Se ha denunciado esta presentación.
Se est√° descargando tu SlideShare. ×
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Projeto ORVIL
- 2 -
Projeto ORVIL
- 3 -
Projeto ORVIL
AS TENTATIVAS DE TOMADA DO PODER
Volume II
CENTRO DE INFORMA√á√ēES DO EX√ČRCITO
EDITORAÇÃO ...
Projeto ORVIL
- 4 -
Link para baixar esse e outros livros:
http://cloneclock.blogspot.com.br/2010/01/downloads.html
Email:...
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Anuncio
Próximo SlideShare
Orvil3.pdf
Orvil3.pdf
Cargando en…3
×

Eche un vistazo a continuación

1 de 421 Anuncio
Anuncio

M√°s Contenido Relacionado

M√°s reciente (20)

Anuncio

Orvil2.pdf

  1. 1. Projeto ORVIL - 2 -
  2. 2. Projeto ORVIL - 3 - Projeto ORVIL AS TENTATIVAS DE TOMADA DO PODER Volume II CENTRO DE INFORMA√á√ēES DO EX√ČRCITO EDITORA√á√ÉO ELETR√ĒNICA Luis Valentin Vallejo 2016
  3. 3. Projeto ORVIL - 4 - Link para baixar esse e outros livros: http://cloneclock.blogspot.com.br/2010/01/downloads.html Email: lsvltn@ojooo.com lsvltn@gmail.com Luis V Vallejo ‚Äď editor Outono- 2016
  4. 4. Projeto ORVIL - 5 - Sum√°rio dos Tr√™s Volumes UMA EXPLICA√á√ÉO NECESS√ĀRIA INTRODU√á√ÉO A VIOL√äNCIA EM TR√äS ATOS 1¬™ Parte A Primeira Tentativa de Tomada do Poder (1922-1954) 2¬™ Parte A Segunda Tentativa de Tomada do Poder (1955-1964) 3¬™ Parte A Terceira Tentativa de Tomada do Poder (1964) Engajamento das For√ßas Armadas (1969) 4¬™ Parte A Quarta Tentativa de Tomada do Poder (1974 - ...) Ap√™ndice
  5. 5. Projeto ORVIL - 6 -
  6. 6. Projeto ORVIL - 7 - INDICE VOLUME II (continua√ß√£o do Volume I) CAP√ćTULO VI 1969 1. Reflexos do AI-5 2. O impedimento de Costa e Silva 3. A elei√ß√£o de um novo Presidente 4. A elei√ß√£o do Presidente M√©dici e a nova Constitui√ß√£o 5. Movimento Estudantil entra em descenso 6. O PCB desencadeia a "guerra de papel" 7. A fuga da penitenci√°ria e a desarticula√ß√£o do MAR 8. O PCBR inicia as a√ß√Ķes armadas 9. O fim da Corrente 10. A√ß√£o Libertadora Nacional (ALN) 11. ALN - Ascens√£o terrorista em S√£o Paulo 12. Os dominicanos na subvers√£o 13. ALN: a guerra psicol√≥gica 14. ALN em Ribeir√£o Preto 15. ALN no Planalto Central 16. ALN: as a√ß√Ķes na Guanabara 17. ALN: as "quedas" em S√£o Paulo 18. Os dominicanos levam Marighela √† morte 19. ALN: remanescentes reestruturam-se em S√£o Paulo 20. FALN: a aproxima√ß√£o com a Igreja e o seu desmantelamento 21. Marx, Mao, Marighela e Guevara - M3-G 22. O PC do B e a Guerra Popular 23. A consolida√ß√£o da Ala Vermelha 24. O surgimento do Movimento Revolucion√°rio Tiradentes (MRT) 25 O PCR atua no campo
  7. 7. Projeto ORVIL - 8 - 26. O fim do primeiro MR-8 27. A DI/GB inicia as a√ß√Ķes armadas e assume a sigla MR8 28. O sequestro do Embaixador Charles Burke Elbrick 29. Os pren√ļncios da cis√£o do POC 30. O COLINA funde-se com a VPR 31. VPR: as "quedas" do primeiro trimestre e a fus√£o com o COLINA 32. A VAR-Palmares e a grande a√ß√£o 33. VAR-P: O "congresso do Racha" 34. A VAR-P encerra o seu I Congresso Nacional 35. O ressurgimento da VPR 36. Resist√™ncia Democr√°tica (REDE) 37. A "Corrente Dois'" da AP funda o partido Revolucion√°rio dos Trabalhadores 38. A FBT estrutura-se em n√≠vel nacional 39. MPL: Luta Armada x Conscientiza√ß√£o das Massas 40. Do MNR surge o Grupo independ√™ncia ou Morte 41. Um mil novecentos e sessenta e nove CAPITULO VII O ENGAJAMENTO DAS FOR√áAS ARMADAS 1. A intranquilidade crescente 2. O acaso 3. Moleque sabido 4. A revela√ß√£o surpreendente 5. A c√©lula subversiva do 4¬ļ RI 6. O assalto ao 4¬ļ RI 7. Inexperi√™ncia? 8. O fio da meada 9. Intensifica-se o trabalho na Cia PE 10. Modifica√ß√Ķes no esquema de seguran√ßa 11. √Č criada a "Opera√ß√£o Bandeirante" - OBAN 12. Dificuldades e desencontros 13. Os Centros de Opera√ß√Ķes de Defesa Interna - CODI 14. Evolu√ß√£o na estrutura dos CDI/DOI 15. A batalha perdida
  8. 8. Projeto ORVIL - 9 - CAPITULO VIII 1970 1. Renasce o otimismo nacional 2. A imagem do Pa√≠s no exterior 3. As elei√ß√Ķes de novembro 4. Frente Brasileira de Informa√ß√Ķes 5. O fim do CC do PCBR 6. O fim das lideran√ßas carism√°ticas na AL 7. As atividades da CR/SP da ALN 8. O ‚Äújusti√ßamento‚ÄĚ de Ary Rocha Miranda 9. As atividades da CR/GB da ALN 10. Atividades da ALN no Nordeste e em Minas Gerais 11. A Tentativa de implanta√ß√£o da ‚Äú√Ārea Estrat√©gica‚ÄĚ da ALN 12. O PC do B prepara-se no campo e na cidade 13. A AV amplia a sua estrutura 14. O MRT reduz-se a um grupelho 15. O surgimento do Movimento Revolucion√°rio Marxista (MRM) 16. PCR: na pris√£o, "Capivara" vira "Cachorro" 17. O MR-8 intensifica as a√ß√Ķes armadas 18. A cis√£o e a crise do POC 19. O surgimento da OCML-PO 20. MCR: uma fugaz rebeldia no POC 21. VPR: meses de planejamento e sigilo 22. O sequestro do c√īnsul japon√™s Nobuo Okuchi 23. VPR: A tentativa de sequestro do c√īnsul norte-americano em Porto Alegre 24. VPR: a crise de abril 25. VPR: as √°reas de treinamento do Vale do Ribeira 26. ‚ÄúOpera√ß√£o Registro‚ÄĚ 27. ‚ÄúOpera√ß√£o Sete Barras" 28. VPR: os rescaldos de maio e a reestrutura√ß√£o de junho 29. VPR e ALN: o sequestro do embaixador alem√£o 30. VPR: um segundo semestre violento 31. VPR: o sequestro do embaixador da Su√≠√ßa 32. A VAR-P enfrenta sucess√£o de crises 33. O surgimento da Dissid√™ncia da VAR-P (DVP) 34. A desarticula√ß√£o da REDE
  9. 9. Projeto ORVIL - 10 - 35. As contradi√ß√Ķes afloram dentro da A√ß√£o Popular 36. A extin√ß√£o do PORT 37. O PORT e as "quedas" de maio e de julho 38. O desmantelamento da FBT 39. A Estrutura√ß√£o do Grupo Independ√™ncia ou Morte 40. O MPL aproxima-se do clero "progressista" 41. Um mil novecentos e setenta CAPITULO IX 1971 1. As Atividades subversivas 2. O processo Pol√≠tico 3. O Pa√≠s vai bem, mas o povo vai mal 4. Amplia-se a rede de ‚Äúdesinformatzya‚ÄĚ 5. PCBR: um ano de incertezas 6. MOLIPO: uma dissid√™ncia da ALN 7. As atividades da CR/SP da ALN 8. As atividades da CR/GB da ALN 9. A falta de lideran√ßa na ALN 10. A Frente de Liberta√ß√£o Norte-Nordeste (FLNN) 11. A morte de Aldo S√° Brito e a Campanha de Difama√ß√£o 12. O surgimento da Tend√™ncia Leninistas da ALN 13. O assassinato de Henning Albert Boilesen 14. O fim do MRT (continua no Volume III)
  10. 10. Projeto ORVIL - 11 - (continua√ß√£o do Volume I) CAP√ćTULO VI 1969 ‚ÄúNas primeiras a√ß√Ķes pegamos o inimigo de surpresa e ele acreditou que se tratavam de simples marginais. Ele perdeu um ano seguindo pistas falsas. Quando descobriu seu erro, era tarde demais. A guerra revolucion√°ria havia come√ßado‚ÄĚ. Carlos Marighela 1 1. Os reflexos do AI-5 Come√ß√°vamos o ano de 1969 com as maiores dificuldades j√° vividas pela Revolu√ß√£o na √°rea institucional. A Constitui√ß√£o de 1967, que se apresentava como das mais pragm√°ticas que tivemos, mostrara-se insuficiente para conciliar a Revolu√ß√£o e a legalidade. 2 Embora houvesse uma preocupa√ß√£o not√≥ria de recompor o mais cedo poss√≠vel as institui√ß√Ķes, esta era a mais s√©ria crise p√≥s-1964 e n√£o teria solu√ß√£o em curto prazo. O Congresso tivera suas atividades suspensas pela primeira vez, limita√ß√Ķes foram impostas √† imprensa e o AI-5 n√£o tinha prazo de vig√™ncia. As dificuldades maiores estavam situadas no campo pol√≠tico, mas era exatamente a√≠ que n√£o podia haver pressa. Desde que fora adotada a 1 Do documento ‚ÄēO Papel da A√ß√£o na Organiza√ß√£o Revolucion√°ria‚ÄĖ, maio/69. 2 Eug√™nio Gudin assim se refere a esta Carta Magna: ‚Äú(...) uma Constitui√ß√£o que √© a melhor que o Brasil j√° teve, como pa√≠s independente, porque √©, a meu ver, a √ļnica que n√£o √© ut√≥pica e que tem possibilidade de ser cumprida‚ÄĖ. No artigo ‚ÄēO Quinto Anivers√°rio da Revolu√ß√£o‚ÄĖ ‚Äď Pub AERP.
  11. 11. Projeto ORVIL - 12 - Constitui√ß√£o de 1967, os pol√≠ticos s√≥ se preocuparam em dar por encerrado o processo revolucion√°rio, deixando de encontrar ou mesmo bloqueando as medidas necess√°rias √† promo√ß√£o das reformas proclamadas pela Revolu√ß√£o pelas vias institucionais. Recorde-se que, ainda na primeira metade do mandato do Presidente Costa e Silva, o Governo ficou sem condi√ß√Ķes de vencer qualquer batalha importante no Congresso. Agora o Governo se voltaria com prioridade para essas reformas. Poucos dias ap√≥s a assinatura do Ato Institucional, referindo-se a ele, o Ministro da Fazenda declarava: ‚ÄĚ(...) ele nos permitir√° tomar as medidas necess√°rias no sentido de reduzir o d√©ficit do Tesouro e conter o processo inflacion√°rio com o objetivo de assegurar o desenvolvimento do Pa√≠s‚ÄĚ. Ainda em dezembro de 1968, a Constitui√ß√£o fora modificada em diversos pontos relativos √† autoridade federal em quest√Ķes econ√īmicas, de modo a permitir uma a√ß√£o mais en√©rgica do Governo. Removidos os obst√°culos, o combate √† infla√ß√£o foi retomado em ritmo acelerado. O Governo voltava-se prioritariamente para a ordena√ß√£o financeira, a mudan√ßa das estruturas e o saneamento do organismo pol√≠tico-administrativo do Pa√≠s. N√£o estavam, por√©m, fechadas as vias do processo democr√°tico. A Revolu√ß√£o mantinha-se fiel √† sua inspira√ß√£o e aos seus compromissos. Apenas pretendia remover o entulho da "m√° pol√≠tica e da amea√ßa subversiva". A consci√™ncia da profundidade da crise era, no entanto, o sinal mais seguro de que caminhos estavam sendo procurados. Um aspecto era particularmente importante em raz√£o da guerra revolucion√°ria que aflorava no Pa√≠s. As diverg√™ncias que foram assinaladas no cap√≠tulo anterior, no campo militar, em rela√ß√£o ao apoio da Institui√ß√£o ao Governo, n√£o afetavam a realidade essencial da unidade, e os √ļltimos acontecimentos eram um atestado disso. Os pronunciamentos dos chefes revolucion√°rios puderam assim expressar claramente que a Revolu√ß√£o continuava, e o fazia perseguindo a manuten√ß√£o da ordem econ√īmica, pol√≠tica e social vigentes, reformulando-as onde se fizesse necess√°rio para promover o seu desenvolvimento. Havia, por√©m, etapas intermedi√°rias nesse
  12. 12. Projeto ORVIL - 13 - processo, e elas estavam claramente definidas: o combate √† infla√ß√£o, no campo econ√īmico; e o combate √† subvers√£o, no campo pol√≠tico. Os pol√≠ticos, entretanto, e mais insistentemente do que eles, os cronistas pol√≠ticos, pensavam e agiam apenas em fun√ß√£o da reabertura do Congresso. Somente em maio, o Presidente da Rep√ļblica incumbiu o Vice-Presidente de promover estudos e propor sugest√Ķes para as altera√ß√Ķes constitucionais necess√°rias, a fim de atender os objetivos da Revolu√ß√£o, compatibilizando-a com o regime democr√°tico. A ideia do Presidente era reformar o m√≠nimo poss√≠vel a carta de 1967, preservando sua ess√™ncia. Mas, a guerra revolucion√°ria em curso agravava-se como consequ√™ncia natural da evolu√ß√£o das organiza√ß√Ķes, as quais havia anos, vinham se preparando para ela. Passaram-se seis meses e o Governo ficara apenas na chamada "limpeza de √°rea", por meio de cassa√ß√Ķes. O AI-5 e os poderes de que o Governo se investiu n√£o resolviam o problema por si. A situa√ß√£o estava a exigir medidas para a coordena√ß√£o e unifica√ß√£o do combate √† subvers√£o, que s√≥ aquela altura seriam tomadas. Em julho, a reforma constitucional passou a ser estudada por uma comiss√£o de juristas, da qual faziam parte, al√©m de Pedro Aleixo, Gama e Silva, Carlos Medeiros, Miguel Reale e Themistocles Cavalcanti. Participava ainda dessa comiss√£o, como representante do executivo, o Ministro do Planejamento H√©lio Beltr√£o. No final de agosto, era dada a p√ļblico a not√≠cia de que a reforma da Constitui√ß√£o estava pronta e que seria promulgada por meio de uma emenda constitucional, no dia 2, para entrar em vigor a 7 de setembro. No dia imediato √† sua entrada em vigor, seria reconvocado o Congresso Nacional. Todavia, na madrugada de 29 de agosto, numa sexta-feira, o Marechal Costa e Silva adoeceu, tendo perdido a voz, primeiro sintoma de uma trombose cerebral. ÔÄ≠ÔĆ
  13. 13. Projeto ORVIL - 14 - 2. O impedimento de Costa e Silva Ainda no dia 29, o Presidente Costa e Silva foi transferido para o Rio de Janeiro, em busca de melhor atendimento m√©dico, onde chegou caminhando. Em poucos dias, por√©m, teria o lado direito do corpo totalmente paralisado. A gravidade de sua mol√©stia n√£o foi revelada de imediato, mas desde logo era evidente o seu impedimento, ainda que tempor√°rio. Na noite de s√°bado, houve uma reuni√£o do Alto Comando das For√ßas Armadas. Nessa ocasi√£o, n√£o se tinha um progn√≥stico preciso sobre a prov√°vel evolu√ß√£o do estado de sa√ļde do Presidente, e n√£o sendo at√© ent√£o afastada a possibilidade de sua recupera√ß√£o. Na reuni√£o, ficou decidido que n√£o se entregaria o poder ao Vice-Presidente, que n√£o tinha apoio militar e pol√≠tico suficiente para resguardar os interesses da Revolu√ß√£o e a seguran√ßa interna, seriamente afetada. Tal postura n√£o significava que os membros do Alto Comando n√£o concordavam com o plano pol√≠tico do Presidente, como se chegou a aventar. Pelo contr√°rio, endossavam a abertura pol√≠tica por ele planejada, mas acreditavam que o Senhor Pedro Aleixo representaria no poder um m√©todo de pensar e agir totalmente diferente. Como o Vice-Presidente mostrara-se contr√°rio ao AI-5, julgavam aqueles chefes militares que o momento n√£o permitia correr-se o risco de v√™- lo revogado, antes que cessassem ou fossem corrigidas as causas que o determinaram. Como solu√ß√£o de emerg√™ncia, ficou decidido que os poderes presidenciais seriam entregues, temporariamente, aos tr√™s ministros militares. O Vice-Presidente Pedro Aleixo foi convocado para uma reuni√£o, no Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto, quando foi posto a par da real situa√ß√£o de sa√ļde do Presidente e da decis√£o do Alto Comando das For√ßas Armadas. Se a apresenta√ß√£o dessa decis√£o, como fato consumado, n√£o provocou maior rea√ß√£o por parte do Vice Presidente, ela n√£o foi bem recebida por alguns chefes militares.
