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René Menard - Mitologia greco-romana – vol. 2
 

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    René Menard - Mitologia greco-romana – vol. 2 René Menard - Mitologia greco-romana – vol. 2 Document Transcript

    • RENÉ MENARD VOLUME II
    • Titulo do original francêsLA MYTHOLOGIE DANS LART ANCIEN ET MODERNE EDITOR PIETRO MACERA DIREÇÃO EDITORIAL TRADUÇÃO REVISÃO FINAL SALVATORE MACERA NETOMONTAGEM E ARTE FINAL EQUIPE DE ARTE ALDO DELLA NINA EQUIPE DE REDAÇÃO Nossos agradecimentos pelo constante incentivo que recebemos de: MARGHERITA STEFANELLI MACERA IN MEMORIAM R. MARIO STEFANELLI SALVATORE CHRISTINA MACERA NICOLA STEFANELLI ANGELINO MACERA GIOVANNI GRILO EMILIA GIOVANNA A. MACERA JOSÉ LASTORINA MARIANA MACERA ANTONIETA MACERA
    • Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode serreproduzida ou utilizada de qualquer forma ou por qualquer método, eletrônico oumecânico, sem autorização prévia por escrito dos Editores. 1ª Edição 1985 2 ª Edição 1991 Impresso no Brasil Printed in Brazil
    • Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ménard, René, 1827-1887. Mitologia greco-romana / Rene Menard ; tradução Aldo Della Nina. — São Paulo : Opus, 1991. Obra em 3 v. 1. Mitologia grega 2. Mitologia romana I. Título.91-1334 CDD-292 Índices para catálogo sistemático: 1. Mitologia greco-romana 292
    • LIVRO III APOLO E DIANA
    • CAPÍTULO I LATONA E SEUS FILHOS Nascimento de Apolo e Diana. — Latona e a serpente Pitão. — Os camponeses carianos. Nascimento de Apolo e Diana Apolo e Diana são filhos de Júpiter e de Latona, personificação da Noite, divindade poderosa cuja união com Júpiter produziu o Universo. Segundo a tradição, Latona vê-se, em seguida, relegada ao segundo lugar e quase não aparece na mitologia a não ser como vítima de Juno. A Terra, por instigação de Juno, quis impedi-la de achar lugar onde pudesse dar à luz os filhos que trazia no seio. Entretanto, Netuno, vendo que a infeliz deusa não encontrava abrigo onde quer que fosse, comoveu-se e fez sair do mar a ilha de Delos. Sendo essa ilha, a princípio, flutuante, não pertencia à Terra, que assim não pôde nela exercer a sua funesta ação. "Delos, diz o hino homérico, rejubilou-se com o nascimento do deus que atira os seus dardos para longe.
    • Durante nove dias e nove noites, foi Latona dilacerada pelascruéis dores do parto. Todas as deusas, as mais ilustres,reúnem-se-lhe em torno. Dionéia, Réa, Têmis que persegue osculpados, a gemedora Anfitrite, todas, exceto Juno dos braçosde alabastro, que ficou no palácio do formidando Júpiter.Entretanto, somente Ilitia, deusa dos partos, é que ignorava anova; achava-se sentada no topo do Olimpo, numa nuvem deouro, retida pelos Fig. 181 — Apolo, Diana e Latona (segundo Flaxman).conselhos de Juno, que sofria um ciúme furioso, porqueLatona dos cabelos formosos iria certamente dar à luz umfilho poderoso e perfeito. "Então, a fim de levarem Ilitia, as demais deusasenviaram de Delos a ligeira Íris, prometendo-lhe um colar defios de ouro, com nove cúbitos de comprimento.Recomendam-lhe sobretudo que a advirta, à revelia de Juno,de medo que esta a detenha com as suas palavras. Iris,rápida como os ventos, mal recebe a ordem, parte e cruza oespaço num instante.
    • "Chegada à mansão dos deuses no topo do Olimpo, Írispersuadiu Ilitia, e ambas voam como tímidas pombas. Quando adeusa que preside aos partos chegou a Delos, Latonaexperimentava as mais vivas dores. Prestes a dar à luz,abraçava uma palmeira e os joelhos apertavam a relva mole. Embreve nasce o deus; todas as deusas dão um grito religioso.Imediatamente, divino Febo, elas te lavam castamente,purificam-te em límpida água e te envolvem num véu branco,tecido delicado, que elas cingem com um cinto de ouro. Latonanão aleitou Apolo de gládio resplendente. Têmis, com as suasimortais mãos, oferece-lhe o néctar e a divina ambrósia. Latonaalegrou-se enormemente por ter gerado o valoroso filho queempunha um temível arco." Apolo e Diana nasceram, pois, em Delos, e é por isso queApolo se chama, freqüentemente, o deus de Delos. Uma lindacomposição de Flaxman mostra Ilitia que acaba de assistir aLatona no penoso parto das duas jovens divindades. Fig. 182 — Latona perseguida pela serpente Pitão (segundo uma pintura de vaso).
    • Latona e a serpente Pitão Entretanto Juno, não conseguindo perdoar à rival ter sidoamada por Júpiter, instigou contra ela um monstruoso dragão,filho da Terra, chamado Delfíneo ou Pitão, que fora incumbidoda guarda dos oráculos da Terra, perto da fonte de Castalia.Obedecendo às sugestões de Juno, Pitão perseguia sem cessar ainfeliz deusa, que escapava da sua presença apertando entre osbraços os filhos. Num vaso antigo, vemo-lo sob a forma de umalonga serpente que ergue a cabeça, desenrolando o corpo, epersegue Latona. A deusa teme, enquanto os filhos, que nãopercebem o perigo, estendem os bracinhos para o monstro. Os camponeses carianos Quando Latona, perseguida pela implacável Juno, fugiacom os dois filhos ao colo, chegou à Caria. Num dia de intensocalor, deteve-se aniquilada pela sede e pelo cansaço às margensde um tanque do qual não ousava aproximar-se. Mas algunscamponeses ocupados em arrancar caniços impediram-na debeber, expulsando-a brutalmente. A infeliz Latona rogou-lhes,em nome dos filhinhos, que lhe permitissem sorver umas gotasde água, mas eles a ameaçaram se se não afastasse quantoantes, e turvaram as águas com os pés e as mãos, a fim de quea lama revolvida aparecesse à tona. A cólera de que Latona sesentiu possuída fez com que se esquecesse da sede, elembrando-se de que era deusa: "Pois bem, disse-lhes, erguendoas mãos ao céu, ficareis para sempre neste tanque." O efeitoseguiu de perto a ameaça, e
    • aqueles desalmados se viram transformados em rãs. Desdeentão, não cessam de coaxar com voz rouca e de chafurdar nalama. Alguns lobos, mais humanos que os camponeses,conduziram-na às margens do Xanto, e Latona pôde fazer assuas abluções nesse rio, que foi consagrado a Apolo. Rubens, nomuseu de Munich e Albane no Louvre possuem quadros em quevemos Latona e os filhos na presença dos camponeses de Caria,que a repelem e se transformam em rãs. Na fonte de Latona, emVersalhes, Balthazar Marsy representou a deusa, com os doismeninos, implorando a vingança do céu contra os insultos doscamponeses. Cá e lá, rãs, lagartos, tartarugas, camponeses ecamponesas cuja metamorfose se inicia, lançam contra Latonajatos de água que se cruzam em todos os sentidos. Fig. 183 — Latona e seus filhos (em Versalhes)
    • CAPÍTULO II FEBO-APOLO O tipo de Apolo — Jacinto metamorfoseado em flor. — Ciparissa e o seu cervo. O tipo de Apolo Esplendente é o epíteto que se dá a Apolo, consideradodeus solar. Apolo atira ao longe as suas setas, por-que o soldardeja ao longe os seus raios. É o deus profeta, porque o solilumina na sua frente e vê, por conseguinte, o que vai suceder;é o condutor das Musas e o deus da inspiração, porque o solpreside às harmonias da natureza; é o deus da medicina,porque o sol cura os doentes com o seu benéfico calor. Apolo, o Sol, o mais belo dos poderes celestes, o vencedordas trevas e das forças maléficas, tem sido representado pelaarte sob vários aspectos. Nos tempos primitivos, um pilarcônico, colocado nas grandes estradas, bastava para lembrar opoder tutelar do deus.
    • Quando nele se pendem as armas, é o deus vingador que premiae castiga; quando nele se pendura uma cítara, Fig. 184 — Apolo (segundo um busto antigo).torna-se o deus cujos harmoniosos acordes devolvem a calma àalma agitada. O Apolo de Amicleu, reproduzido em medalhas, pode daruma idéia do que eram, na época arcaica, as Fig. 185 — Apolo de Amicleu
    • primeiras imagens do deus, sensivelmente afastadas do tipo quea arte adotou mais tarde. Em bronzes de data menos antiga, masainda anteriores à grande época. Apolo está representado comformas mais vigorosas do que elegantes, e os anéis achatados dasua cabeleira o aproximam um pouco das figuras de Mercúrio. No tipo que tem dominado, Apolo usa cabelos longuíssimos,separados por uma risca no meio da cabeça e afastados de cadalado da testa. Às vezes, eles se prendem atrás, na nuca, mas,outras, flutuam. Vários bustos e moedas nos mostram taisdiferentes aspectos. "A figura oval-alongada, diz Ottfried Mueller, que o cróbilofreqüentemente colocado sobre a testa mais ainda alonga,servindo, por assim dizer, de topo à figura inteira que pareceaspirar à morada divina, revela uma doce plenitude, uma energiacompleta e uma força cheia de maturidade. Em todas as feiçõesrespira um senti-mento elevado, altivo e franco, sejam quaisforem as modificações a que o artista submete a ideal figura. Asformas dos membros são delgadas e moles ; os quadris altos Fig 186 — Apolo (segundo moedas antigas).as coxas longas; os músculos, sem serem salientes, e muito aocontrário bem fundidos na massa do corpo, são, no entanto,suficientemente ressaltados para porem em evidência amaleabilidade do corpo e o vigor dos seus movimentos." Apolo é sempre representado jovem e imberbe, por-que o solnão envelhece. Algumas das suas estátuas o mostram até com oscaracteres cia adolescência, por
    • Fig. 187 — Apolo Sauróctone (segundo uma estátua antiga).
    • exemplo o Apollino de Florença. No Apolo Sauróctone, o jovemdeus está acompanhado de um lagarto, que ele sem dúvidaacaba de excitar com a flecha para o arrancar ao torpor eobrigá-lo a caminhar. Apolo, nesse caráter, é considerado o solnascente, ou o sol da primavera, porque a presença do lagartocoincide com os seus primeiros raios (fig. 188). O grifo é um animal fantástico, que vemos freqüentementeperto da imagem do deus (fig. 189) ou atrelado ao seu carro.Tem a cabeça e as asas de águia, com Fig. 188 — Combate dos grifos contra os arimaspes.corpo, patas e cauda de leão. Os grifos têm por missão guardaros tesouros que as entranhas da terra ocultam, e é para obter oouro de que são detentores, que os Arimaspes lutamconstantemente contra eles. Os combates constituem o tema degrandíssimo número de representações, principalmente emterracotas ou em vasos. Os Arimaspes são guerreiros fabulosos,que usam vestes análogas às das amazonas. Uma pintura devaso no-los mostra combatendo grifos, providos de cristas epenachos,
    • Fig. 189 — Apolo e o grifo.
    • Jacinto metamorfoseado em flor Teve Apolo vários amigos, entre outros Jacinto, jovemlacedemônio dotado de maravilhosa beleza. "Um lia, dizOvídio, por volta do meio-dia, após tirarem as vestes efazerem escoar pelos membros o lúcido suco da oliva, ojovem e o deus desafiaram-se para um jogo de disco. Apolocomeça; o seu disco parte, fende a nuvem e só cai sobre aterra muito tempo depois; o deus pretendia demonstrar todaa sua habilidade e força. Arrebatado pelo ardor do jogo, ojovem corre a recolher o disco; mas, repelido pela terra, odisco salta e bate-lhe em pleno rosto ; ) adolescenteempalidece, e o próprio deus empalidece; Apolo acorre,aperta entre os braços o infeliz Jacinto e estanca-lhe osangue da ferida; emprega todos os recursos da sua artepara conservar-lhe a vida. Mas é em vão! O ferimento eramortal. Assim como vemos o lírio, a papoula e a violeta, cujahaste se partiu, curvar-se para ) chão, agonizantes, a cabeçado jovem Jacinto, já coberta peja palidez da morte, cai-lhesobre os ombros ... Enquanto Apolo se entrega à dor, osangue espalhado pela relva desaparece; uma flor novanasce, uma flor mais brilhante que a púrpura e de formatosemelhante ao do lírio. Não basta ao deus prestar tão tristehomenagem à memória do amigo; quer ainda que aquela florprove Fig. 190 — Jacinto (segundo uma estátua de Bosio, museu do Louvre).
    • para sempre o seu infortúnio; liga-lhe a expressão e os sinais dador, traçando nela as letras Ai!" (Ovídio). O jacinto de Peloponeso tem matiz escuro; os antigos oconsideravam emblema da morte. Uma estátua de Apolo foi erguida em Amicleu sobre otúmulo de Jacinto, e no pedestal, via-se num baixo-relevo ojovem levado ao céu. Uma linda pedra gravada mostra Jacintodurante a sua metamorfose em flor. Há no Louvre, no museu deescultura, uma estátua de Callamard que representa Jacintolevando a mão ao ferimento que acaba de receber na testa : odisco que o feriu está-lhe aos pés. Bosio, numa encantadoraestátua, esculpiu Jacinto semideitado e vendo Apolo atirar,enquanto aguarda a sua vez (fig. 190). Ciparissa e o seu cervo Outro amigo de Apolo, Ciparissa, foi vítima de singularmetamorfose. Havia um cervo, cujas pontas eram douradas, e asninfas, às quais ele era consagrado, o tinham enfeitado combrincos e um lindo colar de pérolas. O cervo era bem manso, eentrava de boa vontade nas casas para que o acariciassem; masninguém o amava tanto quanto Ciparissa, o mais belo rapaz dailha de Cos. Tinha o cuidado de levá-lo aos melhores pastos e defazê-lo beber nas fontes mais puras, e ornava-lhe as pontas comgrinaldas de flores. Um dia, enquanto o cervo repousava numbosque, Ciparissa, que o viu sem o reconhecer, o varou com umaseta, e sentiu tal pesar que preferiu matar-se. Apolo, vendo-oagonizar, transformou-o em cipreste.
    • CAPÍTULO III O TRIPÉ DE APOLO Delfos, centro do mundo. — Apolo, vencedor de Pitão. — A disputa do tripé. — O oráculo de Delfos. — Predições a Laio. — Édipo e Laio. — A esfinge. — As desventuras de Édipo. — Édipo e Antígona. Delfos, centro do mundo O sol vê antes dos homens porque produz a luz com osseus raios; é por isso que prevê o futuro e pode revelá-lo aoshomens. Esse caráter profético é um dos atributos essenciais deApolo; dá os seus oráculos no templo de Delfos, situado nocentro do mundo. Ninguém duvida de tal fato, porque tendoJúpiter soltado duas pombas nas duas extremidades da terra,elas voltaram a encontrar-se justamente no ponto em que está oaltar de Apolo. Assim, em vários vasos, vemos Apolo sentado noomphalos (o umbigo da terra), de onde dá os oráculos (fig. 191).
    • Apolo, vencedor de Pitão Delfos chama-se também às vezes Pito, do nome daserpente Pitão, que ali foi morta por Apolo. Apolo, provido de temíveis setas, quis experimentá-lasferindo o perseguidor da sua mãe. Mal o monstro se senteatingido, é presa das mais vivas dores e, respirando comesforço, rola sobre a areia, assobia espantosa-mente, torce-seem todas as direções, atira-se ao meio da floresta e morreexalando o hálito empestado. Fig. 191 — Apolo no omphalos. Apolo contentíssimo com o triunfo, exclama : "Que o teucorpo seco apodreça nesta terra fértil; não serás mais oflagelo dos mortais que se nutrem dos frutos da terrafecunda, e eles virão imolar-me aqui magníficas hecatombes;nem Tifeu, nem a odiosa Quimera poderão arrancar-te àmorte; a terra e o sol no seu curso celeste farão apodreceraqui o teu cadáver." (Hino homérico).
    • Aquecido pelos raios do sol, o monstro começa a apodrecer.Foi assim que aquela região tomou o nome de Pito : oshabitantes deram ao deus o nome de Pítio, porque em taislugares o sol, com os seus raios devoradores, decompôs o terrívelmonstro. Segundo as narrações dos poetas, o fato deve ter-severificado quando Apolo era ainda adolescente, mas ocrescimento dos deuses não está submetido às mesmas leis queo dos homens, e quando os escultores representam a vitória deApolo, mostram o deus com as feições de um jovem que jáatingiu a plenitude da força. É o que se nos depara numa dasmaiores obras-primas da escultura antiga, o Apolo do Belvedere.Essa estátua, de mármore de Luni, foi descoberta no fim doséculo quinze, perto de Capo dAnzo, outrora Antium, e,adquirida pelo papa Júlio II, então cardeal em vésperas de sereleito para o pontificado, mandou ele a colocassem nos jardinsdo Belvedere (fig. 192). Todas as fórmulas da admiração foram esgotadas diante doApolo do Belvedere, e a estátua, desde que se tornou conhecida,não deixou de provocar o entusiasmo dos artistas. Eis adescrição que dela faz Winckelmann, na sua História da arte: "Aestatura do deus é superior à do homem e a sua atitude revelamajestade. Uma eterna primavera, tal qual a que reina noscampos felizes do Elísio, reveste de simpática mocidade osencantos do seu corpo, e brilha com doçura na orgulhosaestrutura dos seus membros... Perseguiu Pitão, contra o qualtendeu pela primeira vez o temível arco; no seu rápido curso,atingiu-o e infligiu-lhe golpe mortal. Do alto do seu con-tentamento, o seu augusto olhar, penetrando no infinito, seestende para muito além da vitória. Nos lábios se lhe vê odesdém; mas uma inalterável tranqüilidade se lhe imprime natesta, e os olhos estão repletos de doçura, como se ele se achasseno meio das Musas. . ." O triunfo de Apolo está representado num baixo-relevoantigo, onde a Vitória personificada, Nicé, verte o licor sagradoao deus que empunha a lira e está seguido de Diana que segurao facho, e de Latona. O Deus apresta-se a cantar a vitória, diantedo seu altar que se vê no primeiro plano; no fundo, aparece otemplo de Apolo (fig. 193).
    • Fig. 192 — Apolo do Belvedere (segundo uma estátua antiga. em Roma).
    • Apolo, após matar a serpente Pitão, envolveu o tripé com apele do monstro que, antes dele, possuía o oráculo. Umamedalha de Crotona nos mostra o tripé entre Apolo e a serpente: o deus dispara a seta contra o inimigo. Foi por ocasião dessavitória que Apolo instituiu os jogos pítios. Fig. 193 — Apolo, Diana e Latona (segundo um baixo-relevo antigo). A disputa do tripé Uma vivíssima disputa, freqüentemente representada nosbaixos-relevos da época arcaica, verificou-se entre Apolo eHércules em torno do famoso tripé. Hércules consulta Pítia emcircunstância na qual esta se recusara a responder. O herói,enfurecido, apoderou-se do tripé, que Apolo resolveuimediatamente reconquistar. Foi tão viva a luta entre os doiscombatentes que Júpiter se viu obrigado a intervir mediante oraio (fig. 194).
    • O tripé de Apolo foi freqüentemente representado na arteantiga, e restam-nos monumentos em que vemos até que pontose unia o bom gosto à riqueza na escultura ornamental dosantigos. Fig. 194 — Apolo combatendo Hércules que rapta o tripé de Delfos (segundo um baixo-relevo antigo, museu do Louvre). O oráculo de Delfos O oráculo de Apolo, em Delfos, era o mais famoso daGrécia. Foi o acaso que levou ao descobrimento do lugar em quedeveria erguer-se o santuário. Umas cabras errantes nosrochedos do Parnaso, aproximando-se de um buraco
    • do qual saíam exalações malignas, furam tornadas deconvulsões. Acorrendo à notícia daquele prodígio, os habitantesda vizinhança quiseram respirar as mesmas exalações eexperimentar os mesmos efeitos, uma espécie de loucura mistode contorsões e brados, e seguida do dom da profecia. Tendo-sealguns frenéticos atirado ao abismo de onde proviam os vaporesproféticos, colocou-se sobre o buraco uma máquina chamadatripé, por ter três pés sobre os quais pousava, e escolheu-se umamulher para a ele subir e poder, sem risco, receber aembriagadora exalação. Na origem, a resposta do deus, tal qual a davam ossacerdotes, era sempre formulada em versos; mas tendo tido umfilósofo a idéia de perguntar porque o deus da poesia se exprimiaem maus versos, a ironia foi repetida por todos, e o deus passoua falar somente em prosa, o que lhe aumentou o prestígio. A crença de que o futuro pudesse ser predito de maneiracerta pelos oráculos, desenvolveu singularmente na antiguidadea idéia da fatalidade, que em nenhuma parte transparece tãonitidamente como na lenda de Édipo; os seus esforços nãoconseguem livrá-lo à sentença que lhe foi anunciada pelooráculo, e tudo quanto ele faz para evitar o destino só lhe aceleraos inclementes decretos. Predições a Laio Laio, filho de Lábdaco, rei de Tebas, subiu ao trono pelamorte de seu tio Lico que se havia apoderado do poder, emdetrimento do sobrinho. Não tendo filhos, foi consultar Apolo erogou-lhe lhe concedesse filhos. Respondeu-lhe o deus: "Rei deTebas, dos valorosos corcéis, teme tornar-te pai, apesar dosdeuses! Se deres nasci-mento a um filho, este há de fazer-temorrer, e toda a família nadará no sangue." Nada obstante, teveLaio um
    • filho, e, lembrando-se do oráculo do deus, entregou-os aospastores, a fim de que o expusessem num prado consagrado aJuno, no pico do Citerônio, após furar-lhe os calcanhares comum ferro pontudo; tinha o menino o nome de Édipo. Outrospastores, recolhendo-o, entregaram-no à ama que o confiou auma nutriz, dando ao mesmo tempo a crer ao marido que o deraà luz. Uma bela estátua de Chaudet, que se encontra no Louvre,nos mostra o pastor Forbas, segurando nos braços o peque-ninoÉdipo, a quem dá de beber. Forbas era um pastor de Políbio dequem Édipo se julgava filho (fig. 195). Édipo e Laio Entretanto, quando Édipo chegou à idade adulta, umaconversação ouvida num festim lhe suscitou dúvidas sobre o seunascimento, e desejando conhecer o autor dos seus das, foi aDelfos consultar o oráculo de Apolo. Mas o deus, sem lheesclarecer as dúvidas. declara-lhe que o seu destino é matar opai e desposar a mãe Horrorizado com tal oráculo resolveu Édiponão voltar para perto dos pais. que o haviam criado, eenveredando por uma estrada oposta, encaminhou-se para olado de Tebas. Pelo caminho, encontrou um carro, cujo cocheirolhe gritou com imperiosidade : "Estrangeiro, afasta-te, dápassagem ao rei." Ao mesmo tempo o carro passa brutalmente elhe faz sangrar os pés. Trava-se luta, e Édipo Inata o homem queviajava no carro. Esse homem era Laio, que, ansioso por saber seo menino que mandara expor estava realmente morto e se nãohavia mais razão de temer a antiga profecia, fora a Delfosconsultar o deus. Assim, Édipo, sem o saber, tornou-seassassino do próprio pai.
    • Fig. 195 — O pastor Forbas dando de beber a Édipo (grupo de Chaudet, museu do Louvre),
    • A esfinge Uma terrível esfinge, nascida de Tifão e de Equidna, levou,pouco após a morte de Laio, a desolação às cercanias de Tebas.Ocupando a estrada, propunha enigmas aos viajantes, e matavaos que não logravam adivinhar o sentido. Assim pereceu elevadonúmero de infelizes, e tendo o rei Laio morrido recentemente,propuseram os tebanos a coroa e a mão da rainha a quem oslivrasse daquele flagelo. Édipo apresentou-se : "Qual é,perguntou-lhe a esfinge, o animal que tem quatro pés de manhã,dois ao meio-dia, e três ao cair da noite? — É o homem, res-pondeu Édipo; na infância, anda de gatinhas; na velhice, apoia-se a um bordão." Então e em conformidade com a decisão dooráculo, foi a esfinge atirar-se às ondas. A esfinge, ou antes a esfinge de Tebas, é talvez,mitologicamente, uma recordação da esfinge egípcia, mas a artelhe dá forma assaz diferente. As moedas a mostram com acabeça e peito de mulher, unidos ao corpo de leoa (fig. 196).Assim aparece em várias pedras gravadas. Fig. 196 — A esfinge (segundo uma moeda antiga).Numa delas, a esfinge está sentada no alto de um rochedo,diante de Édipo que se encontra de pé, respondendo à pergunta.Ossadas humanas revelam a sorte reservada aos que nãosouberam decifrar o enigma (fig. 197). Em outra pedra gravada,a esfinge atira-se contra Édipo, que apresenta o escudo no qualela se fixa; o herói está
    • nu e empunha a espada (fig. 198). Na arte dos últimos séculos,um célebre quadro de lugres representa Édipo interrogando aesfinge, cujas últimas vítimas surgem à beira do precipício. Fig. 197 — Édipo diante da esfinge (segundo uma pedra gravada antiga). As desventuras de Édipo Édipo tornou-se rei de Tebas, e, de acordo com o que forapredito, desposou a viúva elo rei Laio, sem saber que era suaprópria mãe. Espantosas calamidades tombaram então sobre acidade de Tebas; o povo rumou para o palácio de Édipo, certo deque o que soubera livrá-lo da esfinge conseguiria também aliviar-lhe os males. Foi o grão-sacerdote que falou em nome de todos."Édipo,
    • disse ele, soberano do meu país, vês que multidão se amontoaem torno dos altares diante cio teu palácio, crianças que mal sesustêm de pé, sacerdotes arcados ao peso da velhice, eu,pontífice de Júpiter, e o escol da mocidade; o resto do povo, comramos de oliveira, se dissemina pelas praças públicas, diante dosdois templos de Palas, perto do profético altar de Apolo. Tebas, jádemasiadamente batida pela tormenta, não mais pode erguer acabeça do mar de sangue em que mergulhou; a morte atinge osgermes dos frutos nas entranhas da terra; a morte fere osrebanhos e faz perecer o filho no seio da mãe; uma divindadeinimiga, a peste devoradora, devasta a cidade Fig. 198 — Édipo atacado pela esfinge (segundo uma pedra gravada antiga).e despovoa a raça de Cadmo, o negro Plutão se locupleta com asnossas lágrimas e os nossos gemidos... Foste tu que, vindo àcidade de Cadmo, a livraste do tributo que ela pagava à esfingecruel, e com o auxílio dos deuses te tornaste nosso libertador.Hoje, outra vez, Édipo, suplicamos-te um remédio aos nossosmales, quer te ilumine um deus com os seus oráculos, quer umhomem com os seus conselhos. Vem, tu que és o melhor dosmortais, reergue a cidade abatida: vela por nós, pois é a ti, hoje,
    • que esta cidade chama seu salvador, em virtude dos serviçospassados." (Sófocles). Para conhecer a causa dos males que afligiam a cidade,Édipo enviou a Delfos um representante que consultasse ooráculo. "O flagelo, respondeu o deus, só cessará quando ostebanos tiverem expulsado do seu território o assassino de Laio."Imediatamente ordena Édipo que se façam por toda parte buscaspara descobrir o paradeiro do assassino, e indignado com a idéiade que um só homem tem a culpa das desgraças de um povointeiro, lança contra ele imprecações: "Seja quem for esseindivíduo, proíbo a todo habitante desta cidade em que reino queo receba, que lhe dirija a palavra, que o admita às preces e aossacrifícios divinos, que lhe apresente a água lustral; que todos orepilam das suas casas como flagelo da pátria; assim moordenou o oráculo do deus que adoramos em Delfos. Assimprocedendo, obedeço ao deus, e vingo o rei que já não existeAmaldiçoo o autor oculto do crime, quer o tenha cometidosozinho, quer tenha tido cúmplices; proscrito, deverá arrastaruma vida miserável. E se for admitido ao meu palácio, ao meular, e com o meu consentimento, submeto-me eu também àsimprecações que lanço contra os culpados." (Sófocles). Entretanto, como não havia índice nenhum para descobrir oculpado, e como o flagelo assumisse proporções fantásticas,Édipo mandou procurar o adivinhador Tirésias. O adivinhorecusa-se a princípio a responder, mas o rei o ameaça, e começaa supor a verdade. O infeliz Édipo, retirado no seu palácio,manda chamar o pastor que outrora o abandonara, e terminapor conhecer a sua situação. O povo aguardava, apinhado àporta do palácio, nada sabendo do que ali se passava. Ouve-se então a nova de que uma terrível desgraçasucedeu, e que a rainha acaba de morrer. Um mensageiro nãotarda em trazer a fatal notícia. "Jocasta morreu! exclama. Matou-se com as suas próprias mãos. Sacudida por sombrio furor,desde que atravessou o limiar do palácio, correu ao quartonupcial, arrancando os cabelos; uma vez ali, fechouviolentamente as portas pelo lado de dentro, evocou a sombra deLaio, lembrando-lhe a recordação do filho esquecido, por cujamão ele pereceria. Não vi como faleceu, porque Édipo correudando altos
    • brados, o que nos impediu de ver a morte de Jocasta; mas osnossos olhares se voltam para ele, que ia de um lado a outro.Pede-nos uma espada, atira-se contra as portas, faz saltar osbatentes dos gonzos, e entra no aposento. Ali vemos Jocasta,ainda pendente do laço fatal que lhe terminou os dias. Diantedaquele espetáculo, o desgraçado ruge como leão, e desfaz olaço; mas quando o corpo da desventurada tocou o chão,deparou-se-nos medonha cena: arrancando os colchetes de ouroda veste que cobria Jocasta, Édipo fere os próprios olhos,porque, dizia, não tinham visto nem as suas desgraças, nem osseus crimes, e agora, nas trevas, já não veriam os que ele nãodevia ver, já não reconheceriam os que lhe houveram sidoagradável reconhecer. Assim falando, bate e dilacerarepetidamente as pálpebras; ao mesmo tempo, os olhos,ensangüentados, lhe banhavam o rosto, e não eram apenasgotas que deles caiam, era uma chuva de sangue. Aí estão osmales comuns a ambos: felizes noutros tempos, desfrutavam deuma felicidade merecida, mas hoje os gemidos, o desespero, oopróbrio e a morte, nenhuma espécie de desgraça falta."(Sófocles). Os filhos de Édipo, Etéoclo e Polinice, em vez de acudiremao infeliz pai, só tiveram a preocupação de apoderar-se do trono,e o ancião, cego e sem recursos, foi obrigado a buscar asilo emterra estrangeira, na companhia das filhas que não quiseramabandoná-lo. Um baixo-relevo antigo nos mostra Etéoclo ePolinice conduzindo o pai para fora dos muros da cidade em queele nunca mais pode entrar (fig. 199). Édipo e Antígona Édipo deixou, pois, o país que a sua presença conspurcavae onde era apenas objeto de opróbrio. Sua filha Antígona tornou-se-lhe o único apoio, e o seu nome ficou
    • como tipo do amor filial. Foi ela que, guiando os passos do paicego implorava dos viajantes caridade por quem fôra um reipoderoso e honrado: "Estrangeiro piedoso, dizia ela, se nãoqueres ouvir de meu velho pai a narração dos seus crimesinvoluntários, suplico-te que te compadeças do meu infortúnio,eu que te imploro por meu pai, eu que te suplico, cravando nosteus os meus olhos, e peço compaixão por este desgraçado.Imploro-te pelo que te é mais caro, teu filho, tua promessa, oDeus que adoras." (Sófocles). Fig. 199 — Édipo expulso pelos filhos (segundo um baixo-relevo antigo). O infeliz Édipo encontrava na admiração que lhe inspiravamas virtudes da filha uma espécie de alívio aos males. "Minhafilha, dizia, desde que saiu da infância e desde que o seu corpose fortaleceu, sempre errante e infeliz comigo, acompanhou aminha velhice, suportou a fome, caminhou descalça através dasflorestas e, desafiando chuvas e raios do sol, desprezou todos osprazeres de Tebas, para prover à existência do pai." (Sófocles).Enquanto Édipo, refugiado na Ática, buscava um asilo comTeseu, seus dois filhos lutavam em Tebas pela posse do trono, aoqual ambos aspiravam, Finalmente,
    • concordaram em reinar ambos, sucedendo-se um ao outro, aocabo de um ano de governo. Mas Etéoclo, que foi rei em primeirolugar, recusou-se em seguida a permitir a entrada do irmão, quese refugiou em Argos, onde tratou de armar um exército paramarchar sobre Tebas. Ficou decidido, então, consultar o oráculo. Respondeu esteque o rei não teria segurança no trono senão depois de voltar àpátria o velho Édipo. Os dois irmãos, então, mandaram procurarÉdipo, que respondeu com imprecações contra eles: "Filhos queteriam podido socorrer o pai recusaram-se a dar-lhe assistência,e, na falta de uma palavra da parte deles, fui entregue ao exílio eà indigência. Minhas filhas, na medida que lhes permite afraqueza do sexo, me nutrem, me abrigam e me dispensam todosos cuidados da piedade filial ; eles, pelo contrário, à salvação dopai preferiram o trono e o poder soberano. Assim, jamais obterãoo meu auxílio, jamais terão o tranqüilo gozo do reino de Cadmo.Não, que os deuses jamais extingam as suas fatais discórdias!Que o que hoje possui o cetro fique privado dele, e que o exiladojamais torne a passar pelos muros de que foi expulso! Eles queviram o pai indignamente expulso da pátria, sem retê-lo nemdefendê-lo!" (Sófocles). Édipo morreu na Ática após proferir a maldição contra osfilhos. Diz Pausânias que o seu túmulo estava perto de Atenasno recinto consagrado aos Eumênidas.
    • CAPÍTULO IV O LOURO DE APOLO Apolo e o Amor. — A metamorfose de Dafne. — Desespero de Clítia. Apolo e o Amor O louro com o qual se coroam os poetas provém de umametamorfose operada por Apolo. Orgulhoso da vitória que lograracontra a serpente Pitão, encontrou o deus o filho de Vênus, queempunhava o arco, e riu-se do uso que ele fazia da arma.Cupido, irritado, resolveu vingar-se: possui esse deus duasespécies de setas, das quais umas inspiram o desejo, outras arepulsão. Havia no bosque vizinho uma encantadora ninfa,Dafne, filha do rio Penou. Sabendo que Apolo devia passar peloponto em que ela se achava, Cupido disparou contra o deus aflecha do desejo, e contra Dafne a flecha da repulsão.
    • A metamorfose de Dafne Mal Apolo percebeu a ninfa, sentiu o coração perturbado equis aproximar-se dela, para contar-lhe a recente vitória,esperando, dessarte, agradar-lhe. Visto que ela fugia,acrescentou que era o deus da luz, honrado em toda a Grécia,filho do poderoso Júpiter, inventor da mezinha e benfeitor doshomens. Mas em vez de ouvi-lo, a ninfa, que sentia por eleirresistível aversão, pôs-se a correr Fig. 200 — Apolo e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga).através dos bosques. Apolo, não compreendendo talprocedimento, seguiu-a dizendo: "Espera, formosa ninfa : o quete segue não é inimigo. A ovelha foge do lobo, a novilha foge doleão, a tímida pomba foge da águia; mas eles são inimigos, aopasso que o que me obriga a seguir-te é apenas o amor. Pára,tenho medo de que os espinhos te firam, e eu seja a causa dosteus ferimentos." (Ovídio).
    • Apolo parou, temendo que ela, na fuga, tombasseperigosamente. Mas notando que a ninfa redobrava a velocidade, em vez dediminuir os passos, julgou que ela o não tivesse ouvido, e quelhe seria dado convencê-la facilmente, se conseguisse aproximar-se-lhe. Atirou-se, então, à perseguição, como os cães no rastodas lebres, e terminou por alcançá-la no momento em que aninfa chegava à margem do rio Peneu, seu pai. Dafne suplica,então, ao rio que lhe arranque tão funesta beleza, e senteimediatamente os membros engordar e o corpo cobrir-se de finacasca; os cabelos se lhe mudam em folhas, os braços tornam-seramos, os pés, outrora tão leves, prendem-se à terra, a cabeçatransforma-se-lhe em copa. Estava metamorfoseada em loureiro:Apolo quer tocar a árvore, e sente sob a casca palpitar umcoração. Tece uma coroa para com ela ornar a sua lira de ouro, edesde então os vencedores recebem ramos de loureiro em lugardos ramos de carvalho de antes. Várias pinturas de Herculanum nos mostram a aventura deDafne cuja metamorfose está muito bem fixada numa estátua deVilla Borghese. Na escultura dos últimos séculos, Coustoucompôs um grupo de Apolo perseguindo Dafne, e que podemosver no jardim das Tulherias (fig. 201). Le Bernin compôs tambémum famoso grupo que se encontra em Roma. Entre os quadrosexecutados sobre o mesmo tema, os mais conhecidos são os dePoussin, Rúbens e Carle Maratte (fig. 202). Há, outrossim, noLouvre um quadrinho de Albane em que se nos depara a ninfafugindo velozmente de Apolo, enquanto o Amor voa, sorridente,nas nuvens. O século dezoito só viu nessa lenda uma aventura galante, ecomo é proverbial a beleza de Apolo, concluiu-se que. se o deusnão soube agradar à ninfa, foi exclusiva-mente por culpa sua: "Cruelle, arrêtez-vous de grâce! Je suis le régent du Parnasse, le fils naturel de Jupin; je suis poete, médecin, je suis chimiste, botaniste, je suis peintre, musicien, exécutant et syntphoniste;
    • je suis danseur, grammairien, astrologue, physicien; je suis..." Pour fléchir une belle, au lieu de lui parler de soi, il est plus adroit, selon moi, et plus doux de lui parler delle. (Demoustier) (1) Fig. 201 — Estátuas de Guillaume Coustou (no jardim das Tulherias).(1) Cruel, detém-te, por favor Sou o regente do Parnaso, filho natural de Júpiter; Sou poeta, médico, Sou químico, botânico, Sou pintor, sou músico, executante e sinfonista. Sou dançarino, gramático, astrólogo, físico; sou..." Para seduzir mulher bela, em. lugar de falarmos de nós, é mais certo, a meu ver. e mais suave, falarmos dela. (Demoustier)
    • Os mitologistas modernos vêem no mito de Dafne umapersonificação da aurora. Assim, quando dizemos: a auroradesaparece, mal o sol desponta, os gregos teriam dito na sualinguagem mitológica: Dafne foge quando Apolo pretendeaproximar-se dela. Desespero de Clítia De resto, se Apolo foi desdenhado por Dafne, vingou-se bemcontra a infeliz ninfa Clítia, que morria de Fig. 202 — Apolo perseguindo Dafne (segundo um quadro de C. Maratti).
    • amor, enquanto ele se mantinha indiferente. O desprezo atirou-aa um terrível desespero e a companhia das ninfas tornou-se-lheinsuportável. Deitada noite e dia sobre o chão, cabelos esparsos,ela desfazia-se em lágrimas, e não queria outro alimento senão oorvalho do céu. Voltava sem cessar os olhos para o sol eacompanhava-o durante todo o seu curso. O corpo terminou porse lhe enraizar na terra, e o rosto tornou-se-lhe uma flor quecontinua a voltar-se para o lado do sol, de modo que, apesar dametamorfose. ela revela sempre o amor que sempre teve porApolo.
