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Sonetos de camões

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Sonetos de camões

Apresentação de complemento a palestra do vestibular Uerj 2022, ministrada pela professora Teresa Cerdeira da #UFRJ fala sobre a obra de Luís de Camões que norteará as as questões da disciplina Língua Portuguesa e Literaturas.

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  1. 1. SONETOS DE CAMÕES: AMOR POESIA DESCONCERTO TEMPO Teresa Cristina Cerdeira UFRJ/CNPq
  2. 2. Camões no Renascimento português - Renascimento como entrada na modernidade - Renascimento como aposta de que o mundo é passível de ser mudado no curso da história - A racionalidade como valor humano não tornava o tempo indiferente a Deus mas dava ao homem uma independência para pensar-se e pensar sobre o mundo para além da autoridade da religião (do teocentrismo ao antropocentrismo) - O Renascimento herda da Antiguidade Clássica o seu perfil humanista, de valorização do homem, que será historicamente o desbravador dos mares e o conhecedor do universo que já não tem a terra como seu centro imóvel em torno do qual girariam os demais planetas. É uma revolução científica!
  3. 3. SONETO DA FIDELIDADE Vinícius de Moraes De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento. E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive, Quem sabe a solidão, fim de quem ama, Eu possa me dizer do amor (que tive) Que não seja imortal, posto que é chama, Mas que seja infinito enquanto dure.
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  5. 5. SONETOS A DINAMENE Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente E viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento etéreo, onde subiste, Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente Que já nos olhos meus tão puro viste. E se vires que pode merecer-te Alguma cousa a dor que me ficou Da mágoa, sem remédio, de perder-te, Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou.
  6. 6. Ah! minha Dinamene! Assim deixaste Quem não deixara nunca de querer-te! Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te, Tão asinha esta vida desprezaste! Como já pera sempre te apartaste De quem tão longe estava de perder-te? Puderam estas ondas defender-te Que não visses quem tanto magoaste? Nem falar-te somente a dura Morte Me deixou, que tão cedo o negro manto Em teus olhos deitado consentiste! Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte! Que pena sentirei que valha tanto, Que inda tenha por pouco viver triste?
  7. 7. O céu, a terra, o vento sossegado As ondas, que se estendem pela areia Os peixes, que no mar o sono enfreia O noturno silêncio repousado. O pescador Aónio, que, deitado Onde co’o vento a água se meneia, Chorando, o nome amado em vão nomeia, Que não pode ser mais que nomeado. — Ondas – dizia – antes que Amor me mate, Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo Me fizestes à morte estar sujeita. Ninguém lhe fala; o mar de longe bate; Move-se brandamente o arvoredo; Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita
  8. 8. Três sonetos com a mesma temática: amor e morte. Mas tão diversos no modo de o poeta relacionar-se com essa fatalidade! 1. A certeza de ter vivido plenamente o amor e a esperança do reencontro 2. O desespero do poeta que acusa a amada que morreu de o ter abandonado em vida 3. O eu lírico se desdobra numa terceira pessoa, o pescador Aônio, que se dirige à Natureza e a encontra indiferente à sua demanda
  9. 9. O AMOR E O INTERTEXTO BÍBLICO Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prémio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assim negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida; Começa de servir outros sete anos, Dizendo: – Mais servira, se não fora Para tão longo amor tão curta a vida!
  10. 10. O POETA FALA DA SUA POESIA Enquanto quis Fortuna que tivesse Esperança de algum contentamento, O gosto de um suave pensamento Me fez que seus efeitos escrevesse. Porém, temendo Amor que aviso desse Minha escritura a algum juízo isento, Escureceu-me o engenho co'o tormento, Para que seus enganos não dissesse Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos A diversas vontades! Quando lerdes Num breve livro casos tão diversos, Verdades puras são e não defeitos; E sabei que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos.
  11. 11. A TENSÃO ENTRE ESPIRITUALIDADE E EROTISMO Pede o desejo, Dama, que vos veja: Não entende o que pede; está enganado. É este amor tão fino e tão delgado, Que quem o tem, não sabe o que deseja. Não há cousa, a qual natural seja, Que não queira perpétuo o seu estado. Não quer logo o desejo o desejado, Por que não falte nunca onde sobeja. Mas este puro afeto em mim se dana: Que, como a grave pedra tem por arte O centro desejar da natureza, Assim meu pensamento pela parte, Que vai tomar de mim, terrestre, humana, Foi, Senhora, pedir esta baixeza.
