos mudam de lugar para melhorescutá-lo, os rios suspendem o seu curso, as feras, subitamenteamansadas, rastejam-lhe aos pés (fig. 215). Fig. 215 — Orfeu. Homero e Hesíodo não falam de Orfeu, e Aristóteles põe emdúvida a sua existência histórica; mas os platônicos atribuíramgrande importância a essa personagem, que aos olhos deles setorna um sábio poeta e teólogo, iniciado nas doutrinas do antigoEgito, e fundador, para a Grécia, dos mistérios de Ceres. Emboratenha sido dilacerado pelas bacantes, passa também por terpropagado o culto de Baco.
  62. 62. Orfeu e Eurídice Um encantador baixo-relevo antigo nos mostra Orfeuvoltando-se para ver Eurídice que Mercúrio lhe conduz (fig. 216).Eurídice, a quem ele amava apaixonadamente, fora picada poruma serpente, e o poeta resolveu ir procurá-la entre as sombras.Aos sons da sua lira, os obstáculos desapareciam como que porencanto. As sombras esqueciam-se dos seus trabalhos e dostormentos, para se unirem às suas lágrimas. Tântalo nãopensava mais na sede, Sísifo já não rolava a pedra, as Danaidesdescuidavam o tonel, os abutres não dilaceravam o coração deTitio, e a roda de Ixião deixava de girar. As próprias Fúriastornavam-se sensíveis e se enterneciam diante da dor de Orfeu.Plutão, subjugado pelos ais do infeliz esposo, consentiu em lhedevolver Eurídice, impondo, no entanto, a condição de que ele anão fitasse, antes de sair dos infernos, Mas rio momento em queEurídice, seguindo o esposo, já ultrapassara todos os obstáculos,Orfeu, a quem só restava um passo para tornar a entrar no paísda luz, esqueceu-se do juramento e voltou a cabeça para ver amulher amada. Eurídice estende-lhe os braços, e Orfeu querpegá-la, mas ela desaparece nas moradas subterrâneas dizendo-lhe um eterno adeus. Orfeu dilacerado pelas bacantes Após assim perder a sua Eurídice, Orfeu chorou sete diasinteiros nas margens do Aqueronte, sem querer nutrir-se;depois, retirou-se para a Trácia, evitando os homens e vivendono meio dos animais, que os seus cantos
  63. 63. queixosos atraíam. As bacantes, no entanto, descobriram-lheo refúgio e tentaram fazer com que ele contraísse novos laçosmatrimoniais; irritadas com o desdém dele, atacaram-no,gritando, e cobrindo-lhe a voz com o ruído dos seustambores, atiraram-se furiosas sobre ele e o despedaçaram. Asua cabeça e a lira, lançadas ao rio que as levou ao mar,encantavam as margens com melodiosos sons. Fig. 216 — Orfeu e Eurídice.
  64. 64. Fig. 217 — Orfeu no inferno (pedra gravada).Fig. 218 — Orfeu perde Eurídice (segundo o quadro de Drolling).
  65. 65. Numerosas pedras gravadas antigas nos mostram Orfeurodeado de animais a que encanta com os seus acordes (figs. 215e 217). A lenda inspirou numerosos mestres dos últimos séculos,entre outros Rúbens, de quem temos no museu de Madri umaEurídice reencontrando o esposo nos infernos, e um Orfeu nomeio das feras. O mesmo tema foi tratado por Paul Potter, numquadro famosíssimo que faz parte do museu de Amsterdão, masa inspiração mitológica do pintor holandês é bastante inferior, anosso ver, às suas cenas campestres nas quais mostrasimplesmente o que viu. A descida de Orfeu aos infernos constitui o tema doprimeiro trabalho tentado por Canova. Um quadro de Drolling,conhecido pela gravura e que, outrora, fazia parte do museu deLuxemburgo, mostra Orfeu no momento em que perde Eurídice,levada de volta aos infernos por Mercúrio (fig. 218).