  14. 14. Projeto ORVIL - 15 - Nessa mesma noite de domingo, a not√≠cia do impedimento tempor√°rio do Presidente foi dada por uma cadeia nacional de r√°dio e televis√£o, oportunidade em que foi lido o texto do Ato Institucional n¬ļ 12, que come√ßava por reafirmar a vig√™ncia do AI-5 e explicava a decis√£o do Alto Comando das For√ßas Armadas. No seu artigo 4¬ļ, esse Ato esclarecia que, uma vez cessados os motivos do impedimento, o presidente reassumiria suas fun√ß√Ķes em toda a sua plenitude. Nessa ocasi√£o, foi difundida, tamb√©m, uma proclama√ß√£o dos ministros militares √† Na√ß√£o. Somando-se √† tens√£o e √†s dificuldades j√° enfrentadas, no dia 4 de setembro era sequestrado, no Rio de Janeiro o embaixador norte- americano Charles Elbrick. Essa a√ß√£o demonstrava aos incr√©dulos que o movimento subversivo estava solidamente implantado, dispunha de recursos e sentia-se com for√ßa suficiente para realizar a√ß√Ķes cada vez mais audaciosas, enfrentando e negociando com o pr√≥prio Governo. √Č poss√≠vel que, se os ministros militares n√£o estivessem investidos dos poderes presidenciais, n√£o se houvessem vencido a indigna√ß√£o e as resist√™ncias que, superadas, permitiram resguardar a integridade f√≠sica do embaixador. Essa a√ß√£o, de certa forma, dava respaldo √† decis√£o do Alto Comando das For√ßas Armadas no epis√≥dio do impedimento tempor√°rio do Presidente. Por outro lado, o atendimento das exig√™ncias dos terroristas, que impunham a divulga√ß√£o de um manifesto pelos jornais, r√°dios e televis√Ķes, e a liberta√ß√£o de quinze subversivos serviriam de est√≠mulo para a realiza√ß√£o de futuras a√ß√Ķes semelhantes. ÔÄ≠ÔĆ 3. A elei√ß√£o de um novo Presidente Com o correr dos dias, acentuava-se a perspectiva da invalidez permanente do Presidente Costa e Silva. Os membros do Alto Comando das For√ßas Armadas come√ßaram a examinar as alternativas para solucionar o impasse, que j√° apresentava reflexos na condu√ß√£o da pol√≠tica governamental.
  15. 15. Projeto ORVIL - 16 - Desta vez, os pol√≠ticos e os cronistas pol√≠ticos, que viviam reprovando a Revolu√ß√£o por n√£o atender a um dos principais postulados de Maquiavel, segundo o qual "todo mal deve ser feito de uma s√≥ vez‚ÄĚ, n√£o teriam do que reclamar. Ante a alternativa de se eleger um presidente apenas para cumprir o mandato interrompido ou para cumprir esse mandato restante e mais um mandato integral, decidiram-se por esta √ļltima op√ß√£o. Al√©m do fato das elei√ß√Ķes presidenciais representarem sempre momentos de instabilidade e tens√£o pol√≠ticas - n√£o sendo indicada pela situa√ß√£o a conveni√™ncia de promover-se duas elei√ß√Ķes consecutivas - havia ainda o precedente do governo Castelo Branco, que fora levado √† prorroga√ß√£o de seu mandato, por consenso, mas que quebrara, de qualquer modo, as regras estabelecidas. Embora n√£o interessasse a muitos essa verdade, o fato √© que o objetivo da Revolu√ß√£o era encontrar uma solu√ß√£o que permitisse sair da emerg√™ncia e, mesmo em meio do arb√≠trio, preservar, tanto quanto poss√≠vel, a estrutura democr√°tica. Decidiram-se, tamb√©m, os pol√≠ticos, pela apresenta√ß√£o de uma candidatura militar que obtivesse o maior consenso poss√≠vel - de modo a preservar a unidade - e pela participa√ß√£o do Congresso na elei√ß√£o do indicado. Os dirigentes da ARENA propuseram ao Governo que, uma vez escolhido o candidato, esse fosse incorporado ao partido, sob o argumento de que, uma vez tendo sido preservados os partidos, eram eles os instrumentos adequados √† apresenta√ß√£o do candidato. Pleiteavam, ainda, um encontro preliminar entre este e os l√≠deres arenistas. Conduzida a sele√ß√£o do candidato pelo Alto Comando das For√ßas Armadas, atrav√©s de consulta aos oficiais generais das tr√™s For√ßas, no dia 6 de outubro, esse √≥rg√£o colegiado reuniu-se para definir a escolha e no dia seguinte emitia uma nota oficial. Nessa nota, era analisada a situa√ß√£o interna, anunciando o resultado da escolha e informando que o escolhido, o General-de-Ex√©rcito Em√≠lio Garrastazu M√©dici, aquiescera em "aceitar a convoca√ß√£o, considerando-a como miss√£o a ser cumprida". ÔÄ≠ÔĆ
  16. 16. Projeto ORVIL - 17 - 4. A elei√ß√£o do Presidente M√©dici e a nova Constitui√ß√£o O discurso que o Gen. M√©dici proferiu, na ocasi√£o do comunicado de sua escolha, como virtual Presidente da Rep√ļblica, impressionou profundamente os meios pol√≠ticos, conforme noticiou a imprensa √† √©poca. O tom franco com que exp√īs a origem de seu mandato e os problemas relativos √† seguran√ßa, a mensagem de renova√ß√£o que transmitiu e a determina√ß√£o revelada no conjunto de seu discurso, talvez pelo inesperado de suas declara√ß√Ķes, criaram expectativas al√©m daquelas normalmente resultantes do advento de um novo governo. O Gen. M√©dici disse, com toda clareza, a que veio e como veio. Veio como delegado das For√ßas Armadas, das quais recebeu miss√£o irrecus√°vel. Veio com a enorme autoridade de quem fez tudo que estava ao seu alcance para n√£o ser cogitado. E veio para "completar o movimento de 1964, transformando-o em uma aut√™ntica revolu√ß√£o da democracia e do desenvolvimento". Presidente Em√≠lio Garrastazu M√©dici O Gen. M√©dici n√£o se preocupou em mascarar a realidade. J√° ao assumir o Comando do III Ex√©rcito, dissera que "o povo n√£o reclama do que a Revolu√ß√£o fez, mas do que ela deixou de fazer". M√©dici voltou seu discurso para o futuro e fez um apelo: "em vez de jogar pedras no passado, vamos aproveitar todas as pedras dispon√≠veis
  17. 17. Projeto ORVIL - 18 - para construir o futuro‚ÄĚ. Dentre os v√°rios aspectos de seu pronunciamento, vale ressaltar aquele em que fixava, como objetivo final de seu governo, dotar o Pa√≠s de institui√ß√Ķes livres e permanentes. No dia 14 de outubro, foi editado o AI-16, que determinou a vac√Ęncia da Presid√™ncia da Rep√ļblica, convocou as elei√ß√Ķes indiretas e marcou o pleito para o dia 25 e a posse do eleito para o dia 30. Ato Complementar suspendia o recesso do Congresso a partir do dia 22 de outubro. No dia 16, a ARENA em convoca√ß√£o extraordin√°ria, aclamou os candidatos √† Presid√™ncia e Vice-Presid√™ncia da Rep√ļblica, declarando compreender inteiramente as raz√Ķes de seguran√ßa com que se justificava a condu√ß√£o revolucion√°ria. O MDB, em reuni√£o informal, reconheceu a legitimidade do processo. Precedendo √† elei√ß√£o, foi promulgada a nova Constitui√ß√£o. Aqueles que saudaram a Constitui√ß√£o de 1967 como excelente, por dispor de adequada declara√ß√£o direitos e das garantias individuais, e a presen√ßa da representa√ß√£o popular que assegurava a renova√ß√£o peri√≥dica dos governantes, por meio de elei√ß√Ķes, n√£o tiveram por que se descontentarem. A nova Constitui√ß√£o conservava essa parte, ainda que restringisse, como era de se esperar, a prote√ß√£o dos direitos pol√≠ticos. A nova Constitui√ß√£o, por√©m, mantinha inserida nas suas disposi√ß√Ķes gerais e transit√≥rias os Atos Institucionais e Complementares. Ao Presidente da Rep√ļblica caberia decidir sobre a oportunidade e a forma de revog√°-los, sendo a √ļnica autoridade competente para decretar sua cessa√ß√£o. O Presidente rec√©m- empossado colocou como meta-s√≠ntese de seu governo, faz√™-lo at√© o t√©rmino de seu mandato, o que significava o fim do processo revolucion√°rio. Esse era seu objetivo claramente expresso. Esse era o objetivo √© ser alcan√ßado para que a Revolu√ß√£o fosse vitoriosa. Por outro lado, significava que, naquele momento, o processo revolucion√°rio ainda estava em curso. Na compreens√£o dessa dicotomia residiria em boa parte a mais r√°pida ou mais demorada volta √† plenitude democr√°tica no Pa√≠s. ÔÄ≠ÔĆ
  18. 18. Projeto ORVIL - 19 - 5. O Movimento Estudantil entra em descenso A partir de 1969, deixou de existir o Movimento Estudantil como movimento de massa organizado, pelo ingresso de centenas de estudantes nas organiza√ß√Ķes comunistas. O acesso √† luta armada empolgava os jovens, que vislumbravam, em plena idade da afirma√ß√£o, a oportunidade de tornarem-se novos "guevaras". Segundo Alfredo H√©lio Sirkis, era a √©poca da "aventura cintilante da milit√Ęncia revolucion√°ria".3 Mesmo aqueles que n√£o haviam entrado para essas organiza√ß√Ķes procuravam organizar-se em grupos, como o Comando Secundarista (COSEC) da Guanabara, que possu√≠a, inclusive, um Setor Paramilitar, com um grupo de choque armado. As atividades do Movimento Estudantil, basicamente, restringiram-se aos com√≠cios rel√Ęmpagos, √†s picha√ß√Ķes e √†s panfletagens, todas efetuadas com cobertura armada, vistas como uma forma de auxiliar as organiza√ß√Ķes comunistas no preparo da opini√£o p√ļblica e no recrutamento da classe oper√°ria. A rigor, o √ļnico evento significativo, nesse ano, foi a denominada "Semana Rockfeller", desencadeada em junho, contra a visita do Governador Nelson Rockfeller, enviado do Governo norte-americano para visitar diversos pa√≠ses da Am√©rica do Sul. Os estudantes, dirigidos por militantes das organiza√ß√Ķes clandestinas - muitos sem o saber - organizaram manifesta√ß√Ķes de rep√ļdio em todo o Pa√≠s, das quais podem ser citadas a depreda√ß√£o da biblioteca Thomaz Jefferson, em Copacabana, a coloca√ß√£o de bombas no Instituto Brasil-Estados Unidos, em Fortaleza, no jornal "O Globo", no Rio de Janeiro, e na Uni√£o Cultural Brasil-Estados Unidos, em s√£o Paulo. 3 Sirkis, A.H.: "Os Carbon√°rios‚ÄĖ ‚Äď Global Editora, SP ‚Äď 1984 ‚Äď p√°g: 117.
  19. 19. Projeto ORVIL - 20 - Ap√≥s a tal "Semana Rockfeller", considerada pelos estudantes como uma vit√≥ria, a UNE, na clandestinidade e sem for√ßas para competir com as organiza√ß√Ķes subversivas, s√≥ iria voltar √† atividade com a realiza√ß√£o de um novo Congresso em Salvador, em 1979, √©poca do ressurgimento do Movimento Estudantil em n√≠vel nacional. Carro do jornal ‚ÄúO Globo‚ÄĚ incendiado pela UNE ÔÄ≠ÔĆ 6. O PCB desencadeia a "guerra de papel" Estruturado, desde o ano anterior, para o trabalho de massa, o PCB, em 1969, procurou manter-se √† dist√Ęncia da luta armada das organiza√ß√Ķes comunistas que integravam a esquerda revolucion√°ria. Ao mesmo tempo, entretanto, buscava manter uma linguagem que lhe assegurasse a lideran√ßa junto √† juventude e a outros segmentos da popula√ß√£o.