  12. 12. O TEMPO E O INESPERADO DAS MUDANÇAS Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía.
  13. 13. O SENTIMENTO DO EXÍLIO E O DESCONCERTO DO MUNDO Na ribeira do Eufrates assentado, Discorrendo me achei pela memória Aquele breve bem, aquela glória, Que em ti, doce Sião, tinha passado. Da causa de meus males perguntado Me foi: Como não cantas a história De teu passado bem e da vitória Que sempre de teu mal hás alcançado? Não sabes, que a quem canta se lhe esquece O mal, inda que grave e rigoroso? Canta, pois, e não chores dessa sorte. Respondi com suspiros: Quando cresce A muita saudade, o piedoso Remédio é não cantar senão a morte.
  14. 14. O APOCALIPSE PARA UMA VIDA DESGRAÇADA O dia em que eu nasci moura e pereça, Não o queira jamais o tempo dar, Não torne mais ao mundo, e se tornar Eclipse nesse passo o sol padeça. A luz lhe falte, o sol se lhe escureça, Mostre o mundo sinais de se acabar, Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, A mãe ao próprio filho não conheça. As pessoas pasmadas , de ignorantes, As lágrimas no rosto, a cor perdida, Cuidem que o mundo já se destruiu. Ó gente temerosa, não te espantes, Que este dia deitou ao mundo a vida Mais desgraçada que jamais se viu.
  15. 15. PRAÇA LUÍS DE CAMÕES LISBOA l 10 DE JUNHO DE 1580 Morte do Poeta Dia de Portugal
  16. 16. A grande poesia é na sua maior parte POESIA DE AMOR Camões não fugiu ao modelo, ao contrário, teve no AMOR um de seus mais importantes temas poéticos. Mas foi também um poeta que pensou sobre o modo de fazer poesia, que refletiu sobre o fazer poético. A esse trabalho de reflexão sobre a linguagem poética chamamos metalinguagem (linguagem sobre linguagem). Por outro lado Camões era um homem do seu tempo e refletiu criticamente sobre ele, compondo alguns poemas sobre a temática do DESCONCERTO DO MUNDO. Para além disso, ao lado do AMOR um outro tema comum aos poetas de todas as idades é a angústia diante do TEMPO, diante da fatalidade da MORTE. É em cima desses quatro temas que vamos trabalhar a partir da leitura de alguns sonetos
  17. 17. Na esteira de Petrarca (poeta renascentista italiano), Camões recebe na sua bagagem cultural o modelo do amor platônico, aquele amor para quem a alma, que é eterna, é o objeto último do desejo do amado. De certo modo, no entendimento platônico, que vigorou transformado e cristianizado por toda a idade média, amar o corpo é saber que se ama aquilo que não é eterno, aquilo que padece com o tempo e que está fadado à morte. Sendo assim o corpo desejado da amada nunca deveria ser atingido, o prazer nunca deveria ser completado, como se o desejo, ao conquistar o desejado, perdesse seu sentido na precariedade da posse. Camões herda certamente esses valores que vigoram no Renascimento. Mas dá a eles uma outra roupagem mais terrena. Não desfigura a idealização feminina, mas reconhece no corpo uma via de acesso à própria alma. Desse modo abre espaço ao erotismo, ao gozo do amor carnal que ele desejaria experimentar.
  18. 18. Luís de Camões é sem sombra de dúvida um dos maiores poetas em língua portuguesa, o que significa dizer que os poetas de todos os tempos a ele retornam e se deixam impregnar pela sua poesia. É nesse sentido um clássico. A lírica camoniana é vasta, composta de variados gêneros, alguns herdados da antiguidade (elegias) outros da Idade média (redondilhas) outros ainda do próprio mundo renascentista italiano (sonetos). Petrarca (sec XIV) utilizou com frequência esse gênero lírico. Ele se tornou uma das mais evidentes referências para Luís de Camões O soneto é uma forma fixa composta de dois quartetos e dois tercetos com versos decassílabos. É uma forma fixa que até hoje é retomada por grandes poetas Para dar um exemplo aqui está um soneto do nosso Vinícius de Moraes de tonalidade francamente camoniana.