  66. 66. CAPÍTULO VIII AS SETAS DE APOLO Júpiter e Antíope. — Os filhos de Níobe Júpiter e Antíope Lico, neto de Cadmo e rei de Tebas, desposara Antíope,filha do rio Asopo, que lhe deu dois filhos, Anfião e Zeto. Antíopefoi amada de Júpiter que a visitava sob a forma de sátiro, comonos mostra Correggio num soberbo quadro do Louvre (fig. 219).Repudiada pelo marido, Antíope foi colocada sob a vigilância deDircéia, que se tornara esposa do rei. Esta maltratoucruelmente a rival e mandou que a encerrassem numaacanhada prisão. Mas os grilhões de que Antíope estavacarregada se quebraram sozinhos, e ela procurou refúgio ao pédos filhos que, a princípio, não reconheceram sua mãe. Dircéia,dedicadíssima ao culto de Baco, quis matar Antíope
  67. 67. Fig. 219 — Antíope (segundo um quadro de Correggio, museu do Louvre).mandando que a amarrassem às presas de um touro, enquantose celebravam as bacanais. Um pastor que criara Anfião e Zeto,fez com que estes a reconhecessem enfim, ministrando-lhessinais certos de ser-lhes Antíope mãe, e eles, atirando-se contraas bacantes, libertaram a prisioneira, prenderam Dircéia àspontas do animal e mataram-na com o suplício por ela destinadaà rival. O
  68. 68. suplício de Dircéia forma o tema de um grupo antigo célebre, nomuseu de Nápoles (fig. 220). Dircéia, após a morte, transformou-se em fonte, por obrade Baco, que feriu Antíope de loucura furiosa; a infelizpercorreu por algum tempo a Grécia em tais Fig. 220 — Suplício de Dircéia (segundo um quadro antigo do museu de Nápoles).condições, mas acabou sendo curada por Foco que a desposou.Lico foi expulso da cidade com toda a família, e Anfião tornou-serei do país. Anfião foi o primeiro em erguer um altar a Mercúrio,e o deus para premiar-lhe o zelo deu-lhe de presente uma lira.Aos sons da lira de Anfião,
  69. 69. toda a natureza se comovia e as pedras se ergueram por sipróprias para formar os muros d Tebas. O baluarte teve sete portas, tantas quantas eram as cordasda lira. Os filhos de Níobe Anfião desposou Níobe que, orgulhosa dos seus numerososfilhos, ousara rir-se da deusa Latona que só tinha dois.Pretendia receber as honras divinas, de modo que o culto deLatona era negligenciado. A deusa, ofendida, ordenou à profetisaManto, filha do adivinho Tirésias, que reavivasse o zelo do povo.Impelida por uma inspiração divina, a profetisa põe-se apercorrer as ruas de Tebas, gritando: "Mulheres tebanas, coroai-vos do louro, e oferecei incenso a Latona e a seus dois filhos; é aprópria deusa quem vo-lo ordena pela minha boca." Todos obedecem; já todas as mulheres da cidade, trazendocoroas na cabeça, se apressavam em acender em honra a essasdivindades o fogo sagrado, e em unir os seus votos à chama quese ergue sobre os seus altares. Entretanto, Níobe, esposa deAnfião e rainha de Tebas, vestida de uma túnica frigia todaesplendente de ouro. chega seguida do cortejo real. Detém-se epõe-se na frente da procissão: "Por que cegueira, diz ela, preferissupostos deuses aos que tendes diante dos vossos olhos, e comotendes a ousadia de oferecer sacrifícios a Latona, se ainda nãoqueimastes incenso nos meus altares? Ignorais que sou esposade Anfião, que ergueu os vossos muros ao som da sua lira, quesou filha de Tântalo, e que tenho por mãe uma das Plêiades? Ogrande Atlas, que sustenta o céu sobre os ombros, é meu avô, eo próprio Júpiter é simultaneamente meu avô e meu sogro. Ospovos da Frigia me prestam honras que me são devidas, e vóspreferis a mim essa Latona, errante e fugitiva, que o Céu, a Terra
  70. 70. e a Água repelem igualmente, e que se jacta de ter posto nomundo dois filhos, quando eu sou mãe de catorze!" Ordena,então, que se interrompa a cerimônia, e cada um lança a suacoroa de louro, para obedecer à rainha. Latona encarregou os filhos de vingar o ultraje. São Apolo eDiana que causam as mortes súbitas: quando se fala de alguémque foi atingido de morte fulminante, e cuja causa édesconhecida, diz-se: recebeu uma seta de Apolo. Um dia,quando Níobe estava rodeada dos seus catorze filhos cuja belezaela admirava, ouve-se no ar uma espécie de silvo de seta e umdos filhos tomba morto sobre a areia. Seus sete filhos jazem aosseus pés, e a mesma sorte cabe, em breve, às sete filhas quetombam feridas por Diana. A morte dos catorze filhos de Níobe éinstantânea; o pai, a mãe, as nutrizes e os pedagogos os vêemcair sem poderem prestar-lhes o menor auxílio. Estupefata, a infeliz Níobe imobiliza-se, e os seus próprios cabelos jánão são mais agitados pelo vento; um palor mortal lhe cobre o rosto; os olhosestão fixos e sem movimento, a língua cola-se à boca ; ela se metamorfoseiaem pedra. No entanto, ainda sabe chorar, pois as lágrimas que verte formamuma fonte que vemos jorrar de um pedaço de mármore. Anfião, seu esposo, matou-se, segundo alguns mitólogos; segundooutros, armou um exército para destruir o templo de Apolo em Delfos, e foiatingido pelo próprio deus, antes de lá chegar. A história dos filhos de Níobe, popularíssima naantiguidade, foi representada em famosas estátuas, dentre asquais algumas figuram entre as obras-primas cia arte. Le fatal courroux des dieux changea cette femme en pierre; le sculpteur a fait bien mieux, il a fait tout le contraire. (Voltaire) (1)______________________ (1) A fatal cólera dos deuses mudou esta mulher em pedra: oescultor fez muito mais, pois fez exatamente o contrário.