    • CAPÍTULO V A LIRA DE APOLO A lira e a flauta. — O sileno Mársias. — As orelhas do rei Midas. A lira e a flauta O sol, pela regularidade com a qual difunde todos os dias a luz, era considerado pelos antigos o príncipe que preside às harmonias do universo. A astronomia era uma Musa, cujas leis não diferiam das que regem a música. Apolo foi, portanto, encarado desde logo como deus da harmonia, e a lira passou a ser-lhe o atributo. É então considerado príncipe da inspiração poética e torna-se condutor das Musas. A arte o apresenta coroado de louro e com uma longa túnica, e ele assume o nome de Apolo Musageta. Uma esplêndida estátua do Vaticano o representa sob tal aspecto. Essa estátua serviu de modelo às medalhas de Nero, que representam o
    • imperador disputando no teatro o prêmio de citara, Foidescoberta em Tivoli, em 1774, assim como sete estátuas deMusas (fig. 204). A lira aparece como atributo de Apolo, mesmo quando jánão é condutor das Musas, e de certo modo faz parte do seucostume, como a aljava e as setas. Em grande número demonumentos, Apolo empunha a lira, embora esteja nu. Para os gregos. era a lira um instrumento nacional, poroposição à flauta que representava a música frigia. Fig 203 - Medalha com os atributos de Apolo. O sileno Mársias O sileno Mársias é o fiel seguidor de Cíbele e desempenhaao pé dela papel análogo ao que o outro sileno desempenha ao péde Baco de quem foi benfeitor. Mársias. que os monumentos nosapresentam freqüentemente dando uma aula ao jovem Olimpo,seu discípulo (fig. 205), é uma personificação da música frigia, esobretudo da flauta, por oposição à lira usada na Europa. Numainvasão levada a efeito pelos gálatas na Frigia. Mársias feztransbordar as águas dos rios, ao som da flauta, e salvou o paísda conquista. Mársias, orgulhoso do seu talento na flauta, ousou desafiarApolo, e ficou estabelecido que o vencido se
    • Fig. 204 — Apolo Musageta (estátua antiga, em Roma).
    • submeteria à mercê do vencedor. Apolo cantou enquanto tocavaa lira, e as Musas, escolhidas como juízes, lhe concederam avitória. O pobre Mársias foi pendurado a um pinheiro eimpiedosamente esfolado. Os sátiros e as ninfas choraramtanto, que as suas lágrimas formaram um rio o qual lhe traz onome. As flautas do infeliz frígio caíram na correnteza, e foramlevadas. O movimento das ondas conduziu-as às praias deSícion. Um pastor pegou-as, e consagrou-as num templodedicado a Apolo. Quanto à pele do vencido, fez com ela umodre que foi colocado na cidade de Celene, pátria de Mársias, ependurado a uma Fig 205 — Mársias e Olimpo.coluna. Quando alguém tocava flauta à moda frigia, a peleagitava-se em sinal de satisfação, enquanto ao som da lira,permanecia em completa imobilidade. O jovem frígio que, nasrepresentações antigas do suplício de Mársias, aparece atrás deApolo e, às vezes, lhe segura a seta, parece ser Olimpo, que,quase sempre, intercede pelo amo. Mársias em geral pende de uma árvore: assim é a famosaestátua do Louvre, onde o sileno tem os pés
    • pousados numa cabeça de bode (fig. 207). No Mársias da galeriaGiustiniani, Apolo segura a pele do sileno, que, em outrasocasiões, está presa à lira do deus de Delfos. O suplício deMársias figura igualmente num baixo-relevo do museu Pio-Clementino e numa multidão de pedras gravadas. Às vezes é o próprio Apolo que esfola a sua vitima; maisfreqüentemente, porém, assiste ao suplício infligido ao infelizpor escravos citas. Uma belíssima estátua antiga do museu deFlorença, conhecida pelo nome de Amolador, representa um citaafiando a faca. Havia, com Fig, 206 — Apolo e Mársias (segundo uma pedra gravada antiga).efeito, em Atenas uma companhia de citas encarregados dasexecuções, e é o que explica essa tradição. A luta entre Mársias e Apolo figura nos monumentosantigos tanto quanto o suplício. Em vasos é-nos dado ver Apolotocando diante da assembléia dos deuses, enquanto Mársias e oseu discípulo Olimpo o ouvem com atenção; noutros, é, pelocontrário, Mársias que toca diante de Apolo coroado de louros, eBaco assiste à cena.
    • Fig. 207 — Mársias (segundo urna estátua antiga. museu do Louvre).
    • Enfim, várias medalhas, notadamente as de Apameu, na Frigia,mostram Mársias tocando a flauta. Um quadro de Zêuxis,representando o suplício de Mársias, gozou na antiguidade deenorme fama. Após a conquista romana, foi roubado aos gregos elevado a Roma, para decorar o templo da Concórdia. Rúbens, leGuerchin, le Guide e outros mestres pintaram o suplício deMársias. A rivalidade entre o Oriente e o Ocidente reaparece sob milformas na Fábula, mais particularmente, todavia, sob a relaçãomusical. A história de Mársias no-la mostra com o caráterselvagem que os povos primitivos sempre dão à luta. Não pareceque os escritores da antiguidade tenham ficado vivamenteimpressionados pela crueldade do deus da música, mas váriosemitiram dúvidas sobre a legitimidade da sua vitória. Eis como o historiador Diodoro de Sicília narra a aventura:"Apolo e Mársias, diz ele, apostaram em quem seria capaz deoriginar maior prazer e efeito, cada um no seu instrumento;tiveram por juízes os habitantes de Misa. O deus tocou uma áriana lira. Em seguida, Mársias pegou a dupla flauta, e os juízes,encantados com a doçura e a novidade dos sons que dela oartista soube tirar, lhe deram a preferencia. Apolo, apósconseguir que se realizasse outra prova, uniu a voz ao som dalira e arrebatou os votos. Mársias, então, reclamou, dizendo quese tratava de julgar do instrumento e não da voz, e que, aliás,era injusto opor uma única arte a duas reunidas. Diante daquilo,respondeu o deus que só empregava os meios de que se valia opróprio Mársias, ou seja, a boca e os dedos; a razão foi tida porsensata, e na terceira prova Apolo foi novamente declaradovencedor. Indignado da ousadia de Mársias, o deus esfolou-ovivo." Os poetas cômicos apoderaram-se de Mársias, para delefazer o tipo do ignorante presunçoso, e Mársias tornou-sepersonagem burlesca. O mito revestiu-se, sob o domínio romano,de importância totalmente diversa; foi então considerado umaalegoria da justiça equitativa, mas inexorável. É o que explicaporque a lenda está tão freqüentemente representada nosmonumentos artísticos. As estátuas de Mársias esfoladofiguravam nas praças públicas que se faziam os julgamentos, eem todas as colônias romanas era visto perto do tribunal.
    • As orelhas do rei Midas Análogo concurso, mas seguido de efeitos mais ridículosque desastrosos, ocorreu entre Apolo e o deus Pã. Este deus,orgulhosíssimo do seu talento musical, levou um dia a vaidadeao ponto de desafiar Apolo, cuja lira e cuja voz não tinham rivais.Todos os assistentes deram a vitória ao deus da luz, com exceçãode Midas, rei da Fig. 208 — Apolo e Mársias, numa medalha de Antonino, com atributos do deus.Frigia, o único que ousou contradizer o julgamento. Apolo, nãoquerendo que orelhas tão grosseiras conservassem por maistempo o formato das dos outros homens, alongou-lhas, cobriu-lhas de pelos e tornou-lhas móveis; numa palavra, deu-lheorelhas de burro. O resto do corpo manteve-se o mesmo.
    • Midas para ocultar a deformidade, cobria-a sob magníficatiara. O cabeleireiro incumbido dos seus cabelos percebera tudo,mas não tivera ânimo para transmitir a descoberta a ninguém.Importunado por tal segredo, vai a um lugar afastado, faz umburaco no chão, aproxima-se o mais possível, e diz em voz baixaque o seu amo tinha orelhas de burro; em seguida, tapa oburaco, julgando ter assim encerrado para sempre o segredo, eretira-se. Mas uns caniços traíram-lhe o segredo, pois toda vezque havia vento, repetiam: O rei Midas tem orelhas de burro. LeGuide compôs um Julgamento de Midas, em que Apolo tocarabeca. Rubens pintou o mesmo tema num quadro do museu deMadri.
    • CAPÍTULO VI AS MUSAS Júpiter e Mnemósina. — Atributos das Musas. — As filhas de Piero. — As Musas vitoriosas contra as sereias. Júpiter e Mnemósina As Musas pertencem originariamente à família das ninfas: são as fontes inspiradoras que comunicam aos homens a faculdade poética e lhes ensinam as divinas cadências. O seu número tem variado bastante segundo os tempos e as localidades; mas primitivamente eram apenas três, Melete (A Meditação), Mneme (A Memória) e Aoide (O Canto). Habitualmente são nove irmãs que Hesíodo diz terem nascido de Júpiter e Mnemósina, a Memória. "Na Pieria, Mnemósina, que reinava sobre as
    • colinas de Eleutério, unida ao filho de Saturno, deu à luz essasvirgens que proporcionam o esquecimento dos males e o fim dasdores. Durante nove noites, o prudente Júpiter, deitando-se noleito sagrado, dormiu ao lado de Mnemósina, longe de todos osimortais. Um ano depois, tendo as estações e os mesespercorrido o seu curso, bem como os dias, Mnemósina deu à luznove filhas animadas do mesmo espírito, sensíveis ao encanto damúsica e trazendo no peito um coração isento de inquietações;deu-as à luz perto do pico elevado do nevoso OIimpo no qual elasformam coros brilhantes e possuem pacíficas moradas. Ao seulado, postam-se as Graças e o Desejo nos festins, em que a suaboca, expandindo amável harmonia, canta as leis do universo eas respeitáveis funções dos deuses. Orgulhosas da belíssima voze dos seus divinos concertos, subiram ao Olimpo; a terra negraecoava-lhes os acordes, e sob os seus pés se erguia um ruídosedutor, enquanto elas rumavam para o autor dos seus dias, orei do céu, o senhor do trovão e do raio ardente, o qual, poderosovencedor de seu pai Saturno, distribuiu eqüitativamente entretodos os deuses as incumbências e honras. Eis o que cantavamas Musas moradoras do Olimpo, as nove filhas do grandeJúpiter, Clio, Euterpe, Talia, Melpômene, Terpsícore, Erato,Polímnia, Urânia e Calíope, a mais poderosa de todas, pois servede companheira aos veneráveis reis. Quando as filhas do grandeJúpiter querem honrar um desses reis, filhos dos céus, mal ovêem nascer derramam-lhe sobre a língua um delicado orvalho, eas palavras lhe fluem da boca como verdadeiro mel. Eis o divinoprivilégio que as Musas concedem aos mortais." (Hesíodo). As Musas eram respeitadíssimas e o talento dos artistastido como dom das nove irmãs. Nas suas estátuas, liam-seinscrições como a seguinte : "Ó deus, o músico Xenocles mandouerguer-vos esta estátua de mármore, monumento da gratidão.Todos dirão: Na glória que lhe proporcionou o seu talento,Xenocles não se esqueceu daquelas que o inspiraram."(Teócrito).
    • Atributos das Musas Para compreendermos as honras que os antigos prestavamàs Musas, devemos lembrar-nos de que nas épocas primitivas apoesia é um dos agentes mais poderosos da civilização. A arterepresenta as Musas sob a forma de jovens cobertas de longastúnicas; usam, às vezes, plumas na cabeça, como recordação davitória obtida contra as sereias, mulheres-pássaros. As Musasforam sendo, pouco a pouco, caracterizadas por atributosespeciais, e a arte reservou a cada uma delas um papelparticular. Clio, a musa da história, está caracterizada pelo rolo quesegura. Calíope preside aos poemas destinados a celebrar heróis. Aescultura a representou sentada num rochedo do Parnaso;parece meditar e prepara-se para escrever versos em tabuinhasque segura numa das mãos. A máscara trágica, a coroa báquica e o coturno de que estácalçada Melpômene a dão a reconhecer por musa da tragédia.Usa, às vezes, os atributos de Hércules para exprimir o terror ; asua coroa báquica lembra que a tragédia foi inventada paracelebrar as festas de Baco. Há no Louvre uma estátua colossalde Melpômene que pertence à mais bela época da arte grega (fig.209). Terpsícore, Musa da poesia lírica, da dança e dos coros,está habitualmente coroada de louros e toca lira para animar adança (fig. 210). A máscara cômica, a coroa de hera, o cajado de pastor, deque se serviam os atores na antiguidade, o tímpano ou tamborem uso nas festas báquicas são os atributos comuns de Talia,musa da comédia. Erato é a Musa da poesia amorosa, e em geral empunhauma lira. Tinha Erato grande importância nas festas que serealizavam por ocasião das núpcias (fig. 211). A Musa que preside à música, Euterpe, empunha umaflauta. Temos no Louvre várias estátuas de Euterpe notáveis. AMusa da música está, por vezes, acompanhada do corvo, ave deApolo.
    • Fig. 209 — A Musa Melpômene (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre).
    • Urânia, Musa da astronomia, segura um globo numa dasmãos e na outra um rádio, varinha que servia para indicar ossinais vistos no céu. Polímnia, Musa da eloqüência e da pantomima, está sempreenvolta num grande manto e em atitude de meditação. Muitasvezes tem uma coroa de rosas. Uma belíssima estátua do Louvrea mostra apoiada ao rochedo do Parnaso, com a cabeça sustidapelo braço direito. Está figurada na mesma posição num baixo-relevo representando a apoteose de Homero. Nos monumentos antigos, Apolo aparece freqüente-mentecomo condutor das Musas. Chama-se, então, Musagete, e usauma longa túnica. Esse tema agradava bastante aos artistas daRenascença, que o representaram com freqüência. O belo quadrode Mantegna, que o catálogo do Louvre designa sob o nome deParnaso, representa Apolo fazendo dançar as Musas ao som dalira, na Fig 210 — A Musa Terpsíore (segundo uma pedra gravada antiga).
    • presença de Marte, Vênus e Cupido colocados sobre umaelevação. No canto, Mercúrio empunhando um longo caduceuapóia-se sobre o cavalo Pégaso. Rafael, no célebre afresco doVaticano, também coloca as Musas sob a presidência de Apolo,conforme à tradição, que as faz seguir o deus da lira. O próprioApolo dança com as Musas, na famosa ronda das Musas,pintada por Jules Romain. O lugar das Musas era naturalmenteassinalado nos sarcófagos, assim como as máscaras de teatroque ali Fig. 211 — Erato e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga).vemos freqüentemente esculpidas. A vida era considerada umpapel que cada um desempenhava ao passar pela terra, equando era bem desempenhado, conduzia à ilha dosVenturosos. Todos esses velhos usos desapareceram pelo fim doimpério, e o papel civilizador que se atribuíra às Musas foiesquecido. Um dos últimos escritores pagãos, contemporâneodas invasões bárbaras, o historiador Zózimo, fala da destruiçãodas imagens das Musas do Helicão, que haviam sidoconservadas ainda na época de Constantino. "Então, diz ele, fez-se guerra às coisas santas,
    • mas a destruição das Musas pelo fogo foi um presságio daignorância em que o povo iria tombar." Baco, tão freqüentemente quanto Apolo, está representadoconduzindo o coro das Musas, e até parece que acabou por termais importância em tal papel do que o deus de Delfos. Ainspiração vem da ebriedade divina, e aliás Baco é o inventor doteatro. No coro das Musas, a declamação não podia deixar deocupar o seu posto ao lado da invenção. O magnífico túmulo conhecido pelo nome de Sarcófago dasmusas, no Louvre, foi descoberto no começo do século XVIII, auma légua de Roma, na estrada de Óstia. O baixo-relevoprincipal representa as nove Musas, caracterizadas pelos seusatributos distintivos. Calíope, empunhando o cetro está emcompanhia de Homero e Erato conversa com Sócrates: eis otema dos dois baixos-relevos que ornam as faces laterais. Nalousa, vê-se um festim báquico, em alusão às alegrias da vidafutura. As filhas de Piero As nove filhas de Piero, rei da Macedônia, eram tãovaidosas em virtude do seu talento de executantes de música,que resolveram desafiar as Musas. Cantaram o combate dosGigantes, ridicularizando bastante os deuses, que tinham sidoobrigados a transformar-se em animais para escapar aoespantoso Tifão. Ouvindo falar tão mal de Apolo, as Musas,suas companheiras, mal lograram refrear a indignação. Mascomo todas as ninfas da região tivessem sido convocadas comojuizes da contenda, foi preciso dar a réplica, e após preludiar noalaúde, cantou Calíope o misterioso rapto de Prosérpina. AMusa saiu vitoriosa da luta, mas não reconhecendo o veredictodas ninfas que elas haviam chamado como juízes, as filhas dePiero tentaram agredir as Musas sagradas do Helicão. O castigonão se fez esperar, pois foram metamorfoseadas
    • em pegas ; conservando sempre a mesma vaidade e o mesmodesejo de falar, fazem ecoar nos bosques os seus gritosimportunos e a voz enrouquecida. Reconhece-mos em taltradição a paixão que caracteriza as rivalidades de escola nasartes. Um lindo quadrinho do Louvre, outrora atribuído a Perinodel Vaga, e atualmente a Rosso, representa as Musas e as filhasde Piero, ao pé de um cabeço sombreado onde as divindades asouvem e julgam. As Musas vitoriosas contra as sereias As sereias participam simultaneamente da mulher e da ave;mas os monumentos primitivos lhes dão apenas a cabeça e osbraços de mulher com corpo de ave (fig. 213), ao passo que emépoca posterior lhes foi atribuído corpo de mulher com patas easas de ave (fig. 212). Os deuses concederam-lhes asas para queelas pudessem Fig. 212 — Sereia.
    • procurar Prosérpina, quando esta deusa foi raptada porPlutão. As sereias, que eram consideradas Musas da morte,eram célebres pela doçura do canto. Passavam a vida emrochedos, onde faziam morrer os navegantes atraídos pelo Fig. 213 — Sereia.seu canto. Homero chama às sereias sedutoras de todos oshomens que delas se acercam : "Aquele, diz ele, que impelidopela imprudência, escutar a voz das sereias, nunca mais veráa esposa, nem os filhos queridos os quais, no entanto,ficariam contentíssimos com o seu Fig. 214 — As sereias depenadas pelas Musas (baixo-relevo antigo). Dafne. Apolo.
    • regresso; as sereias deitadas num prado cativá-lo-ão com assuas vozes harmoniosas. Em torno delas estão as ossadas e ascarnes ressecadas das vítimas." (Odisséia). As sereias ousaram medir-se com as Musas, mas estassaíram vitoriosas do combate e depenaram as pobres sereias. Acena figura num baixo-relevo antigo. Como lembrança dessavitória é que as Musas usam, às vezes, penas na cabeça. Pareceque as sereias se atiraram, desesperadas, à água, e é talvez porisso que os artistas dos últimos séculos, confundindo-as com astritônidas, lhes dão sempre a forma de mulheres-peixes.
    • CAPÍTULO VII ORFEU A lira de Orfeu. — Orfeu e Eurídice. — Orfeu dilacerado pelas bacantes. A lira de Orfeu As Musas são divindades virgens, que só apreciam a poesiae os versos. Vênus perguntou um dia a seu filho Cupido por quemotivo jamais as ferira com as suas setas. "Respeito-as, minhamãe, respondeu Cupido, por serem respeitáveis, sempre imersasna meditação, e sempre ocupadas em cantos; mas acerco-medelas com freqüência, seduzido pelas suas melodias." (Luciano). A castidade das Musas era proverbial na antiguidade; masna linguagem alegórica, dizia-se de um grandíssimo poeta oumúsico que era filho das Musas. É a esse título que Orfeu erachamado filho de Calíope e Apolo. Orfeu exprimemitologicamente o arroubo que a música causava
    • nos povos primitivos. A sua voz melodiosa e a sua lira feiticeiraoperam por toda parte prodígios. Quando os argonautas partemem busca do velocino de ouro, o navio Argos, que devia conduzi-los, mantinha-se imóvel na praia; ao som da lira de Orfeu,desliza sozinho para as águas. As árvores inclinam-se para ouviro divino músico, os rochedos mudam de lugar para melhorescutá-lo, os rios suspendem o seu curso, as feras, subitamenteamansadas, rastejam-lhe aos pés (fig. 215). Fig. 215 — Orfeu. Homero e Hesíodo não falam de Orfeu, e Aristóteles põe emdúvida a sua existência histórica; mas os platônicos atribuíramgrande importância a essa personagem, que aos olhos deles setorna um sábio poeta e teólogo, iniciado nas doutrinas do antigoEgito, e fundador, para a Grécia, dos mistérios de Ceres. Emboratenha sido dilacerado pelas bacantes, passa também por terpropagado o culto de Baco.
    • Orfeu e Eurídice Um encantador baixo-relevo antigo nos mostra Orfeuvoltando-se para ver Eurídice que Mercúrio lhe conduz (fig. 216).Eurídice, a quem ele amava apaixonadamente, fora picada poruma serpente, e o poeta resolveu ir procurá-la entre as sombras.Aos sons da sua lira, os obstáculos desapareciam como que porencanto. As sombras esqueciam-se dos seus trabalhos e dostormentos, para se unirem às suas lágrimas. Tântalo nãopensava mais na sede, Sísifo já não rolava a pedra, as Danaidesdescuidavam o tonel, os abutres não dilaceravam o coração deTitio, e a roda de Ixião deixava de girar. As próprias Fúriastornavam-se sensíveis e se enterneciam diante da dor de Orfeu.Plutão, subjugado pelos ais do infeliz esposo, consentiu em lhedevolver Eurídice, impondo, no entanto, a condição de que ele anão fitasse, antes de sair dos infernos, Mas rio momento em queEurídice, seguindo o esposo, já ultrapassara todos os obstáculos,Orfeu, a quem só restava um passo para tornar a entrar no paísda luz, esqueceu-se do juramento e voltou a cabeça para ver amulher amada. Eurídice estende-lhe os braços, e Orfeu querpegá-la, mas ela desaparece nas moradas subterrâneas dizendo-lhe um eterno adeus. Orfeu dilacerado pelas bacantes Após assim perder a sua Eurídice, Orfeu chorou sete diasinteiros nas margens do Aqueronte, sem querer nutrir-se;depois, retirou-se para a Trácia, evitando os homens e vivendono meio dos animais, que os seus cantos
    • queixosos atraíam. As bacantes, no entanto, descobriram-lheo refúgio e tentaram fazer com que ele contraísse novos laçosmatrimoniais; irritadas com o desdém dele, atacaram-no,gritando, e cobrindo-lhe a voz com o ruído dos seustambores, atiraram-se furiosas sobre ele e o despedaçaram. Asua cabeça e a lira, lançadas ao rio que as levou ao mar,encantavam as margens com melodiosos sons. Fig. 216 — Orfeu e Eurídice.
    • Fig. 217 — Orfeu no inferno (pedra gravada).Fig. 218 — Orfeu perde Eurídice (segundo o quadro de Drolling).
    • Numerosas pedras gravadas antigas nos mostram Orfeurodeado de animais a que encanta com os seus acordes (figs. 215e 217). A lenda inspirou numerosos mestres dos últimos séculos,entre outros Rúbens, de quem temos no museu de Madri umaEurídice reencontrando o esposo nos infernos, e um Orfeu nomeio das feras. O mesmo tema foi tratado por Paul Potter, numquadro famosíssimo que faz parte do museu de Amsterdão, masa inspiração mitológica do pintor holandês é bastante inferior, anosso ver, às suas cenas campestres nas quais mostrasimplesmente o que viu. A descida de Orfeu aos infernos constitui o tema doprimeiro trabalho tentado por Canova. Um quadro de Drolling,conhecido pela gravura e que, outrora, fazia parte do museu deLuxemburgo, mostra Orfeu no momento em que perde Eurídice,levada de volta aos infernos por Mercúrio (fig. 218).
    • CAPÍTULO VIII AS SETAS DE APOLO Júpiter e Antíope. — Os filhos de Níobe Júpiter e Antíope Lico, neto de Cadmo e rei de Tebas, desposara Antíope,filha do rio Asopo, que lhe deu dois filhos, Anfião e Zeto. Antíopefoi amada de Júpiter que a visitava sob a forma de sátiro, comonos mostra Correggio num soberbo quadro do Louvre (fig. 219).Repudiada pelo marido, Antíope foi colocada sob a vigilância deDircéia, que se tornara esposa do rei. Esta maltratoucruelmente a rival e mandou que a encerrassem numaacanhada prisão. Mas os grilhões de que Antíope estavacarregada se quebraram sozinhos, e ela procurou refúgio ao pédos filhos que, a princípio, não reconheceram sua mãe. Dircéia,dedicadíssima ao culto de Baco, quis matar Antíope
    • Fig. 219 — Antíope (segundo um quadro de Correggio, museu do Louvre).mandando que a amarrassem às presas de um touro, enquantose celebravam as bacanais. Um pastor que criara Anfião e Zeto,fez com que estes a reconhecessem enfim, ministrando-lhessinais certos de ser-lhes Antíope mãe, e eles, atirando-se contraas bacantes, libertaram a prisioneira, prenderam Dircéia àspontas do animal e mataram-na com o suplício por ela destinadaà rival. O
    • suplício de Dircéia forma o tema de um grupo antigo célebre, nomuseu de Nápoles (fig. 220). Dircéia, após a morte, transformou-se em fonte, por obrade Baco, que feriu Antíope de loucura furiosa; a infelizpercorreu por algum tempo a Grécia em tais Fig. 220 — Suplício de Dircéia (segundo um quadro antigo do museu de Nápoles).condições, mas acabou sendo curada por Foco que a desposou.Lico foi expulso da cidade com toda a família, e Anfião tornou-serei do país. Anfião foi o primeiro em erguer um altar a Mercúrio,e o deus para premiar-lhe o zelo deu-lhe de presente uma lira.Aos sons da lira de Anfião,
    • toda a natureza se comovia e as pedras se ergueram por sipróprias para formar os muros d Tebas. O baluarte teve sete portas, tantas quantas eram as cordasda lira. Os filhos de Níobe Anfião desposou Níobe que, orgulhosa dos seus numerososfilhos, ousara rir-se da deusa Latona que só tinha dois.Pretendia receber as honras divinas, de modo que o culto deLatona era negligenciado. A deusa, ofendida, ordenou à profetisaManto, filha do adivinho Tirésias, que reavivasse o zelo do povo.Impelida por uma inspiração divina, a profetisa põe-se apercorrer as ruas de Tebas, gritando: "Mulheres tebanas, coroai-vos do louro, e oferecei incenso a Latona e a seus dois filhos; é aprópria deusa quem vo-lo ordena pela minha boca." Todos obedecem; já todas as mulheres da cidade, trazendocoroas na cabeça, se apressavam em acender em honra a essasdivindades o fogo sagrado, e em unir os seus votos à chama quese ergue sobre os seus altares. Entretanto, Níobe, esposa deAnfião e rainha de Tebas, vestida de uma túnica frigia todaesplendente de ouro. chega seguida do cortejo real. Detém-se epõe-se na frente da procissão: "Por que cegueira, diz ela, preferissupostos deuses aos que tendes diante dos vossos olhos, e comotendes a ousadia de oferecer sacrifícios a Latona, se ainda nãoqueimastes incenso nos meus altares? Ignorais que sou esposade Anfião, que ergueu os vossos muros ao som da sua lira, quesou filha de Tântalo, e que tenho por mãe uma das Plêiades? Ogrande Atlas, que sustenta o céu sobre os ombros, é meu avô, eo próprio Júpiter é simultaneamente meu avô e meu sogro. Ospovos da Frigia me prestam honras que me são devidas, e vóspreferis a mim essa Latona, errante e fugitiva, que o Céu, a Terra
    • e a Água repelem igualmente, e que se jacta de ter posto nomundo dois filhos, quando eu sou mãe de catorze!" Ordena,então, que se interrompa a cerimônia, e cada um lança a suacoroa de louro, para obedecer à rainha. Latona encarregou os filhos de vingar o ultraje. São Apolo eDiana que causam as mortes súbitas: quando se fala de alguémque foi atingido de morte fulminante, e cuja causa édesconhecida, diz-se: recebeu uma seta de Apolo. Um dia,quando Níobe estava rodeada dos seus catorze filhos cuja belezaela admirava, ouve-se no ar uma espécie de silvo de seta e umdos filhos tomba morto sobre a areia. Seus sete filhos jazem aosseus pés, e a mesma sorte cabe, em breve, às sete filhas quetombam feridas por Diana. A morte dos catorze filhos de Níobe éinstantânea; o pai, a mãe, as nutrizes e os pedagogos os vêemcair sem poderem prestar-lhes o menor auxílio. Estupefata, a infeliz Níobe imobiliza-se, e os seus próprios cabelos jánão são mais agitados pelo vento; um palor mortal lhe cobre o rosto; os olhosestão fixos e sem movimento, a língua cola-se à boca ; ela se metamorfoseiaem pedra. No entanto, ainda sabe chorar, pois as lágrimas que verte formamuma fonte que vemos jorrar de um pedaço de mármore. Anfião, seu esposo, matou-se, segundo alguns mitólogos; segundooutros, armou um exército para destruir o templo de Apolo em Delfos, e foiatingido pelo próprio deus, antes de lá chegar. A história dos filhos de Níobe, popularíssima naantiguidade, foi representada em famosas estátuas, dentre asquais algumas figuram entre as obras-primas cia arte. Le fatal courroux des dieux changea cette femme en pierre; le sculpteur a fait bien mieux, il a fait tout le contraire. (Voltaire) (1)______________________ (1) A fatal cólera dos deuses mudou esta mulher em pedra: oescultor fez muito mais, pois fez exatamente o contrário.
    • Plínio, falando do famoso grupo das Niobidas, não sabe sedeve atribuí-lo a Scopas ou a Praxíteles (fig. 221). Seja quem foro autor do grupo, revela uma arte que se compraz em reproduzirtemas adequados a remexer profundamente a alma, mas que, aomesmo tempo, os trata com a temperança e a nobre reservaexigidas pelo gosto helênico nos mais belos tempos da arte. Se oartista não Fig. 221 — Niobe e a menor de suas filhas (segundo um grupo antigo).poupa nada para nos comover em favor de uma família, objetoda cólera dos deuses, a forma cheia de nobreza e de grandezados rostos não está absolutamente desfigurada pela dor física epelo temor de um perigo iminente. A fisionomia da mãe,personagem principal da cena, exprime o desespero do amormaterno e na maneira mais pura e elevada: a tradição poéticanos ensina que a desventurada, emudecida pelo excesso de dor,foi trans-
    • formada em pedra, e o artista, conformando-se ao fato, evitouas desgraciosas contrações do rosto. As estátuas desse grupoforam descobertas em Roma, perto da porta de São Paulo, eacham-se atualmente em Florença. Mas há em outros museusestátuas isoladas famosíssimas, notadamente a de Munique. Amorte dos Niobidas figura Fig. 222 — O Pedagogo e um dos filhos de Niobe (segundo um grupo antigo).freqüentemente em sarcófagos, e representa sempre a mudaprece da mãe que perdeu os filhos de morte súbita. A trágicalenda era na antiguidade o tipo dos golpes imprevistos dodestino.
    • CAPÍTULO IX APOLO PASTOR A ninfa Coronis. — O nascimento de Esculápio. — Apolo na corte de Admeto. — O pastor Aristeu. A ninfa Coronis Apolo está munido de uma aljava cujas flechas sãoinevitáveis : é ele que envia as pestes e as epidemias. Mas é eletambém que cura as doenças, e em tais ocasiões todos osinvocam. O título de deus salvador e reparador dos malesconvém perfeitamente ao sol personificado: contudo, o podercurativo de Apolo aparece sobretudo em seu filho Esculápio, tidoda ninfa Coronis. Apolo apaixonara-se pela ninfa, mas tendo-lhedito o corvo que ela amava outro, o deus, num acesso de ciúme,matou-a com uma das suas setas. Arrependeu-se imediatamentee metamorfoseou Coronis (palavra que significa gralha) na aveque traz esse nome; depois, para punir o corvo pela suatagarelice, fê-lo negro, tirando-lhe a cor branca que o carac-terizava. Foi depois dessa aventura que as duas aves passaram aser consagradas a Apolo.
    • O nascimento de Esculápio Quando Coronis morreu, estava para dar à luz um filho,que Apolo lhe tirou do seio e que foi Esculápio, cuja educaçãoficou atribuída ao centauro Quirão. A filha de Quirão, Ociroé, senhora do dom da profecia,exclamou ao vê-lo: "Cresce para o sol do mundo, menino! Osmortais dever-te-ão freqüentemente a existência. Ser-te-á dadoaté o dom de ressuscitar os mortos. Mas por o teresexperimentado uma vez, a despeito da ordem estabelecida pelosdeuses, o raio de teu avô impe-dirá que o tentes de novo."(Ovídio). A profetisa tinha razão, pois Esculápio seria fulminado porJúpiter por ter ressuscitado Hipólito; mas os que sabem ler ofuturo nem sempre o devem revelar, e Ociroé pagou caro aindiscreção. Compreende imediata-mente que atraiu a cólera dosdeuses, e vê-se transformada em égua. Quer chorar e o que seouve são relinchos. Os dedos se lhe colam um ao outro, asunhas reunidas se transformam em cascos, a boca lhe cresce, opescoço se alonga, a orla da túnica se lhe muda em cauda e oscabelos esparsos formam a crina, que lhe cai à direita dopescoço. Não tardou em espalhar-se a notícia de que o menino queacabava de nascer em Epidauro sabia curar todas as doenças eaté ressuscitar os mortos. Esculápio realizou grande número de maravilhosas curas;mas a sua reputação se deve sobretudo às ressurreições.Quando ressuscitou Hipólito. filho de Teseu, que um monstromarinho matara, Plutão queixou-se a Júpiter, afirmando que lhearrancavam direitos, retirando-lhe súditos, e o senhor dosdeuses, achando justa a queixa, fulminou Esculápio,
    • Apolo na corte de Admeto Apolo, furioso por ver que Júpiter lhe fulminara o filhoEsculápio, pegou aljava e setas, e foi matar todos os ciclopes,obreiros incumbidos de fabricar o raio. Júpiter expulsou-o docéu, e Apolo, reduzido à condição de simples mortal, viu-seobrigado, para ganhar a vida, a guardar os rebanhos de Admeto,rei da Tessália. Em seguida, com Netuno, foi erguer os muros deTróia para Laomedon, que lhe recusou a recompensa, quando aobra ficou pronta. Apolo vingou-se, enviando uma epidemia àregião. Finalmente, após viver algum tempo na terra, emcondição assaz humilde, Júpiter perdoou-lhe e permitiu-lhesubir de novo ao Olimpo. Albane, não podendo admitir que um deus como Apolodesempenhasse por muito tempo as funções de pastor, no-lomostra no momento em que Mercúrio lhe anuncia a libertação eo fim do exílio. O deus, que com uma das mãos segura a lira ecom a outra o cajado de pastor, percebe ao longe as Musasreunidas nas margens do Hipocrene, e Pégaso no topo doHelicão; no céu, as divindades do Olimpo, sobre nuvens,aprestam-se em lhe dar as boas-vindas. O pastor Aristeu O pastor Aristeu é uma divindade que preside os rebanhos,mas a sua missão especial é sobretudo a educação das abelhas.Era filho de Apolo e da ninfa Cirene. Apolo apaixonou-se poressa ninfa, e desejando saber quem era e a que família pertencia,perguntou-o ao
    • Fig 223 — Aristeu (segundo uma estátua antiga do Louvre).
    • centauro Quirão, o qual era adivinho. Este pareceu admiradocom a pergunta. Tu me perguntas, respondeu, qual a origem daninfa, tu que conheces o imperioso destino de todos os seres, tuque contas as folhas que surgem na terra, durante a primavera,e os grãos de areia que as vagas e os ventos fazem rolar nos riose nos mares, tu cuja vista penetrante descobre tudo quantoexiste, tudo quanto há de existir! Mas já que ordenas, vouresponder-te: a sorte conduz-te a estes páramos para seresesposo de Cirene e levá-la além dos mares, aos deliciosos jardinsde Júpiter. Lá, numa colina rodeada de formosos campos, seerguerá uma cidade poderosa, povoada por uma colônia deinsulares da qual a farás rainha. "Em teu favor, a vasta e fecunda Líbia receberá com carinhoessa ninfa destinada a dar leis a uma região igualmente famosapela fertilidade e pelos animais ferozes que nutre. Lá, dará ela àluz um filho que Mercúrio roubará aos beijos da mãe paraconfiá-lo as cuidados da Terra e das Horas, de tronosesplendentes. Essas deusas acolherão o menino divino, pô-lo-ãoao colo, far-lhe-ão escorrer pelos lábios o néctar e a ambrósia e otornarão imortal como Júpiter e Apolo. Será a alegria dosamigos, vigiará numerosos rebanhos, e o seu gosto aos trabalhosdos caçadores e dos pastores fará com que o chamem deAristeu." (Píndaro). O pastor Aristeu foi, sobretudo, grande criador de abelhas,mas é como bom pastor que aparece, em geral, na arte. Inúmerosmonumentos o representam trazendo uma ovelha aos ombros, eos artistas cristãos adotaram esse tipo que aparecefreqüentemente nos seus trabalhos. Nas catacumbas de Roma,Jesus Cristo está representado sob a forma e com os atributosdo pastor Aristeu.
    • CAPÍTULO X ESCULÁPIO Esculápio e Higéia. — A serpente de Esculápio. — O templo de Epidauro. — Os tratamentos de Esculápio. — Esculá- pio em Roma. — Hércules e Esculápio. Esculápio e Higéia Esculápio aparece na arte com as feições de homemmaduro, expressão suave e risonha, de pé e a cabeleiraamarrada por uma faixa ; segura na mão direita um bordão emtorno do qual se enrola a serpente. Liga-se freqüentemente aum ,jovem, Telésforo (fig. 224). o génio da cura. ou a filhaHigéia, deusa da saúde, de quem a arte fez uma jovem com atesta diademada e traz uma taça onde bebe uma serpente (fig.229). Tivera de sua mulher Epíona (a calmante), vários filhosdentre os quais os mais famosos foram Podalira e Macaon. Hojesão encantadoras borboletas, mas na época da guerra de Tróia,foram prodigiosos médicos.
    • A serpente de Esculápio A serpente é consagrada a Esculápio e consideradaemblema da medicina. Há várias razões para isso: segundoPlínio, é porque ela se renova mudando de pele. O homemrenova-se igualmente pela medicina, pois os remédios lhe dãocomo que um corpo novo. Segundo Fig. 224 — Telésforo (segundo uma estátua antiga).Higino, foi observando as serpentes, que o deus da medicinadescobriu o segredo de ressuscitar os mortos. Estando um diaEsculápio perto de um enfermo, uma serpente enrolou-se-lhe emtorno do bordão; Esculápio matou-a. Mas, imediatamentedepois, outra, trazendo na boca uma erva, com ela ressuscitou aprimeira. O deus pegou a
    • F g . 225 — Esculápio (segundo urna estátua antiga).
    • erva, mal percebeu a maravilhosa propriedade, e dela se valeu apartir de então. Parece, todavia, que a serpente de Esculápio difere da quese vê habitualmente. "Embora, em geral, as serpentes sejam consagradas aEsculápio, essa prerrogativa pertence, no entanto, a uma espécieparticular cuja cor dá para o amarelo. Aquelas não fazem malaos homens e o Epidauro é a única região em que se encontram."(Pausânias). Um baixo-relevo do Vaticano nos mostra Esculápiovisitando um enfermo deitado no leito. No seu quadro da Ofertaa Esculápio, Guérin nos apresenta um ancião Fig. 226 — Esculápio, Higéia e Telésforo.conduzido pelos filhos à presença da imagem do deus; a filhaajoelhada, contempla a serpente que se ergue acima do altar. O culto de Esculápio é velhíssimo na Grécia. Pausâniasatribui-lhe a origem a Alexanor, neto de Esculápio, que teriavivido cerca de cinqüenta anos após a guerra de Tróia. "Alexanor, filho de Macaon e neto de Esculápio, veio àSicionia, e construiu em Titano um templo em honra aEsculápio. Em volta, plantou-se um bosque de ciprestes,atualmente muito velho; as cercanias do templo são habitadaspor várias pessoas, e notadamente pelos ministros do deus.Quanto à estátua que ali se vê, ninguém
    • saberia dizer de que matéria é feita, com exceção do próprioAlexanor. Está coberta por uma túnica de lã branca e por cimauma manta, de modo que só aparecem o rosto, os pés e as mãos.O mesmo se dá com a estátua de Higéia, perto, pois não a vemosfacilmente, de tal maneira está oculta, quer pela quantidade decabelos que mulheres devotadas lhes sacrificaram, quer pelospedaços de pano de seda de que a ornaram. Quem quer queentre no templo para ali orar é obrigado, em seguida, a dirigir osseus rogos à deusa Higéia." (Pausânias) . Fig. 227 — Esculápio visitando um doente. O templo de Epidauro Epidauro era famosíssima na antiguidade pelo seu templode Esculápio, rodeado por um bosque sagrado de ciprestes.Encontraram-se nele ruínas que se julgam ter pertencido aosantuário do deus. Imensa quantidade de enfermos iam detodas as partes da Grécia a Epidauro em busca de saúde edistração. O culto de Esculápio, que se espalhou por toda parte,fez com que se lhe erguessem grande número de templos,sempre situados nos lugares onde havia águas famosas, e osdoentes ali se reuniam
    • como nos cassinos, nas nossas estações de águas, durante oslazeres que lhes deixava o tratamento. Fig. 228 — Oferta a Esculápio (segundo um quadro de Guérin). Pausânias nos legou uma descrição do templo de Esculápioem Epidauro : "O bosque consagrado a Esculápio, diz ele, estápor todos os lados rodeado de grandes obstáculos; e nesserecinto não é permitido que morram os doentes e dêem à luz asmulheres, tal qual na ilha de Delos. Tudo quanto se sacrifica aodeus deve ser consumido em tal recinto ; os epidaurianos, comoos estrangeiros, estão sujeitos a essa lei, e sei que a mesma coisa
    • Fig. 229 — Higéia (estátua antiga).