  19. 19. ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTE - Este soneto faz parte do ciclo de poemas de Camões dedicados a Dinamene, nome poético de sua amada chinesa que teria morrido afogada num naufrágio do qual o poeta escapou. - O poeta sofre pela separação que lhe é imposta pelo destino. A morte de Dinamene é como a morte da sua própria alma porque ela era a sua alma. Portanto é a sua alma que de certo modo parte com ela. - E a morte é absurda porque neste caso chega antes do tempo (“tão cedo”) - A separação dos amantes fica evidente nas séries de oposições: ela repousa X ele vive ela no Céu X ele na terra ela lá X ele cá - A única coisa que os une é a fatalidade do tempo : ela estará ETERNAMENTE no céu e ele viverá SEMPRE triste na terra.
  20. 20. - A morte é fatal mas o poeta conversa com a amada como se ela pudesse ouvi-lo. Que é que isso significa? Que o poeta acredita numa vida após a morte e o sentido cristão da morte lhe devolve alguma esperança. Morrer não é desaparecer para sempre. - O segundo quarteto abre justamente a chance de o poeta fazer ainda um pedido à sua amada: “Não te esqueças daquele amor ardente / Que já nos olhos meus tão puro viste”. - Que adjetivos caracterizam esse amor? ARDENTE e PURO. Um amor ARDENTE pressupõe uma fisicalidade, o calor dos corpos dos amantes. Mas nem por isso ele deixa de ser PURO, porque para Camões não há incompatibilidade entre corpo e espírito, alterando assim, ao menos em parte, o modelo platônico do amor tal como o concebiam os poetas mais ortodoxos.
  21. 21. - Por outro lado observemos uma coisa: numa concepção ortodoxa do cristianismo, o Céu é um espaço privilegiado para quem morre. É como encontrar outra vez o paraíso. Em princípio esse lugar perfeito não necessitaria da memória da vida terrena, ela sim imperfeita. - No entanto o poeta pergunta à sua amada se no Céu ou no “assento etéreo” ela é capaz de ter memória do que viveu na terra, do amor de ambos que era ARDENTE e PURO ao mesmo tempo. Isto significa que no espaço da espiritualidade mais radical ele deseja que ela guarde na lembrança a experiência física do amor. - Esta passa a ser uma condição na verdade para o seu segundo pedido: se ela guardar na memória o amor ardente, então vale a pena ir ao seu encontro, Não para um encontro de almas, mas para um encontro na plenitude f;isica e espiritual do amor. - Assim é que o poeta deseja morrer para ir ao seu encontro. Porque vale a pena. Porque a memória não se acabou. Se a dor e a mágoa do poeta são suficientemente grandes para movê-la, ela deve interceder junto a Deus para que ele o leve para junto dela
  22. 22. - Reparem ainda um dado interessante: esse é um poema sobre a morte e no entanto a palavra morte nunca é mencionada. No lugar dela o poeta usa de vários eufemismos que tornam a ideia da morte menos trágica: a amada PARTIU, REPOUSA, SUBIU. Deus ENCURTOU, LEVOU a vida. O poeta PERDEU a sua amada e deseja ir ao seu encontro para VÊ-LA. - Todas essas palavras em caixa alta substituem a palavra MORTE que não é pronunciada, cujo peso é tornado mais leve, porque o poeta acredita na possibilidade do reencontro após a morte tal como prega o cristianismo: “Creio na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.” - E mais uma coisa: a crença no reencontro após a morte não elimina o absurdo própria morte, e o poeta cobra de Deus essa dor: ele que a levou absurdamente CEDO, deverá, pela lógica amorosa e por justiça, levá-lo a ele também o mais cedo possível para que os amantes se possam reencontrar. Se Deus é amor e justiça cabe a ele pagar o preço de ter LEVADO a vida da amada abreviando a dor de quem a ama.