  71. 71. Plínio, falando do famoso grupo das Niobidas, não sabe sedeve atribuí-lo a Scopas ou a Praxíteles (fig. 221). Seja quem foro autor do grupo, revela uma arte que se compraz em reproduzirtemas adequados a remexer profundamente a alma, mas que, aomesmo tempo, os trata com a temperança e a nobre reservaexigidas pelo gosto helênico nos mais belos tempos da arte. Se oartista não Fig. 221 — Niobe e a menor de suas filhas (segundo um grupo antigo).poupa nada para nos comover em favor de uma família, objetoda cólera dos deuses, a forma cheia de nobreza e de grandezados rostos não está absolutamente desfigurada pela dor física epelo temor de um perigo iminente. A fisionomia da mãe,personagem principal da cena, exprime o desespero do amormaterno e na maneira mais pura e elevada: a tradição poéticanos ensina que a desventurada, emudecida pelo excesso de dor,foi trans-
  72. 72. formada em pedra, e o artista, conformando-se ao fato, evitouas desgraciosas contrações do rosto. As estátuas desse grupoforam descobertas em Roma, perto da porta de São Paulo, eacham-se atualmente em Florença. Mas há em outros museusestátuas isoladas famosíssimas, notadamente a de Munique. Amorte dos Niobidas figura Fig. 222 — O Pedagogo e um dos filhos de Niobe (segundo um grupo antigo).freqüentemente em sarcófagos, e representa sempre a mudaprece da mãe que perdeu os filhos de morte súbita. A trágicalenda era na antiguidade o tipo dos golpes imprevistos dodestino.
  73. 73. CAPÍTULO IX APOLO PASTOR A ninfa Coronis. — O nascimento de Esculápio. — Apolo na corte de Admeto. — O pastor Aristeu. A ninfa Coronis Apolo está munido de uma aljava cujas flechas sãoinevitáveis : é ele que envia as pestes e as epidemias. Mas é eletambém que cura as doenças, e em tais ocasiões todos osinvocam. O título de deus salvador e reparador dos malesconvém perfeitamente ao sol personificado: contudo, o podercurativo de Apolo aparece sobretudo em seu filho Esculápio, tidoda ninfa Coronis. Apolo apaixonara-se pela ninfa, mas tendo-lhedito o corvo que ela amava outro, o deus, num acesso de ciúme,matou-a com uma das suas setas. Arrependeu-se imediatamentee metamorfoseou Coronis (palavra que significa gralha) na aveque traz esse nome; depois, para punir o corvo pela suatagarelice, fê-lo negro, tirando-lhe a cor branca que o carac-terizava. Foi depois dessa aventura que as duas aves passaram aser consagradas a Apolo.