  20. 20. Projeto ORVIL - 21 - A "Voz Oper√°ria", de abril de 1969, publicou o documento "A T√°tica do Partido nas Novas Condi√ß√Ķes", no qual estabelece cinco pontos para a atua√ß√£o de seus militantes. No primeiro, tra√ßa considera√ß√Ķes a respeito da "luta contra a pol√≠tica econ√īmica" do Governo, visando a ganhar adeptos atrav√©s das reivindica√ß√Ķes salariais. No segundo, valoriza a posi√ß√£o da Igreja Cat√≥lica, vista como um dos polos de oposi√ß√£o ao Governo, em face da pris√£o de padres que colaboravam com algumas organiza√ß√Ķes que defendiam a luta revolucion√°ria. No terceiro ponto, analisa a sua posi√ß√£o diante das For√ßas Armadas e determina que seus militantes n√£o as combatam "em bloco", visando a atrair parte de seus membros. No quarto, o PCB, pelo menos em teoria, procura manter uma imagem radical, defendendo a prepara√ß√£o das "massas para responder com viol√™ncia √† viol√™ncia da ditadura". Finalmente, no √ļltimo ponto, preconiza uma "unidade de a√ß√£o"', buscando a aproxima√ß√£o com outras organiza√ß√Ķes comunistas. No entanto, tudo n√£o passava de mera ret√≥rica. Inserido no trabalho de massa, o PCB, na realidade, s√≥ conseguiu isolar-se das demais organiza√ß√Ķes, sendo alcunhado de "reformista" e "conciliador". Nem o documento aprovado pelo Comit√™ Central, "A Orienta√ß√£o do Partido quanto ao Emprego das Formas de Luta nas Condi√ß√Ķes Atuais", que seguia, basicamente, a linha do VI Congresso, conseguiu modificar o desprezo com que era visto pelas organiza√ß√Ķes militaristas. Enquanto estas ensanguentavam as ruas das grandes cidades, o PCB desencadeava a sua "guerra de papel". ÔÄ≠ÔĆ 7. A fuga da penitenci√°ria e a desarticula√ß√£o do MAR Decidida a fuga da Penitenci√°ria Lemos de Brito, o grupo externo do Movimento de A√ß√£o Revolucion√°ria (MAR) resolveu realizar "expropria√ß√Ķes" para financi√°-la. Com os fugitivos, pretendia-se implantar um foco de guerrilha pr√≥ximo a Angra dos Reis.
  21. 21. Projeto ORVIL - 22 - O primeiro assalto foi realizado dia 19 de mar√ßo de 1969. O alvo foi o Banco da Lavoura de Minas Gerais, em Realengo, tendo sido roubados mais de trinta e sete mil cruzeiros novos. 4 Os assaltantes deixaram dentro do banco panfletos com o titulo ‚ÄúEx√©rcito Libertador para libertar o Pa√≠s‚ÄĚ.5 Enquanto a organiza√ß√£o comemorava o sucesso de sua primeira a√ß√£o armada, prosseguiam em ritmo acelerado as reuni√Ķes de planejamento da fuga da penitenci√°ria. Pedro Fran√ßa Viegas fazia contatos na Divis√£o Legal com estagi√°rios e funcion√°rios da penitenci√°ria, aliciando-os para participar e facilitar a fuga. O acad√™mico de Direito J√ļlio Cesar Bueno Brand√£o concordou em ceder sua caminhonete Rural Willys para o transbordo dos presos ap√≥s a fuga. Da mesma forma, o acad√™mico J√ļlio C√©sar Senra Barros come√ßou a colaborar com o movimento cedendo, a partir de janeiro de 1969, seu apartamento na Ilha do Governador, para homiziar Jos√© Duarte dos Santos e para realizar reuni√Ķes de planejamento da fuga. Ressentindo-se da falta de recursos e tendo em vista a proximidade da a√ß√£o de fuga, o MAR realizou no dia 5 de maio o seu segundo 4 O sal√°rio m√≠nimo da √©poca era NCR$ 156,00. O cruzeiro novo (NCr$) circulou no Brasil no per√≠odo entre 13 de fevereiro de 1967 e 14 de maio de 1970. Portanto, todas as refer√™ncias neste volume sobre ‚Äēcruzeiros‚ÄĖ s√£o na realidade ‚Äēcruzeiros novos‚ÄĖ. (NE) 5 Participaram da ‚Äēa√ß√£o revolucion√°ria‚ÄĖ: Fl√°vio Tavares, Jos√© Duarte dos Santos, o ex-cabo da Marinha, Edvaldo Celestino da Silva, Wilson do Nascimento Barbosa, Le√īncio Queiroz Maia, Ant√īnio Geraldo da Costa e √Člio Ferreira Rego. Rural Willys 1970 Volks 1969
  22. 22. Projeto ORVIL - 23 - assalto, roubando o Banco Nacional Brasileiro, ag√™ncia Piedade. 6 A organiza√ß√£o conseguiu mais de dezenove mil cruzeiros novos nessa a√ß√£o. Pedro Fran√ßa Viegas, em liga√ß√£o com o "Grupo de Mallet", conseguiu encontrar uma √°rea favor√°vel ao hom√≠zio dos fugitivos e √† implanta√ß√£o do foco guerrilheiro. Ficava na regi√£o da serra de Jacare√≠, com entrada pela estrada que liga Angra dos Reis ao estaleiro Verolme. Flora Frisch, trabalhando num escrit√≥rio de advocacia, amante de Avelino Bioni Capitani, estava integrada no esquema de fuga. Conseguiu, atrav√©s de elementos simpatizantes, roupas para os fugitivos. A prima de Flora, Jeny Waitsman, amante de Ant√īnio Duarte dos Santos, tamb√©m participava dos preparativos de fuga. 7 A guarda estadual Nater√ßa Passos, j√° tinha sido aliciada por Marco Ant√īnio da Silva Lima e seria a encarregada de passar as armas para os fugitivos. O "Grupo de S√£o Paulo" recebeu a incumb√™ncia de eliminar o soldado da PM que normalmente permanecia armado de metralhadora na cal√ßada do pres√≠dio. Finalmente chegou o dia da fuga, 26 de maio de 1969. Pela manh√£, o estagi√°rio J√ļlio C√©sar entregou √† funcion√°ria, Nater√ßa Passos, dentro de um pacote, 3 rev√≥lveres calibre .38, que seriam utilizados na tentativa de fuga pelos detentos. Pouco antes das 17:30 horas, aproveitando-se do tr√Ęnsito livre dentro do sistema penitenci√°rio, j√° estavam reunidos na Divis√£o Legal os 9 componentes do MAR, prontos para iniciar a a√ß√£o. Pontualmente √†s 17:30 horas, estacionou em frente √† entrada de pedestres um Aero- Willys dirigido por Edvaldo Celestino da Silva. A um sinal de Marco Ant√īnio, o grupo dirigiu-se para a portaria. Ao atingirem a passagem 6 O bando assaltante era o mesmo da a√ß√£o anterior, acrescido de Jarbas da Silva Marques, estudante de Economia de Bras√≠lia. 7 Marco Ant√īnio Silva Lima e Avelino Bioni Capitani eram ex-marinheiros presos na penitenci√°ria da Rua Frei Caneca.
  23. 23. Projeto ORVIL - 24 - de pedestres, os detentos defrontaram-se com os guardas Ailton de Oliveira e Jorge Felix Barbosa, que, surpreendidos, esboçaram uma reação sacando suas armas. Em situação de inferioridade e colhidos pela surpresa, os guardas foram abatidos durante o intenso tiroteio que se seguiu. Ailton de Oliveira morreria cinco dias depois.8 A fuga causou mais uma vítima inocente: o funcionário da Light, João Dias Pereira, que se encontrava na calçada da penitenciária, foi atingido por um disparo dos fugitivos, tendo ficado inutilizado. (Obs: Para aumentar as imagens e poder ler use o zoom do editor) 8 Avelino Bioni Capitani foi citado como autor do tiro fatal. Aero Willys - 1969 Aero Willys 1962
  24. 24. Projeto ORVIL - 25 - Consumada a fuga, o grupo dirigiu-se para a regi√£o da serra de Jacare√≠, onde chegou √† noite. Os fugitivos saltaram das viaturas e embrenharam-se na mata, guiados por Luiz M√°rio Neri. Ap√≥s marcharem durante tr√™s noites, atingiram um barraco onde encontraram Jos√© Sabino Gomes Barbosa. Instalados no barraco de Jos√© Sahino, que foi batizado como "Cabana do Jacu", os fugitivos articularam-se na regi√£o e iniciaram seus treinamentos de guerrilha. A ideia de deflagrar a Guerra Revolucion√°ria, atrav√©s de um "foco guerrilheiro", norteava o MAR, desde o in√≠cio de sua articula√ß√£o na penitenci√°ria. Marco Ant√īnio havia realizado o curso de guerrilhas em Cuba e tinha retornado ao Pa√≠s impregnado pelas diretrizes Croquis da Fuga
  25. 25. Projeto ORVIL - 26 - emanadas da I Confer√™ncia da OLAS. A ideia do "foco" era a grande novidade das esquerdas, inclusive dentro da penitenci√°ria. Estabelecido com sucesso o "embri√£o do foco guerrilheiro‚ÄĚ em Concei√ß√£o de Jacare√≠, o MAR prosseguiu realizando seus assaltos para poder sustentar sua estrutura clandestina. No dia 10 de junho, o Grupo de A√ß√£o do MAR como passou a ser conhecido o n√ļcleo de assaltantes de bancos, realizou o assalto √† ag√™ncia Ramos da Uni√£o de Bancos Brasileiros. A a√ß√£o transcorreu sem problemas e rendeu mais de trinta e tr√™s mil cruzeiros novos. Naquela altura, o apoio log√≠stico aos guerrilheiros da "Cabana do Jacu" era prestado pelo "Grupo de Mallet". A vida desconfort√°vel da "guerrilha", no entanto, causou logo de in√≠cio, tr√™s defec√ß√Ķes. Ant√īnio Prestes de Paula e Roberto Cietto n√£o se adaptaram √† vida cigana dos "guerrilheiros" e retornaram √† cidade, integrando-se √† "guerrilha urbana", ou seja, aos assaltos a banco. Jos√© Andr√© Borges perdeu-se na mata e resolveu retornar ao Rio de Janeiro, tamb√©m se integrando ao grupo de assaltantes de banco. No dia 18 de junho de 1969, o MAR realizou o seu quarto assalto √† ag√™ncia Ramos do Banco de Com√©rcio e Ind√ļstria de S√£o Paulo, com um saldo positivo de mais de quarenta mil cruzeiros novos. Ap√≥s a a√ß√£o do banco de Ramos, o grupo resolveu intensificar a a√ß√£o armada. √Člio Ferreira Rego conseguiu com uma parente de Jorge Medeiros do Vale ("Bom Burgu√™s") um lote de carabinas .30 M1. Fl√°vio Tavares contatou o ex-coronel cassado Nicolau Jos√© de Seixas e conseguiu umas metralhadoras de m√£o que teriam sido utilizadas na campanha da FEB. Refor√ßado pelos elementos que haviam desistido da guerrilha rural, o Grupo de A√ß√£o assaltou, pela segunda vez, em 18 de julho de 1969, a ag√™ncia Piedade do Banco Nacional Brasileiro. Ap√≥s esse assalto, o ‚ÄúGrupo de S√£o Paulo" desligou-se do MAR e seguiu para o Uruguai. Le√īncio Queiroz Maia, em companhia de outros, seguiria para a It√°lia. Wilson do Nascimento Barbosa seria
  26. 26. Projeto ORVIL - 27 - preso no Uruguai em setembro de 1969, em companhia do comunista uruguaio Milton J√ļlio Valenzuela. 9 Apesar dessas primeiras defec√ß√Ķes, continuava o treinamento de guerrilhas em Concei√ß√£o do Jacare√≠. Liderados por Marco Ant√īnio e por Avelino Capitani, os "guerrilheiros" montavam e trocavam frequentemente de acampamento, realizavam exerc√≠cios de tiro e marchas. Confiantes com o sucesso at√© ent√£o alcan√ßado por suas a√ß√Ķes armadas, Fl√°vio Tavares e Jos√© Duarte dos Santos, em contato com parentes do "Bom Burgu√™s", iniciaram planejamento de uma a√ß√£o espetacular para libert√°-lo da pris√£o em que se encontrava na Ilha das Flores. A a√ß√£o n√£o chegou a ser tentada, em virtude da desarticula√ß√£o da organiza√ß√£o, pelos √≥rg√£os de seguran√ßa a partir de agosto. Em 7 de agosto, o MAR realizaria o seu sexto e √ļltimo assalto. O alvo escolhido foi a ag√™ncia Vista Alegre do Banco Nacional de S√£o Paulo, situada na Avenida Br√°s de Pina. 10 Tudo correu normalmente at√© que, durante a fuga, o Volks dirigido por Fl√°vio Tavares, em que iam Jos√© Duarte e Jos√© Andr√©, foi interceptado pela pol√≠cia e teve um pneu furado. Fl√°vio Tavares separou-se dos dois outros assaltantes e conseguiu fugir. No tiroteio que se seguiu, Jos√© Duarte descarregou a sua metralhadora INA contra os policiais. Encurralados os dois bandidos pegaram uma crian√ßa de quatro anos como ref√©m e a amea√ßaram de morte caso a pol√≠cia se aproximasse. Mais tarde, desgastados moral e psicologicamente, devolveram a crian√ßa e entregaram-se √† pol√≠cia. Fl√°vio Tavares ainda conseguiu hom√≠zio na casa do advogado Jorge Ant√īnio de Miranda Jord√£o, situada na Rua General Glic√©rio 114, onde recebeu, no dia 8 de agosto, uma sacola com oito mil cruzeiros novos - parte do produto do roubo - enviada por Ant√īnio Prestes de 9 Wilson do Nascimento Barbosa foi devolvido pelas autoridades uruguaias e mais tarde, em 10 de mar√ßo de 1970, banido em troca do embaixador su√≠√ßo. 10 Participaram da a√ß√£o Fl√°vio Tavares, Edvaldo Celestino da Silva, Jos√© Duarte dos Santos, Ant√īnio Prestes de Paula, Jarbas da Silva Marques, Roberto Cietto e Jos√© Andr√© Borges.
  27. 27. Projeto ORVIL - 28 - Paula. 11 Tavares seria preso no dia seguinte, 9 de agosto de 1969, na Rua Pa√≠ssandu 162, outro aparelho que possu√≠a naquela rua. Jos√© Duarte, durante suas declara√ß√Ķes na pol√≠cia, "entregou" o local de treinamento de guerrilhas em Concei√ß√£o de Jacare√≠. A Marinha realizou o cerco da √°rea com elementos da For√ßa de Fuzileiros Navais e destruiu as instala√ß√Ķes existentes. Durante o cerco, um dos grupamentos, ao se aproximar de uma cabana, foi recebido a tiros, envolvendo-se em violento tiroteio. Pedro Fran√ßa Viegas, ferido na perna durante o entrevero, foi preso na localidade de L√≠dice, pr√≥xima de Angra dos Reis, no dia 12 de agosto. Os demais conseguiram escapar. Avelino Capitani e Jos√© Adeildo Ramos ficaram homiziados na Igreja de S√£o Geraldo, em Olaria, acoitados pelo padre Ant√īnio Lengoen Helmo e, posteriormente, na Igreja de Nossa Senhora das Cabe√ßas, na Penha, sob os cuidados do padre Pasquali Visconso. Ambos seriam colocados em contato com o PCBR ao qual aderiram por interm√©dio de Flora Frisch, amante de Capitani. Marco Ant√īnio e Ant√īnio Prestes de Paula tamb√©m abandonariam o MAR, aderindo ao PCBR. Ant√īnio Duarte (irm√£o de Jos√©) conseguiria homiziar-se em Goi√Ęnia, com o auxilio de sua amante Jeny Waitsrnan, e iriam ambos para Cuba, no primeiro semestre de 1970, em companhia de Avelino Capitani. Marco Ant√īnio morreria dia 13 de janeiro de 1970, num "aparelho" do PCBR na Rua Inhang√° 27/608, em Copacabana, ao reagir a bala √† ordem de pris√£o. Jos√© Michel Godoy foi preso dia 2 de setembro de 1969, tamb√©m em L√≠dice. Roberto Cietto foi preso no Rio de Janeiro, dia 4 de setembro de 1969, ap√≥s sofrer um acidente automobil√≠stico, tendo cometido suic√≠dio na mesma data. 12 11 Jorge Ant√īnio de Miranda Jord√£o, para n√£o se comprometer, viajou para S√£o Paulo, deixando Fl√°vio Tavares aos cuidados da empregada. 12 Edvaldo Celestino da Silva, Jarbas da Silva Marques e Adail Ivan Lemos, juntamente com outras pessoas, envolvidas consciente ou desavisadamente com o MAR, foram detidos e indiciados ou arrolados como testemunhas em IPM ‚Äď Inqu√©rito Policial Militar.