  23. 23. AH! MINHA DINAMENE, ASSIM DEIXASTE - Vejam como esse soneto muda inteiramente a relação do poeta com a morte. - No soneto anterior a dor existia, mas havia esperança no reencontro e na memória. - Neste soneto de agora, Deus não é evocado sequer como o culpado. - É como se ela, a amada, tivesse consentido em morrer e o tivesse deixado, a ele que nunca a deixaria. - Parece loucura! É uma argumentação ilógica! Mas é a fala do desespero que parece abolir qualquer tipo de racionalidade. - Ela o “deixou”, ela “desprezou a vida”, ela se “apartou”, ela o “magoou”, ela “consentiu” na morte.
  24. 24. - Aqui reaparecem ainda sinônimos para a morte, mas eles não chegam a aliviar a tragicidade do seu sentido porque ela, a amada, fica sendo a própria agente da morte: ela DEIXOU, ela DESPREZOU, ela SE APARTOU, ela CONSENTIU. Ela é o sujeito de todos os verbos que significam morrer e que, nesta caso, não funcionam como eufemismos. - A morte é trágica e definitiva. Não é uma morte cristã. É uma morte absurda. A morte agora é um “negro manto” que não dá nenhuma esperança ao poeta incapaz sequer de despedir-se da sua amada. (primeiro terceto) - Daí que o seu desespero seja tal que ele, nem nesse momento, clame a Deus: ele clama ao “mar” que a devorou, ao “céu” que não se compadeceu, ao destino (“escura sorte”) que os separou e que tornou inútil o pouco tempo que lhe resta para viver (segundo terceto). É dor sem remissão.
  25. 25. O CÉU, A TERRA, O VENTO SOSSEGADO - Este é um soneto que pode perfeitamente incluir-se no conjunto dos poemas a Dinamene, a amada que morreu no naufrágio na região do que é hoje o Vietnã (estuário do Rio Mekong) - O poema tem uma primeira estrofe descritiva em que a natureza aparece na sua harmonia e beleza tranquilas: vento sossegado, ondas que se estendem, peixes que parecem em sono porque o mar tranquilo assim o permite, e o próprio silêncio é repousado - Contudo o segundo quarteto integra no quadro harmonioso da natureza um personagem que sofre e chora, deitado na areia embora não repousado: ele chama pela amada e ela não vem porque está morta : por isso ela não responde e é apenas “nomeada” - Há portanto um contraste evidente entre a paz da natureza e a angústia do pescador, que é um duplo do poeta
  26. 26. - O primeiro terceto já não descreve uma cena: ao contrário ela adquire uma característica dramática, teatral, ao dar voz ao personagem que se dirige justamente à Natureza. - Ora, o que nós vemos aí é uma cena trágica: natureza e pescador conhecem a tragédia, afinal a sua amada morreu no mar. - No entanto a natureza permanece sossegada enquanto aquele que perdeu sua Ninfa sofre e implora que as águas lhe devolvam a amada que morreu demasiado cedo: “Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo/ Me fizestes à morte estar sujeita”. - Quanto ao pescado/poeta, sem ela ele só deseja a morte. - O segundo terceto nos mostra uma natureza surda aos apelos do amado. Ela permanece indiferente, o mar continua no seu ritmo batendo ao longe, tudo é brando e sossegado, e a indiferença se traduz no gesto pérfido de um vento que carrega a voz para que ela não seja ouvida e não mereça ser respondida.
  27. 27. SETE ANOS DE PASTOR JACÓ SERVIA O poeta se utiliza de uma passagem bíblica (Gênesis cap 29) e a retoma integralmente: - Jacó serve a Labão para obter a mão da sua filha Raquel - No dia do casamento Labão ordena que troquem Raquel por Lia que era a filha mais velha e deveria casar-se primeiro - Jacó é traído mas decide trabalhar mais sete anos para obter o direito de casar-se também com Raquel - Note-se que a monogamia não fazia parte da estrutura familiar de então - A pergunta é: Camões acrescenta algum dado novo em relação ao texto bíblico ou simplesmente o utiliza como matéria poética?