  74. 74. O nascimento de Esculápio Quando Coronis morreu, estava para dar à luz um filho,que Apolo lhe tirou do seio e que foi Esculápio, cuja educaçãoficou atribuída ao centauro Quirão. A filha de Quirão, Ociroé, senhora do dom da profecia,exclamou ao vê-lo: "Cresce para o sol do mundo, menino! Osmortais dever-te-ão freqüentemente a existência. Ser-te-á dadoaté o dom de ressuscitar os mortos. Mas por o teresexperimentado uma vez, a despeito da ordem estabelecida pelosdeuses, o raio de teu avô impe-dirá que o tentes de novo."(Ovídio). A profetisa tinha razão, pois Esculápio seria fulminado porJúpiter por ter ressuscitado Hipólito; mas os que sabem ler ofuturo nem sempre o devem revelar, e Ociroé pagou caro aindiscreção. Compreende imediata-mente que atraiu a cólera dosdeuses, e vê-se transformada em égua. Quer chorar e o que seouve são relinchos. Os dedos se lhe colam um ao outro, asunhas reunidas se transformam em cascos, a boca lhe cresce, opescoço se alonga, a orla da túnica se lhe muda em cauda e oscabelos esparsos formam a crina, que lhe cai à direita dopescoço. Não tardou em espalhar-se a notícia de que o menino queacabava de nascer em Epidauro sabia curar todas as doenças eaté ressuscitar os mortos. Esculápio realizou grande número de maravilhosas curas;mas a sua reputação se deve sobretudo às ressurreições.Quando ressuscitou Hipólito. filho de Teseu, que um monstromarinho matara, Plutão queixou-se a Júpiter, afirmando que lhearrancavam direitos, retirando-lhe súditos, e o senhor dosdeuses, achando justa a queixa, fulminou Esculápio,
  75. 75. Apolo na corte de Admeto Apolo, furioso por ver que Júpiter lhe fulminara o filhoEsculápio, pegou aljava e setas, e foi matar todos os ciclopes,obreiros incumbidos de fabricar o raio. Júpiter expulsou-o docéu, e Apolo, reduzido à condição de simples mortal, viu-seobrigado, para ganhar a vida, a guardar os rebanhos de Admeto,rei da Tessália. Em seguida, com Netuno, foi erguer os muros deTróia para Laomedon, que lhe recusou a recompensa, quando aobra ficou pronta. Apolo vingou-se, enviando uma epidemia àregião. Finalmente, após viver algum tempo na terra, emcondição assaz humilde, Júpiter perdoou-lhe e permitiu-lhesubir de novo ao Olimpo. Albane, não podendo admitir que um deus como Apolodesempenhasse por muito tempo as funções de pastor, no-lomostra no momento em que Mercúrio lhe anuncia a libertação eo fim do exílio. O deus, que com uma das mãos segura a lira ecom a outra o cajado de pastor, percebe ao longe as Musasreunidas nas margens do Hipocrene, e Pégaso no topo doHelicão; no céu, as divindades do Olimpo, sobre nuvens,aprestam-se em lhe dar as boas-vindas. O pastor Aristeu O pastor Aristeu é uma divindade que preside os rebanhos,mas a sua missão especial é sobretudo a educação das abelhas.Era filho de Apolo e da ninfa Cirene. Apolo apaixonou-se poressa ninfa, e desejando saber quem era e a que família pertencia,perguntou-o ao
  76. 76. Fig 223 — Aristeu (segundo uma estátua antiga do Louvre).
  77. 77. centauro Quirão, o qual era adivinho. Este pareceu admiradocom a pergunta. Tu me perguntas, respondeu, qual a origem daninfa, tu que conheces o imperioso destino de todos os seres, tuque contas as folhas que surgem na terra, durante a primavera,e os grãos de areia que as vagas e os ventos fazem rolar nos riose nos mares, tu cuja vista penetrante descobre tudo quantoexiste, tudo quanto há de existir! Mas já que ordenas, vouresponder-te: a sorte conduz-te a estes páramos para seresesposo de Cirene e levá-la além dos mares, aos deliciosos jardinsde Júpiter. Lá, numa colina rodeada de formosos campos, seerguerá uma cidade poderosa, povoada por uma colônia deinsulares da qual a farás rainha. "Em teu favor, a vasta e fecunda Líbia receberá com carinhoessa ninfa destinada a dar leis a uma região igualmente famosapela fertilidade e pelos animais ferozes que nutre. Lá, dará ela àluz um filho que Mercúrio roubará aos beijos da mãe paraconfiá-lo as cuidados da Terra e das Horas, de tronosesplendentes. Essas deusas acolherão o menino divino, pô-lo-ãoao colo, far-lhe-ão escorrer pelos lábios o néctar e a ambrósia e otornarão imortal como Júpiter e Apolo. Será a alegria dosamigos, vigiará numerosos rebanhos, e o seu gosto aos trabalhosdos caçadores e dos pastores fará com que o chamem deAristeu." (Píndaro). O pastor Aristeu foi, sobretudo, grande criador de abelhas,mas é como bom pastor que aparece, em geral, na arte. Inúmerosmonumentos o representam trazendo uma ovelha aos ombros, eos artistas cristãos adotaram esse tipo que aparecefreqüentemente nos seus trabalhos. Nas catacumbas de Roma,Jesus Cristo está representado sob a forma e com os atributosdo pastor Aristeu.