  28. 28. Projeto ORVIL - 29 - Do "Grupo de Mallet" foram presos Francisco de Oliveira Rodrigues e Luiz M√°rio Neri. Jos√© Ferreira Cardoso, Jose Leonardo Sobrinho e S√≠lvio Souza Gomes pediram asilo pol√≠tico ao Uruguai e Jos√© Gon√ßalves de Lima continuou foragido. Havia inten√ß√£o por parte do MAR, de radicalizar suas atividades. No "aparelho" de Jos√© Duarte dos Santos foram encontradas armas, granadas de fabrica√ß√£o caseira e 8.500 g de Trotil, explosivo de alto poder de destrui√ß√£o. Dessa forma, foi desestruturado o Movimento Armado Revolucion√°rio, que nunca foi orientado por nenhum documento base. Sem fazer avalia√ß√Ķes conjunturais, fazia uma op√ß√£o espont√Ęnea pelo "foco guerrilheiro". A estrutura da organiza√ß√£o, n√£o definida em estatutos, foi esmiu√ßada por Fl√°vio Tavares, em declara√ß√Ķes √† pol√≠cia. Existia um Grupo de Dire√ß√£o, que coordenava e supervisionava os trabalhos. O Grupo de Estudos, provavelmente localizado em S√£o Paulo, dedicava-se ao estudo das a√ß√Ķes pol√≠ticas e militares. O Grupo de A√ß√£o era encarregado dos assaltos, e, mais tarde, encarregar-se-ia do terrorismo. Um Grupo de Apoio, que seria respons√°vel pelo suprimento do Grupo Rural, era encarregado do treinamento e da implanta√ß√£o do foco guerrilheiro. Finalmente, o Grupo Legal realizava as tarefas legais do movimento, como: alugu√©is de "aparelhos‚ÄĚ, compra de roupas e suprimentos, etc. ÔÄ≠ÔĆ 8. O PCBR inicia as a√ß√Ķes armadas A pris√£o de Thomaz Miguel Pressburger, membro efetivo do Comit√™ Central (CC), em 23 de fevereiro no Distrito Federal, iniciou o desvelamento, para os √≥rg√£os policiais, da estrutura do PCBR. Alguns dias depois, em 3 de mar√ßo, a pris√£o de outro membro do CC, Miguel Batista dos Santos, trazia novos conhecimentos sobre a organiza√ß√£o.
  29. 29. Projeto ORVIL - 30 - Enquanto isso, o PCBR iniciava a sua articula√ß√£o partid√°ria a n√≠vel nacional. O Comit√™ Regional do Nordeste (CR/NE) foi o primeiro. 13 Subordinados ao CR/NE, havia tr√™s Comit√™s Zonais (CZ): o do grande Recife, o de Jo√£o Pessoa e o de campo, que atuava na Zona da Mata. Al√©m desses, iniciava-se a estrutura√ß√£o de novos CZ, em Fortaleza, Natal, Macei√≥ e Aracaju.14 Para conduzir as a√ß√Ķes armadas e de acordo com a orienta√ß√£o do Comit√™ Central (CC), foi criado um Comando Pol√≠tico Militar (CPM) do Nordeste, integrado, dentre outros, por Luciano de Almeida, Alberto Vinicius Melo do Nascimento e Carlos Alberto Soares. 15 Nessa √©poca o CR/NE, que editava os jornais "Luta de Classe" e "Resist√™ncia Popular", era assistido por dois membros do CC, Nicolau Tolentino Abrantes dos Santos e Bruno Costa de Albuquerque Maranh√£o, este, especificamente para o CPM. Estruturado, o CR/NE iniciou suas a√ß√Ķes armadas em meados de 1969, com uma s√©rie de assaltos em Jo√£o Pessoa e Recife. Em agosto, cerca de uma dezena de militantes do PCBR foram presos em Jo√£o Pessoa, dentre os quais R√īmulo de Ara√ļjo Lima, suplente do CC. Mesmo assim, prosseguiu suas atividades armadas. Na madrugada de 7 de setembro, militantes lan√ßaram uma bomba contra o palanque armado para o desfile militar, na Avenida Conde da Boa Vista, em Recife, e, em 24 de setembro, assaltaram a Companhia de Tecidos do Norte, F√°brica Tacaruna, em Olinda, roubando cerca de 8 mil cruzeiros destinados ao pagamento de seus trabalhadores. Na ocasi√£o, o funcion√°rio Gede√£o Caetano da Silva, de 13 A dire√ß√£o do CR/NE estava a cargo de Juliano Homem de Siqueira, Marcelo M√°rio de Melo, Francisco de Assis Barreto da Rocha Filho, Alberto Vinicius Melo do Nascimento e Luciano de Almeida, membro do CC. 14 No CZ/Grande Recife, seus principais militantes eram Frederico Jos√© Menezes de Oliveira, Airton Correa de Ara√ļjo, Paulo Pontes da Silva, Grivaldo Ten√≥rio, C√Ęndido Pinto de Melo e Carlos Henrique Costa de Albuquerque, irm√£o de Bruno Maranh√£o. 15 Compunham ainda o CPM do Nordeste: Jo√£o Mauricio de Andrade Baltar, Rholine Sonde Cavalcante Silva, Samuel Firmino de Oliveira, Perly Cipriano, Mauricio An√≠sio de Ara√ļjo e Jos√© Pedro da Silva.
  30. 30. Projeto ORVIL - 31 - 56 anos, foi ferido com um tiro de rifle 44, o que lhe ocasionou uma les√£o permanente na perna. No dia 31 de outubro, a organiza√ß√£o cometeu seu primeiro assassinato. Nilson Jos√© de Azevedo Lins, um jovem de 23 anos era o gerente da firma "Corn√©lio de Souza e Silva", distribuidora dos produtos da Souza Cruz, em Olinda. Ao levar para o banco os 50 mil cruzeiros apurados no dia anterior, foi assaltado e morto por Alberto Vin√≠cius Melo do Nascimento, Rholine Sonde Cavalcante Silva, Carlos Alberto Soares e Jo√£o Maur√≠cio de Andrade Baltar. As autoridades policiais, entretanto, apertavam o cerco aos terroristas do Nordeste, provocando a fuga de diversos deles para o exterior. Por diverg√™ncias pol√≠ticas, militantes do PCBR, centrados no CPM do Nordeste, "racharam" com a organiza√ß√£o e ingressaram na ALN. 16 Apesar das fugas e do "racha", o CR/NE iria prosseguir, no ano seguinte, com suas atividades de viol√™ncia e mortes. No Paran√°, o PCBR organizou-se a partir de uma reuni√£o realizada em fevereiro de 1969, em Pontal do Sul. 17 Em n√≠vel nacional, no entanto, a situa√ß√£o do PCBR era, em meados de 1969, contradit√≥ria em termos de atua√ß√£o armada. Enquanto alguns CR propugnavam por uma intensa atividade militar, a exemplo do CR/NE, a dire√ß√£o procurava dar ao Partido uma orienta√ß√£o considerada "massista". Assim, o CC faz publicar, em agosto, um "Plano Nacional de Agita√ß√£o e Propaganda", em que decidiu elaborar o seu √≥rg√£o oficial, o "Vanguarda", e o documento "Ra√≠zes ideol√≥gicas de nossos desvios: militarismo e massismo". Contudo, em setembro, o ingresso no Partido de remanescentes do MAR modificou a balan√ßa com o peso da experi√™ncia militar de seus militantes e fez 16 Desse grupo faziam parte, dentre outros: Luciano de Almeida, membro do CC, Rholine Sonde Cavalcante Silva, Perly Cipriano, Mauricio An√≠sio de Ara√ļjo, Grivaldo Ten√≥rio, Samuel Firmino de Oliveira, Jos√© Pedro da Silva e Maria Tereza de Lemos Vila√ßa. 17 Estavam presentes em Pontal do Sul, dentre outros, Jos√© dos Reis Garcia, Rosa Maria Viana de Castro, Olien Lustosa de Morais, Romeu Bertol, Carlos Frederico Marcos de Souza Filho e D√©a S√≠lvia Pereira.
  31. 31. Projeto ORVIL - 32 - com que o PCBR descambasse, definitivamente, para a luta militarista. Assim, em outubro de 1969, o CC detalhava a organiza√ß√£o de sua estrutura armada, atrav√©s do documento "Plano T√°tico do Comando Pol√≠tico Militar Nacional", no qual tecia considera√ß√Ķes sobre a guerrilha rural, a guerrilha urbana, a "auto-defesa das massas", a propaganda armada, a log√≠stica e as atividades de "informa√ß√£o e contra-informa√ß√£o". O PCBR publicou, ainda, um documento no qual tra√ßou as diretrizes para a constru√ß√£o de uma "frente √ļnica do proletariado" com outras classes e camadas da popula√ß√£o, denominando-a de "Frente Revolucion√°ria Popular" (FREP). Nessa √©poca, foi ativado de fato, como estrutura partid√°ria, o CR do Sudeste, na √°rea da Guanabara, editando o jornal "Avante". 18 Foi montada uma √°rea de treinamento militar na Ilha dos Cabritos, no litoral fluminense pr√≥ximo a Cabo Frio, e realizado um assalto a uma ag√™ncia banc√°ria na praia de Icara√≠, de onde foram roubados cerca de 40 mil cruzeiros. Em 17 de dezembro de 1969, o PCBR assaltou o Banco Sotto-Maior da Pra√ßa do Carmo, no sub√ļrbio carioca de Br√°s de Pina, de onde foram roubados cerca de 80 mil cruzeiros. Na fuga, obstados por uma viatura policial, surgiu um violento tiroteio, no qual Avelino Bioni Capitani matou o Sargento da Pol√≠cia Militar da Guanabara Joel Nunes. Na ocasi√£o, foi preso o terrorista Paulo S√©rgio Granado Paranhos, cujas declara√ß√Ķes possibilitaram a chegada, no dia seguinte, a um "aparelho" do PCBR, localizado na Rua Baronesa de Uruguaiana n¬ļ 70, no bairro de Lins de Vasconcelos. Ali, Ant√īnio Prestes de Paula ao fugir pelos fundos da casa, disparou, √† queima- roupa, um tiro de pistola .45 no Soldado do Ex√©rcito, Elias dos Santos, que morreu momentos depois. 18 O ‚ÄēAvante‚ÄĖ era dirigido por Ren√™ Louis Laurgery de Carvalho, Jarbas Amorim, Luiz Alberto de Andrade S√° e Benevides e Fernando Augusto da Fonseca, este tamb√©m conduzindo o CMP regional, junto com Ant√īnio Prestes de Paula e Bruno Dauster Magalh√£es e Silva.
  32. 32. Projeto ORVIL - 33 - Detalhe da reportagem da figura anterior no JB
  33. 33. Projeto ORVIL - 34 - O PCBR encerrava com tr√™s mortes o ano de 1969. Sendo ainda pouco conhecido, essas a√ß√Ķes chamaram sobre ele a aten√ß√£o dos √≥rg√£os policiais. As declara√ß√Ķes de Paulo S√©rgio iriam contribuir para o levantamento do partido e dar in√≠cio a seu desmantelamento na Guanabara. ÔÄ≠ÔĆ 9. O fim da Corrente No in√≠cio de 1969, a dire√ß√£o da Corrente, liderada por M√°rio Roberto Galhardo Zanconato ("Chuchu"), planejou uma s√©rie de a√ß√Ķes sucessivas, a serem desencadeadas em fins de abril, visando a intranquilizar a popula√ß√£o e desmoralizar as autoridades. O plano constava da atua√ß√£o de cinco grupos distintos que, durante 17 dias, realizariam atos terroristas, roubos de armas de delegacias, pichamentos, telefonemas amea√ßadores as autoridades, tiros em carros de pol√≠cia, etc. Nos pichamentos seria utilizada a sigla COLINA, para dar maior divulga√ß√£o √†s a√ß√Ķes j√° realizadas anteriormente por aquela organiza√ß√£o, visando a manter as autoridades desorientadas sobre a exist√™ncia da Corrente. 19 No dia 20 de janeiro, a organiza√ß√£o voltou √† a√ß√£o com o ataque e roubo de explosivos na Pedreira Sarzedo, no munic√≠pio de Ibirit√©. 20 Na mesma data, foi realizada a tentativa de assalto √† Pedreira Belo Horizonte, no bairro S√£o Geraldo, em Belo Horizonte. Em 5 de fevereiro, tentando refazer-se de um frustrado assalto a uma mercearia, Arnaldo Portes Drummond chefiou o tamb√©m frustrado assalto ao Banco de Minas Gerais, na localidade de Ibirit√©. 19 Os grupos previamente constitu√≠dos seriam chefiados por M√°rio Roberto Galhardo Zanconato, Marco Ant√īnio Vict√≥ria Barros, Mar√≠lia Ang√©lica do Amaral, S√©rgio Bittencourt Siqueira e Jos√© Ad√£o Pinto. 20 Participaram da a√ß√£o: Ant√īnio Jos√© de Oliveira, Marco Ant√īnio Victoria Barros, Rouberd√°rio Diniz Val√©rio, D√©lio de Oliveira Fantini e S√©rgio Bittencourt Siqueira. Foram roubados 40 kg de dinamite, 60 espoletas e 2 rolos de cordel detonante, al√©m de um rev√≥lver Taurus .38 do vigia.