    • se observa em Titano. A estátua du deus e de ouro e marfim,porém (luas vezes menor que a de Júpiter Olímpico em Atenas;a inscrição afirma que se trata de uma obra de Trasímedo, filhode Arignoto, e oriundo de Par-cos. O deus está representadonum trono, segurando com uma das mãos, e apoiando a outrasobre a cabeça de uma serpente. Para além do templo,construíram algumas casas para conforto das pessoas que vãofazer as suas preces a Esculápio; mais perto há uma rotonda demármore branco que atrai a curiosidade; vêem-se ali Fig. 230 — Higéia ou a Saúde (segundo uma pedra gravada antiga).pinturas de Pausias; num dos lados um Cupido que se desfez doarco e das setas e empunha uma lira; no outro, a Bebedeira quesorve de uma garrafa de vidro. Através da garrafa, vemos umrosto de mulher. Havia, outrora, no mesmo recinto grandenúmero de colunas, mas só restam atualmente seis, sobre asquais se escrevem os nomes dos que o deus curou: tudo estávazado na língua dórica. Numa antiga coluna que não está nafileira das demais, está escrito que Hipólito consagrou um cavalode bronze a Esculápio, e os habitantes de Arícia possuem
    • uma tradição a tal respeito, pois dizem que Hipólito, tendomorrido em virtude das imprecações do pai, foi ressuscitado porEsculápio. Nunca perdoou a Teseu a sua crueldade, e, sem daratenção aos seus rogos, foi a Arícia, cidade da Itália, e ali reinoue construiu um templo a Diana." (Pausânias). Os tratamentos de Esculápio Os doentes que iam consultar o deus eram primeiramentesubmetidos a certas práticas higiênicas, como o jejum, asabluções, os banhos, etc. Após tais preliminares, eramautorizados a passar a noite no templo. O deus lhes aparecia amaioria das vezes em sonho e prescrevia-lhes regulamentos queos sacerdotes interpretavam em seguida. Aristófanes, na suacomédia Plutus, faz, com a sua habitual rudeza, umainteressante narração do que se realizava no templo segundo ascrenças populares. O doente de quem fala é um tal Plutus,ferido de cegueira, e a personagem que faz a narração é oescravo Cárion: Cárion. — Mal chegamos ao templo de Esculápio comPlutus, levamo-lo em primeiro lugar ao mar e ali o banhamos.Em seguida, voltamos ao santuário do deus. Após consagrarmossobre o altar os presentes e outras oferendas, e apósentregarmos a flor de farinha à chama de Vulcano, deitamosPlutus com as cerimônias exigidas e cada um de nós se dispôsnum leito de palha. A mulher. — Havia também outras pessoas implorando odeus? Cárion. — Havia em primeiro lugar Neóclides (oradoracusado de ter roubado o dinheiro público), o qual, emboracego, rouba com mais habilidade que os que vêem bem, depoismuitos outros, com toda espécie de doenças. Depois de apagaras lâmpadas, o ministro do deus pediu-nos que dormíssemos e,se ouvíssemos ruído,
    • que nos calássemos. Deitamo-nos, todos, tranqüilamente.Quanto a mim, não conseguia conciliar o sono; certo prato depapa, colocado à cabeceira de uma velha, excitava a minhacobiça, e eu desejava ardentemente rastejar até lá. Ergo acabeça; vejo o sacerdote tirar os presentes e os figos secos damesa sagrada. Em seguida, dá a volta aos altares, um depois dooutro, e todos os presentes que encontrava guardava-oscuidadosamente numa sacola. Eu, convencido da grande santidade da ação, salto sobre oprato de papa. A mulher. — Miserável! Não temias o deus? Cárion. — Sim, sem dúvida; temia que com a sua coroachegasse antes de mim ao prato; a atitude do sacerdote falava-me claro; a velha, ouvindo um ruído, estendeu a mão pararetirar o prato; assobio então como serpente, e mordo-a.Imediatamente ela retira a mão, e se envolve, calada, nascobertas, soltando, de medo, um gás mais pavoroso que o de umgato. Como a papa, e torno a deitar-me de ventre cheio. A mulher. — E o deus não vinha? Cárion. — Não. Depois, todavia, fiz uma boa farsa: quandoele se aproximou, fiz ressoar uma descarga das maisestrondosas, pois tinha o ventre bem cheio. A mulher. — Sem dúvida, rompeu em imprecações contra ti? Cárion. — Limitou-se apenas a não dar atenção. A mulher. — Queres dizer que este deus é grosseiro? Cárion. — Não, mas gosta da imundície (1). A mulher. — Ah, miserável! Cárion. — Entretanto, afundei no leito, de medo. O deus deua volta e visitou gravemente todos os enfermos. Em seguida, umescravo lhe trouxe um almofariz de pedra, um pilão e umacaixinha. A mulher. — Mas como pudeste ver tudo isso, uma vez quete havias ocultado? Cárion. — Vi tudo através do meu manto, que está repletode buracos. O deus pôs-se primeiramente a preparar umcataplasma para os olhos de Neóclides : pegou três cabeças dealho de Tenos, que amassou no almofariz, com uma mistura degoma e de suco de lentisco; banhou________________ (1) Alusão aos médicos que comprovam o estado do enfermo pelainspeção dos excrementos.
    • tudo com vinagre esfetiano, depois aplicou-o no interior daspálpebras, para tornar menos pungente a dor. Neóclides gritoucom toda a força e quis fugir. Mas o deus lhe disse, rindo: ficaaqui com o teu cataplasma; quero impedir que prodiguesperjúrios na assembléia. A mulher. — Que deus sábio e patriota! Cárion. — Em seguida, aproximou-se de Pluto; em primeirolugar, auscultou-lhe a testa, depois lhe enxugou os olhos comum pano bem limpo: Panacéia cobriu-lhe a cabeça e o rosto comum véu de púrpura; o deus assobiou, e imediatamente duasenormes serpentes saíram do fundo do templo. A mulher. — Grandes deuses! Cárion. — Elas, depois de se infiltrarem suavemente sob ovéu de púrpura. lamberam, assim creio, as pálpebras doenfermo; e em menos tempo do que levarias tu para beber dezcótilos de vinho, Pluto recobrou a vista. Eu, contentíssimo, batias mãos e despertei o amo. Imediatamente o deus desapareceu, eas serpentes se ocultaram no fundo cio templo Mas os quedormiam perto de Pluto. com que afobação não o apertaramentre os braços! Ficaram acordados a noite inteira, até oaparecimento do dia. Quanto a mim, não cessava de agradecerao deus ter devolvido tão depressa a vista a Pluto, e aumentado acegueira de Neóclides. A mulher. — Divino poder de Esculápio!... (Aristófanes). Esculápio em Roma Esculápio foi igualmente honradíssimo pelos romanos.Havia três anos que uma enfermidade contagiosa fazia em Romagrandes estragos, sem que nenhum remédio parecesse pôr cubroao terrível flagelo. Os pontífices, encarregados de consultar oslivros das Sibilas, verificaram
    • que o único meio de devolver a salubridade a Roma era mandarvir Esculápio de Epidauro. Para tanto, foram ali enviadosembaixadores e o deus se mostrou favorável, visto que permitiuque a sua serpente surgisse aos envia-dos de Roma. e com elesembarcasse no navio. Os embaixadores, satisfeitíssimos,apressaram-se em desfraldar as velas, após se informarem damaneira pela qual a serpente devia ser homenageada. Mal onavio entrou em Roma. a serpente, lançando-se a nado, arribouà ilha onde, mais tarde se lhe ergueu o templo. A epidemiacessou imediatamente. (Valério Máximo). Fig. 231 — Esculápio na ilha do Tibre (segundo um medalhão de Cômodo). Hércules Esculápio Esculápio recebeu após a morte honras divinas, e foi admitido à mesa dos deuses, mas a darmos crédito as autores cômicos, brigou com Hércules, por uma questão de precedência. Júpiter tentou acalmá-los. "Cessai, disse-lhe, de brigar como homens; é uma coisa inconveniente e indigna da mesa dos deuses.
    • Hércules. — Queres, pois, Júpiter que este envenenador sesente antes de mim? Esculápio. — Certamente, pois que valho muito mais! Hércules. — Como, cérebro queimado? Será por te haverJúpiter fulminado por teres feito o que não devias fazer, e porteres sido admitido por simples piedade a partilhar do nossoimortal destino? Esculápio. — Esqueces tu, Hércules, de que foste queimadono Eta, tu que me censuras por ter passado pelo fogo. Hércules. — Pretendes insinuar, com isso, que vive-mos damesma maneira? Filho de Júpiter, realizei prodigiosos trabalhos,purificando o mundo, lutando contra os seus monstros, punindoos bandidos que ultrajavam a humanidade; tu não passas de umherborista, de um charlatão, bom no máximo para aplicarremédios aos doentes, e nunca fizeste nada que fosse varonil. Esculápio. — Tens razão. Mas fui eu quem curou as tuasqueimaduras, quando há pouco vieste ter aqui, com o corpoassado num dos lados pela túnica do centauro, e no outro pelofogo. E se nada mais me restasse por dizer, não fui escravo comotu, não cardei lã na Lídia. vestido por uma túnica de púrpura,recebendo golpes da sandália dourada de Onfale, e sobretudo,num acesso de fúria, não matei meus filhos nem minha mulher. Hércules. — Se não acabares com as tuas insolências,saberás daqui a pouco que a tua imortalidade não poderáimpedir que eu te agarre e te atire para fora do céu, de cabeçapara baixo. Júpiter. — Calai-vos ambos, não perturbeis a reunião. Docontrário, pôr-vos-ei fora da porta." (Luciano).
    • CAPÍTULO XI O SOL O Sol e a ilha de Rodes. — Os sinais do Zodíaco. — O carro do Sol. — Queda de Faetonte. — As irmãs de Faetonte. — O rei Cicno. O Sol e a ilha de Rodes Hélios, o Sol, era na primitiva antiguidade inteiramentediverso de Apolo, com o qual se identificou posteriormente. O Solvê tudo e revela tudo o que vê: ele é que denuncia a Vulcano ainfidelidade de sua mulher, a Ceres o rapto da filha; o crime deAtreu o faz recuar horrorizado. Mas tais fatos não poderiam serrelacionados a Apolo, a cujo lado vemos o Sol formando umapersonagem distinta, num baixo-relevo que representa Marte eVênus surpreendidos por Vulcano.
    • Uma antiga estátua nos mostra o Sol sob forma de jovemvestido, segurando numa das mãos uma bola, e na outra acornucópia : os cavalos que lhe conduzem o carro estãofigurados em busto ao seu lado (fig. 232). O famoso colosso deRodes que, segundo uma tradição errônea, deixava os naviospassar com todas as velas enfunadas entre as pernas, era umaimagem do Sol e a mesma efígie se vê nas medalhas de Rodes.Quando, após a queda dos Titãs, os deuses olímpicos dividiramentre si o mundo, o Sol, que lá não estava, foi esquecido:queixou-se, e a ilha de Rodes saiu dos mares expressamentepara lhe ser consagrada. Um belo baixo-relevo, descobertorecente-mente na antiga Tróia, mostra o Sol de cabeça radiada,conduzindo o seu carro : numa pintura de Herculanum vemo-loconversando com uma das Horas. Os sinais do Zodíaco O Zodíaco é o espaço do céu que o sol percorre durante oano e que está dividido em doze partes, onde se encontram dozeconstelações que correspondem aos seguintes sinais (fig. 233) :— 1, o Carneiro (abril) está acompanhado da pomba de Vênus; —2, o Touro (maio) tem ao seu lado o tripé de Apolo; — 3, osGêmeos (junho) estão seguidos da tartaruga de Mercúrio; — 4, oCâncer (julho) está unido à águia de Júpiter; — 5, o Leão (agosto)está unido ao cesto de Ceres, rodeado pela serpente mística; —6, a Virgem (setembro) segura dois fachos e está acompanhadado barrete de Vulcano; — 7, a Balança (outubro), segura por ummenino, tem perto a loba de Marte; — 8, o Escorpião (novembro)tem o cão de Diana; — 9, o Sagitário (dezembro), tem a lâmpadade cabeça de asno de Vesta; — 10, o Capricórnio (janeiro), opavão de Juno; — 11, o Aquário (fevereiro) os delfins
    • Fig. 232 — O Sol (segundo uma estátua antiga).
    • de Netuno; — 12, os Peixes (março) o mocho de Minerva. Cadauma das doze grandes divindades vive, mais longa-mente, naconstelação que tem os seus atributos. O carro do Sol A marcha do Sol sobre a terra, na mitologia, não seconforma aos princípios da moderna astronomia. O Sol (Hélios) sai do rio Oceano no Oriente, ergue-se, nomeio-dia, até o ponto mais alto do céu, e em seguida ruma parao Ocidente, até o ponto em que reina eterna obscuridade, e quese chama Portas do Sol. Ali chegado, encontra um barco de ourofeito por Vulcano, e durante a noite. descreve um semicírculosobre o rio Oceano que envolve a terra, e assim volta todas asmanhãs ao ponto de onde partiu na véspera. Visto que sempresegue o mesmo caminho, o disco da terra está sempre iluminadopor um lado (o que olha para o equador), ao passo que o outrolado (o que olha para o pólo) jamais recebe luz. É por isso queum dos lados do rio Oceano assume o nome de Costa cio Dia e ooutro Costa da Noite. Quando o Sol deixa as regiões do Oriente para iluminar aterra, as Horas lhe abrem as portas do céu e atrelam ao seucarro (obra de Vulcano) cavalos alados que vomitam chamas. OsDias, os Meses, os Anos, os Séculos, formam com as Horas ocortejo habitual do Sol, cujo palácio está situado nasextremidades do Oriente. No seu famoso quadro do palácioRospigliosi, cuja com-posição está calcada num baixo-relevoantigo da Villa Borghese, Guido mostra o Sol escoltado pelasHoras e pelos Dias que se seguram pelas mãos para indicar osucessivo encadeamento, e precedido da Aurora que semeiaprofusamente flores diante do carro do deus. O gigantesco Atlas, condenado, por se haver rebelado contraJúpiter, a suportar o céu sobre os fortes ombros,
    • marca o ponto do universo em que o Dia e a Noite se seguemalternativamente sem jamais se encontrarem. A costa dasHespéridas, nos confins do mundo, constitui o seu império;possui ele numerosos rebanhos, e vive num Fig. 233 O Zodíaco (museu do Louvre).esplêndido jardim, o jardim das Hespéridas, onde uma faiscantefolhagem de ouro sombreia maçãs também de ouro. A colocaçãoda morada do deus Montanha está, aliás, bastante maldeterminada na Fábula, e a posição
    • de Atlas varia segundo o lugar em que se situam os confins domundo. Assim, vemo-lo indistintamente no Cáucaso, na Líbia ena Mauritânia. Quando os progressos da navegaçãoestabeleceram um sistema geográfico mais sério, Atlas passou aocupar o lugar onde ainda hoje o vemos. O Atlas Farnese no museu de Nápoles, mostra o gigantesuportando o céu sobre os ombros (fig. 234) ; Fig 234 — Atlas Farnese museu de Nápoles)está representado da mesma maneira em várias pedrasgravadas. Atlas é pai das Plêiades. constelações que aparecem nosigno do Touro, São em número de sete, mas há uma.
    • Merope, que não gosta de mostrar-se, por envergonhar-se deaparecer aos homens. Somente ela, com efeito, foi que teve poresposo um simples mortal, ao passo que as irmãs se uniram adeuses. As Plêiades inspiraram a Flaxman uma das suas maisgraciosas composições (fig. 235). Queda de Faetonte Tinha o Sol um filho chamado Brilhante (Faetonte), e ojovem tirava do nascimento uma vaidade extrema. Numadivergência que teve um dia com um filho de Júpiter, Epafo,este ousou suscitar dúvidas quanto à sua origem divina.Faetonte em pranto foi procurar o pai, e suplicou-lhe que lhedesse sinais certos que pudessem provar ao universo de quemele descendia. O Sol, Fig. 235 — As Plêiades (segundo Flaxman).
    • enternecido pelo pesar do filho, jurou pelo Estige que lheconcederia o que ele pedisse, e Faetonte imediatamente lherogou permissão para conduzir o carro e iluminar o mundodurante um dia apenas. O Sol, que não podia faltar aojuramento, fez ao filho as mais sérias admoestações, para lhemostrar o perigo que havia em serem os fogosos cavalos guiadospor mãos inexperientes. Mas jurara pelo Estige, e a obstinaçãode Faetonte o obrigou a manter a palavra Foi preciso, assimresignar-se: quando as estrelas desapareceram e o crescente dalua se apagou, o Sol ordenou às Horas que atrelassem oscavalos, e Faetonte, encantado por segurar as rédeas e mostrar-se, dessarte, ao mundo inteiro, saltou sobre o carro do pai._ Os quatro cavalos do Sol, enchendo o ar de rinchos e dechamas, batem com a pata a barreira do mundo, cuja porta asHoras abrem. Entretanto, percebem imediatamente que o carropor eles puxado não traz o habitual condutor, e, abandonando aestrada que ele os obrigava a seguir, perdem-se com espantosarapidez em caminhos desconhecidos. Faetonte, inquieto, começaa empalidecer; mas quando notou o signo do Escorpião, queparecia ameaçá-lo com a cauda recurvada e pontuda, o espantofoi tal que abandonou as rédeas. Os cavalos, sentindo-as flutuarno dorso, e vendo-se privados de guia, cedem ao impulso doterror, e umas vezes se erguem até as estrelas do firmamento,outras descem até a terra pela qual chegam a roçar. Já se seca arelva, as árvores ardem, e terra se faz árida, as cidades desabam,as florestas e as montanhas se incendeiam, inteiras regiões seinutilizam para sempre, mares secam, e imensos desertos deareia os substituem. Foi nesse dia que os habitantes da Áfricaficaram com a pele tostada. O Nilo, horrorizado, retira-se para asextremidades do mundo, e oculta a sua nascente, que, desdeentão, não pôde ser descoberta. As ninfas vêem as fontes secas,os rios não têm mais água. Netuno, encolerizado, por três vezesfura as águas do mar com os braços nervosos; e três vezes, ocalor o obriga a buscar um refúgio nas profundezas. (Ovídio). Júpiter, verificando que a destruição do mundo seria geral,quer fazer cair chuvas sobre a terra, mas já não encontra nemnuvens, nem vapores. Pega então o raio e fulmina Faetonte, quetomba do carro (fig. 236). O
    • infeliz Sol, vencido pela dor que lhe causa a morte dofilho, recusa-se a iluminar a terra, à qual só as brasasserviram de luz durante algum tempo, e voltou a desempenharas funções exclusivamente por ordem expressa de Júpiter. Fig. 236 — Queda de Faetonte (segundo uma pedra gravada, museu de Florença). As irmãs de Faetonte As irmãs de Faetonte tiveram tal desgosto com a morte do irmão que durante quatro meses não lhe abandonaram o túmulo. Como não deixassem de chorar naquele lugar, perceberam que os pés se lhes enraizavam na terra
    • e que o corpo se lhes cobria de casca. As lágrimas que corriamdas novas árvores se endureceram ao sol e tornaram-se gotas deâmbar. Recebeu-as o Eridano e é ali que as vão buscar para ofabrico das jóias com que se enfeitam as damas romanas.(Ovídio). Vemos em vários monumentos as Helíadas, irmãs deFaetonte, chorando a morte do irmão e prestes a seremmetamorfoseadas em choupos. Rubens compôs sobre a queda deFaetonte um quadro que se encontra em Viena na galeriaLichtenstein. Na sua decoração do prédio Lambert, Lesuerpintara Faetonte pedindo ao pai que o deixasse guiar o carro doSol. Finalmente, uma linda estátua de Teodonte, no museu doLouvre, nos mostra Faetusa, uma das irmãs de Faetonte, nomomento da sua metamorfose (fig. 237). O rei Cicno O rei Cicno, que era amigo de Faetonte, foi testemunha detais prodígios. E ficou até de tal modo impressionado pelacatástrofe que atingiu o filho do Sol que, por ódio ao fogo, viviamergulhado na água fria. Como nunca deixasse a água, o corpoacabou por se lhe transformar: os cabelos tornaram-se plumasbrancas, o pescoço se lhe alongou desmedidamente, os dedos sereuniram um ao outro por uma membrana avermelhada, um finobico lhe substituiu a boca e grandes asas surgiram em cada ladodo corpo. Os deuses o tinham metamorfoseado em cisne. Legou-nos a antiguidade alguns monumentos em tornodessa lenda. Às vezes, vemos Faetonte estendido enquanto ocarro ainda inteiro está no meio dos ares, ou então o carrodespedaçado apresenta apenas uma roda e os cava-los,terrorizados, fogem desordenadamente, Outras, o infelizcondutor está ainda sobre o carro, mas o
    • movimento dos cavalos que se empinam dá a prever a suaqueda. Um baixo-relevo da Villa Borghese representa em váriascenas a história de Faetonte. Num canto, em lugar elevado,vemos Hélios, o Sol, trazendo a coroa radiada e segurando namão um facho e uma cornucópia. Seu jovem filho, posto na suafrente, pede-lhe a licença fatal Fig. 237 — Faetusa (segundo uma estátua do museu do Louvre).e nos dois lados do monumento se nos deparam os dois ventosopostos, que sopram em sentido contrário. Os cavalos arrastamdesordenadamente o carro desconjuntado: somente dois ainda seacham atrelados, e são um pouco mantidos por Castor e Pólux,os dois divinos cavaleiros,
    • reconhecíveis pelo barrete cônico. Na parte inferior, vemos nolado direito, a Terra semi-deitada e perto dela os gênios das trêsestações : na frente está o Mar segurando um remo, e a ele umgênio apresenta uma concha. Entre eles, Júpiter e Junorepresentam as divindades do ar. Segue-se o rio Eridano, decostas voltadas para o mar, o qual recebe Faetonte, na quedadeste. Cicno chora a morte do amigo e conduz o cisne de cujaforma se revestirá; segue-o o filho e as três irmãs de Faetonte,que serão metamorfoseadas em choupos. "O âmbar, se derdes crédito à lenda, diz Luciano, provémdas lágrimas vertidas pelos choupos do Eridano, que são asirmãs de Faetonte, transformadas em árvores, de tanto chorar oinfeliz jovem, e destilando prantos que formam o âmbar.Convencido da realidade da narração dos poetas, esperava euque. se uni dia me visse perto do Eridano, estenderia a borda daminha túnica sob um dos choupos e recolheria algumaslágrimas. Não há muito, obrigado a visitar o país por objetivointeiramente diverso, comecei a subir o Eridano; mas nãopercebi nem choupos, nem âmbar, muito embora olhasse comtoda a atenção. Os habitantes nem sequer conhecem o nome deFaetonte. Informo-me, pergunto quando chegaremos aoschoupos que destilam âmbar. Os barqueiros desatam a rir epedem-me que eu lhes explique com clareza o que pretendodizer. Conto-lhes a história de Faetonte. "Quem foi o mentiroso,retrucam-me, quem foi o impostor que vos impingiu tudo isso?Nunca vimos nenhum cocheiro cair aqui da boléia, e não temosos choupos que nos atribuís. Crede-nos, se fosse verdade, comohaveríamos de nos cansar em remar por dois óbolos e a fazersubir os barcos contra a correnteza do rio, se dependesseexclusivamente de nós enriquecer-nos com a colheita das lágri-mas desses choupos?" (Luciano).
    • CAPÍTULO XII DIANA, IRMÃ DE APOLO Tipo e atributos de Diana. — Diana caçadora. — O castigo de Acteão. — As ninfas de Diana. — Diana e Calisto. Tipo e atributos de Diana A irmã de Apolo, Diana (Artêmis) corresponde à lua, como Apolo ao sol. A semelhança do crescente da lua com um arco de ouro fez com que se lhe dessem os atributos de uma caçadora. O arco e o facho são os seus característicos. O penteado habitual de Diana é uma cabeleira amarrada num só birote atrás da cabeça ou sobre a testa, segundo a moda dórica. Originariamente, está envolta em longas vestes, e é assim que se vê nas representações primitivas (fig. 238). Mais tarde, modifica-se-lhe a vestimenta: na grande época da arte está ela vestida com a curta camisola dórica. De pernas e braços nus, corre nos bosques acompanhada das suas ninfas. Freqüentemente, encontra-se no seu carro puxado
    • por cervos, ou então de pé e caminhando depressa, seguida doseu animal predileto. Várias moedas representam a deusa ou osseus atributos. Fig. 238 — Diana (segundo uma estátua antiga do museu de Nápoles). O hino antigo de Calímaco descreve exatamente os desejose as atribuições da deusa: "Cantemos Diana... (ai dos poetasque dela se esquecem!) cantemos a deusa que se apraz emlançar dardos, em perseguir gamos, em formar danças e jogosno topo das montanhas. Lembremo-nos do dia em que Diana,ainda criança, se achava sentada nos joelhos de Júpiter, e lhedirigia a sua prece. "Concede-me, ó meu pai, concede-me agraça de permanecer sempre virgem e usar mais nomes que opróprio Febo. Dá-me, como a Febo, um arco e flechas... Não,meu pai, não cabe a ti armar tua filha; os ciclopes apressar-se-ão em me preparar dardos, e aljava. Dá-me, porém, o atributodistintivo de trazer fachos e revestir uma túnica
    • de franjas que só descera até os joelhos, para que me não vejaembaraçada durante a caçada. Destina ao meu séquito sessentafilhas do Oceano, que tenham todas a idade em que ainda se nãousam cintos. Que outras vinte ninfas, destinadas a servir-menas horas em que eu deixar de ferir os linces e os cervos, seincumbam dos meus coturnos e dos meus fiéis cães. Cede-me asmontanhas. Só peço uma cidade que será de tua escolha; Diana Fig. 239 — Diana (segundo uma moeda antiga).descera raramente às cidades. Habitarei os montes, e só meaproximarei das cidades no momento em que as mulherestorturadas pelas atrozes dores do parto, me chamarem em seuauxílio. Sabes que no dia do meu nascimento, as Parcas meimpuseram a obrigação de as socorrer, porque o seio que megerou não conheceu a dor e se livrou sem sofrer do seu peso."(Calímaco). Fig. 240 — O cervo, atributo de Diana inuma moeda antiga).
    • Esse hino nos dá a explicação dos principais aspectos sobos quais Diana está representada na arte. Dá-se-lhe o epíteto decaçadora, quando persegue a caça ; chama-se Diana arcádia,quando se banha com as ninfas nos frescos regatos da Arcádia,Diana Lúcifer, quando traz fachos (fig. 241), Diana Ilitia, quandopreside ao nascimento das crianças. Diana caçadora Considerada deusa da caça, Diana está sempre armada dassuas flechas e da aljava. Catulo apresenta-a como soberana dasmontanhas, dos bosques e dos rios; é sempre nos profundosvales, à sombra das florestas ou na margem dos regatos que avemos aparecer em Virgílio, em Horácio e em geral em todos ospoetas. Nos baixos-relevos, nas moedas e nas pedras gravadas,Diana está quase sempre representada em vestes de caçadora.Tem habitualmente a atitude de pessoa que corre, segurandocom a mão esquerda um arco e levando a direita à aljava postaàs costas, como que para tirar dela uma flecha. Os cabelos,amontoados num birote repousam sobre a Fig. 241 — Diana Lúcifer.
    • testa, atrás da cabeça ou nu topo (fig. 242). A veste não desce atéos joelhos; pelo contrário, deixa-lhe descoberta uma parte dacoxa. Vemos que se trata de costume feito para em nadaatrapalhar a rapidez da corrida. Muitas vezes está a deusaacompanhada de um cão ou de um cervo, mas o cervo, assimcomo o cão, parece também perseguir outros animais, e figuracomo companheiro de Diana, cuja agilidade ele simboliza. Fig. 242 — Diana (segundo um busto antigo). Entre as numerosas representações que a arte antiga nosdeixou dela, a mais famosa é a Diana e a corça do Louvre (fig.243). Está ornada de um diadema e os seus cabelos se achamamontoados no toutiço. A deusa, representada no momento deuma veloz corrida, está coberta por uma túnica curtadelicadamente pregueada
    • Fig. 243 — Diana e a corça (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre).
    • que lhe deixa nus os braços e as pernas. A manta, atirada àguisa de echarpe para cima do ombro, prende-se como cintosobre os quadris. Com a mão direita ela tira uma flecha daaljava, ao passo que a esquerda empunhava provavelmente umarco. A corça Cerinéia, cujas pontas eram de ouro, acompanha adeusa, de quem era o animal favorito. Existem várias cópiasdesse tipo, mas a estátua do Louvre é a mais bela. Os escultores dos últimos séculos representam fre-qüentemente Diana caçadora, e por vezes caíram no erro demostrá-la inteiramente nua. A nudez de uma mulher que corredificilmente se presta à plástica: não obstante, Houdon fez umagraciosa figura com a sua Diana caçadora, que não tem outrasvestes senão o arco e as flechas (fig. 244). Na sua obra-prima doLouvre (fig. 245), Fig. 244 — Diana (estátua de bronze, no Louvre).
    • Fig. 245 - Diana (segundo um grupo de Jean Goujon, museu do Louvre).
    • Fig. 246 — Diana de Gábies (estátua antiga, museu do Louvre).
    • Jean Goujon afasta-se menos da tradição mitológica, pois adeusa está representada na atitude de repouso, acariciando ocervo ao sair do banho. As tranças ornadas de jóias que o artistapôs no trabalho são um penteado do século dezesseis, mas nadaprova que o rosto seja, como se tem pretendido, um retrato deDiana de Poitiers. O castigo de Acteão Na arte antiga, Diana nunca aparece nua, pelo simplesmotivo de que, quando se banha, nenhum ser humano a podecontemplar impunemente: a história de Acteão é a prova. "Numvale consagrado a Diana e sombreado de pinheiros e de cipresteshavia um antro sombrio; embora tivesse sido formado apenaspela natureza, todos o teriam tomado por obra de arte. Via-senele uma abóbada de conchinhas e pedras pomes; à direitadessa arcada corria com doce murmúrio uma fonte de águalímpida, entre duas margens cobertas de relva e grama. A deusadas florestas, quando se via fatigada, vinha banhar-se em tãoencantador regato. Ao chegar, entregava às companheiras o arco,as flechas e a aljava, enquanto outras ninfas lhe desatavam oscoturnos e lhe prendiam os longos cabelos. Um dia, o caçadorActeão, percorrendo o bosque, foi conduzido pela má sorte aolugar em que a deusa se banhava. Mal chegou à fonte. as ninfas,percebendo que se expunham nuas ao olhar de um homem,gritam e alinham-se em torno de Diana com o fito de ocultá-la:mas a deusa, maior que as ninfas, ultrapassava-as por uniacabeça. Um subitâneo rubor lhe cobriu o rosto que ela ocultouimediatamente, e, não estando munida das suas flechas,guardadas sob um arbusto, lançou algumas gotas de água sobrea cabeça de Acteão ao mesmo tempo em que dizia: "Vai agora. sepodes, gabar-te de teres visto Diana banhar-se." Nu
    • mesmo instante, a cabeça do infeliz caçador se cobre de pontas,o pescoço e as orelhas se lhe alongam, os braços se lhe tornampernas compridas e finas, e todo o seu corpo se cobre de umapele manchada. No coração, penetra-lhe, simultaneamente,desconhecida timidez, e fugindo, ele se admira da velocidade comque corre. Chegando à margem de um rio, vê a cabeça no cristalda água e nota que está metamorfoseado em cervo. Quer gritar enão encontra palavras humanas para exprimir-se. Enquantoassim geme, os seus próprios cães o percebem e tombam sobreele. Acteão quer fugir, mas é atingido e dilacerado nos mesmoslugares em que tantas vezes caçara." (Ovídio). A arte nunca representa Acteão sob a forma de cervo, massomente com os seus rudimentos de pontas que Fig. 247 — Acteão, devorado pelos seus cães (segundo uma estátua antiga do museu Britânico. em Londres).
    • começam a crescer. É assim que ele aparece numa antigaestátua do British Museum (fig. 247) e em vários baixos-relevos,notadamente numa métopa de Selinonte. A mesma cena está representada em vários quadrosfamosos. Ticiano tinha oitenta anos quando pintou para Filipe IIo célebre quadro Diane e Acteão. Segundo um hábito bastantefreqüente na escola veneziana, enriqueceu a sua composiçãocom arquiteturas, e a cena se passa numa fonte circular, sob umpórtico abobadado Fig 248 — Acteão (segundo um baixo-relevo antigo).sombreado por grandes árvores. Filippo Lauri, Poelenburg,Albane, também houveram por bem reproduzir o tema queconvinha à natureza do seu talento: o museu do Louvre possuitrês telas de Albane, sobre a metamorfose de Acteão (fig. 250). Noquadro que Lesueur pintara em aguada para a decoração doprédio Lambert, a metamorfose de Acteão não está ainda pronta,e o jovem caçador se detém ao perceber as banhantes (fig. 249).O artista preferiu escolher o instante em que o pudor de Dianase ofende, e não o instante em que a sua vingança se realiza. Adecoração ornava a sala de banhos do prédio, e o tema seadequava perfeitamente. Depois. a sala tornou-se o quarto deVoltaire. e foi com este nome que passou a ser conhecida.
    • As ninfas de Diana Diana está freqüentemente acompanhada por ninfas;preside-lhes aos jogos e doideja com as companheiras aolongo dos regatos que refrescam s vales da Arcádia. Fig. 249 — Diana surpreendida por Acteão (segundo um quadro de Lesueur). O banho de Diana e das suas ninfas constitui o tema deuma multidão de quadros dos últimos séculos. Poelenburgfez dele uma especialidade; Rubens também o fixou váriasvezes. Num célebre quadro da galeria Borghese, em Roma,outro artista reuniu as ninfas de Diana em exercício de tirocom arco. Um pau está fincado no campo para servir de alvo,e a deusa, empunhando a sua arma, anima ascompanheiras nos exercícios. No primeiro plano, algumasninfas se banham ou desatam os coturnos para mergulharna água. A Diana de Gábies, uma das pérolas do museu dosAntigos, no Louvre, mostra a deusa ocupada em vestir-se,
    • sem dúvida após o banho. Prende as duas extremidades damanta com uma fivela sobre o ombro direito; a cabe-leira,ondulada, está rodeada por uma faixa. Alguns arqueólogos viramnessa bela estátua não a deusa, mas somente uma das ninfas doseu séquito, e com efeito, ela não traz os atributos comuns deDiana, mas se liga evidentemente ao séquito pelo seu costume epelo aspecto (fig. 246). Diana e Calisto As ninfas de Diana são sempre castas, e a deusa éimplacável nesse ponto. A ninfa Calisto que fazia parte do seucortejo experimentou um dia os efeitos da severidade da ama.Um dia, enquanto Diana se banhava, percebeu que Calisto nãoera mais digna de servi-la e a expulsou ignominiosamente da suapresença. Os rigores de Diana para com a pobre Calisto sugeriram milidéias graciosas aos artistas, e poucos temas foram tratadosmais freqüentemente pelos pintores, desde a Renascença.Ticiano compôs um soberbo quadro representando Diana aexpulsar Calisto cuja falta ela descobriu. Rubens também tratouvárias vezes o mesmo assunto. Albane o concebeu de maneiraque lhe é toda particular. Mostra-nos ele um bando de Amoresadormecidos sobre coxins no meio de uma floresta. Mas asninfas de Diana, descobrindo-os, vêm desarmá-los durante osono. Uma delas se incumbe de cortar as asas de um pobreCupidozinho, outra lhe parte o arco, mais outra foge com aaljava. Diana preside a tal pilhagem do alto do céu, onde repousasobre nuvens, enquanto a triste Calisto, repelida pelascompanheiras, desaparece solitária no fundo do quadro. Lesueurtambém fez uma graciosíssima composição sobre Diana eCalisto. A vingativa Juno. incapaz de perdoar a Calisto ter agradadoa Júpiter, metamorfoseou-a em ursa. Calisto
    • tivera de Júpiter um filho chamado Arcas, que se tornara hábilcaçador. Um dia, atirou-se ele à perseguição de uma ursa, queera precisamente sua mãe. Esta, vendo-se perseguida pelofilho, refugiou-se ao pé de um templo de Júpiter; mas antes deatingir o sagrado asilo, o jovem caçador viu-se no pontoadequado para lançar o dardo: o pai dos Deuses e dos homens,não podendo permitir semelhante ação na vizinhança do seutemplo, transformou Calisto em constelação, e está aí a origemda Grande Ursa. Juno indignou-se com a honra prestada a uma criatura aquem odiava, mas, visto que nenhum deus pode desfazer o queoutro faz, foi visitar Tétis, que é uma personificação do mar, erogou-lhe que não desse acolhida a Calisto, como costumafazer para as demais estrelas. É por isso que a Grande Ursa ésempre visível e jamais desce abaixo do horizonte. Fig. 250 — Diana e Acteão (segundo um quadro de Albani).
    • CAPÍTULO XIII DIANA DE ÉFESO O tipo de Diana de Éfeso. — As amazonas. O tipo de Diana de Éfeso Diana de Éfeso, personificação assaz vaga da fecundidadeda natureza, é uma divindade puramente asiática, e não temnenhuma relação com a irmã de Apolo, nem na arte, nem nalenda. As amazonas haviam instituído o seu culto em Éfeso,onde ela dispunha de magnífico templo, considerado uma dassete maravilhas do mundo. A deusa, cujo emblema era a abelha,tinha ali uma antiga imagem veneradíssima, apresentando aforma de múmia. Os seus numerosos úberes indicam afecundidade da terra, e as cabeças de bois de que está cobertasimbolizam a agricultura.
    • As amazonas As amazonas são mulheres guerreiras de grandíssimaimportância na mitologia e na arte. Segundo a tradição, asamazonas guerreiam durante um tempo determinado,conservando a virgindade. Quando o tempo do serviço militarestá findo, casam-se para ter filhos; além disso, preenchemtodas as magistraturas e funções públicas. Os Fig. 251 — Diana de Éfeso (segundo uma estátua antiga).homens passam a vida em casa, como alhures as donas de casa,e só se incumbem de trabalhos domésticos; são afastados doexército, da magistratura e de qualquer outra função pública quepossa inspirar-lhes a idéia de libertar-se do jugo das mulheres.Quando nasce uma criança, as amazonas confiam-na aoscuidados dos homens que as nutrem com leite e outrosalimentos
    • convenientes à idade delas. Se a criança é do sexo feminino,queimam-se-lhe as mamilas, com o fito de impedir que taisórgãos se desenvolvam com o tempo. As mamilas salientesseriam incômodas para o manejo do arco. Os escultores, todavia,não levam em conta esse uso, e nas suas estátuas, as amazonastêm sempre belíssimos seios. Fig. 252 — Amazona combatente. Atribuía-se a essas heroínas a fundação do templo de Éfeso,e ali se realizou famoso concurso para lhes honrar a lembrança.Fídias, Policleto, Fradmon, Clesilas figuravam entre osconcorrentes, que receberam a difícil missão de designar, elespróprios, o vencedor. Cada um deles colocou, evidentemente, emprimeiro lugar o seu
    • trabalho ; mas como o voto dos rivais fura unânime em dar aPolicleto o segundo lugar, obteve ele o primeiro e Fídias osegundo. A bela estátua da Amazona do Vaticano passa por imitaçãoda que foi julgada vitoriosa e que se via no templo de Éfeso. É,com Amazona ferida, do museu de Nápoles, a mais belarepresentação que conhecemos de tais heroínas. Em geral, os escultores apresentam as amazonas com osbraços e as pernas nuas e uma curta camisa a deixar-lhesdescoberto um dos seios. Às vezes, aparecem elas com umafisionomia oriental, caracterizada pelas calças e pelo gorro frígio;assim é que figuram no célebre sarcófago do museu de Viena,onde combatem contra guerreiros nus e de capacete. A presençadas amazonas nos sarcófagos parece ter sido homenagem aovalor do morto. O machado, o dardo, o arco, a lança, o escudo dedupla face, são as suas armas. Mas o costume de tais heroínasnão é o mesmo nas estátuas e nos vasos, onde se lhes vêemfreqüentemente vestes matizadas e calças colantes (fig. 253). Fig. 253 — As amazonas (segundo um vaso pintado, do museu de Nápoles). A Batalha das amazonas, de Rubens, em Munique, é umdos mais famosos quadros do grande mestre flamengo.