  78. 78. CAPÍTULO X ESCULÁPIO Esculápio e Higéia. — A serpente de Esculápio. — O templo de Epidauro. — Os tratamentos de Esculápio. — Esculá- pio em Roma. — Hércules e Esculápio. Esculápio e Higéia Esculápio aparece na arte com as feições de homemmaduro, expressão suave e risonha, de pé e a cabeleiraamarrada por uma faixa ; segura na mão direita um bordão emtorno do qual se enrola a serpente. Liga-se freqüentemente aum ,jovem, Telésforo (fig. 224). o génio da cura. ou a filhaHigéia, deusa da saúde, de quem a arte fez uma jovem com atesta diademada e traz uma taça onde bebe uma serpente (fig.229). Tivera de sua mulher Epíona (a calmante), vários filhosdentre os quais os mais famosos foram Podalira e Macaon. Hojesão encantadoras borboletas, mas na época da guerra de Tróia,foram prodigiosos médicos.
  79. 79. A serpente de Esculápio A serpente é consagrada a Esculápio e consideradaemblema da medicina. Há várias razões para isso: segundoPlínio, é porque ela se renova mudando de pele. O homemrenova-se igualmente pela medicina, pois os remédios lhe dãocomo que um corpo novo. Segundo Fig. 224 — Telésforo (segundo uma estátua antiga).Higino, foi observando as serpentes, que o deus da medicinadescobriu o segredo de ressuscitar os mortos. Estando um diaEsculápio perto de um enfermo, uma serpente enrolou-se-lhe emtorno do bordão; Esculápio matou-a. Mas, imediatamentedepois, outra, trazendo na boca uma erva, com ela ressuscitou aprimeira. O deus pegou a
  80. 80. F g . 225 — Esculápio (segundo urna estátua antiga).
  81. 81. erva, mal percebeu a maravilhosa propriedade, e dela se valeu apartir de então. Parece, todavia, que a serpente de Esculápio difere da quese vê habitualmente. "Embora, em geral, as serpentes sejam consagradas aEsculápio, essa prerrogativa pertence, no entanto, a uma espécieparticular cuja cor dá para o amarelo. Aquelas não fazem malaos homens e o Epidauro é a única região em que se encontram."(Pausânias). Um baixo-relevo do Vaticano nos mostra Esculápiovisitando um enfermo deitado no leito. No seu quadro da Ofertaa Esculápio, Guérin nos apresenta um ancião Fig. 226 — Esculápio, Higéia e Telésforo.conduzido pelos filhos à presença da imagem do deus; a filhaajoelhada, contempla a serpente que se ergue acima do altar. O culto de Esculápio é velhíssimo na Grécia. Pausâniasatribui-lhe a origem a Alexanor, neto de Esculápio, que teriavivido cerca de cinqüenta anos após a guerra de Tróia. "Alexanor, filho de Macaon e neto de Esculápio, veio àSicionia, e construiu em Titano um templo em honra aEsculápio. Em volta, plantou-se um bosque de ciprestes,atualmente muito velho; as cercanias do templo são habitadaspor várias pessoas, e notadamente pelos ministros do deus.Quanto à estátua que ali se vê, ninguém
  82. 82. saberia dizer de que matéria é feita, com exceção do próprioAlexanor. Está coberta por uma túnica de lã branca e por cimauma manta, de modo que só aparecem o rosto, os pés e as mãos.O mesmo se dá com a estátua de Higéia, perto, pois não a vemosfacilmente, de tal maneira está oculta, quer pela quantidade decabelos que mulheres devotadas lhes sacrificaram, quer pelospedaços de pano de seda de que a ornaram. Quem quer queentre no templo para ali orar é obrigado, em seguida, a dirigir osseus rogos à deusa Higéia." (Pausânias) . Fig. 227 — Esculápio visitando um doente. O templo de Epidauro Epidauro era famosíssima na antiguidade pelo seu templode Esculápio, rodeado por um bosque sagrado de ciprestes.Encontraram-se nele ruínas que se julgam ter pertencido aosantuário do deus. Imensa quantidade de enfermos iam detodas as partes da Grécia a Epidauro em busca de saúde edistração. O culto de Esculápio, que se espalhou por toda parte,fez com que se lhe erguessem grande número de templos,sempre situados nos lugares onde havia águas famosas, e osdoentes ali se reuniam
  83. 83. como nos cassinos, nas nossas estações de águas, durante oslazeres que lhes deixava o tratamento. Fig. 228 — Oferta a Esculápio (segundo um quadro de Guérin). Pausânias nos legou uma descrição do templo de Esculápioem Epidauro : "O bosque consagrado a Esculápio, diz ele, estápor todos os lados rodeado de grandes obstáculos; e nesserecinto não é permitido que morram os doentes e dêem à luz asmulheres, tal qual na ilha de Delos. Tudo quanto se sacrifica aodeus deve ser consumido em tal recinto ; os epidaurianos, comoos estrangeiros, estão sujeitos a essa lei, e sei que a mesma coisa
  84. 84. Fig. 229 — Higéia (estátua antiga).