  34. 34. Projeto ORVIL - 35 - Na a√ß√£o em si n√£o ocorreram problemas, a retirada, por√©m, foi desastrosa. Ap√≥s o assalto, realizado por volta das 14:30 horas, foi encetada a fuga. 21 √Ä sa√≠da do banco, os criminosos foram assinalados por Salvador Campos, que, em seu caminh√£o, passou a perseguira Volks dos fugitivos em companhia de Desid√©rios Nagy Varga. Na localidade de Barreiro, na estrada Belo Horizonte-Ibirit√©, o caminh√£o abalroou o Volkswagen que n√£o p√īde prosseguir. Obrigados a abandonar o carro, os assaltantes reagiram, disparando suas armas. Naquela altura, elementos da Pol√≠cia Militar e da Pol√≠cia Civil j√° se tinham juntado aos dois perseguidores. Ant√īnio Jos√© de Oliveira, ferido na perna e pressentindo que seria preso, disparou por duas vezes sua arma contra o pr√≥prio peito, caindo gravemente ferido. No prosseguimento do confronto, D√©lio Fantini foi preso, ap√≥s violenta resist√™ncia, ficando tamb√©m ferido. Na fuga, os tr√™s assaltantes restantes perderam a maleta com o produto do roubo, que foi recuperado pela pol√≠cia. Pouco depois, nas dilig√™ncias para a localiza√ß√£o dos fugitivos, foi ferido a bala o 1¬ļ Tenente da Pol√≠cia Militar Milton Tom√°s Firmo. Durante seus depoimentos no Inqu√©rito Policial Militar que foi instaurado, D√©lio Fantini, amea√ßando o encarregado do inqu√©rito e os policiais, declarou que, quando a revolu√ß√£o fosse vitoriosa, todos aqueles que a ela se antepunham seriam fuzilados. Ap√≥s as "quedas" de Ant√īnio Jos√© e D√©lio, a dire√ß√£o da Corrente planejou uma a√ß√£o contra o Hospital de Pronto Socorro para resgat√°- los, juntamente com o militante do COLINA Maur√≠cio Vieira Paiva, que l√° se encontrava internado. Em face das medidas de seguran√ßa adotadas pelas autoridades, a a√ß√£o n√£o foi realizada. Em raz√£o dos sucessivos fracassos em suas a√ß√Ķes, a Corrente utilizou o Convento dos Dominicanos para fazer uma reuni√£o e autocr√≠tica. 22 21 Neste assalto, houve a participa√ß√£o de D√©lio de Oliveira Fantini, Ant√īnio Jos√© de Oliveira, Nelson Jos√© de Almeida e Marco Ant√īnio Vict√≥ria Barros. 22 Participaram da reuni√£o Gilney Amorim Viana, H√©lcio Pereira Fortes Jose Alfredo, Marco Ant√īnio Victoria Barros, Rouberd√°rio Diniz Val√©rio, Nelson Jos√© de Almeida, L√ļcio Dias Nogueira, Mar√≠lia Ang√©lica do Amaral, Concei√ß√£o Imaculada de Oliveira, M√°rcio Ara√ļjo de Lacerda, Jos√© Ad√£o Pinto e Arnaldo Fortes Drummond.
  35. 35. Projeto ORVIL - 36 - Nela, ficou decidida a reestrutura√ß√£o da organiza√ß√£o. √Ä semelhan√ßa da estrutura imposta por Marighela √† ALN, a Corrente instituiu setores de atividades. 23 Ap√≥s a reuni√£o de reestrutura√ß√£o, foi realizado no dia 31 de mar√ßo o assalto √† Caixa Econ√īmica do Estado de Minas Gerais, situada na Avenida Alfredo Balena. No dia seguinte, visando a intensificar as atividades, foi tentado, sem sucesso, o assalto √† Casa Tucano, situada na rua Tupinamb√°s 1109, em Belo Horizonte. O alvo em quest√£o era importante para aumentar a pot√™ncia de fogo da organiza√ß√£o, visto que se tratava de com√©rcio de armas e muni√ß√Ķes. O grupo chegou √† Casa Tucano √†s 7:00 horas. H√©lcio, Zanconato e L√ļcio Dias, ao entrarem na loja e darem a voz de assalto, foram surpreendidos pela rea√ß√£o do propriet√°rio Gutierrez da Rocha Jardim. Ato cont√≠nuo, L√ļcio Dias disparou sua arma, atingindo o anci√£o no peito. Ap√≥s o disparo, o bando fugiu amea√ßado pelos tiros dados por Sebasti√£o Dantas Rocha, filho da v√≠tima.24 A trajet√≥ria de crimes e de terror da Corrente foi interrompida a partir de 10 de abril de 1969, como resultado da a√ß√£o perseverante dos √≥rg√£os de seguran√ßa. A Corrente, at√© ent√£o confundida com o COLINA, foi completamente desbaratada com a pris√£o de 17 militantes, incluindo o seu principal l√≠der, M√°rio Roberto Galhardo Zanconato ("Chuchu"). Os militantes que n√£o foram presos foram identificados e ca√≠ram em completa clandestinidade, tendo a grande maioria sido abrigada pela ALN e deslocada para outros Estados. 23 Gilney Amorim Viana ficou respons√°vel pelo setor de expropria√ß√£o, H√©lcio Pereira Fortes, pelo setor de instru√ß√£o, M√°rcio Ara√ļjo de Lacerda, pelo setor de armas, e M√°rio Roberto Galhardo Zanconato, pelo setor de propaganda. 24 M√°rcio Ara√ļjo de Lacerda foi o motorista do Volks utilizado nessa tentativa de assalto.
  36. 36. Projeto ORVIL - 37 - 
  37. 37. Projeto ORVIL - 38 - 10. A√ß√£o Libertadora Nacional - ALN Em janeiro de 1969, o Agrupamento Comunista de S√£o Paulo (AC/SP) utilizaria, pela primeira vez, no documento "Sobre Problemas e Princ√≠pios Estrat√©gicos‚ÄĚ, o nome A√ß√£o Libertadora Nacional (ALN), que seria a denomina√ß√£o da√≠ por diante utilizada pela organiza√ß√£o orientada por Marighela. Neste ano, a ALN emitiria uma s√©rie de outros documentos com os quais procuraria fixar sua estrat√©gia, suas t√°ticas, transmitir t√©cnicas de guerrilha e regular sua estrutura a n√≠vel nacional. Nesse documento, divulgado em janeiro, repisaria o car√°ter t√°tico e complementar da luta na cidade em rela√ß√£o ao car√°ter estrat√©gico e principal da luta no campo. Com isso, a ALN procurava refor√ßar sua linha pol√≠tica, uma vez que se constatava uma tend√™ncia de tornar as a√ß√Ķes nas cidades a pr√≥pria raz√£o de ser da organiza√ß√£o. Os militantes da ALN estavam no dia a dia vivendo apenas o planejamento e a execu√ß√£o de assaltos, alheios ao problema da guerrilha rural, ressaltada como objetivo de car√°ter estrat√©gico da organiza√ß√£o. Por volta de abril, a ALN apresentava uma evolu√ß√£o na sua organiza√ß√£o, com a expedi√ß√£o do documento "Caracter√≠sticas da Nossa Atual Estrutura‚ÄĚ, onde, mais uma vez, em n√≠vel nacional, era privilegiado seu objetivo estrat√©gico. Por esse documento, a organiza√ß√£o teria um "Comandamento Estrat√©gico", ao qual estariam afetos os problemas ‚Äúda guerrilha rural, o manejamento das √°reas estrat√©gicas secretas e o trabalho de campo; o controle do centro de aperfei√ßoamento t√©cnico de combate; a realiza√ß√£o das opera√ß√Ķes de deslocamento e o estabelecimento do apoio estrat√©gico". Esse "Comandamento" estaria ligado diretamente √†s "coordena√ß√Ķes regionais", atrav√©s de um ‚Äúelo de liga√ß√£o" que n√£o ficara definido no documento. As "Coordena√ß√Ķes Regionais" eram organismos criados nos grandes centros urbanos e, respons√°veis "pela guerrilha urbana, impulsionando a frente urbana de massas e organizando a frente urbana de sustenta√ß√£o".
  38. 38. Projeto ORVIL - 39 - Apesar dessa estrutura, o documento considerava que todos os grupos ou revolucion√°rios isolados, que aceitassem, defendessem e cumprissem os princ√≠pios estrat√©gicos, t√°ticos e org√Ęnicos da ALN, seriam considerados vinculados √† organiza√ß√£o, embora mantivessem total liberdade para executar atos revolucion√°rios. As opera√ß√Ķes mais complexas que exigissem um efetivo maior seriam articuladas pela Coordena√ß√£o, que conciliaria a atua√ß√£o em conjunto de mais de um grupo. Em maio, foi difundido o documento ‚ÄúO Papel da A√ß√£o Revolucion√°ria na Organiza√ß√£o", no qual procurava valorizar a a√ß√£o pr√°tica na evolu√ß√£o da organiza√ß√£o; que de um pequeno grupo, atrav√©s da a√ß√£o, tornara-se um organismo de n√≠vel nacional. Neste documento, eram descritas as a√ß√Ķes realizadas pela organiza√ß√£o e salientado que a guerrilha urbana e a guerra psicol√≥gica em curso eram o pren√ļncio da guerrilha rural. Criticava as organiza√ß√Ķes que buscavam evoluir na base do puro proselitismo e, ao fazer a apologia da sua evolu√ß√£o, sustentada pela a√ß√£o, assim se expressava: ‚Äú(...) sendo o nosso caminho o da viol√™ncia, do radicalismo e do terrorismo, os que afluem √† nossa organiza√ß√£o n√£o vir√£o enganados, e sim atra√≠dos pela viol√™ncia que nos caracteriza‚ÄĚ. Neste documento, defendia-se das cr√≠ticas e obje√ß√Ķes que eram feitas √† organiza√ß√£o e admitia a forma√ß√£o de uma "frente √ļnica", desde que voltada para a a√ß√£o. Em agosto, a ALN difundiria dois documentos: "O mini-manual do guerrilheiro urbano", que se tornou a b√≠blia dos terroristas, e "Sobre a Organiza√ß√£o dos Revolucion√°rios", onde, de forma mon√≥tona, repetia os conceitos e pontos de vista j√° expostos em documentos anteriores. Em outubro, era dado ao conhecimento da organiza√ß√£o o documento "Alocu√ß√£o sobre a guerrilha rural". Por esse documento, era considerada consolidada a guerrilha urbana, atrav√©s do clima de intranquilidade criado pelas a√ß√Ķes de banditismo que ocorriam nas principais cidades brasileiras. Preconizava a uni√£o dos grupos armados que atuavam nas cidades, para terminar com a disputa de lideran√ßa, j√° assinalada em documentos anteriores. A organiza√ß√£o entendia que a primeira fase da guerra revolucion√°ria estava prestes a completar-se, mas que seria necess√°rio manter o
  39. 39. Projeto ORVIL - 40 - ritmo e intensificar a guerra psicol√≥gica para reter o "inimigo'" ocupado nas cidades. O trabalho de agita√ß√£o no campo seria fundamental para a conflagra√ß√£o social, ambiente indispens√°vel para a deflagra√ß√£o da guerrilha rural. Os revolucion√°rios no campo deveriam continuar montando a infra-estrutura ao longo dos eixos guerrilheiros, criando pontos de apoio junto aos camponeses, ‚Äú√† moda Lampi√£o", pois que reafirmava o car√°ter de mobilidade da guerrilha, que seria executada "sob a forma de marcha". A viol√™ncia dos camponeses era orientada no sentido de assassinar os "latifundi√°rios e seus empregados" de destruir as planta√ß√Ķes e matar o gado, a fim de "levar ao campo o mesmo terror de esquerda e a mesma inquieta√ß√£o que j√° dominam e apavoram, na √°rea urbana, as classes dominantes, os militares e imperialistas". Marighela reafirmava que 1969 seria o ano da guerrilha rural, mantendo uma posi√ß√£o baseada numa expectativa otimista e equivocada ou procurando manter elevado o moral da organiza√ß√£o. Ainda neste ano, a ALN difundiria dois outros documentos: ‚ÄúOpera√ß√Ķes e T√©cnicas Guerrilheiras" e ‚ÄúA A√ß√£o Revolucion√°ria e a Frente Unificada", uma ma√ßante repeti√ß√£o de assuntos j√° tratados em documentos anteriores. ÔÄ≠ÔĆ 11. ALN - Ascens√£o terrorista em S√£o Paulo Em meados de 1969, a ALN/SP era coordenada por Joaquim C√Ęmara Ferreira ("Toledo"), visto que Carlos Marighela viajava constantemente para coordenar o estabelecimento de √°reas estrat√©gicas pelo interior do Pa√≠s. √Ä coordena√ß√£o estavam ligados os setores de imprensa, de massas, de log√≠stica e de expropria√ß√£o. O setor de imprensa, assim como parte do setor de log√≠stica, estava sob a responsabilidade dos frades dominicanos e elementos a eles ligados. O coordenador do setor de imprensa era Frei Fernando de
  40. 40. Projeto ORVIL - 41 - Brito, enquanto o coordenador do setor log√≠stico era Paulo de Tarso Venceslau. O setor de massas, sob a coordena√ß√£o de Gilberto Luciano Beloque, estava subdividido em subsetor oper√°rio e subsetor estudantil. O subsetor oper√°rio era coordenado por Jos√© Alprim Filho, que, preso logo ap√≥s assumir a coordena√ß√£o, n√£o chegou a desenvolver um trabalho profundo. O subsetor estudantil era coordenado por Maria Luiza Locatelli Garcia Beloque, esposa de Gilberto, e estava sendo estruturado para o trabalho de aliciamento de estudantes e de radicaliza√ß√£o do movimento, principalmente na √°rea universit√°ria.25 O setor de expropria√ß√Ķes, tamb√©m conhecido como Grupo T√°tico Armado (GTA), era chefiado por Virg√≠lio Gomes da Silva, que tinha a assessor√°-lo Carlos Eduardo Pires Fleury. O GTA era composto por 2 Grupos de A√ß√£o (GA). Nesse in√≠cio do ano, a ALN sofreria importantes perdas em S√£o Paulo. Em 26 de janeiro, morria em tiroteio com a pol√≠cia um dos principais assessores de Marighela e coordenador do GTA, Marco Ant√īnio Braz de Carvalho, o "Marquito". Ainda em janeiro, foram presos Argonauta Pacheco da Silva, coordenador de cursos de explosivos, e Jo√£o Leonardo da Silva Rocha, membro do mesmo GA. Em fevereiro, morria tamb√©m em tiroteio com a pol√≠cia, no interior da gr√°fica Urup√©s, Hamilton Fernando Cunha. Nessa opera√ß√£o, Arno Preiss, que substitu√≠ra "Marquito" na coordena√ß√£o do GTA, queimou-se, 25 Dentro do movimento estudantil de S√£o Paulo, consoante com a orienta√ß√£o de forma√ß√£o de grupos taticamente independentes, Gilberto Beloque, que era estudante da Escola Polit√©cnica da USP e professor secund√°rio, orientou a forma√ß√£o de uma organiza√ß√£o que atuasse de forma violenta dentro das √°reas de jurisdi√ß√£o das universidades. O grupo autodenominou-se Frente Estudantil pela Luta Armada (FELA) e a a√ß√£o mais importante que realizou foi a coloca√ß√£o de uma bomba nos elevadores da USP em outubro. Desta a√ß√£o participaram, entre outros, o professor de Pedagogia da USP Jos√© Claudio Barrigueli que chefiou a a√ß√£o, o presidente do DCE/USP Jos√© Miguel Martins Veloso, que idealizou a sabotagem e o estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP Abelardo Blanco Falgueiras. A FELA, com a pris√£o de seus integrantes e orientadores, no final de mar√ßo de 1970, foi desarticulada no mais atuando em S√£o Paulo.