    • As amazonas estão ligadas a todas as tradições nacionaisda Grécia e vemo-las alternadamente em luta com Hércules ouTeseu. É na guerra de Tróia que elas surgem pela última vez.Inimigas fidalgais dos gregos, são sempre vencidas, e ovencedor, vendo-as tombar, admira-se com o extraordináriovalor delas. Entre as lendas heróicas dos gregos, nenhuma lhesinspirava maior vaidade que Fig. 254 — Os gregos e as amazonas (segundo um vaso pintado).a luta contra as amazonas. Atenas e Megara mostravam comorgulho o túmulo das suas rainhas, perto dos heróis que ashaviam vencido, e os seus gloriosos combates eram por todaparte representados nos frisos ou nas métopas dos templos.As estátuas apresentam as amazonas com-batendo umasvezes a pé, outras a cavalo. Hércules foi o primeiro que combateu com as amazonas eas venceu. Assim, depois da sua apoteose, vemo-lo
    • figurar ao lado dos deuses protetores da Grécia nos com-batesque se desenrolaram posteriormente. Num vaso pintado,representando um combate entre gregos e ama-zonas, depara-se-nos, na parte superior, Hércules deificado, na companhia deMinerva, Apolo e Diana (fig. 254). Diana era a protetora dasamazonas, e M. Guigniaut faz observar, a propósito desse vaso,que a aliança entre deuses e cultos parece representar a queformaram final-mente, após demoradíssima luta, os colonosjônicos e os indígenas asiáticos, primeiros adoradores de Dianade Éfeso.
    • CAPÍTULO XIV A LUA A marcha da Lua. — O sono de Endimião. — O deus Luno. A marcha da Lua A Lua (Selene) é irmã do Sol (Hélios), e percorr os ares numcarro seguindo o mesmo caminho que o irmão. Como ele, sai dorio Oceano, do lado do Oriente, e ali torna a mergulhar pelo ladooposto mal surge a Aurora. Em antigos monumentos vemos aLua deitar-se, e o rio Oceano, apoiado na sua uma, se apresta arecebê-la. Selene tem sido freqüentemente identificada comDiana, assim como Hélios com Apolo, mas é a ela que serelaciona a lenda de Endimião.
    • O sono de Endimião O sono foi personificado na mitologia pela personagem deEndimião, que, naturalmente, foi amado pela lua. A lenda deEndimião, diversíssima, apresenta-o umas vezes como rei cujoirresistível poder se estende sobre todas as criaturas vivas,outras como jovem pastor adormecido nas grutas do monteLatmo. Filho querido de Júpiter, obtivera do senhor dos deuses agraça de dormir eternamente sem despertar e sem envelhecer. O jovem pastor do monte Latmo era tão belo que a lua porele se apaixonou, e não mais conseguia deixar de contemplá-lo.Com os seus furtivos raios roubava-lhe um beijo, sem lheperturbar o repouso. A cena está freqüentemente representadanos baixos-relevos e nas pinturas antigas. Às vezes, vemosEndimião adormecido nos Fig. 255 — Diana precedendo a Aurora (segundo um vaso pintado).braços de Morfeu, e Selene, conduzida pelo Amor, desce do seucarro para o contemplar. Os sarcófagos apresentam comfreqüência esse tema, e o artista não deixa de ali introduzir omenino alado que segura o facho de cabeça para baixo, comosímbolo simultâneo do sono ou da morte.
    • Na arte dos últimos séculos, a lenda de Endimião foiinterpretada poeticamente por Girondet: enquanto o jovemcaçador dorme sob espessa folhagem, o Amor afasta, sor-ridente,um ramo para deixar passar o raio indiscreto da lua que vemtombar sobre o vulto de Endimião. O deus Luno A lua aparece, em alguns monumentos antigos, sob a formade adolescente (Luno) do sexo masculino. Está caracterizado pelocrescente e, às vezes por um facho ou uma montanha que elesegura com a mão (fig. 256). Não há lenda mitológica que serelacione a essa divindade que é de origem frigia. Fig. 256 — O deus Luno (segundo unja pedra gravada antiga).
    • CAPÍTULO XV A AURORA As portas do Oriente. — Titão e a Aurora. — Céfalo e Prócris. — O gigante Orião. As portas do Oriente A Aurora é irmã de Hélios e de Selene. Ela é que todas asmanhãs abre as portas do Oriente; percorre o mundo num carropuxado por dois ou quatro cavalos e obriga a Noite a depor ovéu. A Aurora é alada, e a sua atrelagem é rosada comolembrança dos matizes com os quais tinge o horizonte. Empunhaum facho, numa linda pedra gravada (fig. 257) ; numa pintura devaso vêmo-la no seu carro, e precedida de Diana Lúcifer (fig.255). Dizem os poetas que ela semeia flores sob os seus passos,e Thorwaldsen a representou assim com um Amor segurando umfacho sobre a cabeça (fig. 258). A famosa pintura de Cherchin,na Villa Ludovisi, gravada sob o
    • título de Carro da Noite, representa a Aurora deixando escaparflores por entre os dedos. Fig. 257 — A Aurora conduzindo os cavalos do Sol (segando uma pedra gravada antiga). Fig. 258 — A Aurora (por Thorwaldsen).
    • Titão P a Aurora Titão é habitualmente considerado esposo da Aurora ; nãopertencia à estirpe dos deuses, mas a Aurora obteve para ele aimortalidade. Porém, tendo-se esquecido de pedir ao mesmotempo a mocidade, Titão de tal maneira envelheceu, a suadecrepitude foi tão horrível e o tornou tão infeliz que a Aurora,apiedando-se, o metamorfoseou em cigarra. Desde esse dia, aAurora não cessa de chorar e as suas lágrimas constituem oorvalho matutino. Memnon, que foi morto por Aquiles na guerrade Tróia, era filho de Titão e da Aurora. Céfalo e Prócris Segundo outras tradições, o Orvalho, personificado emPrócris, era pelo contrário rival da Aurora, pois ambas amavamCéfalo, que os mitólogos modernos consideram o sol nascentepersonificado. Céfalo, que amava Prócris tanto quanto era porela amado, desposou-a. Céfalo era tão belo que a Aurora não se cansava de oadmirar. Num quadro de Guerin, vemos a Aurora, deixandoescapar por entre os dedos as rosas que ela faz nasceresoerguendo o véu da Noite para contemplar Céfalo adormecido.Uma pintura de vaso de estilo arcaico nos mostra a Auroracorrendo empós de Céfalo que foge a toda velocidade (fig. 259),pois, amando Prócris, não desejava abandoná-la, nem sequer poruma deusa. A Aurora, verificando que nada podia decidir Céfalo a unir-se-lhe, imaginou um estratagema para o separar
    • de Prócris. Afirmou-lhe, assim, que o Amor que tinha à mulhernão era correspondido e, a fim de lhe permitir uma prova, deu-lhe a faculdade de mudar de fisionomia. Céfalo, atormentadopelo ciúme, fingiu abandonar a esposa e voltou ao cabo de algumtempo com um rosto e um porte diferentes. Encontrou Prócrisdebulhada em Fig. 259 — A Aurora e Céfalo (segundo uma pintura de vaso).lágrimas e recusando-se a ver quem quer que fosse; masquando soube que chegara um forasteiro que se dizia amigo domarido, acolheu-o na esperança de ouvir ao menos falardaquele a quem amava e que a deixara sem motivo. Céfalo,curioso por impelir a aventura até o fim, tanto fez queconseguiu convencer Prócris a aceitar novo himeneu; mas nembem havia ela proferido o sim que Céfalo se revestiu do seuverdadeiro aspecto. Prócris, confusa, fugiu para os bosques etomou a resolução de nunca mais rever o esposo e deconsagrar-se ao culto de Diana. A Aurora rejubilou-se com o resultado do ardil, esperandosubstituir Prócris no coração de Céfalo. Mas Diana nãoentendeu assim: entregou a Prócris uma aljava e flechasmaravilhosas que sempre atingiam o alvo e, tornando-ainteiramente irreconhecível mediante a transformação a que lhesubmeteu a fisionomia, mandou que tentasse com Céfalo amesma experiência que Céfalo tentara com ela. Prócrisobedeceu e, aproximando-se de Céfalo, que não podiareconhecê-la, mostrou-lhe as suas maravilhosas setas, quepretendia levar como dote ao
    • marido. Enfim, houve-se tão bem que levou Céfalo a lhe proporum himeneu e, mal ele consentiu, ela readquiriu o aspectoprimitivo. Verificou-se a reconciliação; mas Prócris, com ciúmes daAurora cuja paixão lhe era conhecida, tomou o partido deacompanhar o marido para onde ele se dirigisse, inclusive àcaça. Um dia, estando ela no meio de urzes, Céfalo ouviu umruído que lhe pareceu o de uma corça, e, atirando o dardo,matou a infeliz Prócris. Desesperado, lançou-se ao mar, perto dopromontório de Leucádia. Os mitólogos apresentam Céfalo como uma das nume-rosaspersonificações do sol nascente na mitologia grega; ésimultaneamente amado pela Aurora e pelo Orvalho (Prócris),mas não pode unir-se à Aurora, por mais que esta faça, ao passoque busca avidamente o frescor do Orvalho, e o mata com osseus tórridos raios. Rúbens pintou a morte de Prócris. O pintor alemãoElzeimer, que vivia pelo fim do século XVII, apresentou um estilotudesco na sua composição de Céfalo e Prócris. No meio de umapaisagem, na qual todas as folhas estão minuciosamenteestudadas, vemos Céfalo ocupado em Fig. 260 — Prócris e o seu cão (segundo uma pedra gravada antiga).
    • colher ervas medicinais para curar Prócris a quem acaba de ferir.O holandês Poelenburg compreendeu melhor o tema : a suaPrócris é verdadeiramente bela, e o gracioso movimento que fazao morrer parece uma censura dirigida ao amante que aconfundiu com uma corça. O gigante Orião A lenda não parou aí no tocante à Aurora, a quem atribuiainda outras aventuras. Parece que ela agradara ao deus Marte,e Vênus, por ciúme, lhe provocou inúmeros dissabores. Assim,inspirou-lhe uma paixão pelo gigante Orião. Esse gigante vieraao mundo em circunstâncias inteiramente excepcionais. Seu pai era viúvo e sem filhos; prometera à mulheragonizante que não tornaria a casar-se. Júpiter, Netuno eMercúrio chegaram um dia à sua cabana para pedir-lhehospitalidade, e o bom homem lhes sacrificou um boi que eratudo quanto lhe pertencia. Comovidos, os deuses prometeram-lhe satisfazer-lhe o desejo que apresentasse, e o desejo do anciãofoi ter um filho sem o concurso de mulher. nenhuma. Os deuses,que nunca se embaraçam, lhe ordenaram que enterrasse a peledo boi sacrificado, e não tocá-la durante nove meses. Na devidaépoca, o peque-nino recém-nascido foi encontrado na terra, emlugar da pele de boi, e recebeu de seu pai o nome de Orião, Já crescido, ou melhor gigantesco, uma vez que a cabeçalhe atingia as nuvens, Orião apaixonou-se por Merope, filha deEnopião, e pediu-a em casamento. Irritado pela recusa, raptou-a.Enopião suplicou a Baco que não deixasse sem vingança oultraje; o deus enviou a Orião um profundo sono, durante o qualEnopião lhe vazou os olhos. Entretanto, tendo um oráculopredito a Orião que ele recobraria a vista com os primeiros raiosdo sol nascente, voltou-se ele para o lado do Oriente, e foi sem
    • dúvida em tal ocasião que a Aurora, ao nota-lo, concebeu por elepaixão tão viva que não hesitou em raptá-lo. A união não durou muito, pois Apolo, percebendo queDiana tinha certo pendor por Orião e temendo que ela cedesse,fingiu um dia duvidar da habilidade da irmã no manejo do arcoe, mostrando-lhe sobre o mar um ponto negro que mal sedistinguia no horizonte, perguntou-lhe se seria capaz de acertá-lo. Diana disparou a seta que atingiu Orião na cabeça, pois eraele que estava nadando sem prever o perigo iminente. Foi assimque Aurora, sempre infeliz no Amor, mais uma vez enviuvou. Deresto, Orião, após a morte, foi transformado numa brilhanteconstelação que se representa sob a forma de homem armado degládio.
    • CAPÍTULO XVI OS CREPÚSCULOS O cisne de Leda. — Castor e Pólux. — Hilária e Febe. — A imortalidade partilhada. — A estrela da tarde e a estrela da manhã. O cisne de Leda Os crepúsculos personificados, Castor e Pólux, vieram ao mundo num ovo. Uma pintura de Herculanum representa-lhes a mãe Leda, mostrando o ovo que contém os meninos, ao esposo Tíndaro, rei de Esparta. Leda agradara a Júpiter. O rei dos deuses, desejando aproximar-se dela, metamorfoseou-se em cisne e rogou a Vênus que se transformasse em águia e que fingisse persegui- lo sem quartel. O cisne assim perseguido acercou-se das margens do Eurotas e, no momento em que a águia ia atingi-lo, refugiou-se ao pé de Leda, como que a pedir-lhe proteção. Leda afugentou a águia, e o cisne
    • começou a bater as asas e ficou perto da protetora, para lhe ciarprovas do seu júbilo e do seu reconhecimento. Um grandenúmero de monumentos antigos, e sobretudo algumas pedrasgravadas, representam Leda ao lado do cisne. Os pintores dosúltimos séculos viram no tema um pretexto para opor a carnaçãobranca de uma mulher à plumagem ainda mais branca do cisne.Correggio pintou Leda rodeada de suas companheiras ebrincando com o cisne. Paolo Veronese e Tintoretto tambémrepresentaram a cena; mas os venezianos não se importavammuito com grande exatidão nas suas representações mitológicas.Em vez de colocarem a aventura nas margens do Eurotas,Tintoretto a coloca num aposento, e Leda, achando sem dúvidaque tão grande ave deve ser incomoda num recinto daqueles,parece ordenar à criada que a instale num galinheiro onde já seencontram outras aves. Um cãozinho salta atrás do cisneimportuno. Castor e Pólux Castor e Pólux eram gêmeos. Mas Castor, filho de Tíndaro ede Leda, era mortal, enquanto Pólux, filho de Júpiter, tinha oprivilégio da divina imortalidade. Chamam-se indistintamenteDióscuros, ou seja, filhos de Júpiter, ou então Tindárides, ouseja, filhos de Tíndaro. Os dois heróis se distinguiram na grandeexpedição dos argonautas. Pólux matou o terrível Amico, filho deNetuno e rei dos bebrícios, que possuía uma extraordinária forçae obrigava os forasteiros a lutar contra ele, para matá-los depoisde os vencer. A famosa luta, e várias vitórias obtidas nos jogosque Hércules fez celebrar em Elida, fizeram com que Póluxpassasse a ser considerado patrono dos atletas e do pugilato.Uma belíssima estátua do Louvre representa Pólux preparando-se para a luta.
    • Castor distingiu-se na corrida e na arte de domar cavalos.Dois grupos antigos famosíssimos em Roma, representando osDióscuros, passavam antigamente por ser um de Fídias, outro dePraxíteles: mas essas atribuições Fig. 261 — Castor e Pólux (pedra gravada).parecem hoje arbitrárias. Cada um dos dois heróis está ao ladodo seu cavalo. A equitação e a navegação sempre estiveram ligadas namitologia, e o cavalo era consagrado a Netuno. Vemos osDióscuros, conhecidos como excelentes cavaleiros, exercendo oseu poder sobre o mar. Talvez isso se relacione Fig. 262 — Castor e Pólux.também com a sua expedição dos argonautas e a destruição dospiratas que a tradição lhes atribuía. Durante a tormenta queassaltou os argonautas, vimos dois fogos
    • pairar em torno da cabeça de Castor e Pólux, e um momentodepois a tempestade cessou. Os fogos de Castor e Póluxapareceram, depois, freqüentemente no mar nas horas detormenta. Hilária e Febe Idas e Linceu, heróis messênios, eram noivos de Hilária eFebe, filhas de Leucipo. Mas s dois heróis espartanos, Castor ePólux, apaixonaram-se pelas duas jovens e tentaram raptá-las.Seguiu-se um combate terrível, porque os heróis messênios nãoestavam dispostos a permitir que lhes raptassem as noivas. Éfácil ver nessa tradição uma lembrança das antigas rivalidadesentre Esparta e Messena. O rapto de Hilária e Febe está representado num vasopintado. Uma delas era sacerdotisa de Diana, a outra deMinerva. Uma imagem hierática de Diana figura no alto e nocentro da composição. De um lado da deusa vemos um carrolançado a galope, no qual Pólux rapta Hilária. Do outro, Crisipo,o áuriga de Castor, montado num carro parado, aguarda Castorque traz nos braços uma jovem. Castor está na parte inferior dacomposição ao lado de um altar perto do qual se acha sentadaVênus. Júpiter e três deuses assistem à cena. O rapto das filhas de Leucipo pelos irmãos de Helenaministrou a Rubens o tema de um admirável quadro, que seencontra em Munique. As duas jovens oferecem aos gêmeosvigorosa resistência, e, caídas que estão ao chão as suas vestes,vê-se o frêmito dos seus lindos corpos, que os heróis arrebatamcom braços vigorosos, para os colocar sobre os cavalos, perto dosquais paira o Amor (fig. 263).
    • A imortalidade partilhada No combate que se feriu entre Idas e Linceu de um lado eos Dióscuros de outro, em torno das filhas de Leucipo, Castor,atingido por golpe mortal, foi o primeiro Fig. 263 — Rapto de Hilária e Febe por Castor e Pólux (quadro de Rubens. museu de Munique).que sucumbiu. "Mas Pólux, diz Píndaro, acorre imediatamente epõe em fuga os heróis messênios que, no entanto, se detêmperto do túmulo de seu pai. Ali, pegando uma estátua de Plutão,feita de mármore polido, atiram-na
    • contra o peito de Pólux. Em vez de recuar o herói nem sequerestremece com o choque; e agarrando sem perda de tempo umdardo cai sobre Linceu e enfia-lho no quadril. No mesmoinstante, Júpiter lança sobre Idas o seu raio vingador, e numturbilhão de chamas e de fumaça, consome os restos mortais dosdois irmãos, tal é a temeridade de medir forças com um entemais poderoso! Entretanto, o generoso Pólux acorre ao pé deCastor, encontra-o respirando com dificuldade e prestes a exalaro derradeiro suspiro. Banha-o de lágrimas, e no excesso de dor,brada: "Filho de Saturno, ó meu pai ! Qual será o fim da minhadesgraça? Faze-me morrer com meu irmão; que encanto podehaver na vida quem perdeu o que lhe é mais caro?" "Assim Pólux dava vazão aos seus amargos queixumes.Subitamente, Júpiter se lhe apresenta: "Tu és meu filho, diz-lhe,mas teu irmão nasceu de um mortal. Dou-te a escolher doispartidos: consente em partilhar da morada dos deuses comMinerva e Marte, livre da morte ou dos aborrecimentos davelhice, ou então, por Amor a teu irmão, consente em ligar-te aoseu mortal destino, passando alternadamente, como ele, ametade da vida na noite do túmulo e a outra metade no palácioresplendente do Olimpo." Assim fala Júpiter, e Pólux não hesita.Imediatamente, Castor torna a abrir os olhos à luz, e a sua vozcomeça a fazer-se ouvir." (Píndaro). Castor e Pólux, que vivem e morrem alternadamente,formam no céu a constelação dos gêmeos. A estrela da tarde e a estrela da manhã Consideram-se também como a personificação da estrela datarde e da estrela da manhã. Os Dióscuros tinham templos emvárias cidades. Polignoto representara-lhes o casamento com asfilhas de Leucipo; Micon
    • fixou-lhe o embarque na expedição dos argonautas. Plínio elogiao quadro de Apeles que os representava e que se via em Roma.Em várias medalhas figuram como deuses jovens ornados de umcapacete cônico sobre o qual brilha uma estrela (fig. 265).Quando aparecem aos homens, é Fig. 264 — Castor e Pólux (segundo um grupo antigo. em Madri). Fig. 265 — Castor e Pólux
    • quase sempre a cavalo, e é por tal motivo que o cavalo constituiuquase sempre o seu atributo. Um grupo antigo, famoso,representa Castor e Pólux de pé, um dos dois irmãos segura doisfachos, um dos quais está de cabeça para baixo (fig. 264). É umsoberbo trabalho de escultura, mas de significado simbólicoassaz obscuro.
    • LIVRO IV VULCANO E MINERVA
    • CAPÍTULO I VULCANO Nascimento de Vulcano. — Tipo e atributos de Vulcano. — Vingança de Vulcano. — Os fios de Vulcano. — As forjas de Vulcano. — Os ciclopes. Nascimento de Vulcano Vulcano (Hephaistos), filho de Júpiter e de Juno, nasceufraco e corcunda. Juno, envergonhada de ter dado à luz umacriança tão feia, atirou-o ao mar, onde ele foi recolhido por Tétise Eurinoma (fig. 266). Passou nove anos a fazer jóias para asNereidas. No entanto, subiu ao Olimpo, mas tendo assistido auma disputa entre Júpiter e Juno, desejou tomar o partido desua mãe. O rei dos deuses pegou-o por um dos pés e precipitou-o do Olimpo. Vulcano rolou durante todo o dia no vácuo e caiu,ao entardecer, na ilha de Lemnos, com apenas um sopro devida.
    • Fig. 266 — Tétis e Eurinoma recolhem Vulcano precipitado por sua mãe do alto do Olimpo (segundo Flaxman). Fig. 267 — Vulcano (segundo uma estátua antiga),
    • Vulcano é o fogo personificado: se é pequeno e mirrado aonascer, é porque o fogo começa sempre por uma faísca. Se éprecipitado do céu à terra, é por alusão ao raio. Finalmente, écorcunda e tem pernas tortas, porque a chama nunca apresentalinhas retas. Como a indústria nasceu do descobrimento do fogo,Vulcano é o deus da indústria, e apresenta sob essa relaçãograndes afinidades com Prometeu. Conservou-se na Antologiaum epigrama votivo de um ferreiro a Vulcano: "Retirai da fornalha este martelo, estas tesouras, esta pinça,oferenda que Polícrates dedicou a Vulcano. Foi com redobradosgolpes do seu martelo sobre a bigorna, que arranjou para osfilhos uma fortuna que deles afastará a triste miséria." Tipo e atributos de Vulcano Os poetas representam Vulcano com as feições de um hábilferreiro, mas ao mesmo tempo burlesco no aspecto, assazridículo aos olhos dos Olímpicos, corcunda e de conformaçãoviciosa. Nos tempos primitivos, era representado sob a forma deanão, mas nos belos tempos da arte passou a ser homemvigoroso e barbudo, com um capacete cônico tendo comoatributos as ferramentas de ferreiro. "Os que vão a Atenas, diz Valério Máximo, ali admiram aestátua de Vulcano feita por Alcamene. Entre as demaisperfeições que imediatamente nos dispõem em favor do artista,notamos em primeiro lugar a arte com a qual ele dá a entrever aatitude torta do deus sob as próprias vestes que servem para lheocultar a imperfeição: não parece ser defeito que ele hajapretendido censurar em Vulcano, mas apenas um sinaldistintivo, próprio a dá-lo a reconhecer como deus do fogo."
    • Vulcano fabricara a primeira mulher, Pandora, comoPrometeu fizera o primeiro homem. É o divino obreiro do Olimpo,e os deuses lhe deviam quase tudo o de que se utilizavam. Aégide e o cetro de Júpiter, o trono do Sono, a coroa de Ariadne, ocolar da Harmonia, os touros de bronze que guardavam ovelocino de ouro, as armas de Aquiles, eram trabalhos deVulcano. Era ele, ademais, autor do carro do Sol, e fizera paraApolo uma admirável flecha que, após atingir o alvo, voltava porsi à mão que a havia lançado. Fig. 268 - Cabeça de Vulcano (fragmento antigo) Vingança de Vulcano Para vingar-se dos pais que tão duramente o tinhamtratado, Vulcano imaginou o fabrico de uma cadeira de ouro, daqual, quem nela se sentasse, só se levantaria com a suapermissão. Juno, que não conhecia o segredo, sentou-se eVulcano não quis livrá-la. Uma curiosa pintura
    • de vaso (fig. 269) nos apresenta Juno sentada e Marte atacandoVulcano para libertar sua mãe. Vulcano não tinha forças paralutar contra o deus da guerra, e foi obrigado a ceder, mas a suairritação foi tal que não mais quis voltar ao Olimpo. Os deusesafligiram-se com Fig. 269 — Combate de Vulcano e Marte (pintura de vaso).aquela resolução que os privava de todas as belas obras que lhesfazia Vulcano. Baco resolveu levá-lo de novo ao céu eembriagou-o. As pinturas de vaso nos mostram Vulcanosegurando o martelo e montado num burro. Baco, no seucostume oriental, precede o burro e parece conduzir o deusferreiro, que ele conseguiu reconciliar com os demais imortais(fig. 270).
    • Os fios de Vulcano Na Odisséia, Vulcano é marido de Vênus. Outras tradiçõesfazem, pelo contrário, de Vênus, mulher de Marte. Como osdeuses tinham nas diversas localidades lendas diferentes e porvezes contraditórias, a poesia, vendo Vênus unida a Marte, ouunida a Vulcano, pretendeu conciliar as várias tradições pormeio de um adultério, e daí saiu a história dos fios de Vulcano.Hesíodo dá por esposa a Vulcano Aglé, a mais jovem dasGraças. Mas a história dos fios de Vulcano prevaleceu e faz queas outras sejam esquecidas. O que é notável nessa história éque Vulcano parece unicamente preocupado com os presentesque trouxe como dote à mulher e que ele pretende reaver. Fig. 270 — Vulcano e Baco (pintura de vaso) O Sol que vê tudo advertiu Vulcano das ligações existentesentre sua mulher e o deus da guerra. Vulcano, então, colocasobre um cepo unia enorme bigorna e forma grilhõesindestrutíveis. Essas cadeias eram finas como teias de aranha, eninguém conseguia percebê-las, tal a
    • habilidade com que haviam sido feitas. Mal Vulcano viu osdois culpados enredados nos fios, pôs-se a chamar todos osdeuses. "Poderoso Júpiter, e vós, imortais afortunados, acorreipara testemunhardes uma interessante cena que ninguémpoderia, no entanto, tolerar! Visto que eu sou disforme, afilha de Júpiter me ultraja sem cessar; agora, une-se aopernicioso deus da guerra, por ser ele belo e esbelto, aopasso que eu sou feio e corcunda! Meus pais são os únicosculpados desta desgraça; jamais deveriam ter-me posto nomundo!. . . Os laços que forjei para eles hão de retê-los até odia em que o pai de Vênus me devolver todos os presentesque lhe dei para conquistar-lhe a impudente filha. Vênus ébela, sem dúvida, mas não consegue dominar as suaspaixões." (Homero). Embora tal narração seja apresentada sob formacômica, convém notar que é a confusão dos amantes queleva os deuses a rir, e não a desventura do esposo, comofacilmente se supõe hoje. Um baixo-relevo da Villa Albani nos mostra a cena dosfios de Vulcano (fig. 271). O deus ferreiro, que tem atrás oSol reconhecível pela cabeça radiada, soergue um véu, e.mostra aos deuses os dois culpados. Marte está assazconfuso e Vênus volta-se para não ser vista por Júpiter.Cupido está ao lado de Marte. Fig. 271 — A rede de Vulcano (segundo um baixo-relevo antigo).
    • As forjas de Vulcano Vulcano, trabalhando na sua forja, figura assaz fre-qüentemente nas pedras gravadas. Vênus e Cupido estãosituados perto dele, e essa maneira de compreender a oficina deVulcano é a única que convém a jóias (fig. 272). Fig. 272 — Vênus e Vulcano (segundo uma pedra gravada antiga).Mas os verdadeiros companheiros de Vulcano aparecem noutrosmonumentos. São os ciclopes, fabulosos obreiros que só têm umolho no meio da testa e habitam as
    • profundezas aos vulcões. Os baixos-relevos nos apresentam àsvezes Vulcano na sua oficina, ocupado em fabricar a primeiramulher, Pandora, que todos os deuses cumulam de dons. Juno,a deusa dos casamentos, e Vênus, acompanhada da Persuasãoou de uma das Graças, estão habitualmente colocadas ao ladodo divino artista. Vemo-lo também forjar as cadeias de Prometeu,ou então receber a visita dos deuses. Fig. 273 — Vênus e Vulcano (segundo um quadro de Jules Romain, museu do Louvre).
    • Na arte dos últimos séculos, Velásquez pintou a oficina deVulcano no momento em que o Sol lhe revela a união de Vênuse Marte. Vulcano abandona os seus trabalhos e os três ciclopes,Arges, Brontes e Steropes, escutam com assinalada curiosidadea aventura narrada pelo Sol, sem darem mostras de pesar peloinfortúnio do mestre. Há no Louvre um pequeno quadro deJules Romain, no qual Vulcano, sentado perto- de Vênus,parece alegrar-se em lhe mostrar as armas que acaba defabricar. Os ciclopes Os ciclopes, obreiros de Vulcano, são habitualmentecaracterizados pela enormidade do vulto e pelo único olho,posto no meio da testa. Entretanto, Albane afastou-se muitodesse tipo. Incumbido de pintar os quatro elementos para ocardeal de Sabóia, escolheu Vulcano e a sua forja pararepresentar o fogo. Mas o seu quadro nada possui de terrível. Eis um fragmento da carta que ele escreveu ao cardealpara lhe anunciar o envio do quadro pedido. "Pintei, como VossaAlteza verá, não somente o fogo celeste e propriamenteelementar, representado pelo pode-roso Júpiter, senão tambémo fogo material e o do Amor, de que Vulcano e a deusa de Chipresão os emblemas: não quis colocar nas forjas de Vulcano nemBrontes, nem os demais ciclopes; preferi fixar três jovensAmores, visto que as carnes de meninos dessa idade constitueminteressante oposição às amorenadas de Vulcano. Tive,também, de me conformar nessa escolha ao desejo de VossaAlteza sereníssima, pois o embaixador me dissera que conviriarepresentasse eu grande número de Amores ferindo com assuas setas irresistíveis o mármore mais duro, o aço, o diamantee o próprio coração dos deuses."
    • Noutro quadro Albane coloca Vulcano ao lado de Vênus. Asua oficina já não é uma forja, mas um prado coberto de flores.Os seus obreiros não são mais s robustos ciclopes, e o ruído dosseus martelos é temperado pelo das cascatas. Enquanto naentrada de uma gruta recoberta de musgo, um deles aciona ofole, outros apresentam a Vênus as armas que acabam defabricar para ela e para o filho : essas armas são naturalmentesetas. A deusa, deitada descuidadamente à sombra dosbosquetes, sorri para tudo quanto a rodeia e seu esposo, o rudeVulcano, que repousa ao seu lado, busca tornar-se amável paranão prejudicar o quadro. Timanto pintara um quadrinho mencionado por Plínio comoobra famosa e representando um ciclope adormecido, cujopolegar os sátiros medem com os seus tirsos. A gigantescaestatura dos ciclopes e o barulho que fazem no fundo dosvulcões que lhes servem de oficina constituíam tema de espantopara os antigos. Tais ferreiros enormes tornaram-se na imaginação popularobreiros tipos, e foram-lhes atribuídas, como se fez para o diabona Idade Média, as construções cuja origem era desconhecida. Os ciclopes sempre foram considerados como personagensformidáveis. Quando Diana quis ter uma aljava e setas dignas dasua habilidade, foi visitar Vulcano que ela encontrou na forjarodeado pelos ciclopes seus obreiros "As ninfas empalideceram à vista de tais gigantessemelhantes a montanhas e cujo olho único, sob espessasobrancelha, brilhava ameaçadoramente. Uns faziam gemerimensos foles; outros, levantando os pesados martelos. batiamfuriosamente o bronze que tiravam da fornalha. A bigornaestremece, o Etna e a Sicília tremem, a Itália ecoa o estrondo e aprópria Córsega se sacode. Àquele terrível espetáculo, àquelemedonho fragor, as filhas do Oceano ficam estarrecidas... etrata-se, aliás, de um estarrecimento perdoável; as própriasfilhas dos deuses, na sua infância, só encaram tais gigantes comtemor, e quando se recusam a obedecer, suas mães fingemchamar Arges ou Steropes: Mercúrio acorre com as feições de umdesses ciclopes, de rosto coberto de cinza e fumaça;imediatamente, a criança, aterrorizada, cobre os olhos com asmãos e se atira tremendo ao seio materno." (Calímaco).
    • CAPÍTULO II PROMETEU Prometeu forma o homem. — As duas partes de Prometeu. — O fogo arrebatado aos homens. — A caixa de Pandora. — Suplício e libertação de Prometeu. Prometeu forma o homem Japeto representa o antepassado da humanidade. Talvezseja preciso reconhecer, nessa personagem a que o Gênesis dápor filho a Noé, Jafé, cujo nome personifica uma das grandesraças primitivas. Era considerado pelos gregos o tipo do que háde mais antigo e associa-se habitualmente a Saturno.Desposara Ásia, filha do Oceano, e teve vários filhos, entreoutros Prometeu, Epimeteu e Atlas. O Titã Japeto nãodesempenha papel na mitologia; a sua importância vem daantiguidade que se lhe atribuía e que lhe dava o mesmo tempoque os mais antigos deuses.
    • Embora seja o Titã Japeto tido como antepassado dahumanidade, parece que é a seu filho Prometeu que deve-mos aforma particular que nos distingue dos animais. "Prometeu, dizOvídio, após destemperar um pouco de terra com água, formou ohomem à semelhança dos deuses; e enquanto os outros animaistêm a cabeça voltada para o chão, somente o homem a erguepara o céu, e olha para o céu." A fabricação do homem porPrometeu está representada em monumentos assaz numerosos,mas que pertencem na sua maioria a uma baixa época. Umapedra gravada antiga nos mostra o autor do gênero humano soba forma de um escultor que estabelece a ossatura da sua figura;é uma representação extremamente curiosa, em virtude doesqueleto cuja imagem quase nunca aparece na arte dos antigos(fig. 274). Outra pedra gravada representa o divino artistaocupado em reunir os membros que esculpiu separadamente. Fig. 274 — Prometeu modelando uni homem (segundo uma pedra antiga). Em todas as representações antigas, Prometeu aparececomo artesão que faz o homem materialmente, mas não como odeus que o anima. Esse papel cabe a Minerva
    • (a Sabedoria divina): vários monumentos nos apresentamnitidamente a parte que cabe a cada um na criação daespécie humana. Num belo baixo-relevo, vemos Prometeusentado num rochedo à sombra de uma árvore (fig. 275). Nasua frente, numa mesa de escultor, está um homenzinho, ouantes um menino, de pé, aparentemente à espera de que oartista termine a obra. Outros três meninos, essesinteiramente terminados, avançam para Minerva que vaicolocar-lhes sobre a cabeça a borboleta, símbolo da alma naantiguidade. Vê-se que não se trata de um único homem,origem dos demais, mas sim de vários feitos na mesma época,quando houve necessidade de povoar a terra. Fig. 275 — Prometeu formando o homem (baixo-relevo antigo).
    • As duas partes de Prometeu Prometeu orgulhava-se do seu trabalho; e tendo surgidodivergências entre os deuses e os homens primitivos, tomou ele opartido destes. As divergências, das quais Hesíodo não nos diz acausa, eram acertadas em Mecona (Sicíona) : Prometeu,desejando saber se Júpiter era verdadeiramente digno dashonras divinas, excogitou um ardil para provar a suaclarividência. "Expôs aos olhos de todos, diz Hesíodo, um enormeboi. De um lado, encerrou na pele as carnes e os melhorespedaços, envolvendo-os com o ventre da vítima; do outro, dispôscom pérfida habilidade os ossos brancos que recobriu de gorduralustrosa. O pai dos deuses e dos homens disse-lhe, então: "Filhode Japeto, ó mais ilustre de todos os reis, amigo, com quedesigualdade dividiste as partes!" Prometeu, sorrindointeriormente do ardil, rogou-lhe que escolhesse, e Júpiter,apoderando-se da parte mais pesada, só ali encontrou ossos. O fogo arrebatado aos homens Júpiter, furioso por ter sido enganado, quis vingar-se doshomens, dos quais Prometeu é protetor, e roubou-lhes o fogo,sem o qual todo e qualquer trabalho é impossível. Mas Prometeunão se deu por vencido, e conseguiu roubar uma faísca do fogodo céu, que se apressou em levar aos homens. Dessa vez,Júpiter, vendo-se decididamente iludido pelo Titã, não conteve oressentimento e resolveu punir simultaneamente os homens e oprotetor. A grosseria dessa lenda é uma prova da sua grandeantiguidade;
    • no entanto, não deu origem a nenhuma representação plásticano período arcaico. Mas uma lâmpada da época romana nosfaz ver Prometeu, nu e de cabelos esparsos, fugindo com ofogo que acaba de roubar do carro do Sol (fig. 276). Nasnarrações dos poetas, o fogo estava contido numa folha einvisível a todos os olhos; pelo contrário, o oleiro mostra achama a sair de um vasinho que o Titã segura com a mão. Fig. 276 — Prometeu trazendo o fogo aos homens (segundo uma lâmpada antiga). Júpiter diz a Prometeu: "Filho de Japeto, rejubilas-te porhaveres roubado o fogo divino e iludido a minha sabedoria;mas esse ato será fatal a ti e aos homens que hão de vir. Paravingar-me, enviar-lhes-ei um funesto presente que osenfeitiçará e fará com que amem o seu próprio flagelo."(Hesíodo).