  85. 85. se observa em Titano. A estátua du deus e de ouro e marfim,porém (luas vezes menor que a de Júpiter Olímpico em Atenas;a inscrição afirma que se trata de uma obra de Trasímedo, filhode Arignoto, e oriundo de Par-cos. O deus está representadonum trono, segurando com uma das mãos, e apoiando a outrasobre a cabeça de uma serpente. Para além do templo,construíram algumas casas para conforto das pessoas que vãofazer as suas preces a Esculápio; mais perto há uma rotonda demármore branco que atrai a curiosidade; vêem-se ali Fig. 230 — Higéia ou a Saúde (segundo uma pedra gravada antiga).pinturas de Pausias; num dos lados um Cupido que se desfez doarco e das setas e empunha uma lira; no outro, a Bebedeira quesorve de uma garrafa de vidro. Através da garrafa, vemos umrosto de mulher. Havia, outrora, no mesmo recinto grandenúmero de colunas, mas só restam atualmente seis, sobre asquais se escrevem os nomes dos que o deus curou: tudo estávazado na língua dórica. Numa antiga coluna que não está nafileira das demais, está escrito que Hipólito consagrou um cavalode bronze a Esculápio, e os habitantes de Arícia possuem
  86. 86. uma tradição a tal respeito, pois dizem que Hipólito, tendomorrido em virtude das imprecações do pai, foi ressuscitado porEsculápio. Nunca perdoou a Teseu a sua crueldade, e, sem daratenção aos seus rogos, foi a Arícia, cidade da Itália, e ali reinoue construiu um templo a Diana." (Pausânias). Os tratamentos de Esculápio Os doentes que iam consultar o deus eram primeiramentesubmetidos a certas práticas higiênicas, como o jejum, asabluções, os banhos, etc. Após tais preliminares, eramautorizados a passar a noite no templo. O deus lhes aparecia amaioria das vezes em sonho e prescrevia-lhes regulamentos queos sacerdotes interpretavam em seguida. Aristófanes, na suacomédia Plutus, faz, com a sua habitual rudeza, umainteressante narração do que se realizava no templo segundo ascrenças populares. O doente de quem fala é um tal Plutus,ferido de cegueira, e a personagem que faz a narração é oescravo Cárion: Cárion. — Mal chegamos ao templo de Esculápio comPlutus, levamo-lo em primeiro lugar ao mar e ali o banhamos.Em seguida, voltamos ao santuário do deus. Após consagrarmossobre o altar os presentes e outras oferendas, e apósentregarmos a flor de farinha à chama de Vulcano, deitamosPlutus com as cerimônias exigidas e cada um de nós se dispôsnum leito de palha. A mulher. — Havia também outras pessoas implorando odeus? Cárion. — Havia em primeiro lugar Neóclides (oradoracusado de ter roubado o dinheiro público), o qual, emboracego, rouba com mais habilidade que os que vêem bem, depoismuitos outros, com toda espécie de doenças. Depois de apagaras lâmpadas, o ministro do deus pediu-nos que dormíssemos e,se ouvíssemos ruído,
  87. 87. que nos calássemos. Deitamo-nos, todos, tranqüilamente.Quanto a mim, não conseguia conciliar o sono; certo prato depapa, colocado à cabeceira de uma velha, excitava a minhacobiça, e eu desejava ardentemente rastejar até lá. Ergo acabeça; vejo o sacerdote tirar os presentes e os figos secos damesa sagrada. Em seguida, dá a volta aos altares, um depois dooutro, e todos os presentes que encontrava guardava-oscuidadosamente numa sacola. Eu, convencido da grande santidade da ação, salto sobre oprato de papa. A mulher. — Miserável! Não temias o deus? Cárion. — Sim, sem dúvida; temia que com a sua coroachegasse antes de mim ao prato; a atitude do sacerdote falava-me claro; a velha, ouvindo um ruído, estendeu a mão pararetirar o prato; assobio então como serpente, e mordo-a.Imediatamente ela retira a mão, e se envolve, calada, nascobertas, soltando, de medo, um gás