  41. 41. Projeto ORVIL - 42 - passando, ent√£o, as fun√ß√Ķes de coordenador do GTA para Virg√≠lio Gomes da Silva. 26 A esses fatos viria somar-se um estremecimento nas rela√ß√Ķes da organiza√ß√£o com a VPR, que eram muito intensas. O estremecimento deu-se em raz√£o da ALN, que armazenara parte do armamento roubado do 4¬ļ RI para a VPR, haver relutado em devolv√™-lo quando solicitado pela organiza√ß√£o. Como foi visto no cap√≠tulo anterior, "Marquito", que acabara de ser morto, participara, em frente com a VPR, do assassinato do Capit√£o Chandler. Esses acontecimentos provocaram um refluxo tempor√°rio nas a√ß√Ķes da ALN em S√£o Paulo. Para sobreviver durante esse per√≠odo, a organiza√ß√£o realizou a√ß√Ķes de pequena monta, como assaltos a padarias e supermercados. 27 Em meados de abril, houve uma tentativa de assalto ao Banco Ita√ļ- Am√©rica, da Rua Lopes Chaves, na Barra Funda, por√©m o grupo foi posto em fuga por um soldado da For√ßa P√ļblica. A partir dessa a√ß√£o frustrada, a ALN realizou uma s√©rie de a√ß√Ķes violentas, a iniciar-se com o assalto √† ag√™ncia de Suzano da Uni√£o de Bancos Brasileiros, no dia 7 de maio. Durante a fuga, os terroristas foram surpreendidos, travando-se intenso tiroteio com a pol√≠cia, com o saldo de quatro v√≠timas. O investigador Jos√© de Carvalho que tentara impedir a fuga foi atingido por v√°rios impactos. Socorrido, veio a falecer na Santa Casa de Suzano. Os civis Ant√īnio Maria Comenda Belchior e Ferdinando Biamini, que passavam pelo local no momento do tiroteio, foram feridos. O terrorista Takao Amano, ferido na coxa, foi operado por Boanerges Massa na casa do casal Carlos Henrique Knapp e Eliane Toscano Zamikhowski, todos militantes da rede de apoio da ALN em S√£o Paulo. 28 Neste per√≠odo, a ALN realizou ainda, atentado a bomba contra a empresa "Allis-Chalmers", na Av. √Āgua Branca, e assalto a joalheria Maj√≥, na Alameda Ja√ļ. 26 "Queimado"- subversivo que teve a sua identidade levantada pela pol√≠cia. 27 Essas a√ß√Ķes foram realizadas pelo grupo de Virg√≠lio Gomes da Silva, composto por Manoel Cyrilo de Oliveira, Aton Fon Filho e Takao Amano. 28 Participaram desse assalto: Virg√≠lio Comes da Silva, Manoel Cyrilo de Oliveira, Aton Fon Filho, Takao Amano, Ney da Costa Falc√£o e Jo√£o Batista Zeferino Sales Vani.
  42. 42. Projeto ORVIL - 43 - No dia 27 de maio, no af√£ de aumentar a pot√™ncia de fogo de seu GTA e realizar uma a√ß√£o de propaganda armada, buscando desmoralizar as for√ßas de seguran√ßa, foi perpetrada uma a√ß√£o contra o 15¬ļ Batalh√£o da For√ßa P√ļblica do Estado de S√£o Paulo, na Avenida Cruzeiro do Sul. No Volkswagen dirigido por Celso Antunes Horta, iam Virg√≠lio Gomes da Silva, Aton Fon Filho, Carlos Eduardo Pires Fleury e Maria Aparecida da Costa. O Karman-Ghia da cobertura era dirigido por Ana Maria de Cerqueira Cesar Corbisier, que, antecipando-se ao Volkswagen, estacionara na esquina pr√≥xima, aguardando o desenrolar dos acontecimentos. A repentina parada do carro e o r√°pido desembarque de tr√™s elementos surpreenderam o soldado da For√ßa P√ļblica paulista Nau Jos√© Mantovani que se encontrava de guarda. Virg√≠lio, Carlos Eduardo e Aton Fon n√£o deram qualquer chance ao soldado de servi√ßo, que caiu fuzilado pelos terroristas e teve sua metralhadora roubada. O soldado Nic√°cio Concei√ß√£o Pupo, que acorreu ao local ao ouvir os disparos, foi gravemente ferido na cabe√ßa, lesionado no c√©rebro, ficou paralisado. Os assassinos, ante a rea√ß√£o da guarda, que respondeu atirando contra o carro, lograram empreender a fuga. Karman-Ghia 1969
  43. 43. Projeto ORVIL - 44 - Em 4 de junho, no assalto ao Banco Tonzan, na Avenida Penha de Fran√ßa, a ALN deu prosseguimento ao rol de suas v√≠timas fatais. Durante a fuga, o soldado da FPESP Boaventura Rodrigues da Silva, que se encontrava de servi√ßo nas proximidades do banco e tentou obstar a a√ß√£o, foi morto a tiros e teve sua metralhadora roubada. O terrorista Francisco Gomes da Silva, que saiu ferido com um tiro nas costas, durante o assalto, foi atendido pela mesma equipe da rede de apoio da ALN na casa de Carlos Knapp. Devido √† gravidade do ferimento, Francisco foi levado para o Hospital Boa Esperan√ßa, na estrada de Itapecerica da Serra, onde foi operado. A equipe m√©dica de plant√£o, ao verificar que se tratava de ferimento a bala, resolveu denunciar o fato √† pol√≠cia. Boanerges, ao tomar conhecimento disso, auxiliado por Eliane e Paulo de Tarso Venceslau, roubou uma ambul√Ęncia, rendeu os m√©dicos e retirou o rec√©m-operado, transportando-o para a casa de Carlos Knapp. Mais tarde, Francisco foi convalescer na casa de praia da militante da rede de apoio, Sandra Brizola, em S√£o Sebasti√£o, litoral de S√£o Paulo. Nos meses subsequentes, a ALN realizou uma s√©rie de assaltos a bancos, supermercados e empresas de transporte coletivo e de atentados a bomba, dos quais se destacam o atentado ao Pal√°cio Episcopal, em 6 de agosto, e o metralhamento, em 24 de agosto, da vitrina da loja "Mappin" que expunha material alusivo a Semana do Ex√©rcito. 29 29 As a√ß√Ķes da ALN no referido per√≠odo foram: atentado a bomba nos elevadores da CBI, na Rua Formosa, em 16 de junho; assalto √† empresa de √īnibus ‚ÄēVia√ß√£o Leste Oeste‚ÄĖ, em 23 de junho; atentado √† bomba contra uma subesta√ß√£o da Light, em Piquete, em 26 de junho; assalto simult√Ęneo ao Uni√£o de Bancos Brasileiros e √† Caixa Econ√īmica Federal, na Avenida Guapira, em Ja√ßan√£, em 12 de julho; assalto ao Banco do Brasil, Santo Andr√©, em 8 de julho; primeiro assalto ao Bradesco na Rua Major Diogo, em 15 de julho; assalto contra a Uni√£o Cultural Brasil-Estados Unidos na Rua Oscar Porto, em 24 de julho; assalto ao supermercado P√£o de A√ß√ļcar, no bairro Pinheiros, no final de julho; assalto ao Banco Com√©rcio e Ind√ļstria da Avenida S√£o Gabriel, em 18 de agosto; atentado a bomba contra a ag√™ncia da Light, em 24 de agosto; assalto √† empresa Instrumental Berge Ltda, na Rua Agostinho Gomes, 1622, em 29 de agosto; assalto ao Banco Ita√ļ- Am√©rica da Rua Pamplona, em 9 de setembro e segundo assalto ao Bradesco da Rua Major Diogo, em 22 de setembro.
  44. 44. Projeto ORVIL - 45 - No dia 19 de setembro, a ALN realizou mais uma a√ß√£o de propaganda armada, desta feita contra a guarni√ß√£o da radiopatrulha n¬ļ 21, que habitualmente permanecia estacionada no Conjunto Nacional, na Av. Paulista. A guarni√ß√£o da RP era constitu√≠da de dois homens, e nas suas proximidades ficava um guarda-civil do policiamento ostensivo. Por volta das 22 horas ap√≥s saltarem do carro dirigido por Aton Fon Filho, Virg√≠lio Comes da Silva, o comandante da a√ß√£o, Denison Lu√≠s de Oliveira e Manoel Cyrilo de Oliveira Neto dirigiram-se para a viatura como se fossem solicitar uma informa√ß√£o. Ao mesmo tempo, Takao Amano aproximava-se do guarda-civil. Takao, num gesto desnecess√°rio de prepot√™ncia, rendeu o guarda e obrigou-o a colocar-se de joelhos √† sua frente, humilhando-o ao exigir que lhe pedisse clem√™ncia. A trinca que se ocupava da radiopatrulha, ao imaginar ou pressentir uma tentativa de rea√ß√£o, disparou suas armas para o interior da viatura. O soldado da FPESP Pedro Fernandes da Silva, atingido por v√°rios disparos, um deles na coluna, ficou aleijado. Denison e Virg√≠lio recolheram uma metralhadora INA e dois rev√≥lveres .38, enquanto Takao recolhia um rev√≥lver .38 do tripudiado guarda-civil. Para complementar a "a√ß√£o revolucion√°ria‚ÄĚ, os dois primeiros espalharam gasolina e incendiaram a radiopatrulha. Esta seria uma das √ļltimas a√ß√Ķes da ALN em S√£o Paulo, no ano de 1969. ÔÄ≠ÔĆ 12. Os dominicanos na subvers√£o A ALN ia estruturando-se para conduzir a guerra revolucion√°ria com todo o apoio. Dispunha j√° de uma rede de atendimento m√©dico e, como vimos no item anterior, de uma casa de recupera√ß√£o no litoral, contando ainda com outra √°rea de hom√≠zio em Ribeir√£o Preto. Paulo de Tarso Venceslau, coordenador do setor log√≠stico ou de apoio, conseguiu a mans√£o do industrial franc√™s Jacques Emile Frederic Breyton, na Rua Souza Ramos n¬ļ 517, na Vila Mariana, para realizar reuni√Ķes do comando da organiza√ß√£o. A mans√£o servia, tamb√©m, como √°rea de repouso dos combatentes mais importantes
  45. 45. Projeto ORVIL - 46 - da ALN, onde Marighela, ‚ÄúToledo‚ÄĚ e outros terroristas se reuniam para comemorar as vit√≥rias. As festas eram organizadas por Nair Benedicto, mulher do industrial, que levava estudantes para ‚Äúfazer companhia‚ÄĚ aos subversivos. Ampliando suas atribui√ß√Ķes, no in√≠cio de 1969, Paulo de Tarso foi apresentado por Frei Osvaldo a Frei Ivo para ser o contato da ALN com os frades dominicanos do Convento das Perdizes. Os dominicanos continuavam a apoiar a ALN e desempenhavam importante papel na rede de sustenta√ß√£o. Em janeiro, Frei Beto afastou-se de sua resid√™ncia, por quest√Ķes de seguran√ßa, quando da pris√£o de elementos da VPR que pintavam um caminh√£o com as cores do Ex√©rcito, em Itapecerica da Serra. Em mar√ßo, com a pris√£o de Isa√≠as do Vale Almada, membro da VPR, Frei Beto foi ‚Äúaberto‚ÄĚ, tendo sido procurado em sua resid√™ncia pela pol√≠cia. Com o benepl√°cito do Provincial da Ordem, Frei Domingos Maia Leite, Frei Beto foi transferido para o Semin√°rio Dominicano Christo Rei, em S√£o Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Em julho, Frei Beto foi chamado a S√£o Paulo por Marighela, que lhe determinou a montagem de um esquema para passagem de militantes clandestinos pela fronteira para o Uruguai. Frei Beto, em liga√ß√£o com o padre Ver√≠ssimo em Rivera, no Uruguai, montou uma estrutura que contava com a participa√ß√£o de um funcion√°rio corrupto da Aduana daquela cidade. Frei Beto recebia por meio de liga√ß√£o telef√īnica com Frei Fernando, em S√£o Paulo, a not√≠cia de que ia ser contatado. Usando senhas combinadas, encontrava-se com o elemento em frente ao Cine S√£o Jo√£o, em S√£o Leopoldo, e o alojava na Igreja da Piedade, onde contava com a coniv√™ncia dos padres Manoel Vasconcellos Valiente e Marcelo Pinto Carvalheira. Camilo Borre Garcia, ex-seminarista espanhol e colega de Frei Beto no Christo Rei, tamb√©m colaborava com o esquema, recebendo correspond√™ncia para Frei Beto e ajudando a esconder os clandestinos. Camilo foi quem escondeu Joaquim C√Ęmara Ferreira, quando este abandonou o Pa√≠s, ap√≥s o sequestro do embaixador norte-americano. De S√£o Leopoldo a Santana do Livramento, Frei Beto utilizava o seminarista Francisco Castro para conduzir os fugitivos e apresent√°-los ao Padre Verissimo. Ap√≥s regularizada a
  46. 46. Projeto ORVIL - 47 - situa√ß√£o dos fugitivos, Verissimo hospedava-os em Rivera e acompanhava-os a Montevid√©u. O dispositivo de Frei Beto ia ser ampliado para ser utilizada a cidade de Jaguar√£o como sa√≠da, entretanto o "contato" em Porto Alegre considerou o esquema "queimado" e sem condi√ß√Ķes de ser empregado. Por este dispositivo, foram retirados do Pa√≠s: Jos√© Roberto Arantes Almeida, Carlos Henrique Knapp, Eliane Toscano Zamikhowski, Joaquim C√Ęmara Ferreira, Ana Maria Soares Palmeira, Sebasti√£o Mendes Filho e Arno Preiss. Joseph Berthold Calvert foi preso na fronteira, em 26 de outubro, n√£o conseguindo atingir o Uruguai. Frei Osvaldo colocou Frei Bernardo Cat√£o, respons√°vel pela Casa da Ordem de Concei√ß√£o do Araguaia, em contato com o l√≠der da ALN. A reuni√£o ocorreu na Rua S√£o Vicente de Paula n¬ļ 360, e Frei Cat√£o colocou as depend√™ncias religiosas de Concei√ß√£o do Araguaia √† disposi√ß√£o, para homiziar elementos foragidos. Aproximadamente no final de maio, Frei Osvaldo foi deslocado para o Rio de Janeiro para transmitir a experi√™ncia das a√ß√Ķes armadas da ALN/SP e auxiliar a estrutura√ß√£o da organiza√ß√£o. Ap√≥s acompanhar a realiza√ß√£o de assaltos, Frei Osvaldo viajou para a Europa, onde, sob o pretexto de realizar cursos, cumpria miss√Ķes da ALN. Foi para a cidade de Fribourg, na Su√≠√ßa, para realizar um curso de Teologia e adquirir conhecimentos sobre a realidade do socialismo na URSS. Por orienta√ß√£o da ALN, Frei Osvaldo, aproveitando-se de sua perman√™ncia na Su√≠√ßa, montou um esquema noticioso para divulgar as atividades da ALN na Europa. Para tal, contaria com a colabora√ß√£o da revista ‚ÄúFront‚ÄĚ publicada em Paris.30 Ao assumir a coordena√ß√£o dos dominicanos, no lugar de Frei Osvaldo, Frei Fernando fez contato com Marighela no bairro do M√©ier, no Rio de Janeiro, e recebeu a orienta√ß√£o de coordenar prioritariamente o esquema de sa√≠da para o Uruguai e a divulga√ß√£o das not√≠cias da organiza√ß√£o na Europa. 30 Na realidade a revista ‚ÄēFront‚ÄĖ era editada por Arraes e pela MPL. Ver p√°gina 211 (NE)