    • A caixa de Pandora Prometeu tinha um irmão chamado Epimeteu.Desconfiando de uma perfídia, recomendou-lhe que nadaaceitasse de Júpiter, pois o rei dos deuses tencionava fazer-lheum presente que seria fatal aos homens. Júpiter, por sua vez,pretendendo realizar o seu plano, enviou aos homens um flagelorevestido exteriormente do mais sedutor aspecto e que lhescausou mil inquietações, embora estimadíssimo; eis a origem lasmulheres, segundo Hesíodo: "De acordo com a vontade do filho de Saturno, Vulcano, oilustre deus, formou com um pouco de terra imagem semelhanteà de uma casta virgem. Minerva, dos olhos azuis, apressou-seem ornamentá-la e vesti-la de uma túnica branca. Pôs-lhe sobrea cabeça um véu engenhosamente trabalhado e admirável ; emseguida, ornou-lhe a testa de graciosas grinaldas feitas de floresrecém-desabrochadas e de uma coroa de ouro, que Vulcano, odeus ilustre, fabricara com as suas próprias mãos para agradarao poderoso Júpiter. Sobre essa coroa, ó prodígio, Vulcanocinzelara os numerosos animais que o continente e o marnutrem no seu seio; por toda parte brilhava maravilhosa graça, eas diversas figuras pareciam vivas. Quando terminou de fazer,em vez de um trabalho útil, tão funesta obra-prima, levou àassembléia dos deuses e dos homens a virgem orgulhosa dosenfeites que lhe dera a deusa dos olhos azuis, filha de umpoderoso pai. Igual admiração transportou os deuses e oshomens, mal perceberam a fatal maravilha tão terrível aoshomens, pois dessa virgem saiu a raça de mulheres de seiofecundo, dessas mulheres perigosas, flagelo cruel vivo entre oshomens e presas, não à triste pobreza, mas ao luxo ofuscante."(Hesíodo). Pandora, que foi mãe do gênero humano, foi, porconseguinte, obra dos deuses olímpicos, ao passo que o homemfora constituído pelo Titã Prometeu. Uma pintura arcaica, nofundo duma taça de Nola, nos mostra a
    • primeira mulher entre Vulcano e Minerva, ocupados em orná-lano momento em que acaba de ser formada (fig. 277). É bastantemenor que as duas divindades, e traz uma veste semeada deestrelas. Minerva tem o peito protegido pela égide eriçada deserpentes, mas não usa o capacete e a lança que constituem sseus habituais atributos. Vulcano é imberbe e por vestes só temuma clâmide; empunha o martelo que lhe serve de emblema. Éinteressante aproximar essa pintura da composição que Flaxmanexecutou sobre o mesmo tema (fig. 278). O escultor inglêssubstituiu Vulcano por Mercúrio, que apoia o caduceu à cabeçada primeira mulher, para lhe inspirar, segundo a expressão deHesíodo, "a arte da mentira e das palavras enganosas," Fig. 277 — Pandora entre Minerva e Vulcano. "Após terminar tão atraente e perniciosa maravilha,Júpiter ordenou a Mercúrio, o veloz mensageiro dos deuses, quea conduzisse para Epimeteu. Este esqueceu-se
    • de que Prometeu lhe recomendara nada receber de Júpiter e delhe devolver todos os presentes. para evitar um flagelo terrívelaos mortais, e aceitou o fatal presente, para, dali a pouco,reconhecer a imprudência cometida." (Hesíodo). Fig. 278 — Pandora dotada por Mercúrio e Minerva (segundo Flaxman) Foi de Pandora que saiu "essa raça fraca e delicada dasmulheres, que os mortais conservam para desgraça deles. Nuncaamigas da pobreza nem sequer da poupança. só amam o luxo eos gastos." (Hesíodo). Dando o fogo aos homens, Prometeu ensinara-lhes otrabalho que só pode existir com o fogo: Júpiter fê-los
    • artistas, dando-lhes a mulher, que, além das primeirasnecessidades da vida, lhes impõe mil encantadorasnecessidades que somente um trabalho incessante podesatisfazer. Pandora recebera de Júpiter uma caixa cujo conteúdo elaignorava; impelida pela natural curiosidade do seu sexo, quisabri-la, e todos os males se espalharam pela terra. Fechouimediatamente a tampa, mas no fundo da caixa só ficou aEsperança (fig. 279). Fig. 279 — Pandora abre o vaso fatal (segundo Flaxman). Suplício e libertação de Prometeu Júpiter revelou-se cruel para com Prometeu e, a fim depuni-lo por ter dado o fogo aos homens, agrilhoou-o aoCáucaso. Uma águia lhe dilacerava constantemente o fígado e asua carne renascia imediatamente para que o suplício serenovasse todos os dias. A luta de Júpiter contra Prometeu foiinterpretada de maneiras assaz
    • diferentes, mas segundo os trágicos seria possível ver nela umavaga recordação de uma mudança de crenças. Na antiguidade,Prometeu ficou como tipo da justiça esmagada pela força, daconsciência humana protestando contra um poder inexorável. O suplício de Prometeu teria, no entanto, fim Hércules, omatador dos monstros e grande reparador de erros, livrou o Titãmatando a águia que o roía. Prometeu, que conhecia o futuro,predissera que quem desposasse a Nereida Tétis, teria um filhomais poderoso que o pai, e o rei dos deuses, sabendo de talprofecia, renunciou ao projeto de unir-se a Tétis. Comorecordação desse serviço, Júpiter não obstaculou a libertação dePrometeu; mas já que afirmara que o suplício duraria milharesde anos e que um deus não deve mentir, excogitou-se umsubterfúgio. De um dos elos da cadeia que agrilhoava o Titã sefez um anel, no qual se introduziu um pedacinho do rochedo;desse modo, Prometeu continuava sempre preso ao Cáucaso. Um interessante sarcófago do museu Capitolino fixa emvárias cenas toda a lenda de Prometeu. O tema, tratado de maneira completíssima, nos oferece aimagem do Destino do homem, da sua origem e do seu fim,enquadrado por assim dizer nos diferentes atos da lenda do seucriador. No centro, Prometeu, sentado, segura nos joelhos umhomem que ele acaba de modelar com limo da terra e sobre cujacabeça Minerva coloca a borboleta, emblema da alma. Acima dePrometeu, surgem as Parcas, Cloto com a roca na qual fia osdias dos homens, e sua irmã Láquesis indicando num globo oDestino que lhes é reservado. Atrás dele, a Terra, segurando umacornucópia sustentada pelos gênios do estio e do inverno, volta acabeça olhando para um cesto contendo o limo de que se valePrometeu para formar o homem. O Sol conduzindo o seu carro eOceano segurando um remo e montado num hipocampoaparecem acima da Terra. Aos seus pés estão o Amor e Psiqueque se abraçam para mostrar a união íntima entre o corpo e aalma. Em seguida, vemos o grupo de Vulcano e dos seusciclopes, forjando os grilhões que prenderão Prometeu aoCáucaso.
    • O baixo-relevo termina com um casal de pé e nu sob umapalmeira, que relembra de maneira impressionante Adão e Evada Bíblia, mas no qual reconhecemos geralmente Deucalião ePirra os quais, únicos sobreviventes das águas do dilúvio, têmpor missão perpetuar o gênero humano criado por Prometeu. O outro lado do baixo-relevo mostra-nos os emblemas damorte, os quais no monumento estão colocados imediatamenteatrás de Minerva. Um homem está estendido por terra e privadode movimento: o gênio da morte segura o facho de cabeça parabaixo sobre o peito do cadáver, cuja alma, sob a forma deborboleta, foge subindo ao longo do facho, enquanto a sombra dodefunto, representada por uma grande figura envolvida nummanto, se ergue acima dos seus pés. Do lado da cabeça domorto, a terceira Parca, Átropos, sentada, segura sobre osjoelhos o livro do Destino. Sobre essa cena fúnebre aparece a luanum carro conduzido por dois corcéis. No episódio seguinte,Mercúrio, segurando numa das mãos o caduceu, leva para osinfernos a alma do defunto sob a forma de uma Psique de asasde borboleta, e aos seus pés a Terra, segurando sempre acornucópia, dispõe-se a lhe receber os despejos mortais.Chegamos, assim à terceira cena: Prometeu, agrilhoado a umrochedo, tem o fígado devorado por uma águia contra a qualHércules dispara uma seta. A maça e a pele de leão do heróiestão atrás dele, aos pés do Cáucaso, personificado pelas feiçõesde um velho de cabelos eriçados, segurando numa das mãos umdos pinheiros que o cobrem, e com a outra uma serpenterepresentando o gênio local do lugar em que se desenrola odrama. Há algumas variantes na história de Prometeu : alguns lheatribuem a fabricação da mulher, bem como a do homem, o quetiraria toda razão de ser da linda Fábula de Pandora. Entretanto,existem sobre essa versão monumentos que não podemosdesprezar. Um baixo-relevo antigo nos mostra Prometeusegurando um desbastador e modelando a primeira mulher; umhomenzinho ainda não animado está deitado aos pés do escultora quem Mercúrio conduz uma alma, caracterizada pelas asas deborboleta, e que irá habitar o corpo terminado por Prometeu.Atrás de Mercúrio, vemos as três Parcas que fiarão
    • o destino da nova criatura. O touro, o burro e a lebre, colocadosperto do escultor, relembram uma tradição segundo a qualPrometeu, ao formar a espécie humana, misturou ao limo de quese servia as qualidades dos diversos animais (fig. 280). Fig. 280 — Lenda de Prometeu com o nascimento e o Destino do homem (segundo um sarcófago antigo do museu Capitolino).
    • CAPÍTULO III DÉDALO As invenções de Dédalo. — Minos e Pasife. — As asas de Ícaro. — O retrato de Hércules. — Os telquines e os dúctilos. As invenções de Dédalo Reuniu-se, sob o nome mitológico de Dédalo, o grupo dasantigas corporações de artistas e artesãos que fabricavam asimagens dos deuses. A tradição acumulou, assim, sobre umaúnica personagem os trabalhos e as aventuras dos primeirosobreiros, e as velhas estátuas de madeira às quais se atribuíaum caráter milagroso eram sempre consideradas obras deDédalo. Como Vulcano e Prometeu, é Dédalo um civilizador queensina aos homens a indústria; possui uma relação menosdireta com o fogo, mas, em compensação, é arquiteto emecânico.
    • Dédalo, cuja genealogia fabulosa é extremamente confusa, épelos atenienses reivindicado como filho do rei Erecteu. Amachadinha, o nível, a broca são instrumentos de sua invenção.É também o primeiro autor das velas dos navios e soube dirigi-los com o vento. Dédalo tinha um sobrinho, filho de sua irmãPérdix, ao qual ensinou os seus segredos, e que, por sua vez,inventou a serra e a roda do oleiro. Dédalo matou-o por ciúme efoi obrigado a deixar Atenas, para ir a Creta onde o acolheuMinos, filho de Júpiter e de Europa e esposo de Pasife, filha doSol. Minos e Pasife Desejando ser bem recebido pelos súditos, que eram todosmarinhos, declarara-lhes Minos que Netuno lhe concederia tudoquanto ele desejasse, e para dar-lhes a prova, pediu ao deus dosmares que lhe enviasse um touro, o qual seria em seguidasacrificado. No mesmo instante, um magnífico touro branco saiudo mar; mas Minos achou-o tão belo que, em vez de o sacrificar,mandou que o guardassem no seu rebanho e imolou outro.Netuno, não podendo aceitar tamanho ultraje, incumbiu Vênusde vingá-lo. A cruel deusa não descobriu coisa melhor do queafligir Pasife com uma doida e irresistível paixão pelo formosoanimal. Deram-se diversas explicações de tão singular Fábula. Jáfora sob o aspecto de touro que Júpiter se apresentara à Europa,mãe do rei Minos, e a lenda de Pasife parece reproduzir a mesmahistória sob forma diferente. Creta mantinha constantes relaçõescom a Fenícia, onde os deuses apresentam freqüentemente aforma de touro, e com o Egito, onde o boi Ápis é uma encarnaçãodo Sol. Segundo Creuzer, Pasife seria simplesmente uma Luaapaixonada pelo Sol, que em Creta aparece nas regiões vizinhassob a forma de touro.
    • As asas de Ícaro A cólera de Netuno contra Minos produziu os seus frutos,fazendo com que de Pasife nascesse um monstro de cabeça detouro, chamado Minotauro, que se nutria de carne humana.Dédalo construíra para o rei Minos um enorme recinto cujointerior possuía mil giros, de sorte que era quase impossível dalisair, uma vez que se entrasse. É o lugar que passou a serchamado Labirinto, e foi nele que se encerrou o Minotauro, maistarde morto por Teseu, como veremos a seguir. Minos,descontente com Dédalo, a quem acusava de conivente naquestão, mandou que o atirassem à prisão com seu filho Ícaro. Aprisão achava-se num recife à beira do mar, em situação quetornava qualquer idéia de evasão materialmente impossível. Oengenhoso Dédalo, a quem nunca faltavam expedientes,concebeu um projeto jamais imaginado antes. Pegando algumaspenas, formou com elas um todo tão admirável que pareciaperfeitamente semelhante às asas das aves. As peninhas quedeviam constituir o fundo estavam presas com linha, as maiorescom cera. Deu-lhes, depois, a curvatura que se nota nas asasnaturais. Ícaro, seu filho, não sabendo que preparava a própriadesgraça, reunia, risonho, as penas que o vento dispersava, ouamolecia a cera com a qual seriam presas; às vezes contemplava,gracejando, o trabalho do pai. Quando este ficou pronto, Dédaloexperimentou-o, e tomando impulso, manteve-se suspenso nomeio do ar; daí, voltando-se para o filho, disse-lhe: "Cuida, meufilho, de voar sempre no meio dos ares; se desceres muito, aumidade da água tornará muito mais pesadas as tuas asas; se teergueres demais, o calor do sol as queimará; mantém-te, porconseguinte, no justo meio entre os dois extremos." Após essa exortação, tremendo e com lágrimas nos olhos,prendeu-lhe as asas e explicou-lhe em poucas palavras de quemaneira devia servir-se delas. Finalmente, abraça-o pela últimavez, e com ele galga a torre de onde ambos se atiram ao vôo.Landon representou tal cena (fig. 282).
    • "Ferido de espanto à vista de tão inaudito prodígio equerendo observá-lo mais à vontade, o pescador, que os tomapor dois deuses, apoia-se na vara, o pastor no cajado e olavrador no arado. Dédalo e Ícaro já tinham abandonado a ilhade Samos, consagrada a Juno, as de Delos e Paros, quando ojovem Ícaro, entusiasmando-se, começou a atirar-se para afrente, e abandonou o guia, para subir mais. O ardor do solfundiu-lhe a cera que prendia as penas das asas, e foi inútil paraele remexer os braços para suster-se e chamar o pai em auxílio;pálido e trêmulo, caiu ao mar. Dédalo, que perdera de vista ofilho, Fig. 281 — Dédalo preparando as asas de Ícaro (segundo uma pedra gravada),chamou-o em vão: "Ícaro, meu caro Ícaro, onde estás? Que teaconteceu?" Falava ainda, quando notou o filho caído à beira domar, enquanto as penas flutuavam sobre as ondas". (Ovídio).
    • Numa pintura de Herculanum, Dédalo voa quando percebeo filho morto (fig. 283). O escultor Slodtz fez uma estátua deÍcaro, que lhe granjeou entrada na Academia. Fig. 282 — Dédalo e Ícaro (segundo um quadro de Landon). Após prestar as derradeiras homenagens ao filho, Dédalodirigiu-se para Cumes, onde fundou um templo de Apolo.Consagrou a esse deus as suas asas, e pintou toda a história nosmuros do templo por ele erguido. Executou, ainda na Sicília,várias obras notáveis, entre outras um rochedo elevadíssimo queele preparou de tal maneira que
    • pudesse construir uma cidade inexpugnável, pois ali só se acediapor uma estreita senda tortuosa para cuja defesa bastavam trêsou quatro homens. O retrato de Hércules Como escultor, Dédalo passa por ser o primeiro que afastouas pernas e abriu os olhos das suas personagens. Estavaintimamente ligado a Hércules, e para ser-lhe agradável, lhemodelou a imagem, e colucou-a sobre o caminho que Hérculesseguia habitualmente, quando ia combater os monstros.Exprimira tão bem a força do herói, e a estátua parecia de talmodo viva, que Hércules, julgando estar lidando com um inimigodigno dele, pegou enorme bloco de pedra, e atirou-o contra aestátua que ficou pulverizada. Toda a lenda de Dédalo mostra o espanto causado aosprimeiros homens pelas maravilhas da indústria nascente. Àmesma idéia podemos ligar as histórias dos telquines e dosdáctilos. Os telquines e os dáctilos Os telquines, misteriosos gênios que se prendem às origensda indústria humana, passam em certas tradições por serem osprimeiros instituidores do culto e inventores das artes. Sãosobretudo habilíssimos metalurgistas e sabem dar aos metaistodas as formas que desejam.
    • Foram eles os primeiros em fazer as estátuas dos imortais, eem fabricar a foice de Saturno e o tridente de Netuno. Ostelquines são, ao mesmo tempo, feiticeiros versadíssimos namagia, revestem-se das formas que que-rem, e têm afaculdade de lançar mau olhado aos inimigos. Julgamo-losoriundos da ilha de Rodes. Fig. 283 — Morte de Ícaro (segundo uma pintura de Herculanum). Os mesmos talentos cabem aos dáctilos, gênios frígios,que ensinaram aos homens a fundição dos metais e otrabalho do ferro e do bronze. São também temidíssimoscomo mágicos e as lendas que a eles dizem respeito, como
    • as que o dizem aos telquines, apresentam a maior confusão.Prendem-se seguramente às antigas corporações de obreiros quese formaram, quando os homens começaram a servir-se dosmetais, e cujos processos de trabalho assumiam aos olhos daspopulações um caráter pronunciadíssimo de magia.
    • CAPÍTULO IV MINERVA Nascimento de Minerva. — Nascimento de Erecteu. — Pandrosa. — Disputa de Minerva e Netuno. — Tipo e atributos de Minerva. — Minerva e Encélades. — Minerva, e Tirésias. — Minerva e Mársias. — Minerva higéia. — Minerva obreira ou ergane. — Minerva e Aracne. — A festa das Panatenéias. Nascimento de Minerva Métis, a reflexão personificada, fora a primeira esposa deJúpiter. Foi ela que deu ao velho Saturno uma beberagem paraobrigá-lo a devolver os jovens deuses que ele havia engolido.Estando grávida, predisse a Júpiter que teria em primeiro lugaruma filha e, em seguida, um filho que se tornaria senhor do céu.O rei dos deuses, espantado com tal profecia, engoliu Métis,
    • Algum tempo depois, foi acometido de violentíssima dor decabeça e rogou a Vulcano que lhe fendesse a cabeça com omachado. Mal recebeu o golpe de machado de Vulcano, saiu-lhe docérebro, armada de todas as suas peças, a filha Minerva, novaencarnação da sabedoria divina. Essa lenda, de caráter assazbárbaro e, por conseguinte, velhíssima, está representada demaneira ingênua num baixo-relevo onde, extraordinariamente,Vulcano é um rapaz imberbe (fig. 285). Num espelho etrusco vemos Ilitia, a deusa dos partosassistindo ao rei dos deuses e tirando-lhe da cabeça Minerva,que sai armada do capacete e da lança. No outro lado está Vênusque também parece acorrer em auxílio a Júpiter e atrás da qualvemos, empoleirada numa árvore, a pomba que lhe éconsagrada. Tais divindades trazem os seus nomes gravados noespelho em língua etrusca (fig. 284). Fig. 284 — Nascimento de Minerva (segundo um espelho etrusco. O mesmo tema decorava um dos frontões do Partenão, masé provável que o nascimento estivesse ali concebido de maneirainteiramente diversa. Infelizmente, nada
    • resta da parte central do frontão em que tal cena estavarepresentada. Júpiter é a abóbada do céu donde jorra o raio luminoso esúbito; como é também o senhor dos deuses, a sua sabedorianão vacila absolutamente em lhe brotar do cérebro divino.Minerva devia, pois, nascer inteiramente armada e provida detodos os seus atributos. É assim que no-la apresentam asestátuas, muitas vezes com a lança e o escudo, mas sempre como capacete e a égide. Fig. 285 — Vulcano e Júpiter. Luciano narrou o nascimento de Minerva sob forma dediálogo: "Vulcano. — Que devo fazer, Júpiter? Venho, por ordem tua,armado de um machado afiadíssimo e que, se houvessenecessidade, seria capaz de partir, de um só golpe, a mais duradas pedras. Júpiter. — Ótimo, Vulcano! Parte-me, pois, a cabeça. Vulcano. — Queres submeter-me a uma prova, ou estáslouco? Dá-me uma ordem séria, dize o que queres que eu faça! Júpiter, — Já to disse, parte-me a cabeça; bate com toda aforça e sem demora; não posso viver com as dores que medilaceram o cérebro.
    • Vulcano. — Acautela-te, Júpiter. Quem sabe se não vamoscometer uma asneira? O meu machado é afiadíssimo, fará comque te corra o sangue e não te libertará à guisa de Lucina. Júpiter. — Bate, vamos, Vulcano! Nada temas. Sei o quequero. Vulcano. — Bato, mas contra a vontade. Que me resta, seassim me ordenas?... Que estou vendo? Uma jovem armada dacabeça aos pés! Safa, que dor de cabeça não devia ser a tua,Júpiter! Não é de assombrar que te hajas mostrado irascível, setrazias viva, sob a membrana do teu cérebro, uma jovem destaestatura, e, ainda por cima, armada. Não sabíamos que tinhasna cabeça um verdadeiro campo. Olha, ela salta ! Ei-la quedança a pírrica, agita o escudo, brande a lança, e está dominadapelo entusiasmo. O que é mais estranho é que, de súbito, setornou belíssima e pronta para casar. É verdade que tem olhoscinzentos, mas o capacete compensa esse defeito. Júpiter, comopagamento pelo serviço que te prestei, cede-ma por esposa. Júpiter. — Tu me pedes o impossível, Vulcano; ela querpermanecer virgem para sempre. Quanto a mim, não me oponhoao que desejas. Vulcano. — É o que quero. O resto fica por minha conta. Voulevá-la." (Luciano). Nascimento de Erecteu Vulcano pôs-se imediatamente a procurar Minerva. e, certode que ela estivesse na Acrópole, rumou para Atenas. Mal apercebeu, colocou-se-lhe na frente e quis dar os passosnecessários. Mas a deusa o recebeu de maneira tal que lhe tirouqualquer desejo de recomeçar. O pobre ferreiro ficoudespeitadíssimo; para mostrar que saberia dispensá-la, resolveucontrair núpcias no mesmo
    • instante. e dirigiu-se à Terra, boníssima criatura, que o aceitouapesar das mãos negras. Dessa união nasceu Erecteu, que maistarde se tornou rei de Atenas. O que deu origem a tão singularlenda foi o fato de os atenienses, já colocados sob a proteção deMinerva, quererem, por um laço qualquer, prender-se ao deus dofogo, que preside à indústria dos metais. A Terra, mal gerou Erecteu, deixou o recém-nascido nochão, sem mais com ele preocupar-se, como se fosse umasimples cobra ou um verme. Minerva, percebendo-o,compadeceu-se e, pegando-o, pô-lo num cesto e levou-o para oseu santuário. Mas, apesar de todo o seu bom coração, nãoconseguia livrar-se das preocupações guerreiras, e, estando agalgar a Acrópole levando o cesto, notou que a sua cidade nãoestava bastante fortificada do lado do Ocidente. Entrou na casade Cécrops, que tinha três filhas, Pandrosa, Aglaura e Herse, e,confiando-lhes o cesto, muito bem fechado, proibiu-lhes que oabrissem para verificar o conteúdo, e imediatamente partiu embusca de uma montanha que julgava necessária para afortificação da cidade. Quando partiu, Aglaura e Herse, impelidaspela curiosidade, pretenderam abrir o cesto, não obstante ascensuras de Pandrosa. Mas uma gralha, que tudo vira, foi contaro fato a Minerva, que já segurava a montanha entre os braços eque fortemente surpresa, a deixou cair. Eis aí a origem do monteLicabeto. Pandrosa A deusa concebeu tal afeto por Pandrosa, que não somentelhe confiou a educação do pequenino protegido, como tambémexigiu que Pandrosa, após a morte, recebesse as honras divinas.Quando Erecteu se tornou rei de Atenas, apressou-se emsatisfazer tal desejo, mas,
    • associando no seu reconhecimento a filha de Cécrops e a deusaque o recolhera, elevou um templo em duas partes, uma dasquais foi dedicada a Minerva e outra a Pandrosa. A construçãofoi queimada pelos persas, como todos os monumentos deAtenas, e o que hoje existe foi erguido após as guerras médicas. Disputa de Minerva e Netuno Atenas tira o seu nome de Atena (nome grego de Minerva)mas a honra de dar o nome à cidade que Cécrops acabava defundar deu origem a uma famosa disputa entre Netuno e adeusa. Constituía ela o tema de um dos dois frontões doPartenão, esculpidos por Fídias e cujos fragmentos mutiladosfazem hoje parte do Britsh Museum em Londres. Figuraigualmente em moedas antigas (fig. 286). Fig. 286 — Minerva e Netuno (segundo uma medalha antiga). Era preciso pôr a nova cidade sob a proteção de umadivindade. Decidiu-se que se tomaria por protetor da cidade odeus que produzisse a coisa mais útil. Netuno, batendo a terracom o tridente, criou o cavalo e fez jorrar uma fonte de água domar, querendo com isso dizer que o seu povo seria navegador eguerreiro. Mas Minerva
    • domou o cavalo para o transformar em animal doméstico, e,batendo a terra com a ponta da lança, fez surgir uma oliveiracarregada de frutos, pretendendo com aquilo mostrar que o seupovo seria grande pela agricultura e pela indústria. Cécrops, embaraçado, consultou o povo, para saber a quedeus preferia entregar-se. Contudo, não se tendo naquelestempos tão remotos imaginado que as mulheres não pudessemtão bem quanto os homens exercer direitos políticos, todosvotaram. Ora, sucedeu votarem todos os homens por Netuno etodas as mulheres por Minerva; mas como entre s colonos queacompanhavam Cécrops, houvesse uma mulher mais, Minervaraptou-a. Netuno protestou contra essa maneira de julgar adivergência, e apelou para o tribunal dos doze grandes deuses.Estes chamaram Cécrops como testemunha, e tendo sido avotação considerada regular, passou a cidade a ser consagradaa Minerva. Os atenienses, no entanto, temendo a cólera deNetuno que já ameaçara engoli-los, ergueram na Acrópole umaltar ao Olvido, monumento da reconciliação de Netuno eMinerva; em seguida, Netuno participou das honras da deusa.Eis como os atenienses se tornaram um povo navegador e aomesmo tempo agrícola e manufatureiro. Minerva era para os atenienses a deusa por excelência e aAcrópole a montanha santa. A Acrópole figura numa moeda deAtenas, assaz grosseira, aliás (fig. 287). Fig. 287 — Acrópole (segundo uma moeda antiga).Não se vêem nela representações de edifícios, mas somentedominar a grande Minerva de bronze, que s navegantessaudavam de longe, como protetora da cidade.
    • A confiança inspirada por Minerva só desapareceu com ainfluência cristã, e um dos derradeiros historiadores pagãos,Zózimo, narra de que maneira se apresentou a deusa pela últimavez. "Alarico, diz ele, impaciente por se apoderar de Atenas, nãoquis entreter-se com outro assédio. Apressou-se, pois, em ir aAtenas na esperança de tomá-la, quer por ser dificílimo defendera grande extensão das suas muralhas, quer por estar ele já deposse do Pireu e por haver pouquíssimas provisões na cidade.Eis a esperança nutrida por Alarico. Mas a cidade tão antigaseria conservada pela providência dos deuses no meio de tãoterrível perigo. A maneira pela qual ela foi protegida édemasiadamente milagrosa e demasiadamente capaz de inspirarsentimentos de piedade, para que a silenciemos. Quando Alaricose aproximou das muralhas à testa do seu exército, viu Minerva,tal qual surge nas imagens, dar a volta à cidade, e Aquiles talqual o descreve Homero apareceu no alto das muralhas. Alarico,estarrecido com o espetáculo, tratou de fazer a paz e abandonoua luta." (Zózimo). Tipo e atributos de Minerva "A partir do dia, diz Ottfried Muller, em que Fídias terminoude desenhar o caráter ideal de Minerva-atena, uma fisionomiacheia de calma, uma força que tem consciência de si própria, umespírito claro e lúcido, passaram a ser para sempre os principaistraços do caráter de Palas. A sua virgindade a coloca acima detodas as fraquezas humanas; ela é demasiadamente viril para seentregar a um homem. A testa muito pura, o nariz longo e fino, alinha um pouco dura da boca e das faces, o queixo largo e quasequadrado, os olhos pouco abertos e quase constantementevoltados para a terra, a cabeleira atirada, sem arte, para cadalado da testa e ondulada
    • sobre a nuca, traços nos quais transparece a rudeza primitiva,correspondem perfeitamente a tão maravilhosa criação ideal." Fig. 288 — Minerva arcaica (numa antiga moeda de Atenas). Minerva se identifica completamente com a cidade que elaprotege, e se por vezes usa cavalos no capacete é para mostrar asua reconciliação com Netuno a quem era consagrado o cavalo, eque, como deus dos mares, não podia deixar de ter grandeimportância em Atenas. É o que vemos num medalhão antigo noqual a cidade de Roma personificada se liga à de Atenas (fig.289). (Palas-atena). As duas ilustres cidades se caracterizampelos seus atributos: a loba com os dois filhos é o atributocomum de Roma, como a coruja é o habitual atributo de Atenas.A deusa ateniense traz a égide com a cabeça de Górgona, equatro cavalos lhe ornam o capacete. Os cavalos aparecem igualmente num soberbo entalheantigo. A pena do capacete é suportada por uma esfinge e doiscorcéis alados ou pégasos: a parte da frente está ornada dequatro cavalos e o cobre-orelha de um grifo. Os enfeites da deusasão luxuosos; além da égide de escamas bordadas de serpentes,traz ela um colar de bolotas, e brincos em forma de cachos deuvas (fig. 290). Às vezes, como na medalha de Thurium, não é nem ocavalo, nem o grito que ornam o capacete de Minerva, mas umaCila ou um monstro fantástico com cauda de serpente (fig. 291). A deusa usa sempre um capacete, até quando desempenhapapel pacífico. O capacete tem, às vezes, asas para indicar ocaráter aéreo de Palas (fig. 295). Vemo-lo,
    • quanto ao resto, sob formas extremamente variadas, emmoedas gregas ou romanas. A coruja, a ave que vê bem durante a noite, énaturalmente consagrada a Minerva, deusa que personificasimultaneamente o raio e a inteligência. Nas mais antigasmoedas de Atenas se nos depara a coruja, símbolo de umavigilância constantemente alerta (fig. 288). Fig. 289 — Atenas e Roma. Como deusa guerreira, Minerva combate com a lança. Noentanto, uma medalha da Macedônia, imitação de antiga figuraarcaica, no-la apresenta com o raio de
    • Júpiter (fig. 297). A Vitória está freqüentemente na mão dadeusa. É assim que ela aparece numa bela moeda de Lisímaco(fig. 296). Fig. 290 — Palas (segundo uma pedra gravada antiga). Fig. 291 — Moeda de Thurium. A arte dos tempos primitivos preferia a imagem de Palas àsdas outras divindades; os antigos paládios representavamordinariamente a deusa com o escudo erguido, e brandindo alança. Entretanto, essa forma varia muito, até nos própriostempos primitivos, e Minerva se reveste de diferentes aspectos,segundo as localidades.
    • Uma pintura de vaso nos mostra Hércules e Jasãooferecendo um sacrifício a Minerva asiática; a deusa usa a coroaradiada e está envolta numa túnica fechada e ricamentebordada. Posto sobre uma coluna, o ídolo ergue as mãos ematitude que exclui a idéia de qualquer atributo. Perto dela, estáuma vitória alada, seguida de um éfebo, que dá a impressão deestar abrindo uma caixa contendo os utensílios sagrados (fig.298). Fig. 292 — Medalha romana (denário da gens Pompéia). Fig. 293 — Moeda de Macedônia (cunhada sob Alexandre. o Grande). Fig. 294 — Moeda grega (de Mantinéia ), Uma medalha da Nova Ílion representa uma Palas troianacujo tipo, imitação de antiga figura arcaica, deve remontar a,remota antiguidade. Está de pé e traz na mão
    • direita a lança apoiada ao ombro, enquanto a esquerdaempunha um facho. A ave sagrada está de pé diante da deusa,cujo costume, e particularmente o capacete, se afastamcompletamente do tipo habitual de Minerva. Fig. 295 — Moeda romana (denário da gens Pompéia). Fig. 296 — Minerva trazendo a Vitória (numa moeda de Lisímaco). Fig. 297 — Minerva segurando o raio (numa moeda macedônia( A égide é uma pele de cabra de que nos servimos comoescudo, mas significa igualmente a tempestade, e é em talsentido que Homero a entende, quando fala do
    • fogo e da luz que partem do escudo divino. Minerva, sendo naordem física o raio personificado, devia ter por atributo aégide, e nos monumentos arcaicos podemos ver de quemaneira era empregada primitivamente. Na grande época daarte, Minerva trá-la sobre o peito; a Górgona figura sempre naégide. Fig. 298 — Antigo ídolo de Minerva asiática (numa pintura de vaso). A cabeça da Górgona é um dos atributos essenciais dadeusa e aparece quer sobre a égide, quer sobre o seu escudo.Exprime o terror com o qual Palas fere os inimigos. A Minerva arcaica de Herculanum está numa atitudehierática : vestida do peplo de dobras tesas e engomadas,que recobre a concha, marcha resolutamente para o combate(fig, 300). A maneira pela qual a deusa traz aqui a égide écaracterística: segura-a sobre o ombro para ter o braçoesquerdo inteiramente coberto. A égide é grandíssima, aopasso que nos monumentos menos antigos, perde algo dasua importância. A égide usada por Júpiter passava por ser a pele dacabra Amaltéia, que lhe foi nutriz. Mas há tradiçõesdiferentes em torno da égide de Minerva. A deusa matara
    • o monstro Agis, filho da Terra, que vomitava chamas com umafumaça negra e espessa. O monstro desolou, a princípio, aFrigia, em seguida o monte Cáucaso, cujas florestas queimouaté a Índia. Depois foi incendiar o monte Líbano e devastousucessivamente o Egito e a Líbia. Minerva, após o derrubar, otraspassou com a lança e Fig 299 — Atributos de Minerva com medalhas antigas.da sua pele fez uma couraça, sobre a qual colocouposteriormente a cabeça da Górgona, e que usava como troféu.Quando a égide está colocada em volta do braço, como no-laapresenta a Minerva de Herculanum, é sempre um sinal decombate.
    • A Minerva de Egina segura a lança e o escudo no alto, masa égide, em vez de ser usada sobre o braço, serve de couraçapara garantir o peito e até as costas, sobre as quais recai. Essaestátua, que hoje se encontra na Gliptoteca de Munique,ocupava o centro do frontão ocidental do templo de Egina (fig.301). Fig. 300 — Minerva de Herculanum (museu de Nápoles). A famosa Minerva de Fídias, no Partenão, era de marfim eouro. A deusa estava de pé, coberta da égide, e a sua túnicadescia até os calcanhares. Empunhava uma lança com uma dasmãos e com a outra uma vitória. O capacete estava encimado poruma esfinge, emblema da inteligência celeste; nas partes lateraishavia dois grifos, cuja significação era a mesma que a da esfinge,e, acima da viseira, oito cavalos a galope, imagem da rapidez com
    • a qual age o pensamento divino. A cabeça de Medusa figurava-lhe no peito. Os braços e a cabeça da deusa eram de marfim,com exceção dos olhos formados por duas pedras preciosas; asvestes eram de ouro e podiam ser retiradas com facilidade, poisera mister, quando a república se via em apertos, poder recorrerao tesouro público, do qual a deusa era depositária. Na faceexterior do escudo, posto aos pés da deusa, estava representadoo combate dos atenienses contra as amazonas, na face inferior odos gigantes contra os deuses : o nascimento de Pandora estavaesculpido no pedestal. Um trecho da Antologia grega compara aMinerva de Fídias, em Atenas, à Vênus feita por Praxíteles emCnido: "Vendo a divina imagem de Vênus, filha dos mares, tudirás: subscrevo o juízo do frígio Páris. Se vires em seguida aMinerva de Atenas, exclamarás: quem não lhe adjudicou oprimeiro era um boieiro!" Fig. 301 — Minerva de Egina (museu de Munique).
    • A Minerva do escultor Simart, que fígurou no salão de 1855,fora ordenada pelo duque de Luynes, o qual desejava ter umaimitação da obra-prima perdida de Fídias, reproduzindoexatamente a descrição a nós deixada por Pausânias (fig. 302). Fig. 302 — Minerva de Fídias (reconstituída por Simart). Essa estátua é certamente a mais curiosa tentativa dereconstituição jamais tentada na arte dos últimos séculos. Eis adescrição feita por Théophile Gautier, no relatório da Exposiçãode 1855: "M. Simart, valendo-se de todos os recursos que a artedos últimos séculos punha à sua disposição, restauroufelizmente a silhueta geral da estátua de Fídias: consultou ostextos e as medalhas. A sua Minerva não tem, ao que sabe bem,a estatura da Minerva do Partenão; teve ele que limitar-se àexecução em quarto, o que dá ainda uma proporção de oito pés,e basta para transmitir uma idéia cio original. A descrição queacabamos de fazer ia estátua de Fídias nos dispensa
    • de falar pormenorizadamente de M. Simart, que se conformoucom a mais escrupulosa exatidão aos dados, por infelicidadepouco precisos, deixados pelos antigos. A cabeça da sua estátua,de perfil firme e severo, possui a expressão de serenidade fria ede virgindade desdenhosa que convém à mais casta dasdivindades do Olimpo; uma pedra de azulite, encastada na suapupila, relembra o epíteto de glauco pis, que Homero nuncadeixa de aplicar a Palas-atena, e dá ao seu olhar uma luzestranha: dir-se-ia um olho vivo que cintila através de umamáscara. Apreciamos bastante essa inquietadora esquisitice.Brincos de ouro e pedras azuis acompanham as faces pálidas dadeusa; os braços, talhados num só pedaço de enormes presas demarfim fóssil, são de rara beleza; a transparência ebúrnea,atravessada de veios azulados e de alvores rasados, dá umaperfeita ilusão de carne. Dir-se-ia ver a vida correr sob a formosasubstância tão polida, de grão tão fino que imita a dermedelicada de uma jovem criatura. Os pés são puros na forma,como pés que nunca pisaram outra coisa senão o azul do céu oua neve brilhante do Olimpo. A túnica de ouro pálido, semelhanteao eletro tão, celebrado na antiguidade, cai em dobras simples egraves e forma o mais feliz contraste com os brancos matizes domarfim. Os baixos-relevos do escudo e das sandálias possuem ocaráter helênico, e a serpente Erecteu estende de modo pitorescoas suas escamas de ouro verde. .. A Vitória que Minerva segurana mão, e que faz palpitar as suas vibrantes asas de ouro, é amais deliciosa estatueta criselefantina que possamos imaginar, eM. Simart tem com Fídias a semelhança de haver principalmentelogrado bom êxito nessa figura. O artista, prosseguindo arestauração, recompôs no pedestal da estátua o nascimento dePandora, dotada por todos os deuses como princesa de contos defada, do qual se afirma que Fídias ornara o soco do seu colosso.Esse encantador baixo-relevo parece destacado de um friso dotemplo da Vitória áptera; completa a estátua, cuja riquezanecessitava tão elegante base." A Palas de Velletri, do Louvre, é uma estátua de tamanhocolossal (fig. 303). É provável que segurasse uma Vitória debronze na mão esquerda, enquanto a mão direita se apoiavasobre uma lança. Traz o capacete
    • coríntio, e a sua égide, formada de escamas e de peque-ninasserpentes, está fechada por uma cabeça de Medusa que tem aboca entreaberta e deixa ver os dentes. Foi descoberta em 1797numa vila romana, nas cercanias de Velletri. Fig. 303 — Palas de Velletri (segundo unia estátua antiga, museu do Louvre). A bela Minerva de bronze do museu de Turim, concebidaem estilo arcaico, passa por reprodução de uma obra célebrena antiguidade (fig. 304). É uma das mais belas figuras dadeusa chegada até nós. Não obstante o seu caráter belicoso, Palas não seemparelha absolutamente a Marte, que exprime o tumulto e afúria do combate, enquanto Minerva caracteriza sobre-tudo ainteligência guerreira e o que hoje chamaríamos de tática.
    • Minerva e Encélades Minerva participou da guerra dos deuses contra osgigantes e contribuiu poderosamente para a vitória de Júpiter.Entre os inimigos por ela vencidos, o mais im- Fig. 304 — Minerva (segundo uma estátua antiga do museu de Turim).portante é Encélades. A força desse gigante era tal que, sozinho,poderia ter lutado contra todos os deuses juntos. Num momentoem que Minerva se achava distante dos
    • companheiros de armas, Encélades, percebendo que ela estavasozinha. dá um salto e posta-se-lhe na frente. A deusa o vê semempalidecer. reúne todas as forças e pegando com ambas asmãos a Sicília, atira-a sobre o gigante que fica esmagado sob aenorme massa. A-queda de Encélades termina a guerra dosgigantes: às vezes tenta ele remexer-se, e é o que produz ostremores de terra da região. A sua cabeça está situada sob omonte Etna, por onde vomita chamas, o que leva um poetafrancês a dizei.: Encelade, malgré son air rébarbatif, dessous le mont Etna fut enterré tout vif; là chaque fois quil étern:ue, un volcan embrase les airs, et quand par hasard il remue, il met la Sicile à lenvers (1). O tanque de Encélades em Versalhes mostra o gigante doqual somente vemos a cabeça e os gigantescos braços no meiodos fragmentos de rochedos. Mas a luta de Minerva contra essegigante, tal qual a descreveu a mitologia tem sido raramenterepresentada, por não ser do domínio da plástica. Uma medalhade Górdio, cunhada na Selêucia, representa bem a vitória dadeusa, mas em vez de atirar a Sicília à cabeça do inimigo, ela otraspassa com a lança (fig. 305). Minerva e Tirésias Virgem essencialmente casta, Minerva aparece semprevestida, e se os artistas dos últimos séculos a representam_____________________________ (1) Encélades. apesar do seu aspecto rebarbativo, foi enterrado vivosob o monte Etna e ali cada vez que espirra, um vulcão incendia os ares,e quando por acaso se remexe, põe a Sicília em desordem.