mais pavoroso que o de umgato. Como a papa, e torno a deitar-me de ventre cheio. A mulher. — E o deus não vinha? Cárion. — Não. Depois, todavia, fiz uma boa farsa: quandoele se aproximou, fiz ressoar uma descarga das maisestrondosas, pois tinha o ventre bem cheio. A mulher. — Sem dúvida, rompeu em imprecações contra ti? Cárion. — Limitou-se apenas a não dar atenção. A mulher. — Queres dizer que este deus é grosseiro? Cárion. — Não, mas gosta da imundície (1). A mulher. — Ah, miserável! Cárion. — Entretanto, afundei no leito, de medo. O deus deua volta e visitou gravemente todos os enfermos. Em seguida, umescravo lhe trouxe um almofariz de pedra, um pilão e umacaixinha. A mulher. — Mas como pudeste ver tudo isso, uma vez quete havias ocultado? Cárion. — Vi tudo através do meu manto, que está repletode buracos. O deus pôs-se primeiramente a preparar umcataplasma para os olhos de Neóclides : pegou três cabeças dealho de Tenos, que amassou no almofariz, com uma mistura degoma e de suco de lentisco; banhou________________ (1) Alusão aos médicos que comprovam o estado do enfermo pelainspeção dos excrementos.
  88. 88. tudo com vinagre esfetiano, depois aplicou-o no interior daspálpebras, para tornar menos pungente a dor. Neóclides gritoucom toda a força e quis fugir. Mas o deus lhe disse, rindo: ficaaqui com o teu cataplasma; quero impedir que prodiguesperjúrios na assembléia. A mulher. — Que deus sábio e patriota! Cárion. — Em seguida, aproximou-se de Pluto; em primeirolugar, auscultou-lhe a testa, depois lhe enxugou os olhos comum pano bem limpo: Panacéia cobriu-lhe a cabeça e o rosto comum véu de púrpura; o deus assobiou, e imediatamente duasenormes serpentes saíram do fundo do templo. A mulher. — Grandes deuses! Cárion. — Elas, depois de se infiltrarem suavemente sob ovéu de púrpura. lamberam, assim creio, as pálpebras doenfermo; e em menos tempo do que levarias tu para beber dezcótilos de vinho, Pluto recobrou a vista. Eu, contentíssimo, batias mãos e despertei o amo. Imediatamente o deus desapareceu, eas serpentes se ocultaram no fundo cio templo Mas os quedormiam perto de Pluto. com que afobação não o apertaramentre os braços! Ficaram acordados a noite inteira, até oaparecimento do dia. Quanto a mim, não cessava de agradecerao deus ter devolvido tão depressa a vista a Pluto, e aumentado acegueira de Neóclides. A mulher. — Divino poder de Esculápio!... (Aristófanes). Esculápio em Roma Esculápio foi igualmente honradíssimo pelos romanos.Havia três anos que uma enfermidade contagiosa fazia em Romagrandes estragos, sem que nenhum remédio parecesse pôr cubroao terrível flagelo. Os pontífices, encarregados de consultar oslivros das Sibilas, verificaram
  89. 89. que o único meio de devolver a salubridade a Roma era mandarvir Esculápio de Epidauro. Para tanto, foram ali enviadosembaixadores e o deus se mostrou favorável, visto que permitiuque a sua serpente surgisse aos envia-dos de Roma. e com elesembarcasse no navio. Os embaixadores, satisfeitíssimos,apressaram-se em desfraldar as velas, após se informarem damaneira pela qual a serpente devia ser homenageada. Mal onavio entrou em Roma. a serpente, lançando-se a nado, arribouà ilha onde, mais tarde se lhe ergueu o templo. A epidemiacessou imediatamente. (Valério Máximo). Fig. 231 — Esculápio na ilha do Tibre (segundo um medalhão de Cômodo). Hércules Esculápio Esculápio recebeu após a morte honras divinas, e foi admitido à mesa dos deuses, mas a darmos crédito as autores cômicos, brigou com Hércules, por uma questão de precedência. Júpiter tentou acalmá-los. "Cessai, disse-lhe, de brigar como homens; é uma coisa inconveniente e indigna da mesa dos deuses.