  47. 47. Projeto ORVIL - 48 - Al√©m das tarefas j√° desenvolvidas pelos dominicanos, Frei Giorgio Calegari (Frei ‚ÄúJorge‚ÄĚ ou ‚ÄúRoberto"), que tinha facilidades com a imprensa italiana, ficou com a incumb√™ncia de verter para o italiano os documentos da ALN e mand√°-los para a Editora Frateneli, que os publicaria, divulgando, as posi√ß√Ķes da organiza√ß√£o. Frei ‚ÄúJorge‚ÄĚ tamb√©m mantinha contato com Frei Osvaldo na Europa. Frei Jo√£o Ant√īnio de Caldas Valen√ßa (Frei ‚ÄúMauricio‚ÄĚ) ficou com a responsabilidade do setor de imprensa, ap√≥s a ida de Frei Beto para o Rio Grande do Sul. O setor n√£o foi estruturado por falta de espa√ßo e local adequados, permanecendo o esquema de utilizar o material gr√°fico do pr√≥prio convento. A documenta√ß√£o doutrin√°ria da ALN era batida em matrizes e rodada pelos dominicanos dentro do Convento da Rua Caiubi. Em agosto, com a ades√£o de Frei Roberto Romano, que ficou com a incumb√™ncia de rodar o mime√≥grafo, o setor de imprensa foi refor√ßado. Frei Tito de Alencar Lima era o respons√°vel por manter contato com os seminaristas e arregiment√°-los para a ALN. ÔÄ≠ÔĆ 13. ALN - A guerra psicol√≥gica Vimos que a ALN, al√©m de conduzir a guerrilha urbana, preocupava- se em estabelecer uma estrutura de apoio, at√© certo ponto sofisticada. Por seus documentos, constatamos que, al√©m da guerrilha urbana, considerada um instrumento complementar, a organiza√ß√£o preocupava-se com a guerra psicol√≥gica e, naturalmente, com a guerrilha rural - seu objetivo estrat√©gico ‚Äď para a qual se preparava. Uma primeira a√ß√£o de propaganda foi feita nos Estados Unidos, onde, em 4 de fevereiro de 1969, foi publicada no jornal "Di√°rio de las Am√©ricas", de Miami, uma mensagem de Marighela, afirmando, entre outras coisas: ‚Äú(...) o Pa√≠s est√° entrando numa fase t√≠pica de a√ß√Ķes de guerrilha, compreendendo emboscadas, roubos de armas,
  48. 48. Projeto ORVIL - 49 - sabotagens, greves e manifesta√ß√Ķes populares‚ÄĚ. A mensagem tinha a finalidade de incentivar as atividades terroristas no Brasil, realizar a propaganda externa e, ao mesmo tempo, dar uma satisfa√ß√£o ao governo cubano, de onde provinham os d√≥lares que auxiliavam o sustento da ALN e onde eram preparados os seus quadros. Em maio, a ALN procurava enfraquecer as institui√ß√Ķes e desmoraliz√°- las aos olhos da popula√ß√£o. Valendo-se do roubo de armamento realizado pela c√©lula de esquerda que existia no 4¬ļ RI, por interm√©dio de cartas e panfletos instigava militares das tr√™s for√ßas singulares a seguirem aquele exemplo, entregando as armas e muni√ß√Ķes de suas unidades. Em junho, buscando intensificar e ampliar o clima de desassossego e de inseguran√ßa reinantes, a organiza√ß√£o remeteu cartas √†s ag√™ncias banc√°rias, contendo amea√ßas de assalto. Com o objetivo de ampliar os fatos, tirando deles o maior partido, buscou, tamb√©m, sensibilizar os representantes das na√ß√Ķes estrangeiras, no Rio de Janeiro, atrav√©s de manifestos enviados pelo correio. Um desses documentos, distribu√≠do em junho, continha os seguintes trechos: ‚ÄúOficiais e Pra√ßas desertam do Ex√©rcito e entregam aos revolucion√°rios as armas e muni√ß√Ķes mais modernas, como fez Lamarca. S√£o armas que a OTAN usa, como os FAL. O Sargento Prestes e seus companheiros s√£o libertados da penitenci√°ria pelos guerrilheiros urbanos. O espi√£o ianque Charles Chandler √© castigado pelos patriotas. A guerra revolucion√°ria est√° em curso, chefiada no Pa√≠s por Carlos Marighela. Por favor, avise seu governo para que este n√£o seja mal informado. Sauda√ß√Ķes. A√ß√£o Libertadora Nacional. 17/6/69‚ÄĚ. No dia 25 de junho, com o objetivo de desmoralizar as For√ßas Armadas e disseminar o medo e a inseguran√ßa na popula√ß√£o, foi colocada uma bomba na barraca do Ex√©rcito instalada na Feira do Livro, na Pra√ßa Saens Pe√Īa, no Rio de Janeiro. Felizmente para a multid√£o de inocentes que visitava a Feira, houve falha no dispositivo e a bomba n√£o funcionou. Em 15 de agosto, um comando da ALN com doze elementos, tomou de assalto os transmissores da R√°dio Nacional, em Piraporinha,
  49. 49. Projeto ORVIL - 50 - munic√≠pio de Diadema. Ap√≥s espancarem o operador-chefe Lib√≥rio Schuck e tomarem o rev√≥lver do guarda Raymundo Salustiano de Souza, os terroristas colocaram no ar uma fita gravada por Gilberto Luciano Beloque, contendo a mensagem "Ao Povo Brasileiro‚ÄĚ de Carlos Marighela. Na mensagem, datada de junho de 1968, Marighela conclamava pelo prosseguimento e pela intensifica√ß√£o das a√ß√Ķes de terrorismo na cidade, para que as tropas se mantivessem ocupadas e n√£o pudessem intervir na √°rea rural onde, j√° em 1969, seria lan√ßada a guerrilha rural. Marighela tentava despistar o financiamento que recebia de Cuba, apresentando os assaltos a bancos como a √ļnica fonte de recursos da organiza√ß√£o. Reiterava seus ataques ao imperialismo norte- americano e √† ‚Äúditadura militar‚ÄĚ e repetia os chav√Ķes da "luta prolongada‚ÄĚ e da panaceia revolucion√°ria representada pela "alian√ßa armada de oper√°rios e camponeses‚ÄĚ. N√£o tinham objetivo maior do que a propaganda os ataques realizados a sentinelas e a viaturas de radiopatrulha. Embora esses homens estivessem isoladamente ou em dupla, no cumprimento do dever, e fosse f√°cil uma a√ß√£o de grupos sobre eles, a repercuss√£o desses atos visava a criar o medo e a demonstrar o poder da organiza√ß√£o subversiva e a inefici√™ncia dos meios de repress√£o. Com a mesma finalidade, foi feito o metralhamento da loja Mappin, que expunha material alusivo √† Semana do Ex√©rcito. N√£o apenas os militares, mas tamb√©m seus familiares foram alvos da propaganda da ALN. Ela, ora procurava justificar as a√ß√Ķes terroristas que realizava e ora fazia amea√ßas aos familiares dos que a combatiam, principalmente a seus filhos em idade escolar, trazendo a intranquilidade e o medo para o seio das fam√≠lias. Prosseguindo suas atividades de guerra psicol√≥gica, a ALN remeteu √†s autoridades de S√£o Paulo, dias antes de 7 de setembro, um manifesto recomendando que fossem suspensas todas as solenidades da Semana da P√°tria no Vale do Anhangaba√ļ. No documento, a organiza√ß√£o amea√ßava realizar atos de terrorismo contra a popula√ß√£o, responsabilizando as autoridades pelo que viesse a ocorrer. Al√©m do aspecto psicol√≥gico, a√ß√Ķes desse tipo desgastavam as for√ßas de seguran√ßa, que tinham por obriga√ß√£o zelar pela vida e
  50. 50. Projeto ORVIL - 51 - tranquilidade da popula√ß√£o, empregando grandes efetivos para evitar uma a√ß√£o terrorista desastrosa. No final de outubro, o esquema noticioso na Europa (a que nos referimos no item anterior) come√ßava a funcionar. Marighela concedia uma entrevista √† revista francesa "Front", atrav√©s de Conrad Detrez, onde expunha o seu ide√°rio e a sua convic√ß√£o de que "O Brasil ser√° um novo Vietn√£", t√≠tulo da reportagem. Quando a mat√©ria foi publicada, j√° havia ocorrido a morte de Marighela. Comentando o √≥bito, a revista Front estranhava o ocorrido afirmando que sentira muita seguran√ßa no l√≠der comunista durante a entrevista. Quanto √†s poss√≠veis causas do acontecimento, a revista levantava hip√≥teses, procurando preservar a estrat√©gia da organiza√ß√£o e atribuindo a ocorr√™ncia a uma falha de compartimenta√ß√£o na vida clandestina do movimento - um "erro t√©cnico" - a uma temeridade inconsequente de Marighela que se expunha desnecessariamente, ou √† "viol√™ncia das torturas". Quanto √†s "torturas", a revista orientava uma campanha de den√ļncias e a previs√£o de medidas apropriadas no plano da organiza√ß√£o... ÔÄ≠ÔĆ 14. ALN em Ribeir√£o Preto/SP e no Cear√° Em Ribeir√£o Preto, o grupo integrante da ALN, coordenado por Paulo Eduardo Pereira, era visto pela dire√ß√£o da organiza√ß√£o em S√£o Paulo como um organismo de apoio e de prepara√ß√£o e treinamento de guerrilheiros. 31 Seguindo a orienta√ß√£o de Virg√≠lio e "Toledo", o grupo realizou o levantamento de estabelecimentos comerciais, casas de cr√©dito e casas de armas, em Ribeir√£o Preto e cidades vizinhas com vistas a futuros assaltos. Realizou o mapeamento da regi√£o, locando 31 Faziam parte do grupo, na √©poca: Jos√© Marieto, Nanci Marieto, Carlos Russo J√ļnior, Ant√īnio de Souza, Darrier Carlos Galhardo, Patroc√≠nio Henrique dos Santos, Jos√© Adolfo Granville, Toshio Tanaka, Carlos Leopoldo Teixeira Paulino, Jos√© Eduardo de Sales Rosemiro e Walnier Leon Carrijo.
  51. 51. Projeto ORVIL - 52 - √°reas adequadas √† implanta√ß√£o da guerrilha rural. Aliciou camponeses das cidades de Bebedouro e Pitangueiras e realizou treinamento de tiro com os mesmos, tendo tamb√©m feito um treinamento de tiro e de guerrilha num s√≠tio de √Āguas Virtuosas, entre Serrana e Ribeir√£o Preto. Dois militantes do grupo, Guilherme dos Santos Carvalho e Ary Almeida Normanha, mantinham um "aparelho" em S√£o Paulo onde recebiam instru√ß√Ķes de Virg√≠lio. Em 19 de abril, Guilherme foi preso na rodovi√°ria de S√£o Paulo com 10 kg de clorato de pot√°ssio que seria utilizado em atos terroristas em Ribeir√£o Preto. No dia seguinte, foram presos Ary, em S√£o Paulo, e Paulo Eduardo, em Ribeir√£o Preto. Liberados pela pol√≠cia, ap√≥s dois meses de pris√£o, Paulo Eduardo e Ary Almeida foram procurados por Virg√≠lio para reiniciarem as atividades. Durante a reuni√£o, Virg√≠lio, demonstrando o comprometimento a que se sujeitava um militante da ALN, prop√īs o assassinato de Guilherme, por ter delatado os dois √† pol√≠cia. O assunto ficou para ser resolvido posteriormente, pois a proposta preocupara e assustara Paulo Eduardo e Ary. O grupo, em meados de outubro de 1969, planejou e tentou realizar um atentado contra as Lojas Americanas de Ribeir√£o Preto. Por defeito de fabrica√ß√£o, as bombas incendi√°rias n√£o explodiram, tendo sido encontradas por um funcion√°rio da loja no dia seguinte. O grupo de Ribeir√£o Preto n√£o conseguiu desenvolver nenhuma a√ß√£o de vulto e, no in√≠cio de novembro, com pris√Ķes em S√£o Paulo, Ribeir√£o Preto e cidades vizinhas, foi desbaratado. No Cear√°, a ALN estruturou-se a partir da dissens√£o de militantes do PCB. Jos√© Sales de Oliveira, expulso do PCB, continuou mantendo contatos com os militantes do partido e foi formando um grupo que via na viol√™ncia o caminho para a revolu√ß√£o no Brasil. Em 1968, com a radicaliza√ß√£o no movimento estudantil, foi poss√≠vel arregimentar mais adeptos para o grupo, inclusive militantes da AP que j√° haviam realizado expropria√ß√Ķes armadas de mime√≥grafos, al√©m da fabrica√ß√£o e lan√ßamento de coquet√©is molotov durante as manifesta√ß√Ķes estudantis.
  52. 52. Projeto ORVIL - 53 - A ALN designou S√≠lvio de Albuquerque Mota para orientar os trabalhos exercidos por Jos√© Sales. 32 A √ļnica a√ß√£o do grupo em 1969 foi a frustrada tentativa de assalto, no dia 4 de dezembro, √† ag√™ncia S√£o Sebasti√£o do Banco Mercantil do Cear√°. Ronaldo Dutra Machado, do Grupo de A√ß√£o da ALN da Guanabara, encontrava-se em Fortaleza para assessorar e participar da a√ß√£o junto com a ALN/CE. Jos√© Sales de Oliveira e mais outro militante entraram no banco enquanto o resto do bando dominou o guarda que se encontrava na porta, tirando-lhe a metralhadora. O guarda conseguiu escapar e entrou correndo banco, generalizando-se um intenso tiroteio, frustrando o que seria o primeiro assalto da ALN no Cear√°. 33 ÔÄ≠ÔĆ 15. ALN no Planalto Central Desde 1967, o Comit√™ Metropolitano do PCB de Bras√≠lia (CM/PCB/Bsb) preparava-se para a luta armada. Sob a supervis√£o do Comit√™ Central, seus membros realizaram em Paracatu/MG exerc√≠cios de guerrilha, com treinamentos de tiro, execu√ß√£o de marcha e confec√ß√£o de bombas com explosivos. Sob a lideran√ßa dos advogados Thomas Miguel Pressburger e Raimundo Nonato dos Santos, o CM/PCB/Bsb, por ser partid√°rio da luta armada, afastou-se do 32 No meio universit√°rio de Fortaleza, foram aliciados os estudantes da UFCe H√©lio Pereira Ximenez, Gilberto Thelmo Sidney Marques, Fabiani Cunha, Swami Cunha, Moema Correia S√£o Tiago "e Nilton Gurgel Barreto. Foram tamb√©m recrutados o agente da Secretaria de Pol√≠cia Carlos Timoschenko Soares de Sales, funcion√°rio da Petrobr√°s Jos√© Elven Siqueira, o funcion√°rio do DNOS Gess√© Jer√īnimo de Oliveira, a supervisora da Enciclop√©dia Delta-Larrousse Jane Vasconcelos Dantas, o funcion√°rio do DNER Jos√© Bento da Silva, o fot√≥grafo Jo√£o Batista de Lima e o agricultor Jo√£o Xavier de Lacerda ("Cambito"), ex-vereador do PTB. 33 Participaram dessa tentativa: Fabiani Cunha, Francisco William de Montenegro Medeiros, Maur√≠cio An√≠sio de Ara√ļjo, Adolfo Sales de Carvalho, Gilberto Thelmo Sidney Marques e Ronaldo Dutra Machado.