  28. 28. - Por um lado no texto de origem o serviço/trabalho era um contrato, um pagamento para receber o direito de casar-se: um preço - Camões começa por alterar esse contrato mercantil quando faz do serviço / trabalho um serviço amoroso: “mas não servia ao pai / servia a ela”. Raquel não é uma mercadoria a ser comprada, ela é o objeto do desejo do amante. - Em seguida, após o “engano” / traição de Labão (que respeita as leis sociais) Jacó se submete a novo tempo de “serviço” sem questionar a traição e mais que isso, resgatando o valor do serviço amoroso que não fosse a brevidade da vida (“tão curta a vida”) poderia exigir dele ainda mais que os anos de trabalho do contrato. (“mais servira” porque o que sentia por Raquel era um “longo amor”. - Só a inexorabilidade da morte que atinge a todos o faz desistir de estender os anos do serviço amoroso
  29. 29. ENQUANTO QUIS FORTUNA QUE TIVESSE Este soneto se inclui na linha dos metapoemas: UM POEMA QUE FALA SOBRE A ESCRITA DO POEMA - O poeta narra as mudanças na sua trajetória poética, mudanças causadas pelo modo como ele se relaciona com o AMOR, nesse caso uma entidade mítica, uma alegoria - Num primeiro momento, enquanto a Fortuna (Destino) lhe deixara experimentar alguma felicidade amorosa (quando ele ainda tinha a “esperança de algum contentamento”) o Amor permitiu que a sua inspiração de poeta produzisse poemas de amor que falavam da felicidade amorosa. - Mas as relações amorosas nunca são apenas contentamento e muitas vezes são, ao contrário, causa de dor. Que faz então o AMOR? - O AMOR teme que o poeta fale sobre essas dores de amor na sua poesia e decide Escurecer a sua inspiração: “escureceu-me o engenho com tormento / Para que seus enganos não dissesse”
  30. 30. - Dito desta forma o soneto narraria a impossibilidade de o poeta continuar a fazer poemas de amor de modo a não anunciar (“dar aviso”) aos possíveis amantes sobre os sofrimentos que o amor lhes poderia causar. Como se AMOR temesse que já não houvesse amantes dispostos a sofrer influenciados que estariam pelas artes do poeta. Vejam que AMOR se dá conta da força da poesia e tem medo da sua ação. - Nos tercetos o poeta já não narra a sua experiência de escrever e de amar. Ele se dirige aos amantes (aqueles que se veem obrigados a sofrer de amor) e insiste que o que o seu poema diz é pura verdade. Mais ainda, se eles experimentarem o amor (entre dor e contentamento) serão capazes de ter o “entendimento” dos seus versos, serão portanto capazes de ler bem os seus poemas escritos antes que lhe faltasse a inspiração roubada pelo AMOR.
  31. 31. PEDE O DESEJO, DAMA, QUE VOS VEJA Este é um soneto em que o poeta se debate entre amor platônico e o desejo pela Dama. - Ele começa por confessar-lhe que o desejo que o invade exige que ele a “veja”. - Vocês hão de pensar que o poeta pede pouco, que ele só pretende “ver” a sua amada. Mas “ver” é tradicionalmente e até biblicamente um eufemismo para “possuir”, em outras palavras concretizar fisicamente o amor - Marcado pelas leis do platonismo, o poeta se recompõe dessa ousada confissão e se retrata: “não entende o que pede, está enganado” porque o seu amor não comporta a posse, ele é na verdade “fino e delgado”. O desejo é puro engano - Mas observem que o primeiro terceto com um “MAS”, uma conjunção adversativa que vai introduzir um movimento contrário ao anterior e o poeta confessa que esse afeto platônico nele não encontra repouso – “esse puro afeto em mim se dana”
  32. 32. - Seria o poeta incapaz de experimentar o amor platônico pela amada por uma falência pessoal? - Na verdade ele justifica essa impossibilidade por uma lei da natureza, uma lei física, como físico é o seu corpo. - Demonstra a lei natural através da “grave pedra” (pedra pesada) que fatalmente cai buscando o centro da natureza e diz que à sua imagem também ele “cai”. Não consegue se limitar às alturas do espírito e ousa pedir- lhe o corpo, o que está embaixo – “esta baixeza”. - A palavra “baixeza” ganha aqui um duplo sentido: do que não é espiritual e do que está embaixo, transformando a conotação moralizante numa fatalidade do corpo de que o homem é feito.