  90. 90. Hércules. — Queres, pois, Júpiter que este envenenador sesente antes de mim? Esculápio. — Certamente, pois que valho muito mais! Hércules. — Como, cérebro queimado? Será por te haverJúpiter fulminado por teres feito o que não devias fazer, e porteres sido admitido por simples piedade a partilhar do nossoimortal destino? Esculápio. — Esqueces tu, Hércules, de que foste queimadono Eta, tu que me censuras por ter passado pelo fogo. Hércules. — Pretendes insinuar, com isso, que vive-mos damesma maneira? Filho de Júpiter, realizei prodigiosos trabalhos,purificando o mundo, lutando contra os seus monstros, punindoos bandidos que ultrajavam a humanidade; tu não passas de umherborista, de um charlatão, bom no máximo para aplicarremédios aos doentes, e nunca fizeste nada que fosse varonil. Esculápio. — Tens razão. Mas fui eu quem curou as tuasqueimaduras, quando há pouco vieste ter aqui, com o corpoassado num dos lados pela túnica do centauro, e no outro pelofogo. E se nada mais me restasse por dizer, não fui escravo comotu, não cardei lã na Lídia. vestido por uma túnica de púrpura,recebendo golpes da sandália dourada de Onfale, e sobretudo,num acesso de fúria, não matei meus filhos nem minha mulher. Hércules. — Se não acabares com as tuas insolências,saberás daqui a pouco que a tua imortalidade não poderáimpedir que eu te agarre e te atire para fora do céu, de cabeçapara baixo. Júpiter. — Calai-vos ambos, não perturbeis a reunião. Docontrário, pôr-vos-ei fora da porta." (Luciano).
  91. 91. CAPÍTULO XI O SOL O Sol e a ilha de Rodes. — Os sinais do Zodíaco. — O carro do Sol. — Queda de Faetonte. — As irmãs de Faetonte. — O rei Cicno. O Sol e a ilha de Rodes Hélios, o Sol, era na primitiva antiguidade inteiramentediverso de Apolo, com o qual se identificou posteriormente. O Solvê tudo e revela tudo o que vê: ele é que denuncia a Vulcano ainfidelidade de sua mulher, a Ceres o rapto da filha; o crime deAtreu o faz recuar horrorizado. Mas tais fatos não poderiam serrelacionados a Apolo, a cujo lado vemos o Sol formando umapersonagem distinta, num baixo-relevo que representa Marte eVênus surpreendidos por Vulcano.
  92. 92. Uma antiga estátua nos mostra o Sol sob forma de jovemvestido, segurando numa das mãos uma bola, e na outra acornucópia : os cavalos que lhe conduzem o carro estãofigurados em busto ao seu lado (fig. 232). O famoso colosso deRodes que, segundo uma tradição errônea, deixava os naviospassar com todas as velas enfunadas entre as pernas, era umaimagem do Sol e a mesma efígie se vê nas medalhas de Rodes.Quando, após a queda dos Titãs, os deuses olímpicos dividiramentre si o mundo, o Sol, que lá não estava, foi esquecido:queixou-se, e a ilha de Rodes saiu dos mares expressamentepara lhe ser consagrada. Um belo baixo-relevo, descobertorecente-mente na antiga Tróia, mostra o Sol de cabeça radiada,conduzindo o seu carro : numa pintura de Herculanum vemo-loconversando com uma das Horas. Os sinais do Zodíaco O Zodíaco é o espaço do céu que o sol percorre durante oano e que está dividido em doze partes, onde se encontram dozeconstelações que correspondem aos seguintes sinais (fig. 233) :— 1, o Carneiro (abril) está acompanhado da pomba de Vênus; —2, o Touro (maio) tem ao seu lado o tripé de Apolo; — 3, osGêmeos (junho) estão seguidos da tartaruga de Mercúrio; — 4, oCâncer (julho) está unido à águia de Júpiter; — 5, o Leão (agosto)está unido ao cesto de Ceres, rodeado pela serpente mística; —6, a Virgem (setembro) segura dois fachos e está acompanhadado barrete de Vulcano; — 7, a Balança (outubro), segura por ummenino, tem perto a loba de Marte; — 8, o Escorpião (novembro)tem o cão de Diana; — 9, o Sagitário (dezembro), tem a lâmpadade cabeça de asno de Vesta; — 10, o Capricórnio (janeiro), opavão de Juno; — 11, o Aquário (fevereiro) os delfins
  93. 93. Fig. 232 — O Sol (segundo uma estátua antiga).

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