  53. 53. Projeto ORVIL - 54 - partido, ap√≥s o VI Congresso, e aproximou-se do Grupo de Marighela, o AC/SP. No segundo semestre de 1968, chegou a Bras√≠lia o militante do AC/SP Edmur P√©ricles de Camargo, que seria o respons√°vel pelo levantamento de √°reas para implanta√ß√£o da guerrilha rural nos Estados de Goi√°s e Minas Gerais, junto com o pessoal do antigo CM/PCB/Bsb. No in√≠cio de 1969, os levantamentos no campo j√° haviam sido realizados e Edmur aguardava uma defini√ß√£o da dire√ß√£o da ALN sobre o prosseguimento das atividades ligadas √† guerrilha rural. Na ter√ßa-feira de carnaval de 1969, foi realizado um assalto ao posto de identifica√ß√£o da Asa Norte, de onde foram roubadas mais de cem c√©dulas de identidade, uma m√°quina de escrever e carimbos. 34 Foi a primeira a√ß√£o da organiza√ß√£o em Bras√≠lia, a qual, em seguida, provocaria as primeiras "quedas" da ALN na capital federal. Desencadeada uma opera√ß√£o, foram presos quatorze subversivos, a maioria oriunda do antigo CM/PCB/Bsb.35 Sofrido este primeiro abalo, o grupo recomp√īs-se sob a lideran√ßa de Jos√© Carlos Vidal, Jorge Alberto Bittar e Jaime H√©lio Dick. Foi estabelecido o contato com George Michel Sobrinho e com Fl√°vio Tavares, por interm√©dio de Roberts Pericris Vitoriano Gomes. Rearticulado, o grupo assaltou, no dia 7 de maio, o Cine Karin em Bras√≠lia 36 e, passado algum tempo, um posto de gasolina. 34 Participaram do assalto: Lu√≠s Werneck, Jorge Alberto Bittar, Jos√© Carlos Vidal, Roberts Pericris Vitoriano Gomes e mais um elemento. 35 Foram presos na opera√ß√£o desencadeada em Bras√≠lia, entre outros, Raimundo Nonato dos Santos, Cl√≥vis Bezerra de Almeida, Amilcar Coleho Chaves, Jos√© Ribamar Lopes, Jo√£o Guedes da Silva, Francisco Gon√ßalves Vieira, Lu√≠s Werneck de Castro Filho e Thomas Miguel Pressburger. 36 A equipe assaltante era composta de Jaime H√©lio Dick ("Joca"), Guilherme Modesto Gonzaga ("Gustavo"), Gast√£o Estelita Lins de Salvo Coimbra ("Lucas"), George Michel Sobrinho e o soldado do Ex√©rcito Paulo C√©sar Lopes da Silva Rodrigues (‚ÄēCaju‚ÄĖ)
  54. 54. Projeto ORVIL - 55 - A integra√ß√£o do soldado do Ex√©rcito Paulo Cesar Lopes da Silva Rodrigues ao grupo rendeu dividendos preciosos para a ALN. Como integrante do grupo, foi orientado para agir em proveito do movimento subversivo. Dias antes de desligar-se do Batalh√£o de Pol√≠cia do Ex√©rcito de Bras√≠lia (BPEB), Paulo Cesar retirou duas metralhadoras INA da reserva de armamento da 3¬™ Companhia e as entregou a Jos√© Carlos Vidal. Anteriormente, passara uma rela√ß√£o contendo nome, endere√ßo e telefone dos oficiais do BPEB e um croquis da unidade. Furtou ainda, um documento sigiloso, que mais tarde foi encontrado no escrit√≥rio do ex-coronel comunista cassado, Nicolau Jos√© de Seixas, o mesmo que havia cedido a Fl√°vio Tavares as metralhadoras para as a√ß√Ķes do MAR. Em agosto de 1969, Jeov√° Assis Gomes, enviado de S√£o Paulo por "Toledo", fez contato com Jos√© Carlos Vidal para estabelecer as diretrizes do trabalho no campo. Nas reuni√Ķes, realizadas em Taguatinga, ficou decidido o deslocamento de pessoal para a √°rea de Goi√Ęnia e An√°polis. V√°rios elementos foram deslocados para Goi√Ęnia. A ideia inicial era formar uma rede de apoio para a futura guerrilha rural. Jeov√° recebeu dinheiro de Marighela e arrendou a Fazenda Embira, no munic√≠pio de Goi√Ęnia, na rodovia Goi√Ęnia-Ner√≥polis. Fazia frequentes contatos com Jos√© Carlos Vidal em Bras√≠lia e recebia recursos para manter o grupo em Goi√Ęnia. Na Fazenda Embira, o grupo realizava treinamentos de tiro e de guerrilhas. Jeov√° recebeu de Jos√© Carlos duas metralhadoras INA e uma pistola e de S√£o Paulo dois FAL com muni√ß√£o, enviados por "Toledo‚ÄĚ para o treinamento do grupo. Em setembro e outubro, em fun√ß√£o das investiga√ß√Ķes sobre o desaparecimento do estudante menor Carlos Gustavo do Nascimento, em Bras√≠lia, ficou configurada a trama subversiva que provocou o desmantelamento da ALN em Bras√≠lia e em Goi√Ęnia. Na ocasi√£o, ficou constatado que na casa do diplomata Marco Ant√īnio de Salvo Coimbra - que estava servindo na embaixada do Brasil na Rom√™nia - funcionava um "aparelho" da ALN. L√° foram presos Marcos Estelita Lins de Salvo Coimbra, Gast√£o Estelita Lins de Salvo Coimbra, o menor Carlos Gustavo do Nascimento, Benedito Jos√© Cabral e Ricardo Moreira Pena. O grupo preso tinha em seu poder uma metralhadora
  55. 55. Projeto ORVIL - 56 - INA e dez rev√≥lveres de diversos calibres, que eram utilizados nos treinamentos. As "quedas‚ÄĚ prosseguiram, inclusive com a pris√£o de Jos√© Carlos Vidal, e foi constatado que a grande maioria de estudantes presos era de secundaristas do Centro Integrado de Ensino M√©dio e do Col√©gio Elefante Branco. No final de outubro, em consequ√™ncia das pris√Ķes em Bras√≠lia, iniciou-se o desmantelamento da organiza√ß√£o em Goi√Ęnia, com a pris√£o de diversos universit√°rios egressos da UnB e de um rep√≥rter do Correio Braziliense, Jos√© Anibas de Moraes. Foi apreendido farto armamento, inclusive os dois FAL que haviam sido remetidos de S√£o Paulo. 37 Culminando a opera√ß√£o dos √≥rg√£os de seguran√ßa, foi preso, a 12 de novembro, Jeov√° Assis Gomes, o coordenador da implanta√ß√£o da √°rea estrat√©gica em Goi√°s. O plano do grupo, de acordo com orienta√ß√£o recebida de Marighela em S√£o Paulo, era desencadear a√ß√Ķes de guerrilha no norte de Goi√°s, enquanto S√£o Paulo era mantida como √°rea priorit√°ria para a√ß√Ķes de guerrilha urbana. ÔÄ≠ÔĆ 16. ALN - A√ß√Ķes na Guanabara No Rio de Janeiro, os adeptos de Marighela iniciaram a prepara√ß√£o para a guerrilha. Do in√≠cio do ano at√© abril, limitaram-se a treinamentos e distribui√ß√£o de textos de Marighela. 38 37 Foram presos em Goi√Ęnia: M√°rcio Jos√© dos Santos, Jorge Alberto Bittar, Aldir Silva de Almeida Nunes, Artur Carvalho Neto, Jos√© Anibas de Moraes e Aristeu Rom√£o dos Santos. Com exce√ß√£o dos dois √ļltimos, que eram, respectivamente, jornalista e pedreiro, todos os demais eram estudantes universit√°rios. 38 Compunham esse grupo, entre outros: Jos√© Pereira da Silva, Domingos Fernandes, Luiz Afonso Miranda da Costa Rodrigues, Marcos Nonato da Fonseca e Aldo Brito de Souza Neto.
  56. 56. Projeto ORVIL - 57 - Apesar da descentralizar√£o caracter√≠stica da ALN, Jo√£o Batista e Zilda de Paula Xavier Pereira podiam ser considerados os coordenadores da ALN na Guanabara, em fun√ß√£o da liga√ß√£o que tinham com Marighela. Em mar√ßo, um grupo de estudantes, liderado por Carlos Eduardo Fayal de Lira, que estava em contato com a Ala Vermelha, resolveu ingressar na ALN. 39 A primeira a√ß√£o da ALN na Guanabara foi a tentativa de assalto ao Cine Opera, na praia de Botafogo, em 27 de abril de 1969, sob o comando de Domingos Fernandes. 40 Os subversivos entraram no sagu√£o do Cine Opera, e, de armas na m√£o, dirigiram-se √† bilheteria. Foram obstados pelo guarda Ant√īnio Guedes de Moraes, que sacou a arma, dando in√≠cio ao tiroteio. Jos√© Pereira da Silva e Domingos Fernandes descarregaram suas armas na dire√ß√£o do guarda Ant√īnio, que, ao final, ficou prostrado no sagu√£o, baleado. Surpreendidos, os terroristas debutantes retiraram-se sem conseguir perpetrar o roubo. O fracasso da a√ß√£o provocou uma reflex√£o autocr√≠tica na ALN/GB. N√£o estavam preparados para ela. Tal constata√ß√£o provocou a ida para o Rio de Janeiro de Frei Osvaldo Augusto de Rezende J√ļnior ("Cl√°udio"'), orientador dos dominicanos em S√£o Paulo, para estruturar a organiza√ß√£o. Com o refor√ßo do grupo de Fayal e o assessoramento de Frei Osvaldo, a ALN/GB reencetou suas atividades. No dia 12 de junho era assaltada a ag√™ncia Uruguai do Banco Boa Vista. O levantamento, a t√≠tulo de ensinamento, foi realizado pelo pr√≥prio Frei Osvaldo, assessorado por Valentim Ferreira. O assalto, comandado por Domingos Fernandes, teve sucesso, sendo arrecadados quatro mil cruzeiros novos. 39 O novo grupo que engrossava as hostes da ALN/GB era constitu√≠do por: Ronaldo Dutra Machado, Newton Le√£o Duarte, Fl√°vio de Carvalho Molina, Frederico Eduardo Mayr, Jorge Wilson Fayal de Lira, Paulo Henrique Oliveira da Rocha Lins e Jorge Raimundo J√ļnior. 40 Participaram dessa a√ß√£o: Jos√© Pereira da Silva, Carlos Eug√™nio Coelho Sarmento da Paz, Aldo S√° Brito Souza Neto, Lu√≠s Afonso Miranda da Costa Rodrigues e o Dr. Iber√™ Brand√£o Fonseca.
  57. 57. Projeto ORVIL - 58 - A partir dessa a√ß√£o, a ALN/GB realizou uma s√©rie de assaltos bem sucedidos: dia 8, √† ag√™ncia S√£o Crist√≥v√£o do Banco de Cr√©dito Territorial, na Rua Bela n¬ļ 597; dia 12, √† ag√™ncia de autom√≥veis Novocar, na rua Uruguai n¬ļ 234; e dia 29, √† ag√™ncia Saens Pe√Īa do Banco do Estado de Minas Gerais, situada na Rua Carlos de Vasconcelos.41 Essas a√ß√Ķes, por√©m, ensejaram a atua√ß√£o dos √≥rg√£os de seguran√ßa e, ainda em julho, foram presos Newton Le√£o Duarte e Jorge Wilson Fayal de Lira, quando iam apanhar um carro roubado, para a realiza√ß√£o de uma a√ß√£o. As pris√Ķes geraram uma crise de seguran√ßa na Regional Guanabara da ALN. At√© ent√£o, nenhum dos militantes tinha se "queimado", todos tinham vida legal. O caminho era a clandestinidade. O grupo de Domingos Fernandes, atrav√©s de Francisco Eduardo Sebr√£o, conseguiu um "aparelho" em S√£o Crist√≥v√£o, na Rua Mour√£o do Vale, que teria a finalidade de guardar militantes que estivessem sendo perseguidos, al√©m de servir de dep√≥sito para as armas da organiza√ß√£o. A pol√≠cia chegou √† resid√™ncia de Jo√£o Batista Xavier Pereira, mas este j√° a havia abandonado com a sua empregada Maria Jos√© Silv√©rio, que se havia tornado sua amante. O material de sua casa seria encontrado, mais tarde, na garagem da resid√™ncia de Maria Antonieta Campos da Paz, no Jardim Bot√Ęnico. Zilda de Paula Xavier Pereira foi presa na Rua dos Ara√ļjos 76, casa 5. Ap√≥s v√°rias perip√©cias, acabou internada no Hospital Pinel, de onde fugiu para o exterior em meados do ano seguinte. Em agosto, Ronaldo Dutra Machado recebeu de Marighela a incumb√™ncia de fazer contato com um grupo em Recife e "ganh√°-lo" para a ALN. Ronaldo manteve contato com Francisco Vicente Ferreira, o l√≠der do grupo, e convenceu-o a atuar dentro da orienta√ß√£o preconizada por Marighela. Ronaldo retornou ao Rio de 41 Faziam parte do bando assaltante: Dulce Chaves Pandolfi que se amasiara a Ronaldo Dutra Machado, Carlos Roberto Nolasco Ferreira e Nelson Lu√≠s Lott de Morais Costa, neto do Marechal Lott.
  58. 58. Projeto ORVIL - 59 - Janeiro, mas ficou com a responsabilidade de orientar as atividades na √°rea do Nordeste. Nessa √©poca, foram "passados" para S√£o Paulo, Sebasti√£o Mendes Filho e Joseph Berthold Calvert. Eram comuns essas transfer√™ncias de √°rea, seja para que fossem retirados do Pa√≠s, seja para atuar em outra √°rea, sempre que o militante estivesse "queimado" ou com problemas de seguran√ßa. De S√£o Paulo, foram atuar no Rio de Janeiro, em setembro, Aton Fon Filho e Maria Aparecida da Costa. No dia 4 de setembro, a na√ß√£o foi surpreendida com o primeiro sequestro no Pa√≠s. Em "frente", a ALN participara do sequestro do embaixador dos Estados Unidos da Am√©rica. No dia 9 de setembro a ALN realizou mais uma a√ß√£o audaciosa para "expropria√ß√£o" de armas. Nesse dia, em dois Volkswagen, a organiza√ß√£o atacou dois soldados da Pol√≠cia Militar do Estado da Guanabara (PMEG) que, armados de metralhadoras, patrulhavam as depend√™ncias da TV Excelsior na Rua Visconde de Piraj√°. Foram rendidos os soldados PMEG S√©rgio Rodrigues Teixeira e H√©lio Guimar√£es Monteiro, sendo que o primeiro levou violenta coronhada na cabe√ßa desferida por Ronaldo Dutra Machado. As metralhadoras foram incorporadas ao arsenal da ALN/GB. Em outubro, quando de sua volta ao Nordeste, Ronaldo Machado retomou seu contato em Recife e encontrou o grupo de Francisco Ferreira, refor√ßado por elementos do PCBR conhecidos como "pessoal do racha". 42 Em 19 de dezembro, o grupo, j√° ent√£o contando com a assist√™ncia permanente de Ronaldo, que se estabelecera em Recife junto com Dulce Chaves Pandolfi, assaltou a ag√™ncia Cavaleiro, do Banco Financial, em Jaboat√£o. A partir do dia 8 de dezembro, iniciaram-se as "quedas‚ÄĚ de fim de ano da ALN/GB. Maria Aparecida da Costa foi presa, em companhia de Valentim Ferreira, quando foi reconhecida, por acaso, por um 42 Ronaldo travou contato com Rholine Sonde Cavalcanti Silva, Luciano Almeida, Perlv Cipriano e Mauricio An√≠sio de Ara√ļjo.

√ó