  33. 33. MUDAM-SE OS TEMPOS. MUDAM-SE AS VONTADES Se nos perguntássemos qual a palavra mais importante deste soneto certamente ninguém teria dúvidas em dizer que são as variantes do verbo MUDAR: mudam-se (2), muda-se (2), mudanças, mudar-se, mudança, muda. É pois um soneto sobre as mudanças impostas pelo tempo. Se tudo MUDA na alma – os tempos (que passam), as vontades (que perdem a sua força), o ser (que envelhece), a confiança (que começa a fraquejar) - falta-nos evidentemente o sentimento de segurança, já que nada permanece como está. Como dizia Guimarães Rosa: “viver é muito perigoso”. E a essa constatação da mudança, acrescenta-se o fato de que elas não mudam para melhor: “Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem, se algum houve, as saudades.” As mágoas eternizam o mal enquanto do bem (quando existe) só ficam saudades.
  34. 34. Se o poeta compara ainda as mudanças na alma humana e na natureza, ele percebe que na natureza a mudança é cíclica, de modo que se o inverno se abate por momentos sobre ela (o inverno é equivalente à morte da natureza) há sempre a possibilidade do retorno da primavera, de modo que o chão que antes esteve coberto de “neve fria” logo se vê recoberto pelo “verde manto”. O ciclo é certeza do retorno. Mas para o homem a mudança é sem volta e nesse sentido é mudança nunca prevista, não sabemos o que nos sucederá: é mudança imprevista que nem sequer muda do mesmo modo, aumentado a fragilidade das nossas precárias certezas.
  35. 35. Este soneto de Camões permite múltiplas entradas, se quisermos aludir à história, à Geografia, à mitologia judaica, ou à autobiografia. Vejamos: 1. Trata-se de referência histórica: o soneto remete ao exílio dos judeus vindos da terra de Judá (Sião). Foram levados como escravos para a Babilônia (terra do exílio) e lá permaneceram por cerca de 70 anos. 2. O soneto situa-se geograficamentee nos permite reconhecer os espaços referenciados (a terra da partida e a terra do exílio) e ainda os países que hoje ocupam essas terras 3. Além disso o soneto faz referênciaa um texto canônico de origem bíblica: o salmo 136 4. Metaforicamente o poema se refere ainda ao próprio exílio biográfico do poeta no Oriente que durou aproximadamente 17 anos. Foi alias durante esse tempo que Camões escreveu possivelmente a maior oparte do seu poema épico: OS LUSÍADAS NA RIBEIRA DO EUFRATES ASSENTADO
  36. 36. O DIA EM QUE EU NASCI MOURA E PEREÇA O eu lírico neste soneto parece atingir o momento mais trágico do sentimento de fragilidade e de inutilidade da vida. Vê-se como “a vida mais desgraçada que jamais se viu”. Poderíamos pensar então que ele apostaria na morte como solução para essa desgraça, já que em princípio a morte poria fim à dor de viver. Mas essa parece ser ainda para ele uma solução precária. Deixar de viver não apaga o viver. O seu desejo é muito mais radical: ele quer o impossível, que é fazer o tempo voltar para trás, a fim de apagar todo e qualquer vestígio da sua presença.
  37. 37. O que ele deseja não se pode realizar evidentemente em termos realistas. Só se realiza em. gesto poético, em palavras: ele quer apagar o dia do próprio nascimento. Não quer morrer quer deixar de ter nascido: “o dia em que eu nasci moura e pereça”. Estamos diante de um projeto apocalíptico que apagasse as marcas da sua presença no mundo. Esse tom apocalíptico fica evidente no cenário que o poeta constrói em palavras: eclipse, monstros, sangue, lágrimas que não seriam exatamente o fim do mundo mas o fim do seu mundo, os homens não precisam temer, não precisam se espantar (“Ó gente temerosa. Não te espantes”) porque o gesto apocalíptico não implica o fim do mundo , mas apenas o fim do seu mundo, o seu fim mais radical por apagar o próprio nascimento.

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