    • por vezes despida, notadamente no julgamento de Páris, é pelaignorância em que se encontram quase sempre dos caracteresdistintivos da deusa. Um único homem, o tebano Tirésias,observou um dia Minerva no banho, e foi imediatamente feridode cegueira, ou, segundo outros, metamorfoseado em mulher.Uma bela estátua de Gatteaux representa a deusa no momentoem que nota que está sendo observada por um homem (fig. 306). Fig. 305 — Medalha de Górdio, cunhada em Selêucia, mostrando Minerva vitoriosa contra um gigante. Pradier fizera um grupo de Minerva repelindo as setas deCupido: a idéia era justa mitologicamente. Vênus ofendeu-seum dia pelo fato de seu filho nada poder contra a deusaateniense: "Vênus. — Por que, pois, Amor, tu que venceste os demaisdeuses, Júpiter, Netuno, Apolo, Réa, e eu própria, tua mãe, porque poupas apenas Minerva? Contra ela o teu archote não temfogo, a tua aljava não tem setas, tu não tens arco... Não sabesmais disparar uma seta? Amor. — Tenho medo dela, minha mãe. Ela é terrível, osseus olhos são terríveis, o seu aspecto imponente e viril. Todasas vezes em que avanço contra ela para
    • lançar-lhe uma seta, ela me espanta agitando a sua pena; tremoe as setas me fogem das mãos. Vênus. — Marte, por acaso, não é mais terrível? E, noentanto, tu o desarmaste e venceste. Amor. — Sim, mas ele próprio é que se oferece aos meusgolpes: chama-os. Minerva, pelo contrário, sempre me fita comdesconfiança; um dia, quando por acaso voava para ela,segurando o archote: "Se te aproximares Fig. 306 — Minerva vista por Tirésias.de mim, disse-me, juro por meu pai que te varo com esta lança,pego-te pelo pé e atiro-te ao Tártaro, onde te dilacerarei com asminhas próprias mãos para matar-te." São essas as suasameaças sem fim, e ao mesmo tempo
    • lança sobre mim olhares furiosos ; traz, ademais, sobre o peitouma cabeça horrorosa, cuja cabeleira é feita de víboras e quesempre me causa o maior terror. Creio estar vendo um fantasmae fujo mal a percebo." (Luciano) . Minerva e Mársias Segundo uma velhíssima lenda, Minerva, tendo encontradoum osso de cervo, dele se serviu para inventar a flauta. Masnotando que tal instrumento a obrigava a umas caretas que aafeavam, e que, quando pretendia tocar, as demais deusas seriam, atirou para longe a desastrada flauta, e proferiu amaldição mais terrível contra o que a recolhesse. O frígioMársias, que muito provavelmente pouco se importava com adivindade de Atena, não atribuiu a menor importância a taisimprecações, recolheu o instrumento e conseguiu tocá-lo comgrande perfeição. Havia na Acrópole de Atenas um gruporepresentando Minerva a golpear Mársias, por ter ousadorecolher a flauta por ela atirada para longe e que ela desejavafosse esquecida para todo o sempre. Num baixo-relevo, que estáem Roma, vemos Minerva tocando a flauta dupla, e Mársias, soba forma de um sátiro, a espreita para se apoderar doinstrumento, no momento oportuno. Mais habitualmente, adeusa observa com atenção o que acaba de inventar. A mesmarazão que a obrigou a renunciar ao uso de tal instrumento,impedia que os escultores a representassem com uma figuradeformada e careteira. Uma medalha ática de bronze representa, no verso, Minervaatirando fora a dupla flauta em presença do sátiro Mársias quemanifesta o seu assombro mediante gestos (fig. 307).
    • Minerva higéia Vimos a serpente aparecer entre os atributos de Minerva.Essa serpente é habitualmente o emblema de Erecteu, que foicriado pela deusa. Mas Minerva era, por vezes, invocada comoprotetora da saúde. Tinha então o nome de Minerva higéia, e aserpente que ao seu lado surge come uma taça que a deusasegura com a mão, como se a serpente estivesse perto dacompanheira de Esculápio. Minerva higéia está representadanum baixo-relevo que decora um candelabro antigo do museuPio-Clementino de Roma (fia. 308). Fig. 307 — Minerva e Mársias (segundo uma moeda antiga). Fig. 308 — Minerva higéia (segundo um baixo-relevo antigo). Museu Pio-Clementino.
    • Minerva obreira ou ergane Minerva não é apenas guerreira. Dela é que nos vem aindústria, e por isso tem sido denominada Minerva obreira.Laboriosa tanto quanto guerreira, enriquece as cidades que ahonram ao mesmo tempo em que as protege. Ama a agricultura,e ensinou aos homens o uso da oliveira: é por tal motivo queessa árvore lhe é consagrada e que vemos figurar uma lâmpadaentre os seus atributos. A arquitetura, a escultura, a mecânicacabem no domínio da deusa, que preside em geral a todos ostrabalhos do espírito e da imaginação. Está representada, comtal aspecto, mas conservando o seu costume de guerra, numinteressante baixo-relevo, onde a vemos dirigir, com os seusconselhos, um jovem escultor que cinzela um capitel, e outrosobreiros que lidam com uma máquina; Júpiter e Diana estãoatrás dela e seguidos de uma sacerdotisa fazendo uma libação, ede uma grande serpente de cabeça de bode que representa ogênio do teatro, como indica a inscrição mutilada que se lêacima. A de baixo diz: "Lucéio Pecularis, empreiteiro doproscênio, mandou colocar este baixo-relevo votivo segundo umsonho tido." As principais atribuições de Minerva ergane estãoresumidas num passo de Artemidoro: "Minerva é favorável aosartesãos, em virtude do seu apelido de obreira; aos que desejamcontrair núpcias, pois pressagia que a esposa será casta eapegada ao lar; aos filósofos, pois é a sabedoria nata do cérebrode Júpiter. É ainda favorável aos lavradores, porque tem umaidéia comum com a terra; e aos que vão à guerra, porque temuma idéia comum com Marte." Foi Minerva obreira que inventou as velas dos barcos e a elase deve a construção do famoso navio Argos (v. fig. 138). Mas ésobretudo pelos tecidos e trabalhos das mulheres que Minervaassume importância toda especial, e tem por atributo a roca. Étambém especialmente invocada pelas obreiras que preparam ostecidos, como se pode ver neste trecho da Antologia :
    • "Ó Minerva, as filhas de Xuto e de Melita, Sátira, Heracléia,Eufro, todas três de Samos, te consagram uma a sua longa roca,com o fuso que obedecia aos seus dedos para se incumbir dosfios mais soltos; outra a sua lançadeira harmoniosa que fabricaas telas de tecido cerrado ; a terceira o seu cesto com os lindosnovelos de lã, instrumentos de trabalho que, até a velhice, lhessustentaram a laboriosa vida. Eis, augusta deusa, as ofertas dastuas piedosas obreiras." Minerva e Aracne Os tecidos constituíam um dos ramos mais importantes daindústria dos atenienses; mas as fábricas da Ásia, célebres emtodas as épocas, sobrepujavam em delicadeza as cidades gregas,cujos tecidos menos delicados eram provavelmente mais sólidos.Foi o que deu origem à lenda que nos pinta a rivalidade entreMinerva e Aracne. Aracne não era ilustre pelo nascimento, mas o seu talento ea sua industriosidade a haviam tornado famosa. Seu pai eratintureiro de lã na cidade de Colonon, e ela adquirira talreputação em todas as cidades da Lídia pela beleza dos seustrabalhos, que as ninfas do Tmolo e do Pactolo abandonavam aságuas límpidas e os deliciosos bosquetes para lhe admirar ostrabalhos de agulha. Sabia fiar e fazer a lã, e embelezava os seustecidos com desenhos encantadores realçados por todas as coresdo arco-íris. Envaidecia-se, porém, de tal modo com o seutalento, que por toda parte apregoava não ter receio de desafiar aprópria Minerva. A deusa, ferida por tal intento, assumiu o aspecto de umaanciã, cobriu de cabelos brancos a cabeça, e, indo procurarAracne, censurou-a em termos amigáveis pela inconveniência dapretensão de uma simples mortal de se
    • comparar a uma deusa, e sobretudo à deusa da qual procedetoda a indústria humana. Aracne ofendeu-se, acolheu muito mala anciã, que assim lhe falava, e, fitando-a de sobrolho carregado,avançou para ela disposta a golpeá-la, dizendo que, se Minervase apresentasse, saberia muito bem confundi-la, mas que adeusa não ousaria, certamente, empreender uma luta que lheseria desvantajosa. Minerva, diante daquelas palavras, reassume o seuverdadeiro aspecto e declara que aceita o desafio. Ei-las aprepararem os trabalhos, a disporem os tecidos e a iniciarem omister. Já corre a lançadeira com incrível rapidez, e o desejo queambas experimentam de vencer lhes redobra a atividade. Paratornarem o trabalho mais perfeito, cada uma delas desenhavelhas histórias. Minerva representou no seu a disputa mantidacom Netuno em torno do nome que deveria ser usado pela cidadede Atenas. Aracne houve por bem fixar histórias que não podiamdeixar de ser desagradáveis às divindades do Olimpo grego.Viam-se as metamorfoses dos deuses, e as suas intrigasamorosas figuradas de tal modo que nenhum prestígio lhesadvinha. Mas o trabalho de Aracne foi executado com taldelicadeza e tão incrível perfeição que Minerva não logroudescobrir sequer o menor defeito. Esquecida, então, de que era deusa, para só se lembrar dodespeito provado por se ver igualada em finura por uma simplesmortal, Minerva rasgou o tecido da rival, que imediatamente seenforcou de desespero. Minerva, tomada de piedade, sustentou-ano ar, para impedir que se estrangulasse, e disse-lhe: "Viverás,Aracne, mas ficarás para sempre pendurada desta maneira; seráo castigo teu e de toda a tua posteridade." Ao mesmo tempo,Aracne sentiu que a cabeça e o corpo lhe diminuíam de volume;mingudas patas lhes substituíram os braços e as pernas, e oresto do corpo se transformou num enorme ventre. A partir deentão, as aranhas sempre continuaram a fiar, e a indústriahumana até hoje não conseguiu igualar a finura dos seustecidos. (Ovídio). É fácil notar que esta lenda, na qual Minerva não revelaabsolutamente um bom caráter, tem a sua origem nas cidadesgregas da Ásia. Aracne, que é lídia, mostra, aos olhos dos gregos,uma singular audácia ao se comparar com a ateniense Minerva,mas os tecidos do Oriente eram
    • inimitáveis, e procurados ansiosamente em todos os mercadosda Grécia ; não é no terreno do trabalho que Aracne é vencida, éapenas mediante um resultado do poder divino, de que se achadotada a adversária, igual, senão superior a ela em talento. A festa das Panatenéias A grande festa das Panatenéias celebrava-se em Atenas, emhonra de Minerva (Atena), deusa tutelar da cidade, a quem eladevera o nome. A festa compreendia diferentes exercícios, entreoutros corridas a pé e a cavalo, combates gímnicos, e concursosde música e poesia. As lutas gímnicas se desenrolavam nasmargens do Ilisso. A festa terminava por uma grande procissãofigurada no friso da cela do Partenão. O objetivo religioso da festa era cobrir a deusa de um véunovo em substituição ao que fora gasto pelo tempo. Mas oobjetivo político era muito outro; tratava-se de mostrar queMinerva era ateniense pelo coração, e que ninguém podiainvocar-lhe a proteção, se não fosse amigo de Atenas. No monumento, vemos a sacerdotisa recebendo duas jovensvirgens que lhe entregam objetos misteriosos. As jovens sãocrianças, pois segundo os ritos não podiam ter menos de seteanos nem mais de onze. "Durante a noite que precede a festa, dizPausânias, põem elas sobre a cabeça o que a sacerdotisa lhesordena que carreguem. Ignoram o que se lhes dá: aquela quelhes dá os objetos misteriosos também nada sabe Há na cidade,perto da Vênus dos jardins, um recanto em que se acha umcaminho subterrâneo cavado pela própria natureza. As jovensdescem por aí, depõem o fardo, e em troca recebem outro,cuidadosamente coberto. O precioso fardo contém a velhavestimenta. e o que elas trazem de volta encerra a nova.
    • Como a cena se desenrola de noite, uma delas empunha umarchote." Enquanto a sacerdotiza recebe a nova vestimenta da deusa,o grão-sacerdote, assistido por um jovem rapaz, se ocupa emdobrar o antigo peplo. O público não assiste à misteriosa cena dosantuário, mas os deuses, espectadores invisíveis, estãosentados e dispostos em grupos simétricos. Entre eles, depara-se-nos Pandrosa, recoberta do véu simbólico que caracteriza osacerdócio; mostra ela ao jovem Erecteu, ajoelhado, a cabeça ciaprocissão que avança em direção ao santuário. Vem antes um grupo de anciãos de andar grave, todosenvoltos nos seus mantos e quase todos a se apoiarem nos seusbordões. São os guardas das leis e dos ritos sagra-dos, poisalguns parecem dar instruções às jovens virgens atenienses queos seguem. Trazem estas com gravidade o candelabro, o cesto, osvasos, as páteras e os demais objetos destinados ao culto.Depois das atenienses, surgem as filhas dos forasteiros fixadosem Atenas. Não têm o direito de carregar objetos tão santos, masseguram nas mãos os assentos dobradiços que servirão aoscanéforos. Vêm, depois, os arautos e os ordenadores da festa,que precedem os bois destinados ao sacrifício, seguidos dosmeninos que conduzem um carneiro. Desfilam alguns homensque seguram bacias e odres cheios de azeite. Finalmente osmúsicos que tocam flauta ou lira, e um grupo de anciãos, todosempunhando um ramo de oliveira. Começa, então, o desfile dos carros puxados por quatrocavalos e o longo cortejo dos cavaleiros. Sabia-se que Minervaensinara aos homens a arte de domar os cavalos e de os atrelarao carro, e a festa era sempre acompanhada de jogos eqüestres.Todos conheciam, pelos moldes, a famosa cavalgata do Partenão.Um cortejo de jovens, cuja clâmide flutua ao vento, doma oscavalos tessalienses que se empinam e lhes resistem. Os prêmios concedidos aos vencedores nos jogos realizadosem honra de Minerva consistiam ordinariamente em ânforascheias de azeite. Era um modo de lembrar que a deusa plantaraa oliveira que constituía a grande riqueza da Ática. O museu doLouvre possui vários desses vasos, chamados panatenaicos. Têmeles interessantes
    • decorações, nas quais vemos Minerva de pé, brandindo a lança esegurando o escudo. A figura está concebida no estilo tradicionaldas antigas figuras de estilo arcaico. Está situada entre duascolunas que suportam, cada uma, um galo (fig. 309). O galo era, com efeito, consagrado a Minerva obreira ;Creuzer nos explica a razão: "O nome de ergane, diz ele,exprimiu a princípio o próprio trabalho, a tarefa diária, e pareceter-se aplicado primitivamente, como epíteto de Minerva, àproteção especial que a deusa dispensava às Fig. 309 — Vaso panatenaico (museu do Louvre).ocupações das mulheres. Sob tal ponto de vista, era-lheconsagrado o galo: quando o canto dessa ave anuncia o retornoda Aurora, relembra-nos ao mesmo tempo o culto de Minervaergane e de Mercúrio agoreu, ou seja, os trabalhos da indústria edo comércio."
    • CAPÍTULO V A GÓRGONA Danai e a chuva de ouro. — Infância de Perseu. — Perseu e as Górgonas. — Pégaso e Crísaor. — O coral. — Atlas petrificado. — Perseu e Andrômeda. — As núpcias de Perseu. Danai e a chuva de ouro Abas, filho de Linceu e Hipermnestra, a única Danaida quenão matou o marido, teve dois filhos, Acrísio e Proeto, que porlongo tempo disputaram o trono de Argos. Acrísio terminou porvencer e, expulsando o irmão da cidade, tornou-se senhor únicodo poder. Tinha ele uma filha chamada Dánai. Havendo umoráculo predito que ele seria, um dia, destronado pelo neto,Acrísio mandou encerrar a filha numa torre de bronze, para queela não contraísse núpcias. Danai, condenada pelo pai a
    • passar os dias naquela prisão, da qual jamais deveria sair, foivista por Júpiter, que, metamorfoseando-se em chuva de ouro,conseguiu iludir a vigilância e penetrar ria torre. O tema inspirou vários quadros famosos. Ticiano, numapintura do museu de Nápoles, mostra o próprio Júpiter, aindaenvolto nas nuvens e difundindo ouro a mancheias. Correggiocolocou perto de Dánai um Amor que a ajuda a recolher otesouro e Annibal Carraci adotou a mesma maneira deapresentação. Infância de Perseu Da união de Júpiter com Dánai nasceu o herói Perseu.Quando Acrísio soube que era avô, encolerizou-seespantosamente e mandou encerrar Dánai e o filhinho num baúque foi atirado ao mar. Mas um pescador, descobrindo o baú,lançado pelas ondas às costas da ilha de Serifo, uma dasCiciadas, abriu-o imediatamente, e, vendo nele pessoas vivas,levou-as ao rei do país que se chamava Polidecto. Este deu-lheshospitalidade, mas ao cabo de algum tempo se apaixonou porDánai, e visto que Perseu, já crescido, lhe poderia prejudicar osplanos, resolveu desfazer-se dele. A oportunidade tardou, masnotando que o jovem herói ardia do desejo de se assinalar,pediu-lhe o rei a cabeça de Medusa, certíssimo de que os maisvalorosos jamais lograriam levar a efeito tão perigosa façanhaPerseu compreendeu os perigos que o ameaçavam, mas, decididoa enfrentá-los, pediu emprestado a sua irmã Minerva o escudo, aPlutão o capacete forjado por Vulcano, e a Mercúrio as asastalares. Quando se viu equipado começou a procurar Medusa.
    • Perseu e as Górgonas Eram as Górgonas três filhas de Fórcis, chamadas Euríala,Medusa e Esteno. Somente Medusa era mortal, mas possuíaadmirável beleza. Netuno, apaixonando-se por ela, marcou-lheencontro num templo de Minerva; a deusa, indignada com talprofanação, mudou o rosto de Medusa, cujos cabelos setornaram serpentes (fig. 310). As Górgonas eram assaz temidas. "São, diz Ésquilo, virgensaladas, monstros detestados pelos mortais, e que ninguémencara sem morrer." Era, por conseguinte, Fig. 310 — Cabeça de Medusa (segundo uma moeda antiga).dificílimo chegar à Medusa, e quando se conseguia, corria-se ograve risco de ficar petrificado, pois a sua cabeça tinha apropriedade de transformar em pedra todos os que acontemplavam. Era preciso, antes, penetrar num lugar fortificado comelevadas muralhas, cuja guarda estava confiada às duas filhasde Fórcis, que se mantinham à porta. Só tinham um olho paraambas, do qual se valiam alternadamente. Enquanto umadelas emprestava o olho à outra, Perseu apoderou-se dele comhabilidade, e tornou-se senhor da passagem. Penetrou, então,por caminhos tortuosos e sombrios até o palácio dasGórgonas, que ele viu repleto de homens e animaispetrificados. Chegado ao pé de Medusa, só fitou a própriaimagem refletida pelo escudo, e preservando-se, dessarte, dequalquer feitiço, cortou-lhe a cabeça.
    • Os monumentos nos mostram as precauções tomadas peloherói para não olhar uma inimiga cuja simples visão bastariapara o petrificar. Numa pedra gravada antiga (fig. 311) Medusa,cujo corpo está protegido por uma Fig. 311 — Perseu mata Medusa voltando a cabeça para não ficar petrificado (segundo uma pedra gravada).égide, acaba de ser abatida por Perseu que, ao golpeá-la, volta acabeça para ver apenas a sua própria cabeça refletida no escudo.Numa moeda de Galatia, a cena está fixada mais ou menos damesma maneira, mas Medusa tem o peito nu, e é a própriaMinerva que apresenta o escudo a Perseu, para que possa, semperigo, ver onde aplica os golpes (fig. 312). Fig. 312 — Perseu é auxiliado por Minerva. na sua luta contra Medusa (segundo uma moeda dos gálatas).
    • Pégaso e Crisaor Medusa não tivera filhos, mas agradara a Netuno, que, paradela acercar-se, assumira o aspecto de cavalo. Quando Perseulhe cortou a cabeça, o sangue que jorrou abundantementeproduziu imediatamente um cavalo alado de nome Pégaso, eoutra personagem misteriosa de nome Crisaor, que não possuilenda pessoal, mas que, tornando-se esposo de Caliroé, foi pai deGerião, gigante de três cabeças, e da terrível Equidna, monstrometade mulher e metade serpente. Foi da união de Equidna comTifão que nasceram a Quimera, o dragão de Cólquida, Cérbero, ahidra de Lerna, etc. O aparecimento de Pégaso e Crisaor está figurado num vasode estilo arcaico: lançam-se ambos do pescoço de Medusadecapitada. Esta tem asas nas costas e nos pés. Uma de suasirmãs, igualmente alada, com duas grandes serpentes nas mãos,e outras nos cabelos, atira-se em perseguição a Perseu, mas semempregar na perseguição uma grande rapidez, como se vênoutras figuras. Perseu tem aspecto assaz tranqüilo, sentindo-seprotegido por Minerva que está atrás e estende o manto paraimpedir que as serpentes da Górgona atinjam o herói. EstaMinerva, contrariamente ao hábito, não tem nem capacete, nemlança. Quanto a Perseu, segura ele numa das mãos a harpe coma qual cortou a cabeça de Medusa, e na outra um bastão emforquilha terminado por cabeças de ser-pentes, o que constitui aforma mais antiga de caduceu. Além disso, traz suspenso aoombro uma espécie de saco de cesto no qual colocou a cabeça deMedusa que aparece. Essa composição, de um desenhoextremamente grosseiro, pertence ao mais antigo estilo, e estánuma ânfora de Nola. A decapitação de Medusa está representada de maneiraestranha e ingênua noutro vaso de estilo arcaico. Perseu, queacaba de cortar a cabeça de Medusa, foge velozmente, para evitaras duas irmãs da vítima que o
    • perseguem, mostrando a língua (figs. 313 e 314). Minerva eMercúrio assistem à cena que se poderia acreditar haver sidotirada de um passo de Hesíodo: "O filho de Dánai alongava-sena corrida, semelhante a homem que precipita a fuga,tremendo de terror; nas suas pegadas se atiram os monstrosinconquistáveis e funestos de no-mear, as Górgonas,impacientes poro alcançarem." Perseu é o antepassado deHércules : é por isso que na descrição do escudo de Hércules,Hesíodo lhe atribui grande importância. Fig. 313 — Perseu perseguido pelas Górgonas (segundo uma pintura de vaso). Poucas lendas foram tão populares na antiguidade comoa que diz respeito a Perseu; uma série numerosíssima demonumentos reproduz a sua vitória contra Medusa e algunsremontam à alta antiguidade. Uma métopa de Selinonte, que éuma das mais antigas esculturas chegadas até nós, mostra oherói cortando a cabeça de Medusa perto da qual vemos surgirPégaso. O estilo desta escultura é absolutamente bárbaro.
    • Um espelho etrusco nos apresenta Perseu com o capacetede Plutão, vestido da clâmide e segurando a harpe, espécie de. faca recurva com a qual acaba de matar Medusa. Minerva, aoseu lado, toca com a ponta da lança a cabeça de Medusaatirada ao chão; essa cabeça tem o crânio despojado doscabelos de serpente que habitual-mente a ornam. Fig. 314 — As Górgonas perseguindo Perseu (segundo uma pintura de vaso). O famoso escultor Myron fizera um Perseu vencedor deMedusa que se achava na Acrópole de Atenas. A arte dagrande época raramente representou o próprio com-bate: osartistas preferem mostrar o herói após o seu triunfo. Naspedras gravadas, o herói segura com uma das mãos a harpe, ecom a outra ergue a cabeça de Medusa (fig. 315). Como formas, não tem Perseu tipo que lhe seja próprio,mas participa da natureza de Mercúrio, com o qual apresentatambém grandes relações como costume, nos monumentosarcaicos. Quando está representado nu, surge como efebo,delgado, fino, nervoso, tal qual convém a um herói cujaagilidade é um dos principais atributos.
    • Durante a Renascença, Benevenuto Cellini fez um Perseuvitoríoso, pisando com es pés o corpo de Medusa, cuja cabeçaem sangue apresenta (fig. 316). O grupo pode ser visto emFlorença e pede ser considerado obra-prima do artista, que delefala longamente nas suas Memórias. No começo do século XIX,quando os franceses despojaram os museus da Itália, Canova foiincumbido Fig. 315 — Perseu (segundo uma pedra gravada antiga).de fazer um Perseu, e foi tal a admiração que excitou, que aItália julgou haver adquirido uma obra-prima eqüivalente àsperdidas. Mas a posteridade não ratifícou esse juízo; o Perseude Canova, cheio de delicadeza e langor, não corresponde aocaráter do herói e, sol) tal ponto de vista, é assaz inferior ao deCellini.
    • Fig. 316 — Perseu (grupo de Benevenuto Cellini, em Florença).
    • O coral Os poemas órficos nus explicam como se formou o coralcom o sangue de Medusa derramado sobre a relva. "Perseu, de rápído vôo, não deve ser considerado ummonstro, pois foi ele que, nas extremidades escarpadas daAtlântida, matou esta virgem feroz, senhora de infernalaspecto. Destino horrível para todos! Os que ela fitasse com osseus olhos injectados de sangue, os que contemplassem oespantoso monstro morriam imediatamente e setransformavam em pedra por uma vontade fatal ! A robustaMinerva, por mais corajosa que fosse, não quis encará-la.Perseu de gládio de ouro não conseguiu olhá-la nem sequerapós exterminá-la. Aliás, foi mediante uma astúcia que lhecortou a cabeça: aproximando-se-lhe por trás, cortou-lhe agarganta com uma arma recurva. Embora estivesse morta,continuava perigoso o seu aspecto, e muitos seriam os quedesceriam à morada de Plutão por causa da sua morte. O heróimolhado de sangue, aproximando-se da praia, para lavar-se,depôs sobre a relva verdejante a cabeça da Górgona, aindaquente e palpitante. Após refrescar-se, saiu daquela estradaardilosa e das suas perigosas lutas. As raízes das ervas que seachavam sob a cabeça estavam umedecidas pelo sangue.Imediatamente as filhas do mar, acorrendo, apressaram-se emcomprimi-las, e fizeram-no tão bem que se diria estar a ervatransformada em pedra sólida, e fora o que real-mentesucedera : perdeu a cor verde, é verdade, mas não perdeu aforma; conservou somente uma cor vermelha que vinha dosangue. O herói intrépido ficou estupefato quando viusubitamente aquele grande milagre. A prudente Minerva, filhade Júpiter, surgiu então, admirou-o também, e para tornarimortal a glória do irmão, quis que o coral tivesse a faculdadede guardar para sempre a sua nova natureza."
    • Atlas petrificado Perseu, depois da vitória, elevou-se nos ares, com o auxiliodas asas talares de Mercúrio; segurando firme-mente o seudespojo, atravessou vários países, e as gotas de sangue quecaíam da cabeça de Medusa, formaram na África essaquantidade assombrosa de serpentes e insetos que infestam aregião. Perseu, depois de percorrer o mundo, desde as regiõesem que o sol se ergue até as em que se deita, parou no reino deAtlas, que se estendia sobre as últimas regiões do mundo. MasAtlas, lembrando-se de que um oráculo predissera que os frutosdos seus jardins seriam um dia levados por um filho de Júpiter,acolheu-o muito mal e pretendeu expulsá-lo da sua presença.Perseu, indignado, mas não podendo pensar em lutar contraum gigante do tamanho de Atlas, cuja força não havia quemigualasse, apresentou-lhe a cabeça de Medusa, cujos olhostinham a propriedade de transformar em pedra todos os que avissem. O enorme Atlas, mal viu o que lhe era apresentado,transformou-se em montanha: a sua barba e s seus cabelospassaram a ser as árvores que a cobrem, os ombros formaramas alturas, e os ossos tornaram-se os rochedos que ali se nosdeparam." (Ovídio). Perseu e Aadrômeda Tendo petrificado Atlas, Perseu rumou para a Etiópia, enotou, presa a um rochedo, uma jovem que ele teria tomado porestátua, se ao mesmo tempo não lhe tivesse visto flutuar aovento os cabelos, e os olhos derramar
    • lágrimas. Era a infeliz Andrômeda, filha do rei do país: sua mãeCassiopéia tivera a ousadia de disputar o prêmio de beleza aJuno, e a vingativa deusa mandara ao país um monstro que odevastava. O oráculo de Ammon declarou que, para apaziguar adeusa, Andrômeda devia ser exposta aos furores do monstro, e ainfeliz jovem foi ligada ao rochedo fatal pelas próprias Nereidas.Mal Perseu se aproximou dela, as ondas se agitaramruidosamente, e o mar vomitou um espantoso monstro cujocorpo cobria enorme espaço. Andrômeda dá um grito, e seuspais, desolados, já a supõem perdida; mas Perseu, batendo o péno chão, se eleva aos ares, e a sua sombra, refletindo-se naágua, irrita o monstro, que contra ela desencadeia toda a suacólera. Perseu, então, cai do meio dos ares sobre as costas dodragão, e enfia-lhe no ombro direito a temida espada. Jorra daíum sangue negro, e a fera, sentindo-se ferida, dá tremendossaltos na superfície do mar, agitando-se como javali perseguidopor matilha de cães. Os rios de sangue que correm molham asasas do herói, que compreende não poder suster-se por maistempo no ar. Apoiando-se, por conseguinte, com a mão esquerdanum rochedo, fura o monstro de lado a lado. Nos monumentos antigos, Andrômeda, presa ao rochedo,está quase sempre vestida de uma longa túnica que lhe desce atéos pés, e ela fita habitualmente os olhos no libertador. É assimque a vemos num baixo-relevo do museu Capitolino, em quePerseu, provido de asas na cabeça e nos pés, oculta a cabeça deMedusa sob as vestes para não petrificar Andrômeda a quemajuda a descer do rochedo ao qual estava presa. O monstromarinho que ia devorá-la jaz aos pés do herói (fig. 317). Os artistas dos últimos séculos compreenderam de maneirainteiramente diversa o tema. Sempre representam Andrômedaem completo estado de nudez. Paolo Veronese e Rubens fazemdescer o herói do céu, e ele se precipita do alto para baixo a fimde combater o monstro, mais ou menos como o arcanjo Miguelquando abate o demônio. No grupo de Puget, que está no Louvre,Perseu está atarefado em livrar Andrômeda dos grilhões. Esta,inteiramente nua, apoia um dos braços já livre sobre o herói (fig.318).
    • Para indicar as conseqüências da libertação, o es-cultorimaginou colocar aos pés de Andrômeda um Cupido encadeadocomo ela, e que não pode deixar de sorrir ao libertador. O grupofora ordenado para o parque de Versalhes, e quando foiapresentado a Luís XIV, o rei se entusiasmou. No entanto,fizeram-se algumas observações ao artista, quanto ao vulto deAndrômeda, algo pequenina para Perseu. A estátua não vale,enfim, o Milo de Crotona, do mesmo artista, ao qual, nãoobstante, o rei a julgou superioríssima. As núpcias de Perseu A sala do festim estava preparada para celebrar a união dePerseu com Andrômeda, e os convivas do herói ouviam anarração dos seus feitos, quando subitamente alguns homensarmados se precipitaram para o meio do banquete, ondeimediatamente introduziram a desordem. À testa dos invasoresestava Fineu, que, outrora noivo de Andrômeda, não suportava aidéia de vê-la casar-se com outro. Avançando em direção aPerseu, e empunhando a lança, disse-lhe: "Vês aqui um rival quedeseja vingar a afronta que lhe atiraste ao rosto, roubando-lhe anoiva. Nem as tuas asas, nem esse pretenso Júpiter que dizester-se mudado em chuva de ouro para te dar a luz do dia, nãoconseguirão salvar-te do castigo que mereces." Assim falando,atira a lança contra o herói que se defende, abaixando-se. Os amigos de Perseu querem ajudá-lo, mas são poucos, e opríncipe grego vê-se imediatamente cercado por todos os lados.Andrômeda grita que não quer outro marido senão o homem aquem deve a vida, as mulheres que a rodeiam dão horríveisgritos, mas nada detém Fineu e o seu bando. Perseu, cercadopor todos, busca defender-se dos dardos que lhe são atirados,mas vendo que o
    • seu valor seria inútil contra tanta gente, diz: "Visto que a isso meobrigais — e apresenta a cabeça de Medusa — chamarei em meuauxílio o inimigo que venci. Vós, que lutais por mim, desviai oolhar." Duzentos guerreiros, que se atiravam contra Perseuimobilizam-se imediata-mente, e um profundo silêncio se sucedeao tumulto. Vários dos amigos do herói, esquecidos do que lhesfora recomendado, olham para o lado dele e ficam petrificados Fig. 317 — Perseu e Andrômeda (segundo um baixo-relevo antigo).como os inimigos; o palácio só contém em breve estátuas depedra em violentas atitudes de homens que combatem semquartel. Depois de tais feitos Perseu resolveu voltar au seu país, e,passando para Serifo, matou o rei Polidecto, que lhe ultrajara amãe Dánai. O retorno de Perseu a Serifo está representado numvaso antigo; o herói segura com uma das mãos a harpe e volta-se para não ver a cabeça
    • Fig. 3 1 8 — Perseu e Aixiri meda (grupo de P. Pugot, museu do Louvre).
    • de Medusa que apresenta a Polidecto; este se acha,indubitavelmente, prestes a tornar-se pedra. Minervaestá de pé diante de Perseu, e atrás dela vemos Dánaique assiste à cena, e provavelmente aguarda a libertação(fig. 319). Quando Acrísio soube da chegada de Perseu aArgos, lembrou-se do oráculo e refugiou-se numa cidadevizinha. Perseu resolvera nâo lhe fazer mal, mas,realizando-se naquela cidade umas festas, para lárumou a fim de participar das lutas que se feririam.Lançando o disco, atingiu involuntariamente Acrísio, quemorreu no mesmo instante. Assim, aconteceu o que ooráculo previra. Fig. 319 — Perseu mestra a Polidecto a cabeça de Medusa (segundo uma pintura de vaso).
    • CAPÍTULO VI O CAVALO PÉGASO Pégaso cuidado pelas ninfas. — A fonte Hipocrene. — Belerofonte e a Quimera. Pégaso cuidado pelas ninfas Quando o herói Perseu matou a Górgona Medusa, o sangueque jorrou formou Pégaso, cavalo alado, filho de Netuno. Pégasofoi ao Olimpo onde Júpiter lhe confiou a missão de conduzir ocarro da Aurora. Os monumentos antigos nos mostram as ninfasocupadas em cuidar do cavalo alado, cuja limpeza lhes cabe(fig. 320). Pégaso, além disso, estava em relações com as Musas, e foiele que fez surgir as fontes de Hipocrene, que lhes eramconsagradas. É uma idéia relativamente moderna mostrarPégaso como cavalo alado no qual empreendem a sua viagem ospoetas. Pégaso, é, antes. o cavalo dos heróis, e é mediante o seuauxílio que Belerofonte pôde combater a odiosa Quimera.Minerva, que ajudara Perseu na sua luta contra Górgona,auxiliou também Belerofonte, quando este herói quis domarPégaso,
    • Fig. 320 — Pégaso cuidado pelas ninfas (segundo uma pintura de Pompéia). Fig. 321 — O cavalo Pégaso (segundo uma moeda antiga).
    • A fonte Hipocrene Píndaro nos diz como foi o cavalo Pégaso domado pelo heróicor-inflo Belerofonte: "Belerofonte ardia do desejo de domarPégaso que devia a luz a uma das Górgonas de cabelos eriçadosde serpentes; mas s seus esforços foram inúteis até o momentoem que a casta Palas lhe deu um freio enriquecido de rédeas deouro. Despertando, sobressaltado, (Te um profundo sono, vê-aaparecer aos seus olhos e ouve-a proferir as seguintes palavras:"Tu dormes, rei descendente de Éolo! Pega este filtro, que é oúnico capaz de tornar dóceis os cavalos; depois de oferecê-lo aNetuno, teu avô, imola um soberbo touro a esse deus que é hábilem domar corcéis." A deusa de negra égide nada mais lhe diz nomeio do silêncio da noite. Belerofonte levanta-se imediatamente,e, pegando o freio maravilhoso, leva-o ao filho de Cerauno, oadivinho daquelas regiões. Conta-lhe a visão que teve, como,obediente aos seus oráculos, adormeceu durante a noite no altarda deusa, e como a deusa lhe deu pessoalmente o freio de ourocom o qual irá domar Pégaso. O adivinho ordena-lhe quesacrifique sem demora após o sonho, que erga um altar aMinerva eqüestre, e que imole um touro a Netuno. Assim é que opoder dos deuses torna fácil o que os mortais jurariam serimpossível e desesperariam até de executar. Estremecendo dejúbilo, o intrépido Belerofonte pega o cavalo alado, e tal qualbeberagem calmante, o freio com o qual lhe aperta a bocamodera-lhe o impetuoso fogo: então, atirando-se-lhe ao lombo,Belerofonte, devidamente armado, não tarda em transportar-secom ele pelos ares." Uma antiga moeda nos mostra Belerofonte pegando o cavaloalado e domando-o (fig. 322). Quando o herói fugiu no lombo dePégaso, este, com uma patada fez jorrar a fonte Hipocrene,consagrada às Musas. Entre-tanto, segundo outra versão, essafonte já existia, e foi
    • enquanto Pégaso ali matava a sede que Belerofonte conseguiudomá-lo. Assim é que está representada a cena num baixo-relevoantigo, proveniente do palácio Spada de Roma (fig. 323). Belerofonte e a Quimera Belerofonte não podia vencer a Quimera sem o auxílio dePégaso, e estava condenado a combate-la. Esse herói matara umdos mais ilustres cidadãos de Corinto, sua pátria ; para pagar ocrime, foi obrigado a exilar-se. e recebeu hospitalidade comProeto, em Argos. A mulher de Proeto, cujo amor ele recusara,caluniou-o, por vingança. com o marido e exigiu que fosse morto.Proeto, Fig. 322 — Pégaso domado por Belerofonte (segundo uma moeda antiga).não querendo ferir pessoalmente o hóspede, enviou-o aocunhado, Iobates, rei da Lícia, com uma ordem que mandava omatassem. Iobates, a princípio, fez muito boa acolhida a Belerofonte,mas, ao abrir a mensagem, viu-se embaraçado, e ordenou que oherói fosse combater a Quimera certo de
    • que o combate lhe seria fatal. Uma pintura de vaso nos mostraBelerofonte despedindo-se de Iobates, rei da Lícia, e partindo emcompanhia de Pégaso para ir lutar contra a Quimera (fig. 324). Fig. 323 — Pegasus bebendo (segundo um baixo-relevo antigo). Fig. 324 — Belerofonte despede-se do seu anfitrião. A Quimera era um terrível monstro, filha de Tifão e EquidnaTinha cabeça de leão, cauda de dragão e corpo de cabra, e,segundo outros, as cabeças desses três
    • animais. Vomitava chamas pela garganta e devastava o país,sem que ninguém ousasse atacá-la. Com efeito, para vencê-la,era preciso possuir Pégaso. Montado no cavalo alado,Belerofonte lutou contra a Quimera e matou-a do alto, com osseus dardos. Em seguida, partiu para a guerra contra as amazonas, ecobriu-se de glória. Mas, refletindo que tudo lhe era permitidopor haver sabido domar Pégaso, pretendeu subir aos céus paraverificar o que faziam os olímpicos. Júpiter, não podendoabsolutamente tolerar semelhante audácia, mandou ummoscardo picar o cavalo Pégaso, e este, com o sobressalto, fezcom que o herói tombasse para morrer (fig. 325). Fig. 325 — Combate contra a Quimera. As aventuras de Belerofonte foram freqüentementerepresentadas na antiguidade, e figuravam num tapete dotemplo de Delfos. Vemo-las também em vasos: o herói, montadoem Pégaso, usa o barrete de viajante em combate a Quimera,cujas duas cabeças já estão crivadas de setas.
    • O rei do país, perto dele, empunhando um longo cetro, admira-lhe a coragem, e Minerva, visível apenas para o herói, lhe dirige ofeito. Vemo-lo igualmente precipitado ao chão, enquanto Pégasofoge voando (fig. 326). As medalhas de Corinto mostramBelerofonte matando a Fig. 326 — Queda de Belerofonte (segundo uma pedra gravada antiga).Quimera, e algumas pedras gravadas apresentam igual-mente oherói colocando um freio no cavalo Pégaso ou percorrendo osares numa montaria alada. Rubens pintou o combate deBelerofonte contra a Quimera, para uma decoração do arco detriunfo erigido para a chegada do arquiduque Fernando aAntuérpia.
    • LIVRO V MARTE E VÊNUS
    • CAPÍTULO I MARTE Tipo e atributos de Marte. — Marte na guerra dos Gigantes. — Vênus e Marte. — Marte ferido por Diomedes. — Filomela e Progne. — Os sacerdotes sálios. Tipo e atributos de Marte Marte (Ares), deus sangüinário e detestado pelos imortais, nunca teve grande importância entre as populações helênicas. Em numerosas localidades, parece até haver sido inteiramente desconhecido, e se o seu culto conservou na Lacônia importância maior que alhures, deve-se à rudeza dos habitantes de tal país. Foi somente entre os romanos que Marte adquiriu importância verdadeira e permanente; o tipo de Palas conformava-se muito mais ao gênio grego. Com efeito, Palas é a inteligência guerreira, ao passo que Marte nada mais é do que a personificação da carnificina. Ávido de matar, pouco lhe
    • importa saber de que lado está a justiça e cuida apenas detornar mais furiosa a luta. O deus da guerra e da violência aparece-nos sempre ematitude de repouso, e as estátuas antigas jamais o representamlutando. Tem, por vezes, numa das mãos a Vitória, comoJúpiter ou Minerva. Vemo-lo com tal aspecto numa famosaestátua da Villa Albani. Uma linda pedra gravada mostra Martesegurando com uma das mãos a Vitória e com a outra a oliveira,símbolo da paz proporcionada pela vitória (fig. 327). Fig. 327 — Marte (segundo uma pedra gravada antiga). A maioria das vezes usa um capacete e empunha uma lançaou gládio Aparece, assim, em várias medalhas (fig. 328), mas asestátuas que o representam isolada-mente não sãodemasiadamente comuns entre os gregos. Entretanto, a belaestátua do Louvre, conhecida pelo nome de Aquiles Borghesepassa hoje por ser um Marte. Explica-se o elo que usa num dospés pelo hábito de certos povos, e notadamente os lacedemônios,de agrilhoarem o deus da guerra. Parece ter sido o escultor Alcameno de Atenas quem fixou otipo de Marte, tal qual surge habitualmente nos
    • monumentos artísticos. Os atributos habituais do deus são olobo, o escudo e a lança com alguns troféus. Uma medalhacunhada na época de Septímio Severo nos mostra Marte comuma lança, um escudo e uma escada para o ataque. Sob talaspecto, Marte recebe o epíteto de Teichosipletes (que sacode asmuralhas) (fig. 329). Em geral, porém, não tem real importânciana arte a não ser pela sua ligação com Vênus. Fig. 328 — Atributos de Marte. Num célebre quadro da galeria de Florença, Rubensrepresentou Marte, que Vênus e Cupido se esforçam inutilmentepor reter, e que, de gládio empunhado, segue a Discórdiaprecedida do Temor e do Espanto. As Artes chorosas, a Música,a Arquitetura e a Pintura, são pisadas pelo feroz deus: ocomércio está destruído e os campos prestes a ser incendiados.Noutro quadro do mesmo pintor, vemos, ao contrário, Marterepelido por Minerva, enquanto a Terra oferece o seio fecundo doqual o leite jorra ao lado de um grupo de crianças que acorrem aver uma cornucópia que lhes oferece Pã, o deus da agricultura.
    • Marte na guerra dos Gigantes Claudiano descreveu o papel de Marte na guerra dosGigantes. "O deus impele os seus furiosos corcéis contra ahorda formidável e, imprimindo ao gládio um movi-mentoirresistível, o monstruoso Peloro é atingido no ponto em que,por um estranho acoplamento, duas ser-pentes se lhe unem aocorpo que elas sustentam. Marte vendo-o tombar, faz passar asrodas do carro sobre o inimigo vencido, e o sangue que jorradesse corpo enorme avermelha as montanhas vizinhas. Fig. 329 — Marte fazendo estremecer as paredes (medalha antiga). "Entretanto, Peloro tinha um irmão, o gigante Mi-mas, que,ocupado em lutar noutra região, viu Peloro cair. Mimas pensaexclusivamente na vingança e, curvando-se para o mar, querdele arrancar a ilha de Lemnos para atirá-la contra o deus.Marte evita o choque e com um golpe de lança fura a cabeça deMimas, cujo cérebro se esparrama à direita e à esquerda(fig. 330). Marte foi menos feliz com outros Gigantes. Fôraaprisionado por Oto e Efialtes que o haviam mantido agrilhoadodurante treze meses. O escultor Flaxman nos mostra o deus daguerra em posição humilhante (fig. 331). Oto e Efialtes tinhamtentado escalar o céu colocando o monte Ossa sobre o Olimpo eo Pélion sobre o
    • Ossa. Diana, para evitar-lhes a perseguição, viu-se obrigada atransformar-se em corça, e estando a fugir precipitadamente, osdois irmãos Gigantes, que vinham um em cada direção, atiraramcontra ela, ao mesmo tempo, os seus dardos, e dessa maneiramataram um ao outro. (Apolodoro) . Fig 330 — Marte matando Mimas (segundo uma pedra gravada antiga). Vênus e Marte A aliança entre a guerra e o amor, entre a força e a beleza,é uma idéia inteiramente conforme ao espírito grego. Apesar debrutalíssimo, não pôde Marte resistir a Vênus que o subjuga edomina com um sinal: da união de Marte e Vênus nasceuHarmonia. Vários monumentos antigos, notadamente o famosogrupo do museu de
    • Florença e o do museu Capitolino, reproduzem essa ligaçãoque também se vê em pedras gravadas (fig 332). Os romanos gostavam de fazer-se representar com suasmulheres, e usando os atributos de Marte e Vênus; era umaalusão à coragem do homem e à beleza da mulher. Aliás, osromanos consideravam Marte e Vênus autores Fig. 331 — Marte agrilhoado é vigiado por Oto e Efialtes (segundo Flaxman).da sua raça, e durante a época imperial, dava-se freqüen-temente aos deuses a feição dos imperadores. Assim é quetemos no Louvre um grupo, cuja personagem masculinaparece ser Adriano ou Marco Aurélio, e que representa Marteao lado de Vênus. Mas a imperatriz está vestida. Váriosarqueólogos pensam que a Vênus de Milo estava ao lado daestátua de Marte. A arte dos últimos
    • séculos ligou igualmente as duas divindades e, num encantadorquadro do Louvre, le Poussin nos mostra o deus da guerra,esquecido dos seus atributos e do seu papel, sorrindo para adeusa, enquanto os cupidos brincam tranqüilamente com asarmas, no meio de risonha paisagem. Fig. 332 — Marte e Vênus (segundo um grupo antigo). Marte ferido por Diomedes Marte, na guerra de Tróia acirrado inimigo dos gregos, foiferido por Diomedes e deu um grito semelhante ao clamor de dezmil combatentes numa furiosa batalha. Subiu ao Olimpo paradar vazão às suas queixas contra o herói grego e sobretudocontra Minerva que dirigira o
    • golpe. "Tens por tua filha, diz a Júpiter, uma indigna fraqueza,porque tu sozinho foste quem gerou tão funesta divindade. Ei-laagora que excita contra os deuses o insensato furor deDiomedes. Ousado! Em primeiro lugar feriu Vênus na mão,depois atirou-se a mim, e se os meus pés velozes não mehouvessem subtraído à sua cólera, lá teria ficado eu estendidosem força aos golpes do ferro." Júpiter acolhe mal as queixas de Marte: "Divindadeinconstante, exclama, cessa de importunar-me com os teuslamentos! De todos os habitantes do Olimpo, tu és o que eumais odeio, pois só amas a discórdia, a guerra. a carnificina.Tens, sem dúvida, o intratável caráter de tua mãe Juno, que asminhas ordens soberanas mal conseguem domar. Os males quesuportas hoje são o fruto dos seus conselhos. Mas não queroque sofras por mais tempo, visto que sou teu pai." O rei dosdeuses manda, então, que se cure o filho e um bálsamo salutarlhe acalma as dores, porque os deuses não podem morrer Um interessante quadro da mocidade de Davi, que obteve osegundo prêmio em 1771, mostra Diomedes no momento emque acaba de lançar contra Marte o dardo Fig. 333 — Vênus, marte e Cupido (segundo uma pedra gravada, antiga).
    • dirigido por Minerva. Marte, ferido, está caído. O quadrinho évalioso, porque nos dá a conhecer Davi numa época em que ojovem artista não pensava absolutamente na reforma que.posteriormente, introduziu na pintura, e em que todo o seutalento estava impregnado do estilo dominante então na escolafrancesa. Filomela e Progne O caráter feroz das lendas concernentes a Marte mais aindase exagera, quando elas se aplicam a seus filhos. Tivera ele deuma ninfa um filho chamado Tereu, rei da Trácia, que desposouProgne, filha do rei de Atenas Pandião. Tinha este outra filhachamada Filomela. Progne exprimiu ao marido o desejo de revera irmã da qual se achava separada havia cinco anos. Tereu foi,então, a Atenas procurar Filomela, mas no caminho abusoudela, e, após lhe arrancar a língua para obrigá-la ao silêncio,encerrou-a numa torre. Disse, em seguida, a Progne que suairmã morrera ; mas Filomela, do fundo da masmorra, descobriuum modo de mandar à irmã, num pedaço de tela, a narração dassuas aventuras. Progne, com o auxílio das festas de Baco, conseguiu libertarFilomela, e ocultou-a num canto do palácio. Juntas, meditamclamorosa vingança. Tereu tinha um filho muito moço, chamadoÍtis ; chamam-no, matam-no, e cozem-lhe os membros que, denoite, Progne oferece ao marido. Tereu pergunta porque o filhonão está à mesa, mas só quando termina o repasto é queFilomela, saindo subitamente do esconderijo, lhe anuncia quecomeu a carne do próprio filho e, ao mesmo tempo, para que elenão duvide do que lhe afirma, lhe atira ao rosto a cabeça doinfeliz rapaz. Tereu, não se contendo, quer levantar-se paraestrangular as duas irmãs, mas os deuses, desejosos de pôrcobro a tão horrível família, metamorfoseiam Progne emandorinha, Filomela em rouxinol, Ítis em
    • pintassilgo e Tereu em pomba. A bárbara história ministrou aRubens tema para um quadro que está na Espanha ; vemosProgne e Filomena mostrando a Tereu a cabeça do filho, cujacarne ele acaba de comer. Os sacerdotes sálios O culto de Marte tinha grande importância em Roma. Eraexercido pelos sacerdotes sálios, instituídos por Numa paraguardarem os ancilos. Os ancilos tinham sido feitos em Romasobre o modelo de um escudo caído do céu, durante uma pesteque dizimava a cidade, e eram considerados o palácio romano.Durante certas festas os sacerdotes sálios percorriam a cidadelevando a passeio os ancilos cuja forma nos foi conservada numdenário de prata cunhado sob Augusto. O barrete que está nomeio é o ápex do flâmine. Fig. 334 — Os sacerdotes sálicos trazendo os escudos sagrados. Fig. 335 — Os escudos sagrados e o ápex do flâmine.
    • CAPÍTULO II AS SEQUAZES DE MARTE Belona. — A Discórdia. — Etéoclo e Polinice. — Anfiaraus. — Arquémoro. — Combate dos dois irmãos. — Funerais de Etéoclo e de Polinice. Belona A companheira habitual de Marte é Belona (Enio),personificação da chacina. Tinha ela por missão especialconduzir o carro do deus da guerra e excitar-lhe os cavalos coma ponta de uma lança. As figuras antigas de Belona sãoextremamente raras. Plínio narra que Apeles pintara um quadrorepresentando Belona, de mãos atadas atrás das costas e presaao carro triunfante de Alexandre: o quadro fora levado paraRoma como troféu.
    • A Discórdia Nos poetas, Belona é escoltada pelo Espanto, pela Fuga epela Discórdia, divindades às quais a arte não destinou tipoparticular. Contudo, tem a Discórdia grande importância namitologia, pois foi ela que causou a ruína de Tróia, atirando amaçã de ouro entre as deusas. Homero faz da Discórdia o retratoseguinte: "Deusa que, fraca no nascimento, cresce e em breveoculta a cabeça no céu, enquanto os pés lhe permanecem naTerra; é ela que, atravessando a multidão dos guerreiros,derrama em todos os corações o ódio fatal, precursor dacarnificina. Faz retumbar a voz, dá gritos alucinantes, terríveis, elança no coração de todos os guerreiros impressionante coragem.Apraz-se em ouvir os gemidos do soldado que morre e, quandotodos os deuses se retiram do combate, é a única que permaneceno campo de batalha para dar, como pasto aos olhos, oespetáculo dos mortos e dos moribundos." Etéoclo e Polinice A Discórdia preside às disputas que dividem os povos e asfamílias. A Fábula de Etéoclo e Polinice nos mostra a sua ação.Os dois filhos de Édipo haviam expulsado o pai, que s cobriu demaldições e lhes predisse que se matariam um ao outro. Os doisirmãos, temendo que a maldição paterna fosse ratificada pelosdeuses, se continuassem a viver juntos, decidiram, de comumacordo, que Polinice seria o primeiro em se exilarvoluntariamente da pátria, que deixaria o cetro a Etéoclo, evoltaria depois,
    • para que cada um pudesse reinar, alternadamente, um ano. MasEtéoclo, uma vez no trono, recusou-se a descer e proibiu aoirmão o regresso à pátria. Polinice, então, tratou de procuraraliados para a defesa dos seus direitos. Anfiarans Adrasto, rei de Argos, acolheu Polinice, e prometeu-lherepo-lo no trono de Tebas. Buscou, por conseguinte, aliados paraempreender a luta, mas um poderoso chefe, Anfiaraus, tratou dedissuadir ambos, por ser adivinho e por lhe haver a ciênciamostrado que a guerra seria fatal aos que a começassem, e quetodos morreriam, com exceção apenas de Adrasto. Anfiaraustinha uma mulher chamada Erifila, e por um velho juramentoque fizera a Adrasto, comprometera-se, no caso de divergênciasentre eles, a submeter-se inteiramente à decisão de Erifila.Quando Polinice soube disso, empregou um ardil para forçarAnfiaraus a combater. Tinha em suas mãos o famoso colar queVênus dera, noutros tempos, à Harmonia, no dia das suasnúpcias com Cadmo. Deu-o de presente a Erifila, que, assim, sedeixou corromper, e Anfiaraus, apesar da certeza que tinha domau êxito do negócio, foi obrigado a combater com Adrasto ePolinice. Um poderoso exército se reuniu em breve para marcharcontra Tebas. Comandavam-no sete chefes : Adrasto, Polinice,Capaneu, Partenopeu, Anfiaraus, Hipomedonte e Tideu. Juraramtodos que se auxiliariam mutuamente e partiram com ossoldados que iriam combater sob as suas ordens (fig. 336).
    • Arquémoro Durante o caminho, faltou-lhes água, e o exército começoua sofrer devoradora sede. Encontraram, então, uma criatura quetinha um filhinho, e perguntaram-lhe se não havia no pais umafonte. Chamava-se o menino Ofeltes e era filho do rei de Neméia.A mulher era Hipsipila, outrora rainha de Lemnos, mas que,tendo sido vendida posteriormente como escrava, estava aoserviço do rei de Neméia, que lhe confiara a tutela do filho.Hipsipila pousou a criança sobre umas folhas de aipo e Fig. 336 — Juramento dos sete chefes (segundo Flaxman).conduziu os sete chefes a uma fonte das proximidades. Durantea curta ausência, porém, uma serpente envolveu nas espiras acriança abandonada e sufocou-a. Ao regres-sarem, os chefesapressaram-se em matar a serpente e tomaram aos seuscuidados Hipsipila, para livrá-la da ira do rei de Neméia. Deramà criança o nome de Arquémoro,
    • realizaram-lhe um magnífico funeral e instituíram em sua honraos jogos de Neméia, nos quais os vencedores se cobriam de luto ese coroavam de aipo. Vemos numa pintura antiga Adrastogolpeando a serpente (fig. 337). Combate dos dois irmãos Anfiaraus viu naquilo péssimo presságio. Mas era precisopartir, e assim chegaram todos a Tebas. Uma terrível batalha seferiu sob os muros da cidade, que Etéoclo não pretendiaentregar. Como o sangue escorresse por toda parte, Etéoclosubiu a uma torre, mandou que se fizesse silêncio, e disse aosexércitos : "Generais da Grécia, chefes dos argivos que a guerraatrai para estes páramos, e vós, povo de Cadmo, não arrisqueismais a vida nem por Polinice, nem por mim. Quero eu, sozinho,enfrentar o perigo, e desejo lutar contra meu irmão, de homempara homem. Se o matar, governarei sozinho; se for vencido,entregar-lhe-ei a cidade. Vós, portanto, abandonai o combate,voltai para Argos, não venhais mais aqui perder a vida; o povotebano não deseja outras mortes." (Eurípides). Feriu-se, então, entre os dois irmãos um combate singularno qual foram mortos ambos. Os deuses haviam ouvido asderradeiras imprecações de Édipo. Esse com-bate figura numgrandíssimo número de baixos-relevos antigos (fig. 338). O exército sitiante foi vencido, e todos os chefes pereceramcom exceção de Adrasto, que deveu a vida à rapidez do seucavalo. Assim, realizou-se a profecia de Anfiaraus.
    • Funerais de Etéoclo e de Polinice O senado de Tebas, que tomara partido pelos sitia-dos,decidiu que Etéoclo seria sepultado com honra, mas que, seuirmão Polinice seria, em virtude da traição, deixado semsepultura, para que o devorassem os cães e os Fig. 337 — Arquémoro esmagado por uma serpente (segundo uma pintura antiga)abutres. Antígone quis enterrar o irmão, apesar das ordensdadas, e, decidida a desobedecer, disse aos chefes do povo: "Poisbem! Eis o que respondo eu aos chefes
    • dos de Cadmos. Se não há quem queira, comigo, enterrá-lo, heide conseguir sozinha, e assumirei toda a responsabilidade. Nãovejo vergonha nenhuma em sepultar meu irmão, nem que paraisso devesse, rebelada, ir de encontro aos desejos da cidade. Écoisa grave termos caído das mesmas entranhas, termos tido amesma mãe, uma infeliz, o mesmo pai, outro infeliz. Sim,delibera-(lamente, hei de continuar irmã deste morto. Ah, não sefartarão da sua carne os lobos de ventre faminto. Hei de sozinha,apesar de mulher, incumbir-me de remover a terra e prepararuma cova. Trarei o pó nas dobras desta tela, e eu própriarecobrirei com ele o cadáver. Ninguém objetará! Terei essacoragem, e, o que é mais, terei ao meu lado todos os recursos deuma alma que quer conseguir (fig. 339)." (Ésquilo). Fig. 338 — Polinice e Etéoclo (segundo um baixo-relevo antigo. museu do Louvre). Pausânias, na narração das suas viagens, diz que viu otúmulo dos filhos de Édipo. "Não assisti aos sacrifícios que ali serealizam, mas pessoas dignas de fé me
    • asseguraram que nas ocasiões em que se assam as vítimasimoladas aos dois irmãos irreconciliáveis, a chama e a fumaça sedividem visivelmente por eles." Fig. 339 — Funerais de Etéoclo e Polinice (segundo Flaxman). Creonte, rei de Tebas, sabendo que, não obstante aproibição, Antígone sepultara o irmão, pergunta-lhe se conheciao decreto. A jovem não nega : "Não pensei, responde, que as leisdos mortais tivessem bastante força para superar as leis nãoescritas, obra imutável dos deuses. Para mim, o traspasse nãotem nada de doloroso; mas se tivesse deixado sem sepultura ofilho de minha mãe, teria sido infeliz; quanto à morte que meaguarda, em nada me assusta." Creonte, conformando-se à lei,ordenou a morte de Antígone e as suas ordens foram executadas;ao mesmo tempo, porém, soube da morte de seu filho únicoHemon, que amava Antígone, e que se ferira mortalmente. Suamulher morreu também ao saber da morte do filho, e Creonteficou sozinho com toda a amargura. Assim terminou a família deLaio.
    • CAPÍTULO III VÊNUS Nascimento de Vênus. — Tipo e atributos de Vênus. — Vênus celeste e Vênus vulgar. — Pigmalião e a sua estátua. — Vênus de Cnido. — Vênus genitrix. — Vênus vitoriosa. Nascimento de Vênus Da espuma do mar, fecundada pelo sangue de Urano (oCéu) nasceu uma jovem levada em primeiro lugar para a ilha deCítera e em seguida a Chipre. Deusa encantadora, não tardouem percorrer a costa, e as flores nasciam sob os seus pésdelicados. Chama-se Afrodite (Vênus), ou Citeréia, do nome dailha a que aportou, ou ainda Cipris, do nome da ilha em que éhonrada. Pelo menos, é essa a tradição mais difundida, poisalgumas lendas diferentes vieram confundir-se em Vênus que, àsvezes, surge como filha de Júpiter e de Dionéia. É
    • também a que devemos adotar, pois os artistas querepresentaram o nascimento de Vênus mostram sempre a deusano momento em que sai das vagas. Nas pinturas antigas, Vênus é freqüentemente representadadeitada sobre uma simples concha; nas moedas, vemo-la numcarro puxado pelos Tritões e pelas Tritônidas. Finalmente,numerosos baixos-relevos no-la apresentam seguida dehipocampos ou centauros marinhos. No século dezoito, ospintores franceses, e notadamente Boucher, viram nonascimento de Vênus um tema infinitamente gracioso e útil àdecoração (fig. 340). Uma multidão de Fig. 340 — Nascimento de Vênus (segundo um quadro d? Boucher).
    • pequenos cupidos paira noa ares ou escolta a deusa. Aliás, ospintores franceses seguiram, nesse ponto, as tradições bebidasna Itália. Conformando-se à narração dos poetas, Albane colocou adeusa num carro puxado por cavalos marinhos. Assim é queela vai ter a Cítera, onde a aguarda Peitho (a Persuasão), que,na margem, estende os braços à jovem viajante. Cupido estásentado perto do mar; as Nereidas e os Amores montados emdelfins formam o cortejo da deusa. Alegres Amores festejam achegada de Vênus, e outros esvoaçam no ar semeando floresna passagem (fig. 341). Fig: 341 — Vênus arribando a Cítera (segundo um quadro de Albane) Num quadro dotado de grande frescor e brilho, quefaz parte do museu de Viena, Rúbens pintou a festa de Vênusem Cítera. Ninfas, sátiros e faunos dançam em torno da suaestátua, enquanto os Amores entrelaçam guirlandas de flores eenchem os ares de alegres cadências. Ao fundo, mostrou opintor o templo da deusa.
    • O atavio de Vênus é um tema que a arte e a poesia fixarambem. Enquanto as Horas estavam incumbidas da educação dadeusa, as Graças presidiam as cuidados do seu atavio. Umamultidão de quadros reproduziu tão encantadora cena, e ospintores não deixaram de acrescentar todos os pormenores quelhes sugeriu a imaginação. Quando Boucher faleceu, tinha sobreo cavalete um quadro representando o atavio de Vênus. Prudhonpintou Vênus estendida num leito antigo e servida pelos Amoresque lhe perfumam os cabelos, lhe estendem um espelho,queimam perfumes em torno da deusa, trazem-lhe jóias e lheentrelaçam guirlandas de flores. Rubens também faz intervirCupido que segura um espelho no qual a mãe se fita;infelizmente, é uma velha que lhe arranja s cabelos. A velhicelenta e enrugada jamais deve aproximar-se de Vênus. Albane. que está longe de ser artista de primeira ordem, é,no entanto, o que mais lembra, pela natureza das suascomposições, as graciosas ficções da antiguidade sobre Vênus. OAtavio de Vênus, quadro que infelizmente escureceu, é talvez, asua obra-prima como concepção mitológica. Num terraço, àbeira-mar, Vênus contempla-se num espelho que o Cupido lheapresenta, enquanto as Graças lhe perfumam a linda cabeleira. elhe arranjam os atavios. Diante dela está uma fonte onde umAmor faz que matem a sede duas pombas. Um palácio aéreo,como convém a Vênus, aparece no fundo de um tanque, aopasso que, nas nuvens, Amores alados atrelam cisnes brancosao carro de ouro que vai conduzir a passeio a deusa, e enchemos ares dos seus melodiosos concertos. Tipo e atributos de Vênus "O culto sírio de Astarte, diz Ottfried Mueller, parece,encontrando na Grécia alguns inícios indígenas, ter dadonascimento ao culto célebre e difundido por toda parte
    • de Vênus afrodite. A idéia fundamental da grande deusaNatureza, sobre a qual ele repousava, nunca se perdeuinteiramente; o elemento úmido que formava no Oriente oimpério reservado a essa divindade continuou a ser submetidoao poder de Vênus afrodite nas costas e nos portos em que eravenerada; sobretudo o mar, o mar tranqüilo e calmo, refletindo océu no espelho úmido das suas ondas, parecia, aos olhos dosgregos, uma expressão da sua divinal natureza. Quando a arte,no ciclo de Afrodite, deixou para trás as pedras grosseiras e osídolos informes do culto primitivo, a idéia de uma deusa cujopoder se estende por toda parte e à qual ninguém pode resistir,animou as suas criações; gostava-se de a representar sentadanum trono, segurando nas mãos os sinais simbólicos de umanatureza repleta de mocidade e esplendor, de uma luxurianteabundância; a deusa estava inteiramente envolta nas dobras dassuas vestes (a túnica mal lhe deixava à mostra uma parte do seioesquerdo) que se distinguiam pela elegância, pois precisamentenas imagens de Vênus, a graça rebuscada das vestes e dos movi-mentos parecia pertencer ao caráter da deusa. Nas obras saídasda escola de Fídias, ou produzidas sob a influência dessa escola,a arte representa em Afrodite o princípio feminino e a união dossexos em toda a sua santidade e grandeza. Vê-se ali, antes, umaunião durável formada com o fito do bem geral, e não umaaproximação efêmera que deve terminar com os prazeressensuais que ele proporciona. A nova arte ática foi a primeiraque tratou do tema de Afrodite com um entusiasmo puramentesensual, e que divinizou, nas representações figuradas da deusa,já não mais apenas um poder ao qual o mundo inteiro obedecia,mas antes a individualidade da beleza feminina." Vênus dá leis ao céu, à terra, às ondas e a todas ascriaturas vivas. "Foi ela que deu o germe das plantas e dasárvores, foi ela que reuniu nos laços da sociedade os primeiroshomens, espíritos ferozes e bárbaros, foi ela que ensinou a cadaser a unir-se a uma companheira. Foi ela que nos proporcionouas inúmeras espécies de aves e a multiplicação dos rebanhos. Ocarneiro furioso luta, às chifradas, com o carneiro. Mas temeferir a ovelha. O touro cujos longos mugidos faziam ecoar os
    • vales e os bosques abandona a ferocidade, quando vê a novilha.O mesmo poder sustenta tudo quanto vive sob os amplos marese povoa as águas de peixes sem conta. Vênus foi a primeira emdespojar os homens do aspecto feroz que lhes era peculiar. Delafoi que nos vieram o atavio e o cuidado do próprio corpo."(Ovídio). Fig. 342 — Vênus marinha (segundo uma estátua antiga)
    • Vênus celeste e Vênus vulgar Pausânias, na sua descrição de Tebas, assinala váriasestátuas de Vênus, da mais alta antiguidade, pois haviam sidofeitas com o lenho dos navios de Cadmo e consagra-das pelaprópria Harmonia. "A primeira, diz ele, é Vênus celeste, asegunda Vênus vulgar, e a terceira é chamada preservadora. Foia própria Harmonia que lhes impôs tais nomes para distinguiressas três espécies de Amores: um celeste, ou seja casto, outrovulgar, ou seja, preso ao corpo, o terceiro desordenado, que levaos homens às uniões incestuosas e detestáveis. Era à Vênuspreser- Fig. 343 — Medalha de Afrodite, com os atributos de Vênus.
    • vadora que se dirigiam as preces para a preservação dos desejosculposos." (Pausânias). Temos interessante exemplo desse último aspecto de Vênus,numa decisão do senado romano, o qual, segundo os livrossibilinos consultados pelos decênviros, ordenara a dedicação deuma estátua a Vênus vesticordia (convertedora), como meio dereconduzir as moças devassas ao pudor do sexo. (ValérioMáximo). A tartaruga, emblema da castidade das mulheres, eraconsagrada a Vênus celeste, e o bode, símbolo contrário,consagrado à Vênus vulgar. As imagens da deusa, que seencontravam em todas as casas, eram, além de tudo,acompanhadas de inscrições que indicavam o seu caráter. Eisaqui uma que chegou até nós: "Esta Vênus não é a Vênuspopular, é a Vênus urânia. A casta Crisógona colocou-a na casade Amphicles, a quem deu vários filhos, comoventes penhores dasua ternura e fidelidade. Todos os anos, o primeiro cuidadodesses felizes esposos é de vos invocar, poderosa deusa, e empremio da sua piedade, todos os anos lhes aumentais a ventura.Prosperam sempre os mortais que honram os deuses." (Teócrito). Vênus celeste está caracterizada pela veste estrelada. Vemo-la figurada numa pintura de Pompéia onde está representada depé com um diadema na cabeça e um cetro na mão (fig. 344). Ofamoso escultor Scopas fizera para a cidade de Élis uma Vênusvulgar que pusera sentada sobre um bode; figura análoga seencontra em outra pedra gravada antiga (fig. 345). No séculoXIX, o pintor Gleyre compôs um belíssimo quadro sobre omesmo tema. Essa Vênus era sobretudo honrada em Corinto,cidade marítima que sempre se celebrizou pelas cortesãs. Ali éque vivia a famosa Laís, em torno da qual se lê o seguinteepigrama na Antologia : "Eu, altiva Laís. de quem a Grécia erajoguete, eu que tinha à porta um enxame de jovens amantes,consagro a Vênus este espelho, pois não desejo ver-me tal qualsou, e já não posso ver-me tal qual era." Encontra-se na mesma coletânea outro trecho ainda maisinteressante: "Minarete, que há pouco estendia os
    • fios da trama e sem cessar fazia ressoar a lançadeira de Minerva,acaba de consagrar a Vênus o seu cesto de trabalho, as suas lãse os seus fusos, todos instrumentos seus de labor, queimando-osno altar: "Desaparecei, exclamou, instrumentos que deixaismorrer de fome as pobres mulheres e murchais a beleza dasjovens!" Depois, pegou Fig 344 — Vênus celeste (segundo uma pintura antiga do museu de Nápoles).coroas, um alaúde e pôs se a levar vida alegre nas festas e nosbanquetes. "Ó Vênus, diz ela à deusa, hei de trazer-te o dízimodos meus benefícios: proporciona-me trabalho no teu interesse eno meu." (Antologia).
    • Pigmalião e a estátua A ilha de Chipre era particularmente renomada pelascortesãs. O escultor Pigmalião que ali vivia sentiu-se de tal modoimpressionado com a desfaçatez das mulheres do pais, queresolveu viver no celibato. Mas como a sua imaginação sonhasseconstantemente com uma formosura de caráter diferente,esculpiu uma estátua de marfim, Fig. 345 — Vênus vulgar (segundo uma pedra gravada antiga).representando uma mulher que à castidade de expressão unia apureza das formas. A imagem lhe agradou tanto, que por ela seapaixonou ; infelizmente faltava a vida àquela pudica beleza, equando Pigmalião contemplava as mulheres vivas via nelas abeleza mas nunca o pudor. Ao chegar o dia da festa de Vênus,dia que com tamanha
    • magnificência se celebra na ilha de Chipre, Pigmalião dirigiu-seao templo da deusa, que encontrou perfumado com incenso, erodeado de novilhas brancas cuias pontas haviam sidodouradas e que seriam imoladas. "Grande deusa, exclamou,abraçando o altar, faze com que me torne marido de mulherperfeita como a estátua que esculpi! Fig. 346 —Pigmalião animando a sua estátua (segundo um quadro de Girondet). Parece que não estava em poder da deusa descobrir emChipre mulher provída da casta beleza sonhada pelo artista, poisVênus, para lhe ser agradável, preferiu recorrer ao milagre. Comefeito, quando o escultor voltou, foi abraçar a estátua, e viu-lheas faces corar: o marfim amoleceu-se e a estátua animou-se.Pigmalião, encantado.
    • agradeceu à deusa, que desejou pessoalmente assistir ao seuhimeneu. A história de Pigmalião constitui o tema do último quadropintado por Girondet, e que figurou no salão de 1819. Não seimagina a quantidade de brochuras aparecidas desde então paralouvar ou criticar o pintor. O mais interessante foi que osmédicos houveram por bem mesclar-se à discussão, e examinar,com ridícula seriedade, a questão de saber se o artista tiverarazão em animar, primeiramente, a cabeça da estátua, cujaspernas continuam ainda de marfim, e se teria sido maisconveniente fazer começar a vida pelo peito, que encerra ocoração e os pulmões. A estátua animada por Pigmalião deu-lhe um filho que foi ofundador de Pafos, cidade de Chipre, célebre pelo culto aliprestado a Vênus. Vênus de Cnido Na origem, não se tinha o hábito de representar Vênus, noinstante em que sai da espuma do mar, ou seja, inteiramentenua. Assim, foi a obra de Praxíteles considerada novidade, e aprópria deusa testemunha, pela boca de um antigo autor, oespanto por se ver assim desprovida de vestes. "Mostrei-me aPáris, Anquises e Adônis é verdade; mas onde foi que Praxítelesme viu?" (Antologia). Narra Plínio que Praxíteles, a quem os habitantes de Coshaviam encomendado uma Vênus, lhes deu a escolher entreduas estátuas, uma das quais estava vestida, ao passo que aoutra estava nua. Preferiram eles a primeira, e Praxíteles vendeua segunda aos habitantes de Cuido que se congratularam com acompra, pois ela granjeou reputação e fortuna ao país. A Vênusde Cuido parece ter sido o tipo da maioria das estátuas dadeusa,
    • quando se representava no momento do nascimento. O Júpiterde Fídias e a Vênus de Cnido por Praxíteles eram considerados,nos diferentes gêneros, dois produtos dos mais perfeitos daescultura. Dizia Plínio: "De todas as partes da terra, navega-seem direção a Cnido, para Fig 347 — Medalhas de Caldo.contemplar a estátua de Vênus." O rei Nicomedes ofereceu aoscnidianos, em troca da estátua, a totalidade das dívidas deles,que eram importantes. Recusaram a oferta, e com razão,acrescenta Plínio, pois a obra-prima
    • constitui o esplendor da cidade. Uma multidão de escritores daantiguidade nos legou sinais da admiração que lhes inspirava aobra-prima para a qual se fizera a seguinte inscrição: "Ao verema Vênus de Cnido, Minerva e Juno disseram uma à outra : Nãoacusemos mais Páris." Num dos seus diálogos, Luciano põe as seguintes palavrasna boca de um dos interlocutores: "Após examinar por longotempo e com prazer as plantas e os arbustos que margeiam asaléias do templo de Cnido, entramos; no meio, eleva-se a estátuada deusa, admirável obra, executada em mármore de Paros;paira-lhe nos lábios um doce sorriso ; nenhuma veste lhe vela osencantos; ela só oculta com uma das mãos, mediante um movi-mento natural, o que o pudor não permite se mostre nemtampouco se nomeie. A arte fez desaparecer a dureza da matéria;em todas as partes desse belo corpo, o mármore possui asuavidade e a sensibilidade da carne." Se tão amplamente nos estendemos sobre a Vênus de Cnidoé porque essa obra-prima que tanto assombrou a antiguidade, eque não mais existe, serviu de modelo à maior parte das Vênusnuas das quais tantas reproduções se nos deparam nos museus.Mas o documento mais importante que conhecemos é a figurarepresentada nas moedas dos cnidianos, a qual lembravacertissimamente, embora com leves variações, a estátua original.Um medalhão de Caracala cunhado em Cnido e uma moeda damesma cidade, onde a deusa está unida a Esculápio, nosapresentam uma mulher nua, voltando levemente a cabeça paraum dos lados, e segurando com uma das mãos uma leve vesteerguida acima de um vaso. Esses dois monumentos foramreunidos num florão de Gabriel de Saint-Aubin (fig. 347). Oartista suspendeu o medalhão acima de uma mesa coberta deflores, de pedras, de orna-mentos preciosos, de vasos de formatodiferente e de diversos instrumentos do mais requintado luxo.Quis, mediante tais objetos de atavio, aludir à famosa cortesãFrinéia que, segundo se afirmava, servira de modelo a Praxíteles. Compreende-se, todavia, que a gravura em medalha temexigências diversas das da escultura, e que seria difícil admitirque uma moeda pudesse ser a reprodução literal uma estatua.Assim, o braço que sustenta a
    • veste acima do vaso, produz pelo seu afastamento do corpo umvácuo aceitabilíssimo em baixo-relevo, mas que seria lastimávelnuma estátua. Ademais, na maioria das estátuas que passampor imitações da Vênus de Cnido, vemos o movimento dosmembros superiores diferir sensivelmente do que é oferecidopelas moedas: quase sempre um dos dois braços está dobradosobre o peito de maneira que a mão se vê na frente do seio. NaVênus do Capitólio, por exemplo, tal movimento é acentuadíssimoe o vaso de perfumes recoberto de um pano, que se acha pertoda deusa, está completamente separado do braço, mas umpouco mais aproximado da estátua para a consolidar. Fig. 348 - Medalha de Tito com os atributos de Vênus e Cupido, Entre as numerosíssimas estátuas que podem prender-se àmesma série, a mais famosa é a Vênus de Médicis, situada natribuna da Galeria de Florença. Eis a descrição que dela fazia ocatálogo do Louvre, onde figurou
    • durante quinze anos: "A deusa dos Amores acaba de sair daespuma do mar, onde nasceu ; a beleza virginal aparece, namargem encantada de Cítera, sem outro véu que a atitude depudor. Se a cabeleira lhe não flutua sobre os divinos ombros, épor que as Horas, com as suas mãos celestiais, acabam de lhaarranjar (Hino homérico). Um Fig. 349 — Vênus do Capitólio.delfim e uma concha estão aos seus pés: são os símbolos domar, elemento natal de Vênus. Os dois Amores que o encimamnão são os filhos da deusa. Um deles é o Amor primitivo (Eros)que desemaranhou o Caos; o outro é o Desejo (Himeros) queaparecera no mundo ao mesmo
    • tempo que o primeiro ser sensível. Ambos a viram nascer ejamais se lhe afastaram dos passos (teogonia de Hesíodo). AVênus de Médicis tem as orelhas furadas, como já se observouem outras estátuas da mesma deusa; sem dúvida pendiamdelas esplêndidos brincos. O braço esquerdo conserva no alto osinal evidente do bracelete chamado spinther, representado emescultura em várias das suas imagens. Uma inscrição colocadasobre o plinto nos diz que o autor da Vênus de Médicis éCleômenes, ateniense, filho de Apolodoro." Vênus nem sempre está de pé quando sai das águas, euma numerosa série de estátuas (fig. 350), Fig. 350 - Vênus agachada (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre).
    • ordinariamente designadas com o nome de Vênus agachadas,apresenta-nos a deusa apoiando um dos joelhos ao chão paratornar a erguer-se. O nome de Vênus no banho também lhes éatribuído. Quando a deusa aperta a cabeleira úmida, chamam-lhe de Vênus anadiomene. Apeles fizera uma Vênus anadiomeneda qual os antigos elogiavam bastante a beleza. Os habitantes deCos exigiram outra Vênus semelhante, do mesmo artista, masele morreu deixando a obra incompleta. Fíg. 351 — Trono de Marte. A Vênus de Apeles foi celebrada várias vezes na Antologia:"Esta Vênus, que sai do seio materno das águas, é obra do pincelde Apeles. Vê como, pegando com Fig. 352 — Trono de Vênus.a mão a cabeleira molhada, espreme a água! Agora as própriasJuno e Minerva dirão: "Não queremos mais disputar-te o prêmioda beleza," (Antologia).
    • Uma estátua de bronze representando Vênus a sairdo mar e espremendo a água de que se acham embebidosos cabelos, passa, em virtude da analogia do tema, porser imitação da Vênus pintada por Apeles (fig. 353).Grande número de monumentos representa Vênusanadiomene vogando sobre as águas com a sua escoltade Tritões, de Nereidas ou de centauros marinhos. Numamedalha de Agripina, cunhada em Corinto (fig. 354), Fig. 353 — Vênus (segundo uma estátua antiga de bronze). Fig. 354 — Vênus e os Tritões (segundo uma medalha antíga).
    • aparece a deusa num carro puxado por um Tritão que traz umaconcha e uma Nereida a tocar um clarim. Uma moeda dosbrutianos mostra-a sentada num hipocampo ou cavalo-marinho: estende os braços para o Amor, que se acha sobre acauda do animal e dispara uma seta (fig. 355). Mas entre asrepresentações de tal gênero, a mais famosa é um baixo-relevoantigo, cuja cópia se nos depara em várias coleções. Vênus estásustentada sobre as águas por centauros marinhos: os Tritõesfazem soar as conchas, Fig. 355 — Vênus num cavalo marinho (segundo uma medalha antiga).os Amores e as Nereidas rodeiam alegremente a deusa. Uma dasNereidas segura, ao lado dela, um espelho, outra abraça umAmor. Numerosos quadros dos últimos séculos representamVênus anadiomene, e entre eles o mais famoso é o de Ticiano. Vênus genitrix Considerada como geradora do gênero humano, Vênus estásempre vestida. Nas. estátuas, as dobras da sua veste indicamfreqüentemente que está molhada, e às vezes traz um dos seiosdescobertos, por ser a nutriz,
    • universal. As medalhas a mostram vestida e com os dois seioscobertos, mas ela está freqüentemente acompanhada de ummenino: a deusa, nesse caso, recebe o nome de Vênus genitrix.Temos no Louvre uma bela estátua de Vênus genitrix com umseio descoberto (fig. 356) ; de resto, o mesmo tipo se encontraquase idêntico em vários museus. Vênus vitoriosa Dá-se este nome a Vênus quando ela usa as armas deMarte. Com efeito, vemos, em várias pedras gravadas, umafigura de Vênus segurando na mão um capacete (fig. 357). Àsvezes está ainda acompanhada de um escudo ou de troféus dearmas. Outras, segura numa das mãos o capacete, e na outrauma palma (fig. 358). Essas figuras nos mostram sempre Vênustriunfante contra Marte, como conseqüência da mesma idéia quedeu nascimento à lenda de Hércules fiando aos pés de Onfales. Ésempre a beleza a dominar a força. A associação de Marte e Vênus está igualmente fixada emduas pinturas de Herculanum, onde se nos deparam Amorespreparando o trono das duas divindades. Um capacete estárepresentado no trono de Marte e uma pomba no de Vênus. Apomba é, com efeito, o atributo especial de Vênus, como ocapacete é o atributo de Marte. (figs. 351 e 352). Colocam-se, outrossim, entre as Vênus vitoriosas unia sériede estátuas que só têm vestes para cobrir os membros inferiores,e que têm por caráter determinante a colocação de um dos péssobre uma pequena elevação. Tal postura implica a idéia dadominação sobre Marte, quando é um capacete que suporta o pé,e sobre o mundo, quando ele se apóia simplesmente numrochedo. Neste caráter, não tem a deusa a graça que se lhe dácomo
    • Fig. 356 — Vênus genitrix (segundo uma estátua antiga museu do Louvre).
    • Vênus nascente; pelo contrário, assume as atitudes de heroína.As formas do corpo estão repletas de vigor e força e as feiçõespossuem uma expressão de brutalidade Fíg. 357 — Vênus vitoriosa (segundo uma pedra gravada antiga). Fig. 358 — Vênus vítoriosa (pedra gravada antiga).
    • Fig. 359 — Vénus de Milo (no museu do Louvre),
    • desdenhosa muito distante do sorriso. A Vênus de Milo éconsiderada o tipo mais completo dessa classe de está-tuas (fig.359). A beleza grave e sem afetação de tal figura nada tem doagradável coquetismo que a maioria dos artistas dos últimosséculos considera apanágio essencial da mulher. Foi no mês defevereiro de 1820 que um pobre camponês grego a descobriu,remexendo as terras do seu jardim. A estátua, feita de mármorede Paros, está constituída por dois blocos cuja reunião se ocultamediante as dobras da túnica.
    • CAPÍTULO IV ADÔNIS Nascimento de Adônis. — A caçada de Adônis. — A morte de Adônis. — As festas de Adônis. Nascimento de Adônis Toda vez que Vênus pousa os pés na terra, o solo se cobreimediatamente de flores. Não é de estranhar que a lenda a tenhaassociado a Adônis que personifica a vegetação na primavera.Com efeito, o nascimento e a ressurreição de Adonis se verificamcom a primeira vegetação. Abre-se uma árvore e nasce Adonis.Era ele senhor de estonteante formosura, tanto que nunca se viuquem o igualasse. Vênus estava no momento ocupada emacariciar o filho Cupido; mas uma flecha do pequeno deus a feriuacidentalmente, enquanto ela o abraçava, e imediatamente adeusa sentiu-se dominada da mais viva paixão por Adonis. Eraeste uni grande caçador, e Vênus,
    • habitualmente tão efeminada, pôs-se a acompanhá-lo nas suasexcursões O feroz Marte, que amava Vênus, criou então violentociúme, e a deusa foi prevenida por Diana de que Adônis corriagrandes perigos. Tratou, na medida do que lhe era possível. de oreter, mas, apesar das suas recomendações, Adônis conseguiusafar-se e entregar-se ao prazer favorito. Fig. 360 — Adônis (segundo uma pedra gravada antiga). A caçada de Adônis A partida de Adônis constitui o tema de várias pinturasantigas. A mais famosa é a que foi encontrada nos banhos deTito em Roma. O jovem caçador, precedido do seu cavalo e dosseus cães, empunha o dardo e repele uma derradeira tentativafeita por uma das sequazes de
    • Vênus para o dissuadir. A deusa, sentada, contempla-o comtristeza, e as mulheres que a rodeiam deploram o perigo aoqual se expõe o formoso rapaz (fig. 361). A lenda de Adônis, de origem síria, raramente inspirouos escultores da grande época. Entre as estátuas que orepresentam, várias são indiscutivelmente obras apreciáveis,mas nenhuma pode ser considerada obra-prima. Naescultura e nas pedras gravadas (fig. 360), Adônis aparececomo adolescente de formas elegantes, mas desprovidas deum caráter especial que possa constituir um tipo. Fíg. 361 — Adônis partindo para a caça (segundo uma pintura antiga). A arte dos últimos séculos tem representado comfreqüência Adônis ; num grupo de Canova, Vênus enlaça-ocom os braços e parece pedir-lhe um favor que ele recusacom ternura. A cena deu origem também a vários quadrosfamosíssimos na arte dos últimos séculos. Ticianorepresentou Adônis, com as feições de Filipe II, para quem sedestinava a pintura, e que era muito jovem na época (fig.362). Vênus parece testemunhar a Adônis o temor queexperimenta, e suplicar-lhe que não exponha tão queridacabeça. Rubens também pintou as indecisões de Adônis: masaqui é Cupido que busca reter o jovem ao pé de Vênus,enquanto outros Amores acompanham os cães e parecemchamar o caçador. Se Rubens e Ticiano mostraram o caçador Adônis,desdenhoso das carícias de Vênus, Albane, tratando do
    • mesmo tema, empregou um pouco mais de galantaria. Édurante o sono da deusa que o caçador a abandona, e poucofalta para que ele ceda às solicitações do Amor, que procuraretê-lo pelas vestes. O cão, no entanto, não pareceabsolutamente participar da hesitação, e os verdadeiroscaçadores compreenderão que Adônis houvera sido crudelíssimonão cedendo a tão prementes solicitações. Fig. 362 — Partida de Adônis (segundo um quadro de Ticiano,museu de Londres). Prudhon fez com Vênus e Adônis umacomposição na qual escreveu pessoalmente as seguintes linhas:"No meio de uma floresta sombria, Vênus, sentada num cabeço,retém Adônis ao seu lado pelo feitiço das carícias; o jovemcaçador embriagado parece esquecer-se de que deseja partir. Àmargem da água, na frente, um Amor segura os cães; maislonge, o Amor segura uma borboleta, símbolo da alma: e ao longevários outros Amores correm à caçada."
    • A morte de Adônis Vênus, não vendo Adônis voltar, vai procurá-lo. O caminhoestava eriçado de espinhos que rasgavam a infeliz deusa; e assuas gotas de sangue produziram as rosas. Adônis já estavamorto quando ela chegou, e ela o metamorfoseou em anêmona.lima pintura antiga representa Adônis ferido na coxa por umjavali, expirando nos braços de Vênus. Tem perto o cão que o fitacom tristeza, e deixa esgueirar-se, da mão que desfalece, a lança.Vênus só tem um dos seios descoberto (fig. 363). O mesmo tema foi tratado por Poussin com a sua habitualsuperioridade (fig. 364). O pintor mostra a deusa ajoelhada pertode Adonis já morto derramando sobre os seus ferimentos onéctar que o vai transformar em flor. Os Amores, chorando,contemplam a cena, e, um pouco mais longe, se nos depara o rioadormecido perto do carro da deusa. O rio que desce do monte Líbano tinha a propriedade demudar as suas águas em sangue em determinada época do ano.Vertia-se, então, no mar de que avermelhava considerável parte,o que indicava aos habitantes de Biblos o momento de usar luto,pois essa época correspondia à em que Adonis fora morto pelojavali, fato que se teria verificado nas cercanias de Biblos,segundo a tradição do país. Quando Adônis chegou aos infernos, todas as sombrasficaram maravilhadas com a sua beleza, e Prosérpina por ele seapaixonou. Vênus, debulhada em lágrimas, implorara a Júpiterque lhe devolvesse a criatura amada, mas Prosérpina não odeixou partir. O pai dos deuses e dos homens, embaraçadíssimono julgamento da divergência urgida entre suas duas filhas, edesejando satisfazê-las ambas, decidiu que Adônis passaria ametade da vida nos infernos com Prosérpina, e a outra metadena terra com Vênus. Esse mito, que relembra, com colorido maisoriental, o de Prosérpina dividindo a vida entre a terra e osinfernos, pode explicar-se simbolicamente da mesma maneira. Aidéia do inverno sombrio e estéril, ao qual
    • se sucede a bela estação, está aqui traduzida por Adônispassando seis meses do ano com Prosérpina. e seis mesescom Vênus. Fig. 363 — Adônis expirando nos braços de Vênus (segundo uma pintura antiga). Fig. 364 — Morte de Adônis (segundo um quadro de Poussin).
    • As festas de Adônis O culto sírio de Adonis espalhou-se rapidamente nascidades marítimas em que os marinheiros fenícios se achavamem grande número. Em Atenas e em Alexandria, havia festascélebres, que se realizavam na primavera e que duravam umasemana. Chorava-se a morte do deus, depois todos serejubilavam em honra à sua ressurreição. Os atenienses viamnaquilo uma cerimonia que lembrava bastante o culto deElêusis, e, no Egito, identificava-se de boa vontade Adonis aOsíris, do qual se celebrava igualmente o fim trágico e omaravilhoso renascimento. Os Ptolomeus deram grandíssimaimportância a tais festas na cidade marítima de Alexandria,para onde elas atraíam imenso concurso de estrangeiros. Mas,embora houvesse peregrinos que ali chegavam por verdadeiradevoção, havia também bom número de forasteiros e até dehabitantes do país, que naquilo enxergavam sobretudo umaocasião de espetáculo. A famosa peça de Teócrito, intitulada AsSiracusanas, dá excelente idéia da impressão produzida por taisfestas nos simples curiosos, seduzidos pela beleza dascerimônias e pelo esplendor da música. As festas da ressurreição de Adônis eram entremeadas decantos de alegria, que sucediam aos lamentos da véspera :realizavam-se sempre nos primeiros dias da primavera.Chorava-se, em primeiro lugar, a vegetação desaparecida;depois, celebrava-se o seu regresso à terra. Vários hinos que secantavam nas festas de Adônis chegaram até os nossos dias.Eis o de Bíon, o mais famoso: "Choro Adônis ; os Amoresrespondem ao meu pranto. Uma cruel ferida dilacerou Adônis,mas Vênus traz outra, muito mais profunda, no âmago docoração. Em torno do jovem caçador, os seus fiéis cães uivaram,e as ninfas das montanhas estão desfeitas em lágrimas. Vênus,transtornada, erra pelas florestas, triste, descabelada, pés nus;os espinhos a ferem e se tingem do sangue divino; ela enche osares de queixumes, atira-se através dos longos vales, exige aosbrados o formoso assírio que foi seu esposo! Entretanto, umsangue negro jorra do ferimento
    • de Adônis, e lhe mancha o peito de marfim. Ai! Infeliz Vênus !exclamam os Amores, chorando. Perdeu o formoso marido, e comele os encantos divinos. Era bela, Vênus, quando Adônis vivia;com Adônis desapareceram os atrativos da deusa. Ai, ai! Todasas montanhas e florestas repetem: "Ai. Adônis!" Os rios sentem ador de Vênus; as fontes, nas montanhas, choram Adonis, e osrios, na sua tristeza, se tingem de sangue. Citeréia faz ecoar asua dor pelos montes e vales : "Ai, ai! Já não existe o beloAdonis!" O eco responde: "Já não existe o belo Adônis!" Quemrecusaria lágrimas à infeliz Citeréia? Ai, ai, não repouses maissobre uma camada de folhas; levanta-te, infortunada deusa!Veste o luto, bate o seio e dize à natureza: "Já não existe o beloAdônis!" (Bíon).
    • CAPÍTULO V AS GRAÇAS Tipo e atributos das Graças Nos monumentos da arte primitiva, as Graças estavamsempre vestidas, e nós as vemos sob tal aspecto num dos baixos-relevos do altar dos doze deuses no Louvre. O grupo apresentaum caráter que não foi adotado pela arte dos tempos posteriores(fig. 365). Estão todas de frente e tocam as mãos sem enlaçar osbraços. Vemos também as Graças vestidas, numa medalha daépoca romana (fig. 371). "Apesar de todas as minhas buscas, diz Pausânias, nãopude descobrir quem foi o primeiro escultor ou o primeiro pintorque teve a idéia de representar as Graças inteiramente nuas. Emtodos os monumentos da antiguidade as Graças estão vestidas.Não sei por que os pintores e escultores que vieramposteriormente mudaram esse modo, pois hoje, e há muito, tantouns como outros representam as Graças inteiramente nuas."(Pausânias). Sabemos que as Graças esculpidas por Sócrates estavamvestidas, assim como as que Apeles pintara. É provável,portanto, que foi somente depois, em seguida
    • ao domínio macedônio, que se introduziu o uso de asdespojar de vestes. O famoso grupo antigo das três Graças, que seencontrava na catedral de Siena, foi transportado para omuseu desta cidade. Foi nesse grupo que se inspirou Rafael,no primeiro quadro pagão que pintou. De resto existemdiversas variantes de tal grupo, e o museu do Louvre possuiuma belíssima cópia (fig. 366). Tornamos a ver ainda as trêsGraças em Pompéia. Rubens e muitos pintores dos últimosséculos houveram por bem reproduzir as Graças na suapostura tradicional. Canova, Thorwaldsen e Pradier tambémas esculpiram, sendo o grupo de Thorwaldsen o mais famoso. Fig 365 — As três Graças (baixo-relevo antigo tirado do altar dos doze deuses, museu do Louvre). Entre as obras dos últimos séculos, a obra-prima deGermain Pilou, no Louvre, é a única em que as Graças estãovestidas. e é por isso que elas foram confundidas com as trêsvirtudes teologais, mas no pensamento do artista exprimiamrealmente as Graças. O agrupamento costas com costas nãose vê na antiguidade (fig. 367).
    • Fig. 366 — As três Graças (grupo antigo, museu do Louvre).
    • Embora as Graças sejam interpretadas geralmente nosentido de benefícios, personificam tudo quanto constitui oencanto da vida; o seu domínio é tudo quanto é belo e atraente.É por esse título que estão incumbidas do atavio de Vênus.Vemo-las freqüentemente ligadas a essa deusa, ou colocadas aolado do Amor. A própria filosofia julgava precisar das Graçaspara não ser árida Fig 367 — As três Graças. por Germain Pilon (museu do Louvre.e repulsiva. Platão aconselhava a Xenócrates sacrificar àsGraças. Essas divindades desempenham, assim, múltiplasfunções. Tomadas num sentido puramente físico, o séculodezoito desnaturou a concepção primitiva dos gregos.
    • Com efeito, o nome de graça significa ao mesmo tempobeneficio e elegância, e os antigos sempre o compreenderamnos dois sentidos. Os artistas dos últimos séculosnegligenciaram o primeiro para ater-se exclusivamente aosegundo, ao qual convém regressemos, se quisermoscompreender o sentido de certos monumentos antigos.Assim, num baixo-relevo antigo do Vaticano, vemos umenfermo agradecer a Esculápio graças que por este lheforam concedidas (fig. 368). As Graças estão na posturahabitual ao lado do deus da medicina. Fig. 368 — As Graças e Esculápio (segundo um baixo-relevo antigo) Por análogo motivo, as Graças se prendem. às vezes, aApolo, que, antes de seu filho Esculápio, presidia as curas.Uma pedra gravada nos mostra as três irmãs, postas namão direita de uma personagem de estilo arcaico, quejulgamos imitação de uma velha estátua de Apolo em Delos(fig. 369) Tendo os atenienses socorrido os habitantes doQuersoneso, estes, para eternizarem a recordação de tal
    • benefício, elevaram um altar com a seguinte inscrição: Altarconsagrado às Graças, por serem elas que presidiam aoreconhecimento. Os espartanos, antes do combate, costumavamoferecer sacrifícios às Graças, e se o culto delas era tão difundidona Grécia é porque era tomado no sentido de graça concedida. Fig. 369 — Apolo trazendo as Graças (ssgundo uma pedra gravada antiga) Tinham as Graças freqüentemente templos em comum comoutras divindades. Eram invocadas no começo do repasto parapresidirem à doce alegria e à harmonia das festas. SegundoPíndaro, nunca faltavam nos coros e nos festins dos imortais,donde a presença delas expulsa os cuidados e os pesares.Finalmente, têm por missão proporcionar aos deuses e aoshomens tudo quanto torna a vida feliz. Num vidro antigo, pintado, vemos as três Graças nuas, debraços entrelaçados. Usam braceletes, e há flores no chão queelas pisam. São evidentemente as Graças, mas a inscrição lhesdá nomes especiais e significativos: Gelasia (doce sorriso), Lecori(beleza brilhante) e Coma-sia (alegre conviva). É claro que houvea intenção de representar o que constitui o encanto de umbanquete, a alegria, a beleza, a amabilidade. (fig. 370)
    • O número das Graças varia na mitologia. Certas regiõesadmitiam apenas duas, mas os monumentos da arte apresentamquase sempre três. Segundo a tradição mais difundida, sãofilhas de Júpiter e Eurinoma, e os seus nomes variam; masgeralmente se chamam Pasitéia, Caris e Aglaé. As Graças seentrelaçam para indicar os serviços mútuos e o auxílio fraternalque os homens devem uns aos outros. São jovens porque alembrança de um benefício não pode envelhecer. O símbolodessas três irmãs inseparáveis exprimia a idéia de serviçoprestado, e o papel delas era presidir ao reconhecimento. Fig. 370 — As três Graças (segundo um vaso pintado antigo). Fig. 371 — As três Graças (segundo uma medalha antiga),
    • ÍNDICE GRAVURASFig. 181 — Apolo, Diana e Latona (segundo Flaxman) 12Fig. 182 — Latona perseguida pela serpente Pitão (segundo uma pintura de vaso) 13Fig. 183 — Latona e seus filhos (em Versalhes) 15Fig. 184 — Apolo (segundo um busto antigo) 17Fig. 185 — Apolo de Amicleu 17Fig. 186 — Apolo (segundo moedas antigas) 18Fig. 187 — Apolo Sauróctone (segundo uma estátua antiga) 19Fig. 188 — Combate dos grifos contra os arimaspes 20Fig. 189 — Apolo e o grifo 21Fig. 190 — Jacinto (segundo uma estátua de Bosio, museu do Louvre) 22Fig. 191 — Apolo no omphalos 25Fig. 192 — Apolo do Belvedere (segundo uma estátua antiga, em Roma) 27Fig. 193 — Apolo, Diana e Latona (segundo um baixo- relevo antigo) 28Fig. 194 — Apolo combatendo Hércules que rapta o tripé de Delfos (segundo um baixo-relevo antigo, museu do Louvre) 29Fig. 195 — O pastor Forbas dando de beber a Édipo (grupo de Chaudet, museu do Louvre) 32Fig. 196 — A esfinge (segundo uma moeda antiga) 33Fig. 197 — Édipo diante da esfinge (segundo uma pedra gravada antiga) 34Fig. 198 — Édipo atacado pela esfinge (segundo uma pedra gravada antiga) 35Fig. 199 — Édipo expulso pelos filhos (segundo um baixo- relevo antigo) 38
    • Fig. 200 — Apolo e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga) 41Fig. 201 — Estátuas de Guillaume Coustou (no jardim das Tulherias) 43Fig. 202 — Apolo perseguindo Dafne (segundo um quadro de C. Maratti) 44Fig. 203 — Medalha com os atributos de Apolo 47Fig. 204 — Apolo Musageta (estátua antiga, em Roma) 48Fig. 205 — Mársias e Olimpo 49Fig. 206 — Apolo e Mársias (segundo uma pedra gravada antiga) 50Fig. 207 — Mársias (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre) 51Fig. 208 — Apolo e Mársias, numa medalha de Antonino, com atributos do deus 53Fig. 209 — A Musa Melpômene (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre) 58Fig. 210 — A Musa Terpsícore (segundo uma pedra gravada antiga) 59Fig. 211 — Erato e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga) 60Fig. 212 — Sereia 62Fig. 213 — Sereia 63Fig. 214 — As sereias depenadas pelas Musas (baixo-relevo antigo). Dafne. Apolo 63Fig. 215 — Orfeu 66Fig. 216 — Orfeu e Eurídice 68Fig. 217 — Orfeu no inferno (pedra gravada) 69Fig. 218 — Orfeu perde Eurídice (segundo o quadro de Drolling) 69Fig. 219 — Antíope (segundo um quadro de Correggio, museu do Louvre) 72Fig. 220 — Suplício de Dircéia (segundo um quadro antigo do museu de Nápoles) 73Fig. 221 — Niobe e a menor de suas filhas (segundo um grupo antigo) 76Fig. 222 — O Pedagogo e um dos filhos de Níobe (segundo um grupo antigo) 77
    • Fig. 223 — Aristeu (segundo uma estátua antiga do Louvre) 81Fig. 224 — Telésforo (segundo uma estátua antiga) 84Fig. 225 — Esculápio (segundo uma estátua antiga) 85Fig. 226 — Esculápio, Higéia e Telésforo 86Fig. 227 — Esculápio visitando um doente 87Fig. 228 — Oferta a Esculápio (segundo um quadro de Guérin) 88Fig. 229 — Higéia (estátua antiga) 89Fig. 230 — Higéia ou a Saúde (segundo uma pedra gravada antiga) 90Fig. 231 — Esculápio na ilha do Tibre (segundo um medalhão de Cómodo) 94Fig. 232 — O Sol (segundo uma estátua antiga) 98Fig. 233 — O Zodíaco (museu do Louvre) 100Fig. 234 — Atlas Farnese (museu de Nápoles) 101Fig. 235 — As Plêiades (segundo Flaxman) 102Fig. 236 — Queda de Faetonte (segundo uma pedra gravada, museu de Florença) 104Fig. 237 — Faetusa (segundo uma estátua do museu do Louvre) 106Fig. 238 — Diana (segundo uma estátua antiga do museu de Nápoles) 109Fig. 239 — Diana (segundo uma moeda antiga) 110Fig. 240 — O cervo, atributo de Diana (numa moeda antiga) 110Fig. 241 — Diana Lúcifer 111Fig. 242 — Diana — (segundo um busto antigo) 112Fig. 243 — Diana e a corça (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre) 113Fig. 244 — Diana (estátua de bronze, no Louvre) 114Fig. 245 — Diana (segundo um grupo de Jean Goujon, museu do Louvre) 115Fig. 246 — Diana de Gábies (estátua antiga, museu do Louvre) 116Fig. 247 — Acteão, devorado pelos seus cães (segundo uma estátua antiga do museu Britânico, em Londres) 118Fig. 248 — Acteão (segundo um baixo-relevo antigo) 119
    • Fig. 249 — Diana surpreendida por Acteão (segundo um quadro de Lesueur) 120Fig. 250 — Diana e Acteão (segundo um quadro de Albani) 122Fig. 251 — Diana de Éfeso (segundo uma estátua antiga) 124Fig. 252 — Amazona combatente 125Fig. 253 — As amazonas (segundo um vaso pintado, do museu de Nápoles) 126Fig. 254 — Os gregos e as amazonas (segundo um vaso pintado) 127Fig. 255 — Diana precedendo a Aurora (segundo um vaso pintado) 130Fig. 256 — O deus Luno (segundo uma pedra gravada antiga) 131Fig. 257 — A Aurora conduzindo os cavalos do Sol (segundo uma pedra gravada antiga) 133Fig. 258 — A Aurora (por Thorwaldsen) 133Fig. 259 — A Aurora e Céfalo (segundo uma pintura de vaso) 135Fig. 260 — Prócris e seu cão (segundo uma pedra gravada antiga) 136Fig. 261 — Castor e Pólux (pedra gravada) 141Fig. 262 — Castor e Pólux 141Fig. 263 — Rapto de Hilária e Febe por Castor e Pólux (quadro de Rubens, museu de Munique) 143Fig. 264 — Castor e Pólux (segundo um grupo antigo, em Madri) 145Fig. 265 — Castor e Pólux 145Fig. 266 — Tétis e Eurinoma recolhem Vulcano precipitado por sua mãe do alto do Olimpo (segundo Flaxman) 150Fig. 267 — Vulcano (segundo uma estátua antiga) 150Fig. 268 — Cabeça de Vulcano (fragmento antigo) 152Fig. 269 — Combate de Vulcano e Marte (pintura de vaso) 153Fig. 270 — Vulcano e Baco (pintura de vaso) 154Fig. 271 — A rede de Vulcano (segundo um baixo-relevo antigo) 155Fig. 272 — Vênus e Vulcano (segundo uma pedra gravada antiga) 156Fig. 273 — Vênus e Vulcano (segundo um quadro de Jules Romain, museu do Louvre) 157
    • Fig. 274 — Prometeu modelando um homem (segundo uma pedra antiga) 161Fig. 275 — Prometeu formando o homem (baixo-relevo antigo) 162Fig. 276 — Prometeu trazendo o fogo aos homens (segundo uma lâmpada antiga) 164Fig. 277 — Pandora entre Minerva e Vulcano 166Fig. 278 — Pandora dotada por Mercúrio e Minerva (segundo Flaxman) 167Fig. 279 — Pandora abre o vaso fatal (segundo Flaxman) 168Fig. 280 — Lenda de Prometeu com o nascimento e o Destino do homem (segundo um sarcófago antigo do museu Capitolino) 171Fig. 281 — Dédalo preparando as asas de Ícaro (segundo uma pedra gravada) 175Fig. 282 — Dédalo e Ícaro (segundo um quadro de Landon) 176Fig. 283 — Morte de Ícaro (segundo uma pintura de Herculanum) 178Fig. 284 — Nascimento de Minerva (segundo um espelho etrusco) 181Fig. 285 — Vulcano e Júpiter 182Fig. 286 — Minerva e Netuno (segundo uma medalha antiga) 185Fig. 287 — Acrópole (segundo uma moeda antiga) 186Fig. 288 — Minerva arcaica (numa antiga moeda de Arenas) 188Fig. 289 — Atenas e Roma 189Fig. 290 — Palas (segundo uma pedra gravada antiga) 190Fig. 291 — Moedas de Thurium 190Fig. 292 — Medalha romana (denário da gens Pompéia) 191Fig. 293 — Moeda de Macedônia (cunhada sob Alexandre, o Grande) 191Fig. 294 — Moeda grega (de Mantinéia) 191Fig. 295 — Moeda romana (denário da gens Pompéia) 192Fig. 296 — Minerva trazendo a Vitória (numa moeda de Lisímaco) 192Fig. 297 — Minerva segurando o raio (numa moeda macedônia) 192Fig. 298 — Antigo ídolo de Minerva asiática (numa pintura de vaso) 193
    • Fig. 299 — Atributos de Minerva com medalhas antigas 194Fig. 300 — Minerva de Herculanum (museu de Nápoles) 195Fig. 301 — Minerva de Egina (museu de Munique) 196Fig. 302 — Minerva de Fídias (reconstituída por Simart) 197Fig. 303 — Palas de Velletri (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre) 199Fig. 304 — Minerva (segundo uma estátua antiga do museu de Turim) 200Fig. 305 — Medalha de Górdio, cunhada em Selêucia, mostrando Minerva vitoriosa contra um gigante 202Fig. 306 — Minerva vista por Tirésias 203Fig. 307 — Minerva e Mársias (segundo uma moeda antiga) 205Fig. 308 — Minerva higéia (segundo um baixo-relevo antigo). Museu Pio-Clementino 205Fig. 309 — Vaso panatenaico (museu do Louvre) 211Fig. 310 — Cabeça de Medusa (segundo uma moeda antiga) 214Fig. 311 — Perseu mata Medusa voltando a cabeça para não ficar petrificado (segundo uma pedra gravada) 215Fig. 312 — Perseu é auxiliado por Minerva na sua luta contra Medusa (segundo uma moeda dos gálatas) 215Fig. 313 — Perseu perseguido pelas górgonas (segundo uma pintura de vaso) 217Fig. 314 — As górgonas perseguindo Perseu (segundo uma pintura de vaso) 218Fig. 315 — Perseu (segundo uma pedra gravada antiga) 219Fig. 316 — Perseu (grupo de Benevenuto Cellini, em Florença) 220Fig. 317 — Perseu e Andrômeda (segundo um baixo-relevo antigo) 225Fig. 318 — Perseu e Andrômeda (grupo de P. Pugot, museu do Louvre) 226Fig. 319 — Perseu mostra a Polidecto a cabeça de Medusa (segundo uma pintura de vaso) 227Fig. 320 — Pégaso cuidado pelas ninfas (segundo uma pintura de Pompéia) 229Fig. 321 — O cavalo Pégaso (segundo uma moeda antiga) 229
    • Fig. 322 — Pégaso domado por Belerofonte (segundo uma moeda antiga) 231Fig. 323 — Pégaso bebendo (segundo um baixo-relevo antigo) 232Fig. 324 — Belerofonte despede-se do seu anfitrião 232Fig. 325 — Combate contra a Quimera 233Fig. 326 — Queda de Belerofonte (segundo uma pedra gravada antiga) 234Fig. 327 — Marte (segundo uma pedra gravada antiga) 238Fig. 328 — Atributos de Marte 239Fig. 329 — Marte fazendo estremecer as paredes (medalha antiga) 240Fig. 330 — Marte matando Mimas (segundo uma pedra gravada antiga) 241Fig. 331 — Marte agrilhoado é vigiado por Oto e Efialtes (segundo Flaxman) 242Fig. 332 — Marte e Vênus (segundo um grupo antigo) 243Fig. 333 — Vênus, Marte e Cupido (segundo uma pedra gravada antiga) 244Fig. 334 — Os sacerdotes sálicos trazendo os escudos sagrados 246Fig. 335 — Os escudos sagrados e o ápex do flâmine 246Fig. 336 — Juramento dos sete chefes (segundo Flaxman) 250Fig. 337 — Arquémoro esmagado por uma serpente (segundo uma pintura antiga) 252Fig. 338 — Polinice e Etéoclo (segundo um baixo-relevo antigo, museu do Louvre) 253Fig. 339 — Funerais de Etéoclo e Polinice (segundo Flaxman) 254Fig. 340 — Nascimento de Vênus (segundo um quadro de Boucher) 256Fig. 341 — Vênus arribando a Crera (segundo um quadro de Albani) 257Fig. 342 — Vênus marinha (segundo uma estátua antiga) 260Fig. 343 — Medalha de Afrodite, com os atributos de Vênus 261Fig. 344 — Vênus celeste (segundo uma pintura antiga do museu de Nápoles) 263Fig. 345 — Vênus vulgar (segundo uma pedra gravada antiga) 264
    • Fig. 346 — Pigmalião animando a sua estátua (segundo um quadro de Girondet) 265Fig. 347 — Medalhas de Cnido 267Fig. 348 — Medalha de Tito com os atributos de Vênus e Cupido 269Fig. 349 — Vênus do Capitólio 270Fig. 350 — Vênus agachada (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre) 271Fig. 351 — Trono de Marte 272Fig. 352 — Trono de Vênus 272Fig. 353 — Vênus (segundo uma estátua antiga de bronze) 273Fig. 354 — Vênus e os Tritões (segundo uma medalha antiga) 273Fig. 355 — Vênus num cavalo marinho (segundo uma medalha antiga) 274Fig. 356 — Vênus genitrix (segundo uma estátua antiga, museu do Louvre) 276Fig. 356 — Vênus vitoriosa (segundo uma pedra gravada antiga) 277Fig. 358 — Vênus vitoriosa (pedra gravada antiga) 277Fig. 359 — Vênus de Milo (no museu do Louvre) 278Fig. 360 — Adônis (segundo uma pedra gravada antiga) 281Fig. 361 — Adônis partindo para a caça (segundo uma pintura antiga) 282Fig. 362 — Partida de Adônis (segundo um quadro de Ticiano, museu de Londres) 283Fig. 363 — Adônis expirando nos braços de Vênus (segundo uma pintura antiga) 285Fig. 364 — Morte de Adônis (segundo um quadro de Poussin) 285Fig. 365 — As três Graças (baixo-relevo antigo tirado do altar dos doze deuses, museu do Louvre) 289Fig. 366 — As três Graças (grupo antigo, museu do Louvre) 290Fig. 367 — As três Graças, por Germain Pilon (museu do Louvre) 291Fig. 368 — As Graças e Esculápio (segundo um baixo- relevo antigo) 292Fig. 369 — Apolo trazendo as Graças (segundo uma pedra gravada antiga) 293
    • Fig. 370 — As três Graças (segundo um vaso pintado antigo) 294Fig. 371 — As três Graças (segundo uma medalha antiga) 294
    • LIVRO III - APOLO E DIANA CAPÍTULO I — Latona e seus FilhosNascimento de Apolo e Diana ................................................. 11Latona e a serpente Pitão ....................................................... 14Os camponeses carianos ........................................................ 14 CAPÍTULO II — Febo-ApoloO tipo de Apolo ...................................................................... 16Jacinto metamorfoseado em flor ............................................. 22Ciparissa e o seu cervo ........................................................... 23 CAPÍTULO III — O Tripé de ApoloDelfos, centro do mundo ........................................................ 24Apolo, vencedor de Pitão ........................................................ 25A disputa do tripé .................................................................. 28O oráculo de Delfos ................................................................ 29Predições a Laio ..................................................................... 30Édipo e Laio ........................................................................... 31A esfinge ................................................................................. 33As desventuras de Édipo ........................................................ 34Édipo e Antígona .................................................................... 37 CAPÍTULO IV — O Louro de ApoloApolo e o Amor ....................................................................... 40A metamorfose de Dafne ........................................................ 41Desespero de Clítia ................................................................ 44 CAPÍTULO V — A Lira de ApoloA lira e a flauta ...................................................................... 46O sileno Mársias .................................................................... 47As orelhas do rei Midas .......................................................... 53 CAPÍTULO VI — As MusasJúpiter e Mnemósina ............................................................. 55Atributos das Musas .............................................................. 56As filhas de Piero ................................................................... 61As Musas vitoriosas contra as sereias .................................... 62
    • CAPÍTULO VII — OrfeuA lira de Orfeu ....................................................................... 65Orfeu e Eurídice ..................................................................... 67Orfeu dilacerado pelas bacantes ............................................. 67 CAPÍTULO VIII — As Setas de ApoloJúpiter e Antíope ................................................................... 71Os filhos de Níobe .................................................................. 74 CAPÍTULO IX — Apolo PastorA ninfa Coronis ...................................................................... 78O nascimento de Esculápio .................................................... 79Apolo na corte de Admeto ....................................................... 80O pastor Aristeu ..................................................................... 80 CAPÍTULO X — EsculápioEsculápio e Higéia ..................................................................83A serpente de Esculápio .........................................................84O templo de Epidauro ............................................................87Os tratamentos de Esculápio .................................................91Esculápio em Roma ...............................................................93Hércules e Esculápio ..............................................................94 CAPÍTULO XI — O SolO Sol e a ilha de Rodes ...........................................................96Os sinais do Zodíaco ..............................................................97O carro do Sol ........................................................................99Queda de Faetonte ............................................................... 102As irmãs de Faetonte ........................................................... 104O rei Cicno ........................................................................... 105 CAPÍTULO XII — Diana, Irmã de ApoloTipo e atributos de Diana ..................................................... 108Diana caçadora .................................................................... 111O castigo de Acteão .............................................................. 117As ninfas de Diana ............................................................... 120Diana e Calisto .................................................................... 121
    • CAPÍTULO XIII — Diana de ÉfesoO tipo de Diana de Éfeso ...................................................... 123As amazonas ........................................................................ 124 CAPÍTULO XIV — A LuaA marcha da Lua ................................................................. 129O sono de Endimião ............................................................. 130O deus Luno ........................................................................ 131 CAPÍTULO XV — A AuroraAs portas do Oriente ............................................................ 132Titão e a Aurora ................................................................... 134Céfalo e Prócris .................................................................... 134O gigante Orião .................................................................... 137 CAPÍTULO XVI — Os CrepúsculosO cisne de Leda .................................................................... 139Castor e Pólux ...................................................................... 140Hilária e Febe ....................................................................... 142A imortalidade partilhada ..................................................... 143A estrela da tarde e a estrela da manhã ................................ 144 LIVRO IV - VULCANO E MINERVA CAPÍTULO I — VulcanoNascimento de Vulcano ........................................................ 149Tipo e atributos de Vulcano .................................................. 151Vingança de Vulcano ........................................................... 152Os fios de Vulcano ............................................................... 154As forjas de Vulcano ............................................................ 156Os ciclopes ........................................................................... 158 CAPÍTULO II — PrometeuPrometeu forma o homem .................................................... 160As duas partes de Prometeu ................................................. 163O fogo arrebatado aos homens ............................................. 163A caixa de Pandora .............................................................. 165Suplício e libertação de Prometeu .......................................... 168
    • CAPÍTULO III — DédaloAs invenções de Dédalo ........................................................ 172Minos e Pasife ....................................................................... 173As asas de Ícaro ................................................................... 174O retrato de Hércules ........................................................... 177Os telquines e os dáctilos ..................................................... 177 CAPÍTULO IV — MinervaNascimento de Minerva ........................................................ 180Nascimento de Erecteu ........................................................ 183Pandrosa ............................................................................. 184Disputa de Minerva e Netuno ............................................... 185Tipo e atributos de Minerva .................................................. 187Minerva e Encélades ............................................................ 200Minerva e Tirésias ................................................................ 201Minerva e Mársias ................................................................ 204Minerva higéia ..................................................................... 205Minerva obreira ou ergane .................................................... 206Minerva e Aracne ................................................................. 207A festa das Panatenéias ....................................................... 209 CAPÍTULO V — A GórgonaDánai e a chuva de ouro ...................................................... 212Infância de Perseu ............................................................... 213Perseu e as Górgonas ........................................................... 214Pégaso e Crisaor .................................................................. 216O coral ................................................................................. 221Atlas petrificado ................................................................... 222Perseu e Andrômeda ............................................................ 222As núpcias de Perseu ........................................................... 223
    • CAPÍTULO VI — O Cavalo PégasoPégaso cuidado pelas ninfas ................................................ 228A fonte Hipocrene ................................................................ 230Belerofonte e a Quimera ...................................................... 231 LIVRO V - MARTE E VÊNUS CAPÍTULO I — MarteTipo e atributos de Marte .................................................... 237Marte na guerra dos Gigantes ............................................. 240Vênus e Marte ..................................................................... 241Marte ferido por Diomedes .................................................. 243Filomela e Progne ................................................................ 245Os sacerdotes sálios ............................................................ 246 CAPÍTULO II — As Sequazes de MarteBelona ................................................................................ 247A Discórdia ......................................................................... 248Etéoclo e Polinice ................................................................ 248Anfiaraus .............................................................................249Arquémoro .......................................................................... 250Combate dos dois irmãos .................................................... 251Funerais de Etéoclo e de Polinice ........................................ 252 CAPÍTULO III — VênusNascimento de Vênus .......................................................... 255Tipo e atributos de Vênus ................................................... 258Vênus celeste e Vênus vulgar .............................................. 259Pigmalião e a sua estátua .................................................... 264Vênus de Cnido ................................................................... 266Vênus genitrix ..................................................................... 274Vênus vitoriosa ................................................................... 275
    • CAPÍTULO IV — AdônisNascimento de Adônis .......................................................... 280A caçada de Adônis .............................................................. 281A morte de Adônis ................................................................ 284As festas de Adônis .............................................................. 286 CAPÍTULO V — As GraçasTipo e atributos das Graças ................................................. 288
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